quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Pinacoteca Pessoal 138


Conhecido sobretudo por pinturas retratando ambientes da alta burguesia e mundanidades, o francês James Tissot (1836-1902) é também autor de uma série de algumas centenas aguarelas inspiradas na vida de Jesus Cristo. Esse facto, resultado da sua fé e educação católica, não evitou que fosse apontado, por alguns, como professando ideias comunistas.


Essas suspeitas, ao que parece infundadas ou, pelo menos, exageradas, levaram-no a que trocasse a França pela Inglaterra (1871), país onde ganhou grande notoriedade e apurou a sua arte, consideravelmente. Após a morte da Mulher (1882), regressou a França. Sofrendo, há anos, de tuberculose, James Tissot viria a suicidar-se - ao que parece - a 8 de Agosto de 1902.

Agora...


Agora que a silly season está a acabar, será a altura própria para prepararmos o relato ufano e minucioso das nossas férias cosmopolitas, algures por aí. Quer tenha sido em qualquer praia das galinhas ou cancun, ou mesmo nalgum recôndito lugar famoso, mas já muito batido desta Europa envelhecida. Numa epifania delicodoce ou tropical, os escritórios de empresas, salas de professores, casas de chá e cafés de bairro vão encher-se de descrições edénicas e fotos virtuais desses felizes dias do passado mais recente.
Aos pobres infelizes, que ainda não usufruíram da vilegiatura anual, sugiro uma alternativa exótica, mas mais económica - o interior lusitano. Que este ano se enobreceu pela estadia das nossas mais altas figuras de estado. Banal, seria recomendar Pedrógão ou Monchique, que estão muito vulgarizados. Mas aqui deixo uma dica preciosa: vão até Sobradelo da Goma, no viçoso Minho! E banhem-se nas frescas águas do Ribeiro Queimado. Tenho a certeza que os colegas os vão invejar, quando lhes contarem a proeza singular e a escolha requintada.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Com J. S. Bach e Haim Shapira, para acabar a noite

Impromptu (35)


O bing, sempre é mais directo e rude que o Google. Este último, mesmo que o cibernauta digite umas search words apalermadas, arranja sempre sugestões, igualmente estúpidas e histriónicas, para o encaminhar. O bing, não, é seco, sério, directo e conclusivo.
Um destes dias, um daqueles cibernautas despassarados, que pululam voando ligeiros pela net, e que pairava nas imediações do Arpose, apelou ao motor de busca, literariamente, através das seguintes search words: o que foi o cultismo e o competisismo.
O bing, seco e taxativo, disse-lhe apenas que não existia nada sobre este assunto. O bing não brinca em serviço, nem divaga, perdulariamente. Mesmo que sobre o conceptismo...

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Apontamentos 114 : Vergonha



A imagem de Karl Marx, numa praça de Chemnitz, naquela que foi a SUA cidade designada no tempo da SED (de Honecker e companhia), não se enquadra, de todo, com o LUMPEN que, na Saxónia, pretende inverter os seus princípios e valores.

A responsabilidade por essas imagens vergonhosas de uma Alemanha Lumpenlândia, cujos cidadãos esclarecidos não se levantam, em peso, contra uma crescente minoria de chungaria – à semelhança de outros países que toleram este tipo de subversão totalitária – tem nomes.

Aos partidos políticos – como a CDU e a Linke – se devem pedir as maiores responsabilidades na inação perante o avanço deste tipo de gente, sem princípios, educação e moral.

Que venha o Senhor Kohl para explicar bem, aos “ossis” a “queda do muro”,  já que a sua pupila Angelina se tem mostrado incapaz de "educar" os seus antigos amigos, antes, enquadrando-se, perfeitamente, no verso de Almada Negreiros: “o génio de Fernando Pessoa manifesta-se em não se manifestar”.

Acrescento eu o seguinte. Se os “ossis” não gostam da democracia dos “wessis”, ou seja, da Constituição da Alemanha, têm bom caminho. Sugiro, pois, aos cidadãos da Saxónia desavindos que emigrem para a Polónia, a Hungria ou outros países quejandos em deriva Lumpenlândia.

Aos cidadãos sérios, civilizados, que constituem, certamente, a maioria, não resta mais do que levantar-se, DIARIAMENTE, EM PESO, e de viva voz perante semelhante escumalha.

A mim, fica-me uma VERGONHA PROFUNDÍSSIMA perante espectáculos tão degradantes.

Post de HMJ

Ilusões


Julgo que todos nós, ao lançarmos um poste no blogue, temos a veleidade de pensar que o tema ou assunto interessa ou pode interessar a muita gente. Apesar de tudo, quanto mais banal e mais imagens ele tiver, mais visitas há-de ter, comprovadamente. E, talvez, mais reacções e/ou comentários.
Pragmaticamente, é conveniente pensarmos que o nosso universo tem muito de pessoal e intransmissível. E é sempre saudável evitarmos um excessivo autismo, nestas pequenas coisas simples e perecíveis de todos os dias. A bem da nação...

Memória 123


Eu creio que terá sido em finais dos anos 50 que eu assisti à primeira Ópera, completa e ao vivo. Improvavelmente, integrada nos Festivais Vicentinos, no pátio dos Paços dos Duques de Bragança, numa cálida noite de Verão, em Guimarães. Ia, na presidência da autarquia, o esclarecido e culto Dr. Castro Ferreira, pai do meu grande amigo Chico, já falecido. Provavelmente, no programa cultural previsto para esse ano, teria sido ajudado a concebê-lo por outro médico, de grande craveira intelectual, embora mais discreto de feitio - o Dr. Carlos Saraiva. Também ele pai de outro grande amigo meu, felizmente, este, ainda vivo e de boa saúde, que é da minha colheita cronológica, em idade.
Sabia eu lá, noviço e adolescente, quem era Gioachino Rossini (1792-1868)!? A ópera era, nada mais nada menos, que "O Barbeiro de Sevilha", de que eu gostei imenso, na altura. Mais tarde, talvez em 1963 ou 1964, já em Lisboa, ali pela Av. Miguel Bombarda, Rossini viria a cruzar-se comigo, de forma avassaladora, através de um LP maravilhoso. Com as suas aberturas de ópera, mais famosas e tonitruantes. Até porque vibravam em uníssono com a minha tumultuosa juventude, como todas sempre abertas ao excesso, ao heroísmo, ao tom épico da vida a acontecer. Vim a saber depois, que Rossini fora também um homem generoso, amigo do seu amigo, gastrónomo nato. E bom cozinheiro.
Descobri, ainda mais tarde, que o grande compositor italiano tinha, também, composições musicais de grande finura e sensibidade, como esta:

