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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Estilos



Embora na margem dos aforismos, a diferença de 14 anos que os separa na data do nascimento e os países distintos (Áustria e Espanha) talvez ajudem a explicar o estilo de Karl Kraus (1874-1936) e o tom de Ramón Gómez de la Serna (1888-1963). Mais cáustico o primeiro, o segundo mais lírico, nas suas greguerías originais.
Aqui deixo quatro citações de Karl Kraus retiradas da obra Aforismos (VS., 2023):
- A cultura acaba com os bárbaros a evadirem-se dela. (pg. 245)
- O bibliófilo tem aproximadamente a mesma relação com a literatura que o filatelista tem com a geografia. (pg. 306)
- Psicanálise: um coelho que é engolido pela jibóia só quis averiguar o que passava no interior desta. (pg. 310)
- O austríaco deixa que lhe tirem qualquer estado, a não ser o estado de espírito. (pg. 368)

segunda-feira, 27 de maio de 2024

5 greguerías de Ramón Gómez de la Serna, traduzidas

 


1. No mais alto da noite é que se compreende que os faróis vivem para si mesmos.

2. É surpreendente como a febre se mete por entre as linhas do termómetro.

3. Os surdos vêem a dobrar.

4. Os orgulhosos dizem "coluna vertebral", e os modestos "espinha dorsal".

5. Ao parar, o combóio produz um silêncio traumático.


Ramón Gómez de la Serna (1888-1963), in Greguerías (Salamanca, Ediciones Anaya, 1963).


domingo, 18 de junho de 2023

2 fragmentos de Guimarães Rosa



Estes dois fragmentos de Guimarães Rosa (1908-1967), que vou referir, fazem-me lembrar as greguerías de Gómez de la Serna (1888-1963). No fundo, eu diria que seriam conclusões de pensar o mundo e o real à luz da sensibilidade, com alguma dose de ingenuidade pueril e humor, prevalecentes.
As citações foram retiradas do livro Ave, Palavra (1985), que comprei recentemente à Livraria Lumiére.
Aqui vão os fragmentos:

"A coruja não agoura: o que ela faz é saber os segredos da noite.
...
Os corvos, tantamente cabeçudos, xingam o crasso amanhã com arregritos." (pgs. 194/5)

quinta-feira, 30 de março de 2023

3 Greguerías de Ramón Gómez de la Serna



Estas três greguerías não serão talvez das mais características de Ramón Gómez de la Serna (1888-1963), mas aqui ficam numa versão portuguesa, que fiz, com alguma liberdade.

- No ovo existe um frango intacto, no interior do qual está a própria alma do pinto. Somente aqueles que sorvem os ovos através dum pequeno furo de alfinete conseguem aspirar esse arzinho espiritual.

- Essas grandes gotas pesadas, terríveis que às vezes caem nos nossos guarda-chuvas, são outra coisa que nos lançou a Providência, tal como esses rapazes que assomam às varandas, cospem sobre o transeunte, fugindo em seguida.

- São tristes as verrugas de carne, são lágrimas da carne... A carne sensível das mulheres finas, brancas e delicadas chora de vez em quando essas lágrimas escondidas.


Ramón Gómez de la Serna, in Greguerías 1920-1927.

sábado, 6 de julho de 2019

Pedro Monteiro (1969)


Pouco posso dizer sobre Pedro Monteiro, que nasceu algures em Portugal (Coimbra? Manteigas? Bragança?), a 4 de Julho de 1969. Com formação jurídica, dedicou-se desde cedo à diplomacia, cumprindo missões, pelo menos, em 3 continentes. Deslocações quotidianas em Paris, entre a sua casa e a embaixada, deram-lhe matéria, nas viagens de metro, para breves reflexões.


Que vieram a integrar um voluminho (Galáxia de Berlindes, 2012) de 128 páginas, em edição de autor, discreta, mas de muito bom gosto, com grafismo e capa de Rui Cardoso.
Os textos, por entre o aforismo e a greguería (à Gómez de la Serna), uma ou outra vez sugerem um haikai ligeiramente poético para que as palavras tendem, imperceptivelmente. Mas também se temperam de um humor muito original, que nos ajuda a viver melhor, pela riqueza da imaginação.
Deixo três exemplos da primeira página deste pequeno-grande livrinho de Pedro Monteiro.




quinta-feira, 2 de abril de 2015

Divagações 84


Economista afável e simpático, frontal e realista, acabo de saber que José da Silva Lopes (1932-2015) morreu hoje, no mesmo dia em que Manoel de Oliveira desapareceu do ecrã da vida. Homens de princípios, representantes de uma ética que já não existe e já ninguém recomenda...
O dia parece-me estranho, na sua circunstância de obituário carregado. Ao alto, no céu desta noite morna de Abril, até a Lua cheia parece envolvida num halo verde insólito e inexplicável, que se projecta sobre o rio. E lembro-me de uma greguería de Ramón Gómez de la Serna, a propósito:

A lua é um banco arruinado de metáforas.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Recuperado de um moleskine (9)


As nuvens intercaladas mais parecem gretas milenares de um vulcão extinto e silenciado. Mas face a esta laranja afogueada, que vai nascendo, crescendo e subindo, de Leste, haveria que contrapor-lhe alguma música mais suave, para poder entrar no dia, mais devagar.
Para a direita, a Arrábida está envolta numa neblina de algodão macio, e o Seixal ribeirinho vai pelo cinzento azulado, com as águas. As aves fazem silêncio e nem se vêem. Nuvens glaucas apagam, por momentos, o incêndio solar. E um azul, lavado e claro, vai-se caldeando no pós-cénio e ataviando o dia para entrar.
É então que, surrealmente e à la Serna, me vem à voz e do fundo de mim mesmo, perante estas mudanças, no horizonte, uma definição de molusco: simbiose de gelatina e músculo, visível ao lusco-fusco.
Inexplicavelmente...

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

5 greguerías (finais) ramonianas


1. O filósofo antigo sacava a filosofia ordenhando a barba.
2. Nas tâmaras, a Natureza dá-nos a sua mão pegajosa e sem luvas.
3. As focas levam sempre os sapatos bem engraixados.
4. Os pretos usam luvas nas solas dos pés.
5. O mal de La Bruyère é que tem nome de queijo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ramoniana breve


1. Há suspiros que fazem comunicar a vida com a morte.

2. Os eucaliptos têm sempre a camisa esgargalada.

3. O panegírico parece alimentício, mas não é.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

2 greguerías alfabéticas


1. O B é a ama de leite do alfabeto.
2. O i é o dedo mendinho do alfabeto.

Ramón Gómez de la Serna (1888-1963).

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

2 greguerías musicais


1. Quando o violoncelista se prepara para tocar parece que vai fazer cócegas ao mundo pelo Equador.
2. Os anjos da guarda dos músicos deviam passar-lhes as folhas da partitura.

Ramón Gómez de la Serna (1888-1963).

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Das primeiras greguerías de D. Ramón


Das primeiras greguerías de Ramón Gómez de la Serna (1888-1963), feitas no dealbar dos seus 20 anos, até às do ano da sua morte, há todo um exercício de depuração, contenção e essencialidade aforística. Entre os longos parágrafos das greguerías iniciais e a brevidade tensa das últimas, apenas e sempre, algumas coisas em comum: uma extrema atenção ao pormenor das acções mais banais ou acontecimentos fortuitos, aliada a uma intuição singular sobre jogos de palavras improváveis, e associações quase surreais; mas também um olhar de inocência, que quase parece infantil, orientado para o deslumbramento e descoberta das coisas de todos os dias, quando não, da sua desmontagem inteligente.
Passamos a traduzir, então, uma greguería ramoniana, do primeiro ciclo, entre 1911 e 1919. Segue:

"Pobre morcãozito brando e voluptuoso metido no coração da fruta!... Encontramo-lo demasiado tarde, quando já não podemos deixar-lhe o fruto só para ele... Sentimos o seu frio repentino ao ser posto perante a intempérie, assim nu e em carne viva... Sentimos o golpe no seu destino, sentenciado a morrer desalojado que foi da incubadora onde vivia tão docemente... E, às vezes, sentimos um súbito arrepio, uma dor penetrante, inadvertidamente, ao cortá-lo em dois, com a faca, quando partimos a fruta!
Terrível susto, o do morcãozito e o nosso!"

sábado, 26 de outubro de 2013

Ainda mais 3 greguerías ramonianas


1. A lava parece um crocodilo que avança.
2. O gato, a máquina fotográfica do mistério.
3. As borbulhas são olhos que morrem ao nascer.

domingo, 6 de outubro de 2013

6 greguerías ramonianas algo melancólicas, ou de Outono


1. As cinzas de cigarro que ficam entre as páginas de velhos livros são a melhor imagem daquilo que ficou neles da vida de quem os leu.
2. No Outono todo o campo está cheio do aroma dos adeuses.
3. Há céus sujos onde parece terem-se limpado os pincéis de todos os aguarelistas do mundo.
4. O sonho é um depósito de objectos extraviados.
5. O tango está cheio de despedidas.
6. Os olhos das estátuas choram a sua imortalidade.

de algum modo, em geminação com MR, que fala de D. Ramón, hoje, no Prosimetron.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Ramón Gómez de la Serna e as luvas


