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quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Pequena história (51)


Sendo muito conhecido, o quadro Guernica, de Pablo Picasso (1881-1973), é talvez comparável, em notoriedade, à célebre Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Enquanto este último tinha, no entanto, um objectivo individualizado, como retrato, o primeiro foi executado (1937) para exprimir a revolta por um massacre colectivo, perpretado pela aviação nazi, em apoio de Franco.
Sem absoluta garantia de veracidade, há um pequeno episódio associado à pintura, referido por várias fontes, nomeadamente, pelo crítico literário inglês V. S. Pritchett (1900-1997), que o conta, num trabalho que escreveu, a propósito de Goya, incluido em The Complete Essays (Chatto & Windus, 1991).
Assim: durante a ocupação de Paris, em 1940, um oficial nazi, de visita ao estúdio de Picasso, ao contemplar Guernica, terá perguntado - Vous avez fait ça, n'est-ce pas? Ao que o Pintor terá respondido: Non, monsieur, c'était vous.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Livros infantis?


Não sem razão, V. S. Pritchett (1900-1997), nos seus The Complete Essays e, concretamente, no capítulo que dedica a Jonathan Swift (1667-1745), refere a páginas 115, sobre As Viagens de Gulliver: "...Não foi por acaso que Gulliver se tornou num livro para crianças; somente uma criança conseguiria ser tão destrutiva, tão irresponsável e tão cruel. ..."
E Alice?

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Do tom


Os encómios, de leituras minhas recentes, que convergiam para A Ilustre Casa de Ramires, como obra preferida de V. S. Pritchett e Costa Pimpão, da bibliografia de Eça de Queiroz, levaram-me a repegar no volume e retirá-lo, da estante da biblioteca, levando-o para a mesinha de cabeceira. Até porque era o único romance de Eça de que eu não tinha a certeza absoluta de ter lido até ao fim. Depois, aquele carimbo circular da Livraria Académica, de Manaus, só poderia ter vindo do meu Tio Jorge, que andara pela Amazónia dos Brasis, em tenra e, muito provavelmente, difícil juventude... 
Foi, efectivamente, o reencontro confirmado. Com aquele atmosfera bem disposta, de gozo e de ironia, que faz reconhecível o tom ou estilo do "pobre homem da Póvoa de Varzim". Tal como a ambiência melodramática é a marca de água da escrita de Camilo, embora temperada, algumas vezes, por uma ironia mais sofrida. Para não falar do tom pungente de algumas obras de Raul Brandão, mais anoitecido ainda na prosa minhota de Tomaz de Figueiredo. Em contraponto com a algarvia claridade do tom de Teixeira Gomes, sulista e solar.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Irrealidades


O velho almirante já um pouco escalavrado, depois de pesquisar as edições da A. G. U.  na segunda estante, à direita de quem entra, foi sentar-se pesadamente no maple verde de napa, ao fundo da loja, muito próximo do maçon insular, de memória prodigiosa, que folheava um livro, na estante dos truncados.
O gordalhufo, que escreve no Público às terças e quintas-feiras, sopesava " A Educação Sentimental", de Flaubert, mas já se tinha apossado de um folheto sobre as campanhas de África, quem sabe se no intuito de se documentar sobre os Comandos e vir a escrever uma crónica para denegrir um partido de esquerda.
O jovem historiador e ramalhudo universitário, que tentou branquear o salazarismo por palavras mansas e cristãs, arrebanhou um von Clausewitz, com gula, e perfilou-se a olhar, indeciso, para uns Ensaios, ainda literários, de Franco Nogueira. Creio que não os levou, que a literatura nunca foi o seu forte.
Eu trouxe umas recensões de V. S. Pritchett, que mais parecia um tijolo. Mas que falavam e tinham capítulos sobre Eça e Graham Greene, e isso me bastou para esportular alguns euros. Poucos. Com o livro, veio também um postal retro com uma aguarela de Alberto de Souza, que ainda há-de aparecer no Arpose.
No entretanto, chegou o meu Amigo.

para H. N., que sabe do que eu falo...