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terça-feira, 15 de junho de 2021

Bibliofilia 189



No ano anterior (1891) a ter composto o, para o poeta português António Nobre, o impressor parisiense León Vanier produziu nas suas oficinas uma das últimas obras poéticas de Paul Verlaine (1844-1896) - Chansons pour Elle. Não sendo embora das produções mais conhecidas, o conjunto revela a maturidade atingida pelo poeta francês. O livro, de 56 páginas, teve uma edição especial em papel japonês. A edição comum, não sendo rara, não é muito habitual aparecer à venda.



Pela net, encontrei algumas ofertas de venda de exemplares desta primeira edição de Verlaine. De França, em 2013, da Articurial, era pedida, por uma edição especial, a quantia de 9.099 euros, sendo que o livro era acompanhado por um manuscrito autógrafo do poeta. Da impressão comum, os preços oscilavam entre 338,24 euros (Ebay Holanda) e 800 (Librarie l'Ancre Aldine).




Em finais dos anos 80 do século passado, tive oportunidade de comprar, na Rua do Alecrim 44 (Lisboa), um exemplar da edição comum, por Esc. 2.200$00. Este livro teria pertencido, muito provavelmente, ao escritor e diplomata Alberto de Oliveira (1873-1940), que fora amigo de António Nobre.

sábado, 13 de abril de 2019

Bibliofilia 173


Em abono da verdade, devo começar por dizer que, tirando Verlaine e até ao século XX, eu nunca fui grande entusiasta da poesia francesa. Mas o século passado já me trouxe, pelo menos, dois grandes poetas franceses: Saint-John Perse e René Char, de minha frequência estimada, ainda hoje.
Quanto à história, a narração é simples, embora tenha contornos misteriosos que eu nunca descobri.
Aí pelos anos 90, sempre que eu ia à Livraria Artes e Letras (Largo Trindade Coelho, agora, nas Avenidas Novas, Lisboa), namorava e folheava, com particular atenção um volumoso lote de números da revista Po&sie, publicação prestigiada que começara a editar-se em 1977, pela mão do poeta e tradutor Michel Deguy (1930), e que era dedicada a estudos e continha poemas de escritores franceses e estrangeiros, alguns deles traduzidos (Paul Celan, Umberto Saba, Sylvia Plath...). Mas Luís Gomes precificara os exemplares muito caros para o meu gosto: 10 euros os números simples, 15, cada um dos duplos.
Ora, inesperadamente, a Livraria mudou de dono, durante cerca de um ano, passando para a direcção de Carlos Bobone, também ele livreiro-alfarrabista. Que procedeu a rearrumações e à marcação de novos preços dos livros usados, alguns muito abaixo dos antes praticados. E foi assim que eu acabei por limpar a prateleira das revistas Po&sie e, em duas abadas felizes, trouxe de lá 18 números (entre o nº 50 e o 98), ao preço de 3 euros, cada um. E que fazem parte, agora, da minha biblioteca.
Resta acrescentar que, meses depois, a Livraria Artes e Letras voltou a pertencer ao seu anterior proprietário - e aqui é que reside o mistério. No interim, no entanto, eu tinha aproveitado os saldos...


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Para a iconografia de Verlaine


É muito rica e variada a iconografia do poeta francês Paul Verlaine (1844-1896). Quer fotográfica, quer pictórica. Alinhámos alguns retratos que colheram a nossa preferência, começando pela foto de 1892, tirada por Paul Cardon, num café parisiense, que encima este poste.
Em sequência e do mesmo ano, o quadro de Fréderic-Auguste Cazals. E, finalmente, o retrato póstumo de Verlaine, executado por Édouard Chantalat, em 1898.