Acrescente-se, porém, que também os grandes génios podem errar. Rossini, bissexto de nascimento (29 de Fevereiro de 1792), encontrou-se, em 1822, com Beethoven, que lhe deu um conselho prudente, assim: "Ah! Rossini. Então foi você que compôs «O Barbeiro de Sevilha». Dou-lhe os meus parabéns. É uma obra que será sempre tocada e cantada, enquanto houver ópera em Itália. Mas não tente compor nada que não seja opera buffa; qualquer outro estilo não vai bem com a sua natureza."

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Filatelia CXXIV


De entre as temáticas filatélicas, a das Aves é uma das mais apetecidas pelos coleccionadores.
Conhecedores do facto, alguns Correios estrangeiros exploraram essa fraqueza dos filatelistas. Portugal não fugiu à regra nem ao filão, mas nas ex-Colónias, sobretudo. Data de 1951, a primeira série sobre aves e foi produzida para Angola (ver Filatelia CXVII, de 24/2/2017, no Arpose), mas a sua execução foi entregue à famosa empresa Courvoisier S. A. (Suiça), que fez um belo trabalho. Ainda hoje esta série, de 24 valores, é muito cobiçada e está bem valorizada, nos catálogos nacionais e estrangeiros.



Também a Inglaterra começou pela Commonwealth (Austrália, Nova Zelândia, Colónias africanas...), até que, em 1980, emitiu, para o próprio Reino Unido a sua primeira série de Pássaros, para comemorar o centenário do World Bird Protection Act, composta por 4 selos, personificando: o Alcião*, o Tordo mergulhador, a Galinhola e a Alvéola (por esta ordem, na primeira linha da imagem). Como a série teve imenso sucesso, em 1989, repetiram a proeza. Desta emissão, damos em imagem, 2 dos 4 selos (na segunda linha). O primeiro representa o Mergulhão** e o segundo dá pelo nome inglês de Oystercatcher (Ostreiro?).

Nota pessoal e aditamento posterior:
tenho por princípio, no Arpose, evitar, sempre que possível, transcrições em línguas estrangeiras. Mas traduzir, para a nossa língua, representa sempre algum risco, e dá trabalho a quem o faz.
Amigavelmente, AVP, em diálogo cordial e construtivo, pôs-me algumas dúvidas em relação às traduções que fiz, sobre os nomes, em português, de aves, neste poste.
As discordâncias ou incertezas sobre os nomes, vão assim em asterisco:
* Alcião (Kingfisher) é, no entender de AVP, o nosso Martim-pescador ou Guarda-rios, no que estarei quase pronto a concordar.
** Mergulhão (Atlantic Puffin), na opinião do meu Amigo, seria o Papagaio-do-mar. Eu inclinar-me-ia para a hipótese alternativa de poder ser o Ganso-patola. Mas não tenho a certeza...
Seja como for, o meu agradecimento a AVP.  

Citações CCCLXIX


O céptico é um mártir da lucidez.

E. M. Cioran (1911-1995).

domingo, 26 de agosto de 2018

A economia do Pisco...

A letra (?) da canção (?) tem apenas um dístico, melhor seria dizer: refrão repetitivo.
Não difere grandemente daquilo que se pode ver e ouvir nas tardes televisivas, difundidas dessas terrinhas portuguesas, em época da silly season. Até a coreografia é banal. As meninas terão talvez um glamour diferente e serão mais elegantes do que  as gorduchas lusitanas que costumam acompanhar os quins barreiros do verão televisivo nacional.
Será pimba? Ou não será?
Deixo a decisão a quem vier por aqui...
Uma última informação: este Fly, robin, fly chegou a top ten no já longínquo ano de 1975. Andávamos nós entretidos com o PREC.

Pelo contrário...


Nem sempre é fácil encontrarmos o contraveneno ou contraponto para um estado de espírito menos positivo, intenso, ou para quando nos domina, temporariamente, um pessimismo antropológico acentuado. É certo que podemos simplesmente aguardar que o vento mude de direcção...
Mas quando eu pretendo acelerar a mudança, é quase sempre à musica ou à leitura que recorro, procurando a compensação. Através da música, os meios e a escolha revelam-se mais simples e directos. Com a leitura, a procura é, normalmente, mais complicada e hesitante.
Compreendi, hoje, no entanto, que Cioran é a man for all seasons, no meu caso. Porque depois de o ler um pouco, como diria Pessoa: ... o universo / reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

sábado, 25 de agosto de 2018

Frase(s) da semana


Eu creio que era Jean-Paul Sartre (1905-1980) que dizia, é certo que por outras palavras, que, quando dedicamos excessiva atenção aos animais, o fazemos em detrimento e prejuízo dos homens. Ou, como diz o povo, sábia e simplesmente: Pão, pão, queijo, queijo.

