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segunda-feira, 27 de julho de 2020

Pequena história (57)


O episódio singular vem descrito a páginas 234/5 da obra René Char (Tempus, 2013), de Laurent Greilsamer. Se eu tivesse que lhe dar um título individualizado, pôr-lhe-ia: Uma noz medieval...
Por volta de 1942/3, o poeta René Char (1907-1988), com o nome de guerra Alexandre, comandava, na zona de Ceréste, um grupo da Resistência francesa, contra os nazis ocupantes.
Precisavam na região de um terreno discreto e favorável a aterragens de pequenos aviões, vindos de Inglaterra, que pudessem vir descarregar provisões e armas, ou até trazer e levar resistentes.
Conseguiram escolher o local ideal, pertencente a um quinteiro da região. Havia porém um problema: uma centenária e frondosa nogueira ocupava o centro do desejado e futuro "aeroporto".
Após aturados esforços lá conseguiram convencer o quinteiro, que lhes tinha arrendado o referido espaço, a consentir que deitassem abaixo a produtiva e longeva árvore de fruto.
Demos, então, a palavra a Laurent Greilsamer:
"...Le lendemain, Alexandre remonte sur le plateau avec une équipe pour s'attaquer au noyer. Ils dégagent la base de l'arbre, cherchent la racine majeure et finissent pour isoler une épaisse liane qu'ils suivent sur une dizaine de mètres. À son extremité repose... la dépouille d'un guerrier dans son armure!
Char jubile. Quel histoire! ..."
Séculos depois, a noz, que o guerreiro tinha guardada na sua algibeira, produzira frutos.

domingo, 23 de junho de 2019

Pequena história (56)

Em grande parte das corporações,  no seu interior, existem alguns ninhos de lacraus, que segregam um humor corrosivo, mas original...


No seu Journal, Julien Green (1900-1998) refere que André Gide (1869-1951) lhe teria dito de Paul Claudel (1868-1955), que ele "era um cavalheiro que achava que poderia ir para o céu em carruagem de primeira classe."


Cerca de 4 meses depois Claudel, ao saber dessa tirada de Gide, terá retorquido : "Esse Gide bem poderá ir para o inferno, de metropolitano."

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Pequena história (55)



Previno, desde já, que esta é uma canção romântica... E que terá interpretações mais benévolas ou delicodoces, para alguns, como são as versões de Lara Fabian ou Bocelli. Ou mais profissional e clássica, na voz de Pavarotti.
Mas eu prefiro-a na voz agreste de Lucio Dalla (1943-2012), até porque o cantor foi o seu criador inicial. Acontece que Dalla, em 1986, se hospedou, em Sorrento,  no Excelsior Vittoria Hotel. E, por mero acaso, foi-lhe dado o quarto onde Enrico Caruso (1873-1921) teria pernoitado, há mais de 60 anos. Inspirado por esse facto e em homenagem ao grande cantor de ópera, Lucio Dalla compôs a canção que, por vezes, também é intitulada: "Te voglio bene". O vídeo, que ora se apresenta, ficciona, razoavelmente, este acontecimento.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Pequena história (53)


Nem todos os modelos de pintores ou escultores são conhecidos. Há muitos corpos anónimos e rostos sem nome que ocupam lugares destacados em museus e galerias de arte, por esse mundo fora, mas de quem nada ou quase nada sabemos, hoje. Muito menos, das suas vidas.
Edgar Degas (1834-1917) dedicou uma boa parte da sua obra escultórica (e de pintura) à Dança, actividade artística que ele muito apreciava. Uma das suas mais conhecidas esculturas, Petite danseuse de catorze ans, exibida, em 1881, pela primeira vez, teve fraca adesão do público e da crítica. Hoje, porém, é uma das suas esculturas mais célebres, e consideradas.


Os esboços preparatórios para a execução da obra foram muitos. Sempre tendo como modelo uma jovem bailarina e, às vezes, uma sua irmã, filhas ambas de emigrantes belgas; a primeira, de nome Marie Geneviève van Goethem (1865-1900) que trabalhava no corpo de ballet da Ópera de Paris.


Os tempos frequentes que ela dedicava a posar para Degas, obrigavam-na a faltar, muitas vezes, aos ensaios na Ópera. De tal modo que, pouco tempo depois da escultura estar terminada, a pequena bailarina foi despedida.

