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segunda-feira, 27 de março de 2023

Osmose 129

 

No sonho, o artista convidado era o Secretário-geral das Nações Unidas, ao vivo, e não na sua estatuária vizelense de acção de graças. Ligeiramente mais novo e elegante, também.
O local era a serra de Sintra, mas com vales mais amplos, em tonalidades que lembravam as pinturas de Caspar David Friedrich (1774-1840). Nos pequenos planaltos intermitentes, acampamentos de ciganos junto dos quais pastavam cavalos baios e brancos.
Mas eu queria era voltar a casa, não sabendo o caminho a tomar. Valeu-me uma senhora, assadeira de castanhas, que se prontificou a guiar-me por entre uns túneis esquisitos e labirínticos.
E lá deixei ficar Guterres para trás, até acordar, finalmente.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Curiosidades 87

 

Em 24 de Março de 1905, a rainha-mãe Maria Pia, viúva de D. Luís, aquando da visita da rainha inglesa Alexandra, esposa de Eduardo VII, ofereceu em Sintra um almoço protocolar, cujo serviço foi orientado por pessoal da casa Ferrari. Da ementa especiosa constava Língua Escarlate (Langue à l'Ecarlatte), como entrada. De imediato me lembrei, por lógica associação, que devia tratar-se de Língua Afiambrada. Era, realmente.




Era frequente eu comer Língua de Vitela estufada, nos meus tempos vimaranenses, até porque gostava muito. Acompanhavam-na batata, cenoura, ervilhas, couve-flor e pão torrado, quase sempre. Mas na Língua Afiambrada, provada escassamente até hoje (3 vezes?), só me vim a iniciar muito mais tarde, em Vila Verde, pelo Verão de 1978, num memorável almoço de baptismo, na casa anexa ao passal do monsenhor M. G. Diogo. Especialidade magníficamente trabalhada pela competência culinária da senhora dona Rosa.



quinta-feira, 14 de junho de 2018

Um simples painel de 4 azulejos


Pelo nome, iriamos dar a Queluz e ao conhecido e primoroso restaurante, e assim faria todo o sentido que os azulejos tenham sido confeccionados em Sintra, que lhe fica próxima. Desiludam-se, porém. Porque o painel foi colocado no pátio interior de uma nobre mansão, ao fundo da rua do Raimundo, em Évora. Talvez para lembrar que, no Alentejo, também se podem degustar magníficos pratos de caça, em estação propícia. Como perdizes, por exemplo.

domingo, 15 de novembro de 2015

Mercearias Finas 108 (e não só...)


Por aqui (imagem), sossegadamente, nos iniciámos na estação da caça, neste ano da graça de 2015, com uma perdiz silvestre, estufada, a saber a campo. Acompanhada de batata frita, fina, e uma salada de feijão verde. Veio também, para a mesa, um jarro de colheita particular, de uma quinta próxima do Cartaxo, vinho branco fresco - sem pergaminhos especiais, mas capaz - porque estava calor. Rumámos, então, a Sintra. Por Colares, 4 Vampiros em falta esperavam-me numa Feira de Velharias espalhada por um  pequeno Largo, e, por volta de Almoçageme, de regresso, na estrada, com permissão e benevolência da A.S.A.E., ou porque era Domingo, uns feirantes expunham, ao ar livre, garbosamente, produtos de Fumeiro nortenhos, fruta da várzea de Sintra, queijos saloios, mel e outros produtos da terra. Trouxe um salpicão de Mirandela, que promete, e uma garrafa de Espadeiro minhoto, com linda cor rubi clarinho. Havemos de ver e provar, em altura própria que os mereça.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Pela IC 19


Quem diria, pela manhã, a noite que se pôs.
Pareciam sucessivas, assimétricas e desordenadas bandeiras do Brasil, pelas bermas da estrada, de Lisboa a Sintra, os milhares de azedas que recamavam, generosas e alacres, o verde tenro dos campos.
Olho sempre Queluz, com bonomia e gratidão. E, depois, o Fernando tinha para nos oferecer umas postinhas de sável frito com uma magnífica açorda de ovas, que estava daqui!...
Saímos reconfortados com a vida, esquecidos das asperezas do mundo. Até parecia que tínhamos acabado de visitar a Primavera. As azedas vieram connosco.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

"Polas ribeiras dum rio..."