Agosto


Agosto era, por essa altura de Férias Grandes, o grande espaço de liberdade. E aventura, pensava eu.
A 15, em pré ou semi-balanço, eu concluía que não tinha acontecido nada, de novo. A 24 ou 25 do mês, temia, desesperançado, o próximo fim da aventura, porque faltava apenas uma semana para o fim do mês. O cenário, durante esses primeiros anos da minha vida, era o mesmo, em Agosto.
Mas foi preciso quase chegar ao fim da juventude, para que as aventuras acontecessem. Em 1963 ou 1964, pelas areias, então quase desertas, de A Ver-o-Mar. Seis anos mais tarde, em episódio inesperado, que aqui contei em 16/6/2010 (Bibliofilia 19). Finalmente, em 1971, numa noite de sorte.
Eu tinha (e tenho, ainda que agora rarissimamente) por costume jogar 3 vezes seguidas numa slot-machine, e depois passar a outra, a menos que tivesse tido prémio. Se me saísse dinheiro, jogava ainda uma outra vez nessa mesma máquina. Pois à terceira vez, no Casino da Póvoa, saiu-me um jackpot.
Lá repeti a operação, depois do tilintar das moedas de 2$50 a cair ter acabado. Perante a alegria de 3 dos meus cunhados, que me acompanhavam. Eis senão quando, contra todas as expectativas e estatísticas, ao premir o manípulo da máquina, novamente, sai-me o segundo jackpot.
A minha cunhada Fina quase gritou: "Tira, tira depressa, vamos embora, que a máquina deve estar avariada!" Não estava. Mas sortes destas, ou aventura, só mesmo na ficção do Rain Man e com a ajuda de Raymond Babbitt (Dustin Hoffman, que por sinal faz anos a 8 de Agosto)...
E essa foi a última aventura dos meus meses de Agosto.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Para um Aniversário

Não vai o registo em tom suave mas, por vezes, faz bem um impulso mais forte, apesar do calor...
Para Maria Franco, com muitos parabéns. E que seja um ano bom, na sua vida!

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Toponímia, apropriação e bairrismos


Quando tudo parecia ter serenado e, talvez por não ter nada para dizer, eis que a SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) levanta a bandeira e vontade de levar para o Panteão Nacional os restos mortais do cantautor anti-fascista José Afonso (1929-1987). E porque não Jorge de Sena ou Eugénio de Andrade? Talvez, simplesmente, porque não estavam inscritos na agremiação e teriam pertencido à rival APE (Associação Portuguesa de Escritores), muito mais discreta, em iniciativas. Por vezes, as coisas têm razões outras, dissimuladas, duma simplicidade desarmante e notória...
O país é pequeno, em território, e frequentemente, também em mentalidades. E, depois, quase todos se conhecem. Na minha zona outrabandista, o nome de Petrónio Amor de Barros (?) é larga e generosamente celebrado na toponímia local. Pelo menos, numa rua longa e airosa, bem como numa praceta modernaça. Ao contrário, o poeta maior Eugénio de Andrade (1923-2005) teve direito apenas a figurar numa rua escusa, pequena, quase desurbanizada, que mais parece um beco envergonhado e sujo, com duas ou três casas pobres.
Louve-se entretanto, por notícia de última hora, que a família de Zeca Afonso "rejeita a trasladação para o Panteão", do seu célebre familiar. Honra lhe seja!

Regionalismos ilhavenses (2)


Desenganem-se os pretensos conhecedores, porque não é só no Minho que se trocam os vês pelos bês, ao pronunciá-los, nas conversas do dia a dia.
A não utilização do v, por uma boa parte da população de Ílhavo, faz com que os vocábulos começados por b aumentem consideravelmente o léxico da região, neste particular. Daí decorre o facto de a selecção das palavras e expressões iniciadas por b, retiradas da obra Palabras co bento  no leba, de Domingos Freire Cardoso, ocupe mais extenso lugar neste poste do Arpose. Aqui vão elas:

1. Badanar - oscilar, agitar-se, abanar.
2. Badanau - agitação.
3. Bais à chincha - perguntava-se a quem estava com calças curtas (para não as molhar na água.).
4. Balonga - mulher gorda, que não faz nada.
5. Baquiça - gosto a carne de vaca.
6. Baracha/ Maracha - muro de lama seca e ervas que separa as salinas.
7. Bardau/ Bardala - toleirão, ingénuo, maluco.
8. Baubucha - chinela.
9. Benícias - graças; graças a Deus.
10. Ber o cu à carriça - escapar por um triz; safar-se de grande aflição ou doença.
11. Bichoucos - carapelas dentro do nariz.
12. Bolêco - que não amadureceu correctamente.
13. Botirão - tipo de rede de pesca.
14. Bringuelas - pernas de pessoa, muito magrinhas.
15. Broaça - pessoa tosca, rude, sem grande polimento.
16. Bunho - espécie de junco com que se tapavam os montes de sal para os proteger da chuva.
17. Buzeiro - pessoa que não presta; mal vestida. Excremento de galinha. 

Citações CCCLXVIII


A erudição impõe à história uma lentidão insuportável.

Marcel Bataillon (1895-1977), referido por Eugenio Asensio (1902-1996), in Revista de Occidente.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Samuel Barber / Christopher Johnson

3 constatações de ar livre, ao fim da tarde


1. Em dias de vento normal - seja lá o que isso for - no alto, bem alto, e para não dizer no altíssimo, que poderá ter conotações religiosas, os aviões vem do Oeste (Atlântico) em direcção ao Leste, mas guinam, subitamente, por alturas de Corroios, para Norte, baixando com suavidade.
2. Ao fim da tarde, as gaivotas, a meia altura, regressam da zona dos lixos (Terra), em esquadrilhas de 5 ou 6 e, ao contrário dos aviões, dirigem-se para ocidente (Mar). Para ir dormir?
3. As vespas e as andorinhas trabalham até tarde. Já passa das 21h00 e as andorinhas ainda zilram, pelo ar; enquanto as vespas se afadigam, laboriosas, a libar as folhas do limoeiro. Pergunto-me, ignorante que sou neste particular: será que as vespas também produzem mel? Se o fabricam, deve ser bem mais amargo e selvagem do que o das abelhas...