Para além de uma foto conjunta de Marie Geneviève, junto da escultura para que serviu de modelo, pouco mais se sabe da sua vida que, aliás, foi breve e obscura.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Por um triz...


É errado pensar-se que as maiorias têm sempre razão. Bem como imaginar que as autoridades instituídas decidem sempre da melhor forma, em relação aos interesses da comunidade. Mas, às vezes, ainda que por pouco, a decisão é acertada...
Em 1910, o Castelo de Guimarães apresentava o estado de degradação e ruína que a imagem acima ilustra, de forma flagrante.
A edilidade republicana, por sugestão de um dos vereadores, em 1911, em sessão camarária abordou a hipótese de deitar abaixo o Castelo e aproveitar as pedras para calcetar as ruas de Guimarães, em nome do progresso e modernização...
Foi-se a votos. Venceu por 6 a 5 vereadores, a facção que defendia a manutenção das ruínas e fazer-se um esforço orçamental para tentar dar-lhes um aspecto mais condigno.
Por um triz, a História ganhou.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Pequena história (52)


A morte toca, quase sempre, a rebate. Menos a nossa. Mas a daqueles que nos dizem alguma coisa. Ainda que a agonia se prolongue e nos anestesie, o súbito desenlace provoca-nos um frémito de emoção redobrada, inesperado.
O funeral de Victor Hugo teve uma multidão de acompanhantes. Por cá, o mesmo se passou com os cortejos fúnebres de Guerra Junqueiro e João de Deus. Mas não são só os poetas que despertam a comoção genuína dos povos.
Há um gesto bonito acontecido com os últimos dias de Verdi (1813-1901). O compositor estava hospedado em Milão, no Grande Hotel, quando sofreu um AVC, a 21 de Janeiro. Esteve acamado até 27/1, data em que faleceu. Os milaneses, logo que souberam e entretanto, instalaram-se na rua do hotel e avisavam todas as carruagens para que não buzinassem. E atapetaram o empedrado com palha, para que as patas ferradas dos cavalos, ao passar, não perturbassem o sossego do Compositor moribundo.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Pequena história (51)


Sendo muito conhecido, o quadro Guernica, de Pablo Picasso (1881-1973), é talvez comparável, em notoriedade, à célebre Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Enquanto este último tinha, no entanto, um objectivo individualizado, como retrato, o primeiro foi executado (1937) para exprimir a revolta por um massacre colectivo, perpretado pela aviação nazi, em apoio de Franco.
Sem absoluta garantia de veracidade, há um pequeno episódio associado à pintura, referido por várias fontes, nomeadamente, pelo crítico literário inglês V. S. Pritchett (1900-1997), que o conta, num trabalho que escreveu, a propósito de Goya, incluido em The Complete Essays (Chatto & Windus, 1991).
Assim: durante a ocupação de Paris, em 1940, um oficial nazi, de visita ao estúdio de Picasso, ao contemplar Guernica, terá perguntado - Vous avez fait ça, n'est-ce pas? Ao que o Pintor terá respondido: Non, monsieur, c'était vous.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Pequena história (50)


Em 1939, o escritor norte-americano Raymond Chandler (1888-1959) publicou o seu romance negro The Big Sleep que, em português, veio a ter o título de: "À Beira do Abismo". O realizador Howard Hawks resolveu adaptá-lo ao cinema, tendo concluido o filme em 1946. A película não teve boa crítica e, na altura, nem foi grande sucesso de bilheteira. Apesar do elenco distinto (Humphrey Bogart e Lauren Bacall) de bons actores e da importante colaboração de William Faulkner na adptação ao cinema do livro de Chandler. No entanto, com o tempo, a película ganhou notoriedade consistente e é, hoje, considerado um dos cem melhores filmes norte-americanos.
Diz-se que o enredo original (do livro) era um pouco atabalhoado e pouco claro, nalgumas cenas. De tal modo que Faulkner e Hawks, assoberbados com dúvidas, tiveram que perguntar a Chandler, entre outras coisas, se uma das personagens secundárias era assassinada ou se suicidava. Ao que o escritor teria respondido, confuso: Dammit I did'nt know either!*

* : Raios, nem eu sei.

sábado, 3 de março de 2018

Pequena história (49)


Francis Ford Coppola (1939) sempre sonhou em grande, mas os seus projectos fizeram-no pagar altos preços, pela sua concretização. A fundação dos estúdios American Zoetrope (1969) foi seriamente abalada pela construção, in loco, de uma Las Vegas simulada, para filmar One from the Heart (1982).
Mas, já antes, em 1979, a decisão, contra todos os conselhos, de ir filmar nas Filipinas o Apocalipse Now se revelou um desastre financeiro. Os problemas, durante as filmagens, foram tantos e os percalços tão inesperados, que a equipa, entre si, passou a chamar ao filme: Apocalipse Never...

