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segunda-feira, 27 de março de 2023

Osmose 129

 

No sonho, o artista convidado era o Secretário-geral das Nações Unidas, ao vivo, e não na sua estatuária vizelense de acção de graças. Ligeiramente mais novo e elegante, também.
O local era a serra de Sintra, mas com vales mais amplos, em tonalidades que lembravam as pinturas de Caspar David Friedrich (1774-1840). Nos pequenos planaltos intermitentes, acampamentos de ciganos junto dos quais pastavam cavalos baios e brancos.
Mas eu queria era voltar a casa, não sabendo o caminho a tomar. Valeu-me uma senhora, assadeira de castanhas, que se prontificou a guiar-me por entre uns túneis esquisitos e labirínticos.
E lá deixei ficar Guterres para trás, até acordar, finalmente.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Um sonho


                                                                                   Num meio-dia de fim de primavera
                                                                                   Tive um sonho como uma fotografia...

                                                                                            Alberto Caeiro


Ora acontece com os sonhos, o mesmo que com os versos, subitamente nascidos: ou os escrevemos logo, ou eles desaparecem, para sempre da nossa frágil memória. Vindos do inconsciente, se não os reproduzimos, conscientemente, eles apagam-se.
Há dias, sonhei com o poeta W. H. Auden (1907-1973), num episódio de grande nitidez. O cenário inicial era a sua casa, improvável e em Portugal. Na sala de estar, ao canto e em ângulo, duas estantes, com livros: a da esquerda, só com volumes de poesia; à direita, apenas livros sobre arte.
Auden estava de abalada para os E. U. A. e eu, antes de sairmos, peguei, de empréstimo, da estante, os seus Selected Poems. Depois, dirigimo-nos, a pé, para uma rua estreita da Cova da Piedade, para ele se ir despedir de Maria Antónia Palla. Foi aí que ele disse que ia dar todos os livros desta sua biblioteca, a quem os quisesse. Não tencionava levá-los para a América. E eu candidatei-me.
Feitas as despedidas, regressamos a casa do Poeta. Para minha surpresa, as duas estantes dos livros estavam completamente vazias. Alguém levara todos os livros de poesia. E os livros sobre Arte tinham sido levados pela minha estimada confrade de blogue, Margarida Elias, do Memórias e Imagens.
Fiquei assim e apenas com os Selected Poems, de Auden, na mão.
E acordei...

para Margarida Elias, e em memória de W. H. Auden.

sábado, 14 de novembro de 2015

Divagações 102


Como é que se arruma, num sonho, a Guerra Civil de Espanha e os últimos cinco dias, antes da reforma, na última empresa em que trabalhei? As atrocidades  e as gavetas da secretária arrumadíssimas, com apenas muitos bloquinhos, em branco, que levarei para casa? E, ainda, o inventário e o itinerário dos locais predilectos, que quero revisitar, numa romagem final, antes de partir... A ribeira ou levada, as pequenas e sinuosas ruas mais castiças, as vivendas antigas, a figueira retorcida, junto à ponte artesanal, os subúrbios mais amados? 28 anos que se arrumaram em 5 dias concentrados e, depois, num sonho de pouquíssimos minutos?
E, no entanto, tudo se compagina em verdades próximas: o novo massacre, ontem, em Paris (trocado pela Guerra Civil espanhola), e a próxima-futura visita, talvez na próxima semana, aos locais sonhados...

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Onírica e burlesca


Esta chuva contínua de ontem, este cerco líquido, este dilúvio em redor das casas, talvez ambicione, em si, um cenário interior de defesa, o ambiente e os ingredientes necessários para, entre paredes, contar ou ouvir histórias. Mas estamos no princípio de Setembro e o tempo propício às narrativas eu costumo situá-lo, com mais propriedade, nas longas noites de Inverno.
O pior, no entanto, é que esta imemorial vontade narrativa, pela água excessiva e exterior, acaba por exsudar para o sonho ou, neste caso mais próximo, para um pesadelo que, como em quase todos, eu conto e faço viver a mim próprio. E em que não controlo o desenvolvimento, nem prevejo o fluxo narrativo e nem sequer tenho poderes para abortar a acção, ou dela sair.
Imagine-se um gueto hostil, onde há dois mensageiros benéficos que me vão aconselhando, duvidosos, tudo isto num cenário que parece de velhas metalurgias abandonadas. Vou descalço, num chão viscoso e escorregadio. Procurando, obstinado, um táxi livre que não há, por um dédalo de ruas estreitas e sombrias. Preciso urgentemente de transporte, para seguir para um casamento de quem não sei, nem os noivos, nem a hora, nem mesmo o local, talvez à volta de Belas...
Que o sr. Freud me dê uma ajuda! Ou me faça chegar, a tempo, à boda!

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sonho, emoção e imaginação


Os sonhos têm, maioritariamente, uma natureza emocional. Dos pesadelos aos sonhos agradáveis, a razão pouco ou nenhum controlo neles exerce. Porque tudo se passa numa ficção do inconsciente, que parece originar-se, a maior parte das vezes, de forma autónoma, retendo do real apenas a hipótese da probabilidade envolvida por uma vaga verosimilhança possível. O sujeito-produtor faz parte do cenário e a sua vontade pouco ou nada interfere no desenrolar da "narrativa", pelo menos, de forma consciente.
Numa recensão, do TLS (nº 5807), ao livro Emotion and Imagination, de Adam Morton, Adrienne Martin refere, parafraseando o autor da obra: "emoção é um estado mental que liga uma representação da actualidade com representações de possibilidades. Para usar um dos exemplos de Morton: o medo é o elo de ligação entre a representação de uma criança que se aproxima de um precipício e o imaginar-se a criança caindo."
Destes dois postulados ressalta o papel da imaginação. E é legítimo inferir, ainda que numa conclusão ligeira, que a razão adormece no sono, mas a imaginação e a emoção se mantêm despertas no sonho.