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Casanova


Em 1977, e a pedido da revista francesa L'Express, Georges Simenon (1903-1989) entrevistou Fellini (1920-1993). Não é, propriamente, uma entrevista, mas antes um diálogo, uma conversa amena entre dois bons amigos, no decurso da qual Simenon refere as cerca de 10.000 mulheres que terá levado para a cama, ao longo da sua vida. Afirmação que tanta polémica viria a provocar...
Se Federico Fellini tinha um grande sentido de humor e cultivava a ironia, já Simenon penitenciava-se de levar quase tudo a sério e raramente usar, pelo menos na sua ficção, o humor. Acontece que esta entrevista é feita após as filmagens de Il Casanova (1976), cuja realização atormentou Fellini, por longo tempo, e que lhe foi difícil de completar.
O filme foi, por isso, largamente abordado nesta entrevista. E há uma tirada de Georges Simenon, a propósito das Memórias, de Giacomo Casanova (1725-1798), que nos dá a medida do seu humor. Assim: "...Porque eu conheço o meu Casanova de cor. À primeira leitura, achei-o muito sedutor. Depois...as mulheres, para ele não são um meio, ele não é senão um pequeno aventureiro. Hoje, ele teria sido um gangster. Ou ter-se-ia dedicado ao imobiliário."

Circular


Por diversas razões, afazeres e compras, fiz ontem de manhã, a pé, um médio-longo percurso que me levou do Chiado até à rua do Loreto e, depois, em direcção ao Rossio, com regresso, pelas ruas do Ouro e Crucifixo, voltando de novo ao Chiado. Cruzei-me com hordas e hordas de turistas, em que os nacionais eram uma suave minoria. Por vezes, fui obrigado a pedir licença, para passar.
E evitei, in extremis, duas colisões aparatosas, através de golpes de rins de última hora. Porque a maioria desta gentinha ou vai colada, umbilicalmente, ao seu tablet, não vendo mais nada à sua frente, ou vai num estupor abúlico de pasmo comatoso, para fotografar tudo o que mexe e não mexe. Uma espécie de zombies, em piloto automático...
Irra!

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Da leitura 27


O meu amigo H. N. bem me tinha avisado, ao emprestar-me o livro. Que se lia muito bem e que, apesar da cerimónia ou respeito dos interlocutores, era um exercício de admiração recíproco, entre o realizador italiano e o romancista francês. Assim se confirmou, da minha leitura.
Correspondência leal, sem literatices nem rodriguinhos, aberta e cordial. Com pequenas confidências humanas e predilecções comuns: o Circo, como espectáculo, e Jung, este último que ambos preferiam a Freud. Simenon e Fellini, dois homens que se encontraram. A bem, na vida.

domingo, 19 de agosto de 2018

Música e Poesia LXX

Fellini teve a sorte de encontrar, em Nino Rota, o contraponto capaz ao seu génio. Mas, raramente, isto acontece: esse equilíbrio de divina proporção. E, com isso, as imagens acabam por ser obliteradas na memória do filme, pela música. Assim acontece, por exemplo, n'A Missão - filme menor, quanto a mim - largamente ultrapassado pela música de Ennio Morricone, apesar dos bons desempenhos de Robert de Niro e Jeremy Irons. Quantos de nós, provectos, não saberão assobiar, ainda, a marcha de A ponte do rio Kway? Ou atinar com algumas músicas de Bernstein, concebidas, especial e inspiradamente, para West Side Story. Alguém se lembra do nome do realizador do filme? Eu, não.
Kubrick, que era inteligente mas demasiado cauteloso, foi-se aos clássicos, desacertadamente. Se atinou bem - quanto a mim -, em Zaratrusta, banalizou-se, clamorosamente, no Danúbio Azul, que acompanha o movimento da nave, pelo espaço. Os Strauss, como família musical, nem todos eram magníficos. Assim como os Bach. Os genes evoluem, uns para melhor, outros, para pior...

Comic Relief (142)


Na boa sequência da Literatura, tema do poste anterior, a Música de um  tango. Que contrasta, absolutamente, com a cenografia e a coreografia do último tango que aqui postei (Enrico Macias). Só para mantermos o registo da Silly Season. E siga a dança!

Retemperar


Eu creio que poucas coisas haverá que permitam o restabelecimento da nossa boa disposição pessoal, em determinado momento, e de forma imediata. Uma delas pode colher-se nos blogues que se auto-intitulam de literários. (A auto-sugestão, é certo, sempre teve muita força...) Eu próprio fiquei varado, com o título nietzscheano do livro do marcano dr. Dispenza (este apelido insinuante dispensa comentários ou adjectivos...), em imagem. Que poderá, no entanto, ferir a susceptibilidade e mimosa sensibilidade epidérmica dos nossos jovens politicamente correctos. Mas há mais. Ora, atente-se nestes inspiradíssimos 4 títulos, a rondar o lado doméstico-familiar e a genialidade lumpen:

- Tu não és como as outras mães.
- Procura-me quando a guerra acabar.
- Os avós são bons.
- Deixo-te para não te perder.


sábado, 18 de agosto de 2018

Elegâncias


Antes de mais, o seu a seu dono: o título deste poste plagia o nome de uma temática do blogue Prosimetron. E o poste é dedicado a MR.
Quando eu era pequeno, havia uma única coisa que eu detestava na época balnear. Que era usar sandálias, porque se calçavam sem as meias intermediárias entre os meus pés e o couro tratado da pele dos bichos. Esse contacto directo sempre me desagradou, por vários motivos.
Hoje, não usar meias é moda muito acarinhada e elegante. E não é para poupar na despesa. É porque sim...

O jardineiro de Mobutu


Por entre o ritual obrigatório da silly season e a necessidade de dar pasto ao cultivo reiterado da indignação das redes sociais pueris, é sempre muito difícil passar, incólume, por entre os pingos da chuva.
Os incêndios, que foram tardios, são agora um must televisivo e, à falta de intensidade, pode sempre falar-se dos do ano passado; a Web Summit, por causa dos convidades, tem dado pano para mangas...
A que propósito virá o título do poste?, perguntará, curioso, o leitor e o visitante amigo. É que até o circunspecto Le Monde, à falta de melhor, nos vem falar, nostalgicamente, do jardim de Mobutu.
E por onde, em Gbadolite (Zaire), o velho jardineiro Lena Mapamboli, hoje desempregado, passeia, saudoso, o fausto passado. Por entre as flores raras do jardim devastado, que a floresta tem vindo a invadir...
(Como vêem, nem eu consegui passar por entre os pingos da chuva, sem me molhar...)