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Um notável trocadilho, ou uma brevíssima história


Christian Ivaldi (1938), polifacetado pianista francês, muito conceituado pelo trabalho desenvolvido, é um homem discreto, humilde da sua arte, mas inteligente.
Conta-se que, ao ser apresentado a alguém, provavelmente colega de profissão e que ele muito prezava, terá dito: "Não lhe aperto a mão, porque a minha está cheia de notas falsas."

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Pequena história (46)


O Festival de Cinema de Cannes celebra este ano a sua edição 70. Por isso, L'Obs (nº 2740) dedicou ao acontecimento seis páginas, com depoimentos de vários cineastas que ganharam a Palma de Ouro. Lembra também, a revista francesa, alguns dos realizadores agraciados, como por exemplo: Emir Kusturica (Underground), Quentin Tarantino (Pulp Fiction), Martin Scorcese (Taxi Driver). O cineasta francês Claude Lelouch (1937) foi também premiado com a Palma de Ouro, em 1966, pelo seu filme Un homme et une femme, partilhando o galardão com o italiano Pietro Germi (1914-1974).
O realizador francês, no seu depoimento a L'Obs, refere que François Truffaut o felicitou efusivamente, na altura, dizendo-lhe também: Vous êtes l'enfant de la Nouvelle Vague qui a le mieux grandi, j'aimerais qu'on fasse un numero spécial sur vous dans les "Cahiers du cinema". Mas Lelouch não gostou de se ver perfilhado e retorquiu-lhe: Je suis ravi, mais je ne suis pas un enfant de la Nouvelle Vague. Ao que Truffaut lhe respondeu, algo irritado: Vous avez la grosse tête. Uma semana depois, o crítico Jean-Louis Comolli, em artigo nos Cahiers du Cinema, arrasava o filme de Claude Lelouch, pela negativa...

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Pequena história (45)


Na verdade, era apenas uma aguadilha turva, onde boiavam uns filamentos esbranquiçados, um pouco mais consistentes. Mas quando o Engenheiro recebia, do seu amigo Palma, o cestinho alentejano de primores, era o almece que ele procurava e, encontrando-o, se enchia de prazer. Foi assim, uma vez, em casa do Engenheiro, que às Paiolas rotundas e às Mouras, passando pelas alongadas linguiças, pelos enchidos e queijos de Serpa recebidos, ele preferia e procurava, afanosamente na cordial encomenda, esse sub-produto do leite, sobremesa de pobres, com que eu tomei contacto, pela vez primeira, denominado almece (alentejano).
Recorra-se a José Quitério (1942), para melhor o caracterizar: "...Quando se julga já escorrido todo o soro (com o qual se fará «almece», comido com açúcar amarelo e sopas de pão, ou requeijão) e se dá por terminada esta fase, coloca-se sobre cada queijo..."
A fazer fé, ainda, na sabedoria livresca, chama-se Barriga de Almece ao indivíduo de ventre proeminente que se péla pelo dito. E era assim que o Engenheiro era crismado, pelos detractores, lá nesse Escritório lisboeta.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Pequena história (44)


Não me será difícil, ao serem-me perguntados nomes de políticos e chefes de estado europeus, eu avançar vários de uma boa parte das nações. Exceptuando, talvez, da asséptica Suiça. Não sei, porém, se o facto deva ser considerado como positivo ou negativo.
Não me admirou, por isso, um episódio ou bronca acontecida com Valéry Giscard d'Estaing (1926), numa altura em que ele era Presidente da República Francesa. Tendo que se deslocar, de helicóptero, aos Alpes Suiços, por uma questão de cortesia, remeteu via rádio, cumprimentos ao presumível presidente da Confederação helvética, Nello Celio (1914-1995), que tinha sido seu colega, anteriormente, como ministro das Finanças suiço.
Já em França e bastante mais tarde, viria a saber que Nello Celio deixara de exercer essas funções há mais de 2 anos...