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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Mais um poema de Eugenio Montale


Para rematar

Recomendo aos meus descendentes,
(se é que os tenho) no campo literário,
o que parece pouco provável, que façam
uma bela fogueira de tudo o que disser
respeito à minha vida, do que fiz e não fiz.
Não sou um Leopardi, deixo pouco para arder
e já é muito viver à percentagem.
Vivi a cinco por cento, não aumenteis a dose.
Muito a miúdo, em troca, chove
no molhado.

para matar a curiosidade de c. a..

domingo, 12 de agosto de 2012

Diversos planos, ou por outros olhos


Não é grande a minha experiência de tribunais. Creio que conheci, ao longo da minha vida, apenas 4 ou 5 salas de julgamento. A disposição do espaço obedece a, pelo menos, 2 níveis, que o arquitecto da obra, logo de início, deverá ter tido em consideração, ao fazer a maqueta.
Mas, até psicologicamente, a visão que têm o réu, a(s) testemunha(s), o juiz ou juízes, os advogados de acusação e defesa hão-de ser muito diferentes, entre si, em relação a este espaço de debate, decisão e justiça. Escuso-me a imaginá-los, ou avançá-los.
Agora, a visão que pode ter um cineasta é que pode ser única e muito singular. E não resisto a transcrever as palavras do realizador português Fernando Lopes (1935-2012) sobre como via esse espaço. Disse ele:
"...Uma coisa é curiosa: existem dois olhares num tribunal. Explico isto cinematograficamente: os juízes estão no topo, num palco. Do ponto de vista cinematográfico, os juízes têm o plangê, ou seja, têm o olhar de Deus por cima deles e olham para baixo, para os outros. Os advogados e os acusados olham de baixo para cima para os juízes. Nunca se olha à altura do homem. ..."

com agradecimentos a c. a..

terça-feira, 22 de novembro de 2011

6 motivos para 1 cenário


O melro negro que, do mármore branco,  vai para a chaminé.
Uma leitosa neblina sobre o rio.
A gaivota sobrevoando, alta.
Um fiozinho de música que vai pela manhã, como uma voz sem sílabas.
Alguém que se debruça na janela, para ver o rio.
O melro que levanta, em direcção ao dia.

para c. a., que gosta de melros. A cantar.

sábado, 17 de setembro de 2011

Carta de alforria para os melros


Pequenas coisas ou aptidões podem salvar uma vida. Nos campos de concentração nazis, por exemplo, houve judeus a quem pouparam a vida, por serem bons músicos e para continuarem a tocar.
No anterior Governo- soube por intermédio de c. a.- foi alargado aos melros o regime de caça. Até aí era proibido caçar estes Turdídeos. É certo que a população dos melros tinha crescido muito, em Portugal, até mesmo nas cidades. Mas, quando foi publicada a autorização legislativa, houve um côro de protestos civis e de associações - mesmo assim, o governo de Sócrates não emendou a mão, nem arredou pé.
Recentemente, o novo Governo revogou a lei, e bem. Seja isto levado em conta positiva, para as muitas medidas negativas que tem tomado em relação aos humanos animais...
Terá pesado (quem sabe?) na decisão o cantar melodioso dos melros que, tanta vez alegra os jardins e praças das cidades, provavelmente também. Mesmo assim, com a crise e fome escondida que aí anda, será conveniente que estas aves de bico amarelo e andar furtivo se mantenham longe dos humanos, não vá o diabo tecê-las. E que não façam como os atrevidos pardais que quase debicam os nossos sapatos, ou as ousadas pombas. Seja como for, pintassilgos, melros e canários!, continuai a cantar no vosso tom melodioso e agradável, pois assim, talvez eviteis as balas mortíferas dos caçadores e a impiedade de algum ministro. Quanto aos tordos, rolas e perdizes, creio que não há nada a fazer...a menos que aprendam música nalgum Conservatório.

sábado, 30 de julho de 2011

Pelo aniversário de c. a.