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Tiro no escuro...


Quando um bom poeta morre e dele sabemos que não virão mais poemas, só nos resta relê-lo ou ler sobre ele. Por isso, quando vi, na FNAC, a Colóquio, cuja temática principal era sobre Alexandre O'Neill (1924-1986), mesmo sem a folhear, agarrei no volume e, com um livro de W. G. Sebald (Campo Santo), dirigi-me à caixa, para os pagar.
E só não recomendo a Colóquio, por princípios enraízados,  devido ao facto de a não ter lido ainda. 

Revivalismo Ligeiro CCLXXXIII

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Osmose 95


Creio que alguns de nós, uma vez por outra, temos a tentação de ser árbitros de gosto.  E acontece surpreendermo-nos com algumas escolhas dos outros, ao supervalorizarem obras que nos parecem medíocres. Pessoalmente, abomino o uso do verbo adorar, para exprimir uma predilecção. É um verbo de uso litúrgico, de que a imprensa rósea abusou, pecaminosamente, e, de tão usado, hoje pouco vale ou nada significa, na minha modesta opinião.
Emitirmos uma opinião ou uma crítica, seja ela favorável ou não, sobre alguma coisa, parece colocar-nos, ainda que teoricamente, numa posição superior ao objecto, ou - o que é pior - num patamar de avaliação de aparente superioridade em relação ao autor-criador dessa obra.
Quando o faço, muitas vezes sinto, momentaneamente, um certo mal-estar, ou incomodidade interior que demora algum tempo a passar. Tudo isto se passa na esfera do racional, às vezes até com argumentos suficientemente lógicos que justificam essa avaliação que fizemos.
Um poema, um romance, uma pintura, um filme que suscitem uma clarificação do nosso gosto ou desapreço, podem assim também desencadear, por reflexo, um problema ético de justiça, nosso, subjectivo. E penso que dizer apenas gosto ou não gosto, torna tudo muito mais simples. E anódino.
Perdoa-se, quase sempre, tudo melhor ao sentimento...

Pequena história (51)


Sendo muito conhecido, o quadro Guernica, de Pablo Picasso (1881-1973), é talvez comparável, em notoriedade, à célebre Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Enquanto este último tinha, no entanto, um objectivo individualizado, como retrato, o primeiro foi executado (1937) para exprimir a revolta por um massacre colectivo, perpretado pela aviação nazi, em apoio de Franco.
Sem absoluta garantia de veracidade, há um pequeno episódio associado à pintura, referido por várias fontes, nomeadamente, pelo crítico literário inglês V. S. Pritchett (1900-1997), que o conta, num trabalho que escreveu, a propósito de Goya, incluido em The Complete Essays (Chatto & Windus, 1991).
Assim: durante a ocupação de Paris, em 1940, um oficial nazi, de visita ao estúdio de Picasso, ao contemplar Guernica, terá perguntado - Vous avez fait ça, n'est-ce pas? Ao que o Pintor terá respondido: Non, monsieur, c'était vous.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Interlúdio 62 (outrabandista)


Já por aqui houve mais pássaros, no quadrângulo do horizonte que domino, da varanda a leste.
Mas, hoje, aconteceu um corrupio de novos e desacostumados visitantes alados. Quatro estorninhos ( pareceu-me...) em amigável esquadrilha juvenil, um corvo solitário e solto, que se empertigou, sucessivamente, em três das antenas de televisão, das mais altas, ali defronte. E a crocitar, senhorial.
Só gostaria de saber quem são essas duas (?) aves, em desafio, que num grilar trinado, rezingam, ao fim da tarde, escondidas naquela árvore frondosa, à minha direita, baixa. Serão gralhas? Serão pegas?
Os morcegos é que nunca mais apareceram, ao cair da noite, como agora Vénus (ou a Estrela da Manhã) me aparece, no horizonte. Ao alto, muito firme e fixa.

Carl Nielsen (1865-1931)

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Enumerar


A classificação e catalogação sempre foram uma preocupação humana, nas Ciências e nas Artes. E fazer listas sobre assuntos, uma tentação dos homens. Bem como um precioso auxiliar de memória e, ainda, uma importante ferramenta de trabalho. Inclusivas ou exclusivas, estas relações permitem consultas úteis e, muitas vezes, fundamentais no futuro. Não são trabalho fácil, mas meritório, embora aturado e frequentemente difícil, se se procura o rigor. Uma boa bibliografia, sobre um escritor, pode ser um documento precioso, bem como um catálogo raisonné da obra de um pintor tem um valor enorme, para os aficionados.
Por reacção e associação paralela, a leitura de um poste de Mister Vertigo, no seu blogue Manuscritos da Galáxia, em que se refere ao trabalho, que tem vindo a fazer, sobre a Sétima Arte, levou-me a pensar sobre as minhas preferências em Cinema. E se, a princípio, orientava as minhas escolhas sobretudo pelos actores e actrizes, com a idade, comecei a regular as minhas idas ao cinema, pelo trabalho dos realizadores. Que me davam, com mais rigor, uma garantia de qualidade, à partida.
Sucintas e muito pouco inclusivas, correndo embora o risco de algumas omissões ou esquecimentos imperdoáveis, aqui vão as minhas duas listas de favoritos, vivos, cujas obras eu procuro não perder, em cinema:
1. Actrizes e actores: Vanessa Redgrave, Helen Mirren, Judi Dench, Frances McDormand, Julia Roberts, Fanny Ardant, Isabelle Hupert, Juliette Binoche e Sandrine Bonnaire; Albert Finney, Derek Jacobi, Ralph Fiennes, Robert de Niro, Jack Nicholson, Geoffrey Rush e Toni Servillo.
2. Quanto a realizadores, creio ser um pouco mais selectivo. Aqui vão aqueles nomes que colhem a minha preferência actual: Coppola, Scorsese, Woody Allen, Joel e Ethan Coen, Nanni Moretti, Giuseppe Tornatore e Paolo Sorrentino.
E parece-me que é tudo...