Há livros, como há vinhos e queijos, que compramos, cegamente, pelo nome, pela marca, pelo autor ou criador, porque são para nós, à partida, sinónimo de qualidade ou sabor.
De D. Ramón, sou frequentador habitual e obrigado das suas greguerías, mas este "O Médico Inverosímel" (Antígona, 1998) era pouco provável que o viesse a procurar pelas livrarias. Foi HMJ que o descobriu e mo apontou. Estava em saldo, na nossa livraria outrabandista de referência, e custou 5 euros, apenas.
Ora, atente-se neste bocadinho de boa prosa (traduzida por Júlio Henriques) ramoniana:

"...Encontrávamo-nos num desses cafés que hão-de ser sempre o meu paraíso humorístico. Ele chegava, tirava o chapéu, depois o sobretudo, e por fim as luvas, com a escassez e lentidão com que sempre se calçam e descalçam as luvas, como quem se esfola com o cuidado de não se ferir muito, ou como quem arranca um emplastro poroso muito agarrado à pele. Só os descuidados as descalçam como peúgas e as puxam como meias luvas de dedos cortados, como ocarinas de cinco grandes orifícios.
As nossas luvas, quando ficam sós e abandonadas, adquirem gestos distintos: gesto de um orador, um puro gesto de Demóstenes; gesto de pianista em plena execução; gesto - quando caem agarradas pelo pulso, uma boca acima e outra boca abaixo - de preso que levam algemado ao presídio; mas em geral envergonham-nos, tomando uma atitude lastimosa de pedir esmola, sobretudo quando as pomos nas mesas dos cafés. ..."

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

5 greguerías curtas e bem dispostas


1. O espantalho assemelha-se a um espião fuzilado.
2. A idiossincrasia é uma enfermidade sem especialista.
3. Os eucaliptos têm sempre a camisa desabotoada.
4. Às doze os ponteiros do relógio apresentam armas.
5. O que põe a baleia mais danada é chamarem-lhe cetáceo.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Umas quase greguerías, de João Guimarães Rosa


A mesma prodigiosa imaginação, sentido de humor, domínio de palavras, inteligência que assistia a Ramón Gómez de la Serna, na criação das suas greguerías, podemos encontrá-los nos postulados do final do primeiro prefácio de "Tutaméia" (1967), de João Guimarães Rosa (1908-1967). Dos vários, escolhi 5:

- Os dedos são anéis ausentes?
- O ar é o que não se vê, fora e dentro das pessoas.
- Entre Abel e Caim, pulou-se um irmão começado por B.
- Há uma rubra ou azul impossibilidade no roxo.
- Se viemos do nada, é claro que vamos para o tudo.

domingo, 28 de julho de 2013

Uma dúzia de greguerías ramonianas


1. No mais alto e íntimo da noite compreende-se que os faróis vivam para si mesmos.
2. Há umas nuvens que são como novelos de penas escapadas ao colchão do céu descosido por algum lado.
3. O moscardo recorre a todos os claustros da casa ressoando como um frade desesperado.
4. Quando as botas soam no vazio é que a alma está muda.
5. É uma comovente cena filial a do ciclista que se agarra à traseira de um automóvel.
6. Os anjos da guarda dos músicos deviam ser eles a passar-lhes as folhas da partitura.
7. As costelas não servem senão para localizar as dores. «Dói-me entre esta e esta.» São a pista para o diagnóstico.
8. Todos temos cara de palhaços ao ensaboarmos a cara.
9. Para que o cabelo volte a crescer não há outro meio senão fazer uma viagem pelo peloponeso.
10. Os aplausos têm algo de parecido com as costeletas: muito osso e pouco que comer.
11. Panaceia é a cesta do pão.
12. Quando a mulher pede salada de fruta para dois, aperfeiçoa o pecado original.

sábado, 13 de julho de 2013

3 greguerías ramonianas para o fim-de-semana


1. O melhor das estátuas jacentes é que não é preciso fazer-lhes as camas todos os dias.
2. Era um homem sofrido e calado que tinha nuca de figo seco.
3. As pombas tornam claro que o amor é um queixume incessante.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

As razões díspares do riso e do sorriso


Não deixa de ser curioso constatar como coisas, tão diferentes na sua origem, podem provocar uma mesma sensação no indivíduo receptor.
As greguerías de Ramón Gómez de la Serna têm origem intelectual numa mente privilegiada em cultura, inteligência, imaginação filológica e verbal de associação, e também de fino humor. Quando as leio, não posso deixar de me rir ou, pelo menos, de sorrir.
Num paralelismo insólito e aberrante, provindas da pouquidão mental de alguns cibernautas com cabeças desarrumadíssimas e um grau avançado de iliteracia galopante, chegam ao Blogue, frequentes search words hilariantes e desconexas. Atente-se nestas duas últimas, bem recentes:
- "bribiografia espresso particaalfredo amilcar escher".
- "cancan comeca na na ra ra  na na macrtey".
Como é que eu não podia deixar de me rir às gargalhadas?