domingo, 7 de junho de 2015

Palavras em desuso


Patriotismo é hoje uma palavra em desuso. Pior, para muitos, é considerada perigosa ou, pelo menos, envergonhante. A par com o vocábulo Património, por muita gente tido como uma abstracção romântica, despida de sentido e sem rentabilidade económica. Engrossam, no fundo, a categoria desses abencerragens embotados de espírito que, na segunda década do século XX, levaram à votação, na Câmara de Guimarães, deitar abaixo o Castelo, para com as pedras da fortaleza se calcetarem as ruas da cidade. O Castelo salvou-se por um voto, e ainda lá está. Como por cá andam, ainda hoje, os utilitaristas modernaços, bem como os leiloeiros e merceeiros burocratas que têm vendido o país ao desbarato. Coisas e resultado de um internacionalismo de direita, acrítico e sem cultura, que encontra grande prazer em arremedar, nos seus discursos, um léxico mascavado a imitar a língua inglesa, mas de raiz americana. Senhoritos pobres que talvez sejam felizes e se sintam mais importantes, assim.
Quem não valoriza a pertença nacional de um Crivelli, ou a permanência em solo português de um significativo acervo de obras de Miró, na minha opinião, é um pouco rombo de cabeça ou pobre de espírito. Os patacos por que serão trocados, rapidamente serão gastos em munificências de discutível qualidade e breve duração. E o país cada vez ficará mais pobre, mais desinteressante como destino de turismo cultural - hoje, muito procurado. Ficarão apenas esses turistas do eléctrico 28, que pouco deixam, mas tudo fotografam sem critério nem sentido estético de gosto.
O último L'Obs dedica algumas páginas à agressiva caça ao tesouro de várias instituições culturais (norte-americanas e europeias), na sua gula por obras importantes e acervos culturais significativos de artistas famosos, de forma a enriquecer o seu património. Seja ele nacional, ou estrangeiro, de origem. Algumas precauções chegam a parecer-nos insólitas. Surpreendeu-me, por exemplo, que a BnF (Biblioteca Nacional de França) faça deslocar, periodicamente, um Conservador da instituição, a casa do escritor Pierre Guyotat (1940) para registar os últimos livros que ele comprou, os seus apontamentos e até os SMS do seu telefone portátil, garantindo assim, antecipadamente, um acervo tanto quanto possível completo do artista. 
Como quase sempre, Portugal continua atrasado e na cauda da Europa. Os agentes culturais viegas e quejandos despacham crivellis, para poder continuar a fumar Habanos, outros pensando ser modernos e desempoeirados querem vender mirós e as jóias de família, para com esse dinheiro comprar bugigangas inúteis que, na sua parolice mental, lhes parecem indispensáveis. Patriotismo? Património? Isso já não se usa e é redundante!...

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A par e passo 71


Como viveram até aqui, então, poetas, filósofos, artistas, todos os nossos pequenos fabricantes daquilo que faz o orgulho da raça humana? Eles viveram como puderam viver. Viveram graças à imprecisão do mecanismo económico, e um, muito mal, o outro bastante bem: Verlaine de expedientes e de esmolas; enquanto Victor Hugo deixou milhões... Destes pequenos artífices domésticos, há os que fizeram fortuna e outros que se afundaram na bancarrota; grande parte deles foi vivendo de trabalhos laterais: era preciso que a lira tivesse várias cordas.

Paul Valéry, in Regards sur le Monde actuel (pg. 248).

sexta-feira, 30 de março de 2012

Paul Verlaine (1844-1896)


O tempo parece ter-se curvado à memória de Verlaine, pela passagem do dia do seu aniversário: 30 de Março de 1844. Cessaram os dias luminosos de quase todo o mês de Março, para convocar o início do conhecido poema simbolista que diz:

Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur?

terça-feira, 30 de março de 2010

Memória 18 : Verlaine e van Gogh





O poeta francês Paul Verlaine nasceu em 30 de Março de 1844, e morreu em 1896. O pintor Vincent van Gogh, de origem holandesa, nasceu a 30 de Março de 1853, e veio a suicidar-se em 1890. Há algo de maldito que liga estes dois grandes artistas.

O cantor e poeta Léo Ferré num prefácio em que apresenta Verlaine aos leitores, num exemplar de "Poèmes saturniens" suivi de "Fêtes galantes", escreve o seguinte:

"Os pássaros que observamos, no mar, ao abrigo duma vidraça, fazem sinais desesperados ou, pelo menos, assim queremos acreditar, porque a matéria que há entre nós e eles favorece a especulação e o sonho; e nós queremos ver, na sua geometria alimentar ou simplesmente discursiva, uma oração, uma dúvida, uma história. O desespero dos grandes pássaros marinhos é semelhante ao dos poetas. Demasiado longe de nós, num azul que quase tocamos com os dedos e o pensamento, eles têm o ar de não «Ser» senão para nós, para o nosso repouso, para as nossas deambulações de conversa, para a nossa meditação. (...) A música dos versos como o bater das asas é tributária do instante. A ave é prisioneira do seu voo. Como o poeta é do seu, quero dizer, de uma ortografia, duma prosódia, dum ritmo. ..."

sábado, 9 de janeiro de 2010

Bibliofilia 4 : Paul Verlaine



Nos anos oitenta do século passado, comprei, num alfarrabista de Lisboa, um voluminho - em bom estado de conservação - de poesias do poeta simbolista francês Paul Verlaine (1844-1896). A obra foi das últimas publicadas, em vida, do autor. Tratava-se de "Liturgies Intimes", impresso em 1892. Custou-me, na altura, Esc.2.200$00 (cca. Euros 11,00).
O pequeno livro tinha pertencido, inicialmente, a Alberto de Oliveira (1873-1940), poeta e grande amigo, que fora, de António Nobre (1867-1900), e tinha, na capa, marca de posse manuscrita: "Coimbra 1892 / Alberto d'Oliveira". O que quer dizer que os nossos poetas estavam actualizados na leitura dos seus congéneres estrangeiros.
Em Novembro de 2008, esta mesma edição, mas na sua vertente especial (de apenas 375 exemplares), estava à venda, por $654 dólares (cca. Euros 939,00), na "Libraire Laurent Coulet" e uma outra, edição normal, mas 2ª edição (1893), vendia-se por Euros 200,00, na "Libraire La Monne".
P. S.: para MR, que aprecia esta rubrica.