Reacções ao passado


Fotografias muito antigas, nos seus sépias delidos, muitas vezes fazem-nos sonhar. Ou, ao menos, imaginar, sobretudo quando não temos sobre os locais fixados ou figuras inscritas, quaisquer referências concretas. Assim também uma pintura abstracta, bem conseguida, que repercute sobre a nossa imaginação.
Haverá, contudo, outro tipo reacções sobre coisas ou acontecimentos passados. Modas que foram o ai-jesus de um tempo, podem hoje fazer-nos sorrir, benevolamente, ou mesmo rir. As saias-balão de outrora parecem-nos, agora, uma espécie de sacos de batatas. E os antigos fatos de banho, com as suas alças e folhos?
Há dias, ao folhear uma Revista de Occidente, de Junho de 1968, fui surpreendido por um anúncio singular publicitando uma Água de Colónia espanhola. O nonsense criativo era notório. A mescla publicitária, associando crime e literatura, a um perfume, criava uma enorme surpresa, em que o humor, ocupava também um espaço insólito no desprevenido observador...

Citações CCCLXVII


Toda a forma de arte é uma tentativa de racionalizar um conflito de emoções no espírito do artista.

Robert Graves (1895-1985), in A propósito da poesia inglesa.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Mozart / Janeckova

Camus e a felicidade


Sob a chancela da Gallimard, saiu em 2017, um grosso volume contendo 865 cartas da correspondência trocada entre Albert Camus (1913-1960) e a grande actriz francesa, de origem espanhola, Maria Casarès (1922-1996), que terá sido - pese embora a relatividade da classificação - o grande amor, na vida, do romancista francês. O volume foi organizado por Catherine Camus, filha do prémio Nobel de 1957.
Neste caso, eu diria que é legítima, aquela que chamo a coscuvilhice nobre e, assim, ter a tentação de comprar e ler o livro...


Da intensidade desses afectos, de expressão mais intelectual nas cartas de Camus e mais fortemente terrestre, nas de Casarès, têm falado os críticos literários, que saudaram efusivamente a publicação do livro. Não resisto a transcrever, do penúltimo TLS, um retrato original, que dele traça John Fletcher: "Embora ele (Albert Camus) não fosse convencionalmente bonito, as suas feições - um cruzamento entre Fernandel e Humphrey Bogart - atraiam as mulheres."
E por onde andaria a felicidade, no meio destes dois seres humanos, que deram o seu melhor ao Teatro? Há que dar, naturalmente, a palavra final a Albert Camus...


Palavras estas que não deixam de ser acompanhadas por uma sábia e subtil ironia.

domingo, 12 de agosto de 2018

Fulanos & Comandita, S. A.


Sou muito céptico em relação a projectos e trabalhos de grupo. Nas equipas portuguesas, há sempre um par de madraços, que se limita a ver os outros trabalhar. Desde o meu tempo de Liceu que vejo isto. Na Faculdade, era o mesmo. Até na minha vida profissional, quando havia grupos de trabalho com determinado objectivo, só cerca de 20% é que vergavam a mola, porque os restantes 80%, estavam ali para mandar bocas e recomendar umas minudências perfeccionistas e adamadas, q. b. Assim também acontece, como tenho observado, com alguns blogues que, nominalmente, têm vários colaboradores inscritos.
Há que lembrar, no entanto, o que a vida real e empresarial nos ensina. Habitualmente, há os sócios capitalistas, e os sócios trabalhadores. Só me pergunto: e para quem vão os dividendos?...

para MR, de forma oblíqua...

Uma fotografia, de vez em quando... (110)


Com um sentido de olhar muito desperto para o drama e os problemas sociais, os instantâneos do francês Gilles Peress (1946) fixaram-se sobre as tragédias humanas, quer elas ocorressem no Líbano, na Irlanda do Norte, ou nos Balcãs. Mas também não ficou indiferente às migrações, nem ao problema dos refugiados.


Nos anos 70 integrou-se na Agência Magnum. Colaborador de vários jornais e revistas, cobrindo os principais conflitos bélicos no mundo, Peress está representado, com a sua obra, em muitos dos grandes museus (MOMA, por exemplo), sobretudo, norte-americanos. Merecidamente, aliás.

sábado, 11 de agosto de 2018

Ser ou não ser, por


Surpreendi-me, a mim mesmo. Eu, que não tenho espírito bélico, embora tenha a dose de agressividade inerente a qualquer ser humano, depois de pensar um pouco, acabei por alinhar com Manuel Alegre e com o PCP, que defendem a reintrodução do Serviço Militar obrigatório, que existiu até 2004, creio, em Portugal. De Janeiro de 1968 até Março de 1971, também passei por ele. E se alguns momentos houve negativos, nesse cumprir cívico, o balanço que hoje faço é positivo.
Disciplinou-me, numa altura em que eu levava quase uma vida boémia, reforçou-me, grandemente, o sentido de organização, despertou-me, na prática, os sentimentos de solidariedade que eu tinha muito teóricos e robusteceu-me a consciência política. Por outro lado, criei, pelo menos, duas amizades para toda a vida. E, isto, são aspectos importantes e que contam.
Acresce, actualmente, que o ogre norte-americano fechou o guarda-chuva de protecção sobre a Europa, e alguma da nossa juventude anda muito mal habituada, além de não lhe vir a fazer mal o criar sentimentos de solidariedade para com os outros, bem como começar a usar regras de disciplina, ordem e boa educação. Mesmo que temporariamente através de rituais que parecem formais e inúteis.
Sou a favor.

Encore...