Albatroz

Frente à janela o velho marinheiro
Sonha com baleias que navegam pela alma
E que o seu olho feroz não arpoou.
O seu coração é na verdade um único
Cemitério marinho. Não o do poema.
O que viaja nessa pequena vaga
Que lhe circula, lentamente, pela face.

Ómar Ortiz

Nota: expresso, ou não, cada poema traz em si um legado, uma herança de referentes, para além do seu impulso original e pessoal. Pela tradução deste poema de Ómar Ortiz (Bogotá, 1950) se podem notar vários ascendentes: Coleridge ("A rima do Velho Marinheiro"), "O Cemitério Marinho" de Valéry; e, porventura, o capitão Ahab do romance de Melville. As ilhas, em Arte, são uma ficção imperfeita.

para c. a. , com parabéns. 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Bibliofilia 41 : Irene Lisboa



É uma autora de culto, de alguns "happy few", a Irene Lisboa. Escritora singular, com um modo de ver as coisas, pessoalíssimo, na prosa. A sua poesia é única, e tenho imensa dificuldade em classificá-la. Com uma "paixão fria" de Escorpião ( dizem os astrólogos, a propósito deste signo), embora ela seja uma capricorniana.
Usou, entre outros, os pseudónimos de João Falco e Manuel Soares (este último que, duplamente, me sensibiliza), numa altura portuguesa em que as meninas lusas e as mulheres costumavam saber francês e tocar piano. Para além dos bordados. As situações, na realidade, não se modificaram assim tanto, nestes últimos anos - substitua-se apenas o francês pelo inglês, para além de pequenos ajustamentos de mentalidades.
Este "O Pouco e o Muito (crónica urbana)", de Irene Lisboa, comprei-o, há menos de 10 anos, ao meu amigo Bernardo Trindade, por 12,00 euros. Mas é único, porque tem dedicatória da Autora, que era parca a escrevê-las.

para c. a., na oblíqua, com Amizade.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O castanheiro de Anne Frank, como motivo


O "Diário de Anne Frank" publicado pelo pai, em 1947, que foi o único sobrevivente da família - morta em campos de concentração - , foi um livro de leitura transversal a muitos jovens, e das obras mais traduzidas no mundo. Em Portugal, traduziu-o Ilse Losa, para a Livros do Brasil.
Na ausência de notícias mais importantes, o jornal "Público" de hoje, na última página, destaca e refere a morte definitiva e queda, motivada por uma tempestade em Amesterdão, do castanheiro secular que Anne Frank, quando escondida com a família, num sótão, para escapar aos nazis, via da sua janela. Fala dele, aliás, algumas vezes, no seu diário ("O castanheiro está coberto de flores e acho-o ainda mais belo do que no ano passado", 13/5/1944). Na sua existência limitada e claustrofóbica, em plena adolescência, era um sinal de beleza e mudança.
As árvores foram sempre portadoras de esperança, tiveram valores simbólicos e eram, muitas vezes, sinal de estabilidade e permanência na mudança (vida/morte), ao olhar humano, e apoio à imaginação devota. Da árvore de Jessé à figueira de Judas, do carvalho de Guernica (que inspirou a Wordsworth, em 1810, um poema: "Oak of Guernica! Tree of holy power..."), resistente ao bombardeamento de 1937, até à oliveira da Colegiada de Guimarães; do olmo de Antonio Machado ("Al olmo viejo hendido por el rayo / y en su mitad podrido...") à azinheira de Fátima, as árvores perpetuam-se no coração dos homens. Ou na adolescente e vibrante esperança de Anne Frank. Mas os homens envelhecem e morrem, algumas árvores conseguem ser centenárias e, mesmo, milenares. Parecem eternas aos homens, ou para usar palavras e lembrar Sá de Miranda:

"...Eu vira já aqui sombras, vira flores
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d' amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu fiz doutras cores;
e tudo o mais renova: isto é sem cura."

P. S.: para c. a., que anda a reler Sá de Miranda. E faz muito bem.