Nunca consegui ver (ou ler) explicado esse estranho contágio simpático que, às vezes, se estabelece entre nós e os sons de uma língua desconhecida, que nem sequer entendemos. Será talvez da mesma natureza da empatia que experimentamos por uma ária, uma melodia, um trecho musical que, feitos apenas de sons, sem representação ou equivalente material, nos seduzem, misteriosamente. Assim se poderá explicar, por exemplo, o sucesso estrondoso que Amália Rodrigues teve no Japão, há muitos anos atrás; ou, mais recentemente, um idêntico sucesso, dos Madredeus, nesse mesmo país asiático. Perante plateias que, na sua quase totalidade, não dominavam a língua portuguesa.
Eu próprio experimentei essa adesão afectuosa (ou hipnótica), também, em 1967 (1968?), ao ouvir Yevtushenko (1932), no Capitólio (ou terá sido no Maria Vitória?), em Lisboa, declamar Babi Yar e A Cidade do sim ea cidade do não, na sua voz vibrante e em russo, em que apenas o sim e o não me eram perceptíveis. O mesmo que me acontece, por vezes, quando ouço Mikis Theodorakis a cantar, em grego, e a dirigir uma orquestra. Aqui, no entanto, também a gesticulação contribui para o encantamento. Como se o movimento dos gestos, prolongasse o corpo, e os seus fios finíssimos e invisíveis, amarrassem outros corpos, de forma sedutora e fatal. Será a isto que se chama carisma?
O vídeo, embora de fraca qualidade, reproduz um pequeno excerto do primeiro concerto de Theodorakis, em liberdade, depois da ditadura dos coronéis, na Grécia. Festa e electrizante alegria...
...apesar da voz cava e enrouquecida de Theodorakis, compensada pela sonoridade lírica de Dalaras. E a presença de Irene Papas, na assistência. Porque os nossos cantautores da Resistência estão (quase) todos mortos, amesendados ou reformados, e internados...