Dantes, e não há muito tempo, Lisboa, em Agosto, era uma sossegada, amena e desocupada cidade de província... Dava gosto passeá-la, a pé ou em transportes públicos quase vazios, sentarmo-nos na esplanada de um café, à sombra, e beber tranquilamente uma groselha fresca, um café, ou saborear uma cerveja bem gelada. Hoje, não. As esplanadas (e há muito mais, agora) estão coalhadas de multidões babélicas, barulhentas, sobretudo, se há mulheres castelhanas, que pedem meças às nossas antigas varinas, pela voz alta, metálica e desagradável. Os transportes públicos vão à cunha e depois há os tuques-tuques estridentes e os "troles" sacolejando, infernalmente, pelas calçadas das ruas. Anteontem, a HMJ, à porta dos Pastéis de Belém, viu uma bicha de quase um quilómetro que se cruzava com outra, que partia dos Jerónimos. O trânsito lisboeta, por sua vez, está caótico.
Saudosamente, lembrei-me de Aznavour, embora na canção ele fale desses amores breves que duram apenas um Verão. Quem não os teve?
E, ainda que ela já conste do Arpose (29/8/2010), passados 8 anos, é tempo de um encore... Relembrar Paris em Agosto, com saudades de uma Lisboa passada, agradável e acolhedora, quase vazia. De outrora, e sem turistas.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Uma vez espião, espião sempre


Não sei já quem disse que alguém que tenha sido espião, será sempre um espião. Ainda que em part-time. O meu amigo H. N. concorda com esta asserção, assim como eu, e muitas vezes, em amena cavaqueira bem disposta, pômo-nos a especular sobre alguns nomes portugueses, de várias profissões, entre comentaristas, jornalistas e até diplomatas, que o poderiam ter sido, sobretudo pela quantidade e qualidade de informação privilegiada que mostram possuir.
O jornal Le Monde, neste período ligeiro da silly season, tem vindo a publicar artigos de página inteira sobre escritores-espiões. Um dos primeiros, foi sobre John Le Carré. E são referidos, entre outros, Somerset Maugham e Frederick Forsyth. Graham Greene (1904-1991) é um dos últimos retratados, no jornal francês, que informa que o romancista católico inglês, trabalhou no MI6, directamente, com o célebre duplo espião Kim Philby.
Oficialmente, Greene terá abandonado o serviço de espionagem em 1944, mas um seu biógrafo (Michael Shelden) arrisca dizer que o romancista terá continuado a colaborar até finais dos anos 70, com os serviços de informação ingleses. Irónico ou não, numa entrevista ao Guardian, em 1971, Graham Green terá afirmado que: A Igreja católica é o melhor serviço de informações que eu conheço. Quem sabe, sabe...

Adagiário CCLXXXV


Um homem corajoso morre apenas uma vez, o velhaco, várias vezes.

(Provérbio dos índios da tribo Iowa, ou Ayuhwa.)

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Do que fui lendo por aí... 21


A louçania da mulher minhota não dispensava, por festa, romaria ou procissão, os atavios de ouro - lembro-me bem... Talvez por ali houvesse, também, alguma vaidade de mostrar os seus pertences de família ou a capacidade do seu dote. Dir-se-ia que, nalguns casos, pecava por exagero.
Mas qualquer dona minhota que se prezasse teria certamente, no seu bauzinho de jóias, as arrecadas de filigrana e o seu grosso cordão dourado. E as criadas de servir, muitas vezes trabalhavam uma vida inteira para investir no fio de ouro, que compravam, normalmente a prestações, no ourives da terra.


Por isso, não estranhei que, num artigo da Revista de Guimarães (vol. LXVII, Jan.-Jun. de 1957), intitulado "Das origens e técnica do trabalho do ouro", o coronel Mário Cardoso (1889-1982) referisse, em nota de rodapé, o seguinte: "...sabe-se que as mulheres ibéricas superavam as etruscas, célticas e outras, na sua vistosa indumentária e na riqueza exuberante com que se ornamentavam, cobrindo o toucado com diademas e rosetas de ouro, o pescoço e o peito com múltiplos colares e pendentes, grandes arrecadas, nas orelhas, pulseiras, braceletes (...) de uma grande quantidade de jóias de ouro ao pescoço, cordões, cruzes, medalhões de filigrana, etc., que por vezes cobrem todo o peito da lavradeira." (pgs. 18/9)

um agradecimento especial a H. N. - ele sabe porquê...

Regionalismos ilhavenses (1)


O gosto que tenho por conhecer expressões castiças e regionais, bem como o decorrente convívio com monografias de terras portuguesas que, normalmente, abordam ou contém anexins e regionalismos localizados, autoriza-me chegar a algumas conclusões. Uma delas é que muito do que consta como falares regionais, em livros, é também comum a outras terras e outras gentes portuguesas; e alguns dos regionalismos não o são, como criação pura e original, mas apenas corruptelas de expressões ou de palavras da língua portuguesa que o povo adaptou a um falar mais simplificado. É, por isso, necessário separar o trigo do joio e mondar, assim, o que é espúrio, para destacar apenas aquilo que é essencial e verdadeiro regionalismo.
Falei, há cerca de um mês (14/7/2018), aqui no Arpose, de um livro que me fora oferecido, pelo meu amigo AVP, intitulado Palabras co bento no leba, de Domingos Freire Cardoso, que colige ditados, expressões e regionalismos de Ílhavo e da sua zona. Dele, vou seleccionar alguns termos, que me pareceram mais interessantes e/ou originais, começando, cronologicamente, por palavras iniciadas pela letra A, e dando o seu significado a seguir. Assim:

1. À patarrôlo - em grande abundância.
2. Acatafegar - ter dificuldade em respirar.
3. Acuzapar-se - sentar-se.
4. Amarafundado - cheio de trabalho.
5. Andar à galipa - andar à bulha, à pancada.
6. Andar num badanau - andar muito atarefado.
7. Anhuca - pessoa que confunde tudo.
8. Arroz de molho pardo - arroz de cabidela.
9. Atentarete - diabito, arreliador.
10. Aucalité - coisa sem importância.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Retratos (20)