No cofre-forte, que era biblioteca, não se encontrava Bernardim nem Sá de Miranda, mas havia Camões, Torga e Botto, os dois últimos em primeiríssimas edições. E, como jóia da coroa, um pequeno fragmento iluminado do índice do "Leal Conselheiro", manuscrito, muito embora D. Duarte nunca por ali tivesse andado, que ele era mais de Leiria e do Lis, de Belas e da melancolia.
Da ampla sala, por cima dos livros, víamos do Guincho, quase até ao Cabo da Roca, que se adivinhava: todo o horizonte largo era de mar. Bernardim dissera: "Hiasse polas ribeiras...". E, realmente, antes, tinhamos passado pela ribeira de Barcarena, com nevoeiro, a da Laje, por entre chuviscos, a de Caparide, e já se viam embrulhados em neblina os píncaros de Sintra. No regresso, passaríamos ainda pela ribeira das Vinhas, que mal se via da estrada.
Vegetação acachapada e rasteira que ia crescendo, gradualmente, até se ver Lisboa, onde as ribeiras engrossavam o Tejo, para ele se entregar ao mar, no fim de tudo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Bibliofilia 48 : Leonarda Gil da Gama


Leonarda Gil da Gama, anagrama de Maria Madalena Eufémia da Glória, nasceu em Sintra, a 11 de Maio de 1672, e terá morrido por volta de 1750. Entre 1733 e 1749 fez imprimir, pelo menos, 5 obras em que o virtuosismo barroco atinge o seu esplendor, em loas a santos e santas, em louvor da religião, mas não só. A autora tinha professado, com 16 anos incompletos (1688), no Convento da Esperança, segundo Inocêncio.
Os seus livros são raros, ou muito pouco frequentes. As suas obras nunca foram reeditadas, e é pena: dariam um case study singular, sobre o barroco português. Apenas uma antologia (incluindo excertos de obras, também, de Violante do Ceo e Maria do Ceo), organizada por Mendes dos Remédios, em 1914, foi publicada em Coimbra, com prosa e versos de Leonarda Gil da Gama.
Pelo prólogo, em imagem, de "Orbe Celeste..." (1742) se poderá fazer uma pequena ideia do virtuosismo e domínio que a autora possuía sobre as técnicas da escrita barroca. O livro, em presença, custou 45,00 euros, muito recentemente. E, embora haja vários vestígios de traça, nas páginas, o texto nunca é afectado.

domingo, 14 de março de 2010

Mercearias Finas 4






A primeira vez que comi rodovalho ("scophthalmus rhombus, Linnaeus") foi no Porto. Ou no "Abadia" ou no restaurante "Palmeiras", ambos de boa memória, mas que ainda lá estão, creio que na mesma rua tripeira. Quando íamos ao Porto, a minha Mãe e eu, era num deles que almoçávamos. Sempre gostei dos peixes espalmados, de águas profundas (como Mário Soares "classificava" Jaime Gama), de carne branca, sólida e macia: linguado, badejo, patêlo (Póvoa de Varzim), menos um pouco - a solha. Mas o meu preferido é, sem sombra de dúvida, o rodovalho. E não o comi, mais do que uma dúzia de vezes, na minha vida. Em Lisboa, não aparece muito; mais a Norte. E a melhor época para o apreciar, devidamente, é de Setembro a Abril. No Sul, lembro-me de um enorme e magnífico rodovalho que saboreei, gostosamente, numa pequena quintinha, em Dona Maria, pequena localidade da linha de Sintra, grelhado, e muito bem, pela anfitriã que era uma excelente cozinheira. Foi acompanhado por um modesto mas honesto branco, feito na propriedade.

Mas, ontem, matei saudades. Com bons amigos, em ambiente familiar. O rodovalho é um peixe ósseo, de carne muito branca e tem a particularidade de ter os dois olhos quase colados um ao outro. É uma espécie de peixe estrábico - como bem humoradamente dizem... E chega a atingir quase um metro de comprimento. HMJ encomendou dois, pequenos, no mercado do Monte da Caparica (fresquíssimos que eles estavam!) e, grelhados, com batata cozida, fê-los acompanhar com espargos verdes laminados e salteados com cebola e "bacon". Estavam divinais!...

Escolhi para parceiro líquido um "Herdade Grande", alentejano quase da Vidigueira, branco, da colheita de 2008 (castas: Antão Vaz, Arinto e Roupeiro). Eramos seis à mesa e foi ouro sobre azul... No final, uma sericaia que, em vez de ameixas de Elvas, casou com frutos do bosque, em calda. Nota máxima. Para conclusão, uma tabuazinha de queijos, com destaque para o "Serra" e um "Brugge vieux", acompanhados por um Dão, "Quinta das Maias", tinto, de 2000. Que, apesar da provecta idade de 10 anos, se portou com honra, brio e galhardia! Que convívio...