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quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Divagações 201

 

Nem todo o sentimento pessoal ou íntimo se consegue exprimir ou explicar. Muitas vezes, é uma sensação difusa que nem  sequer encontra a imagem perfeita ou palavras próximas. Locais concretos de outrora ajudam, mas é por sentidos estranhos, que não os cinco canónicos, que podemos talvez lá chegar melhor.
Percebo assim a pintura abstracta, na sua fulguração figurativa ausente.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Osmose 102


Tenho para mim, de forma empírica e nada científica, que a pintura abstracta começa a aparecer com o desenvolvimento da psicologia e a crescente importância da psicanálise. Até aí, a expressão figurativa permitia, seguramente, denunciar estados de espírito bem definidos. Mas que dizer de estados de alma indistintos, vagos, difíceis de se exprimirem? Porque, de algum modo, qualquer observador perante uma tela abstracta procura sinais, ainda que pouco concretos, que lhe permitam descriptar e interpretar o sentido do quadro.



Com frequência, o meu olhar se cruza, muitas vezes, com uma inapropriada caderneta de cromos, com mais de 60 anos, que amigas mais velhas me foram preenchendo com bonecos que vinham em pequenas tabletes de chocolate. Quando esse caderno de significados/caderneta estava completo as meninas Coelho (de seu apelido) ofereceram-mo, para meu gáudio e grande alegria infantil.
E, quando o meu olhar, agora, se fixa nessa antiquíssima e tosca caderneta, vem-me à memória, distintamente, a primitiva e original sensação de alegria. Que não saberei identificar melhor ou descrever em pormenor.


Tão vaga e pura como a que, às vezes, experimento perante uma pintura abstracta.
Porque as palavras também nem sempre conseguem circunscrever a alma, nem o tempo e a memória.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Deambulações simplórias sobre o Figurativo e o Abstracto


Dizem que o olhar de um observador, perante uma página ou uma tela, desliza, natural e inconscientemente, para o lado direito do objecto em questão, em detrimento do lado esquerdo da folha ou do quadro.
Um mero amador de pintura, não muito habituado a frequentar museus ou exposições, creio eu que tenderá, em grande parte dos casos, a privilegiar obras figurativas, em prejuízo de pinturas abstractas. Talvez porque aquelas lhe dizem alguma coisa...
A pintura abstracta suscitará, porventura, interrogações a nível racional; a pintura figurativa actuará mais a nivel sensorial ou da emoção, sobretudo, nas grandes massas humanas, que a possam frequentar, ainda que episodicamente. As artes ao serviço dos regimes da U. R. S. S. ou da Revolução Chinesa tinham, na sua função figurativa, um propósito político objectivo. Como a censura nazi, sobre aquilo que denominaram arte degenerada, tinha um fim estratégico. A formatação das sociedades, que hoje tanto é desejada pelo Poder, e aplicada, faz-se, sobretudo, no sentido da criação de clones abúlicos e acríticos, para que deixem de pensar, e se transformem apenas em animais emocionais. O que vai de encontro àquela velha frase das criaturas sensíveis, tantas vezes ouvida: Nem quero pensar!...
Pelo meio destas divagações maniqueístas, há que afirmar que, mesmo nos pintores actuais e/ou mais recentes, a expressão artística nem sempre é totalmente definida. Muitas vezes, há uma hesitação profunda, quando não constante, entre o figurativo e o abstracto.