A damisela (O´Neill dixit) postava-se à direita do blogue, de perfil, semi-sorridente e de óculos escuros, satisfeita de si. Escrevia elegantemente, com minúsculas depois dos pontos finais. Gostava  dos livros do mãezinha, do Cruz, e dos daquele rapaz que tem um piercing no sobrolho. O seu C. V.  abusava um pouco da psicologia positiva, de life changer, de life coaching, de workshop, de academia...
Se a lêssemos, uma beatitude espalhava-se pelo nosso dia, num optimismo vaporoso de rósea felicidade invencível.
As suas referências atestavam formação jurídica, mas que pouco teria praticado, para criar a sua academia, onde administrava cursos de bem-estar na vida. Pagos, claro. Numa entrevista, muito publicitada, insistia na ideia de descomplicar (?) os dias e reafirmava que gostava de buganvílias e de mirtilos, ao brunch.
Mais tarde e por acaso, e depois de lhe ter fixado o rosto, vim a vê-la de corpo inteiro - era francamente obesa, apesar dos mirtilos.

Samuel Barber (1910-1981)

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O fundibulário incontinente


Numa coisa, a prolongada crise no Sporting foi útil, para evitar a poluição palavrosa, por causa dos fogos. O palreiro de serviço, tão ocupado com o seu clube, deixou de defender os Bombeiros, seus subordinados, e de desdobrar-se,  nas televisões, em declarações inflamadas e apocalípticas sobre os incêndios em Portugal.
Haja saúde, ó Bruno de Carvalho!...
( Vai dando trabalho ao Marta.)

De acordo com a estação...


A tendência para a uniformização está patente no adolescente da extrema esquerda: seria um interno do Colégio Militar, em saída de férias graciosa para a época balnear, mas que manteve o uniforme?
E as meninas estão bem compostinhas... Mas eu destacaria o pater familias, sobretudo e apesar do calor,  por não ter abdicado do seu traje de cerimónia. E que, decerto, não tomaria banho.

Pinacoteca Pessoal 137


Filha de cantores de ópera, a pintora norte-americana Gertrude Abercrombie (1909-1977) passou três anos da sua infância na Alemanha, tendo-se fixado, a partir de 1916, em Chicago. Completou o curso de Belas Artes e começou a pintar cedo, tendo tido algum sucesso com as suas primeiras exposições. Era grande entusiasta de Jazz e contava, entre os seus amigos, com Charlie Parker, Sarah Vaughan e Dizzie Gillespie, tendo este último tocado na cerimónia do seu segundo casamento.


A sua pintura é um pouco desconcertante, com algo de naïf, pelos temas e despojamento de cenários, sendo de difícil classificação, muito embora os críticos de arte a incluam, normalmente, no Surrealismo. Diversos auto-retratos, naturezas mortas e paisagens quase desérticas, bem como cenas de interior, são predominantes na sua obra. A que acrescentava, com alguma frequência, gatos e caracóis, como se fossem uma espécie de ex-libris. Ou outros pequenos símbolos.


A meio da vida, exprimiu a sua maneira de ser e de pintar, de forma lapidar, assim: Não estou interessada em coisas complicadas, nem em lugares comuns. Gosto de pintar coisas simples, mas que sejam um pouco estranhas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

As diferenças de grau e o sentido crítico, ou a eterna infância


Por extremo limite e desatenção flagrante, ou por amável estultícia infantil, é claro que podemos meter no mesmo saco, de Poesia, António Aleixo e Luís de Camões. Em cinema, não fazermos distinção entre  Ed Wood e Kubrick. Umberto Eco e Dan Brown, na ficção histórica. A noção de qualidade é, ou devia ser, uma exigência de quem cresce. A sua ausência denota, também, a inexistência de sentido crítico e a eternidade inocente de algumas infâncias que se perpetuam, para felicidade  pueril e inefável dos seus donos...

domingo, 5 de agosto de 2018

Os Trabalhos e os Dias 84: Final feliz



Para terminar a tarefa de encher a despensa de doces para o resto do ano e, sobretudo, para o Inverno, faltavam, pois, os pêssegos para fazer companhia aos morangos e às cerejas.

O tempo, e sobretudo o calor, não estava nos planos para o dia da cozedura. Mas, a fruta tinha sido encomendada, como de costume, uma semana antes, ao meu vendedor de referência, no Mercado do Monte de Caparica. O Telmo lá me arranjou o pêssego do Senhor Raimundo, de Donas, Fundão. Ainda ficaram um dia, ao calor, para amadurecer.

E hoje, apesar da canícula, lá teve que ser. Quase quatro quilos de pêssegos se reduziram a 14 frascos, entre pequenos e grandes, a doce de pêssego. Quem provou ao jantar, gostou e repetiu. Sinal de aprovação.

Post de HMJ

Razões biográficas, com pseudónimo

É preciso ter paciência e abandonarmos o frenesi virtual da ligeireza. São cerca de 20 minutos de entrevista a John Le Carré (1931). Eu creio que vale a pena ouvi-lo.

Divagações 132


Uma das características imprescindíveis de uma obra prima ou de um clássico, para mim, é que não pode, nem deve ter unicamente uma leitura ou interpretação linear. Mesmo que, para alguns, essa seja a única visão - a da superfície das águas. 
Um poema, uma pintura abstracta, um filme, uma peça musical, de qualidade, deve obrigar a uma descodificação da emoção que desperta, um travo longo - como de um vinho raro - que se prolonga. Uma reflexão posterior, em suma, que pergunta a Vida.

Leonard A. G. Strong (1896-1958)



The Appointment
(O Compromisso)


Sim, disse ele, sim com certeza que tentaste
vir, mas não te deixaram. Foi o que eu pensei -
Mas alguma coisa no seu coração se revoltou gritando
mortalmente, como um pássaro apanhado pelo gato.