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domingo, 21 de setembro de 2025

Curiosidades 114

 

Não é caso único, e Jean Cocteau é também um bom exemplo, de um escritor de talento que abordou cumulativamente as artes decorativas, com algum sucesso. Refiro-me a Victor Hugo (1802-1885) que deixou cerca de 3.000 desenhos, feitos sobretudo no seu período de exílio (1852-1870) nas ilhas de Jersey e Guernsey.
Grande parte desta sua obra abrange cenas nocturnas com pendor gótico. Cerca de 70 trabalhos de Victor Hugo foram expostos com agrado público, recentemente, na Royal Academy (Londres).




segunda-feira, 3 de junho de 2024

Citações CDLXXXVI



  A música, é o barulho que pensa.

Victor Hugo (1802-1885), in Fragments.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Divagações 187



A igreja, às vezes depois de séculos de beatitude, elege os seus santos pelas suas virtudes e milagres. O comum da terra, as suas ou os seus divinos predilectos para adoração laica. Anda por aqui uma intrínseca necessidade de paixão abstracta, talvez necessária ao viver tranquilo.
Assim como a acamada Alexandrina de Balazar, Sarah Bernhardt (1844-1923) foi cega adoração do populacho, mas também de elites: Victor Hugo e Alfons Mucha, por exemplo. E Nadar fotografou-a muitas vezes, com desvelo e atenção profissional.
Os seus últimos sete anos de vida viveu-os a artista francesa com apenas uma perna, um único pulmão e um só rim. Ainda assim consta fidedignamente que se incorporaram 400.000 acompanhantes fervorosos no seu funeral majestoso.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Citações CDLV



Os navios são como as moscas na teia de aranha que é o mar.

Victor Hugo (1802-1885), in L'homme qui rit (1869). 

terça-feira, 14 de maio de 2019

Curiosidades 74


De Victor Hugo (1802-1885), quem se interessa por literatura, sobretudo francesa, saberá decerto o essencial. Se o escritor foi sucinto e simples no título de uma das suas obras mais conhecidas (Notre-Dame), nas traduções é rara a língua em que não lhe acrescentaram um apêndice espúrio, denominando-a "O Corcunda de Notre-Dame". Assim aconteceu, e acontece, na versão inglesa, por exemplo, e nas traduções em português. Talvez por pensarem as editoras que a obra seria assim mais apelativa para o potencial leitor estrangeiro.
O romance foi publicado em França, no ano de 1831. Victor Hugo - talvez nem toda a gente o saiba -, ocasionalmente, pintava. É desse mesmo ano (1831), um desenho-pintura a carvão de Notre-Dame. Se o fez antes ou depois de escrever o referido romance, é que eu, com rigor, não o posso dizer. Mas inclino-me para a primeira hipótese, no sentido de ter um apoio inspirador e concreto para essa obra.


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Pequena história (52)


A morte toca, quase sempre, a rebate. Menos a nossa. Mas a daqueles que nos dizem alguma coisa. Ainda que a agonia se prolongue e nos anestesie, o súbito desenlace provoca-nos um frémito de emoção redobrada, inesperado.
O funeral de Victor Hugo teve uma multidão de acompanhantes. Por cá, o mesmo se passou com os cortejos fúnebres de Guerra Junqueiro e João de Deus. Mas não são só os poetas que despertam a comoção genuína dos povos.
Há um gesto bonito acontecido com os últimos dias de Verdi (1813-1901). O compositor estava hospedado em Milão, no Grande Hotel, quando sofreu um AVC, a 21 de Janeiro. Esteve acamado até 27/1, data em que faleceu. Os milaneses, logo que souberam e entretanto, instalaram-se na rua do hotel e avisavam todas as carruagens para que não buzinassem. E atapetaram o empedrado com palha, para que as patas ferradas dos cavalos, ao passar, não perturbassem o sossego do Compositor moribundo.

sábado, 14 de março de 2015

Pena de Morte


Talvez nem todos saibam que Portugal foi o segundo país do mundo a abolir a pena capital, em 1867, depois do Ducado da Toscânia (1786). A iniciativa partiu do deputado liberal António Aires de Gouveia, mais tarde, bispo de Betsaida, e teve legislação a consagrá-la com a assinatura do Ministro da Justiça, Manuel Baptista. A França foi o último país da, então, U. E. a abolir a pena de morte, já só em 1981, durante o consulado de François Miterrand.
Mas durante todo o século XIX e parte do XX, houve várias personalidades, em França, que defenderam essa medida, embora sem resultados. Uma das primeiras figuras a fazer campanha pela abolição, foi o escritor Victor Hugo (1802-1885). Era conhecida a sua posição, pelo mundo fora. Daí que, logo que a legislação foi aprovada, em Portugal, o jornalista Eduardo Coelho, director do Diário de Notícias, por carta, tenha dado a conhecer a Victor Hugo a feliz notícia.
O grande escritor francês, apressou-se a responder, assim:
"Sr. Eduardo Coelho: - Está, pois, a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. Penhora-me a recordação da honra que me cabe nessa vitória. Humilde operário do progresso, cada novo passo que ele avança me faz pulsar o coração. Este é sublime. Abolir a morte legal deixando à morte divina todo o seu mistério, é um progresso augusto de entre todos. Felicito o vosso parlamento, os vossos pensadores, os vossos escritores e os vossos filósofos! Felicito a vossa nação. A Europa imitará Portugal.
Morte à morte! Guerra à guerra! Vida à vida! A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos cidadãos.
Aperto-vos a mão como ao meu compatriota na humanidade. - Vítor Hugo."

Nota: a tradução, da carta de V. Hugo, pertence a João de Araújo Correia (1899-1985), e encontra-se no seu livro Passos Perdidos (Portugália, 1967) - aqui referido recentemente - nas páginas 161/2.

domingo, 4 de maio de 2014

Citações CLXXIII


Deus não fez senão a água, mas o homem fez o vinho.

Victor Hugo (1802-1885), in Les Contemplations.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A par e passo 71


Como viveram até aqui, então, poetas, filósofos, artistas, todos os nossos pequenos fabricantes daquilo que faz o orgulho da raça humana? Eles viveram como puderam viver. Viveram graças à imprecisão do mecanismo económico, e um, muito mal, o outro bastante bem: Verlaine de expedientes e de esmolas; enquanto Victor Hugo deixou milhões... Destes pequenos artífices domésticos, há os que fizeram fortuna e outros que se afundaram na bancarrota; grande parte deles foi vivendo de trabalhos laterais: era preciso que a lira tivesse várias cordas.

Paul Valéry, in Regards sur le Monde actuel (pg. 248).

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A par e passo 70


Atentemos, então, no autor de uma obra. A que se assemelha a condição deste trabalhador?
Na verdade, a literatura, tal como ela é, aproxima-se singularmente de alguns destes trabalhos feitos em casa, como existem ainda tantos em Paris; e ela será assim mais um por vários aspectos. O poeta faz-nos pensar nesses pequenos industriais engenhosos que fabricam, tendo em vista o Natal ou a passagem do Ano, brinquedos notáveis pela invenção, pela surpresa organizada e que são feitos com materiais de acaso. O poeta fundamenta os seus na linguagem normal. É belo evocar o céu e a terra, imaginar tempestades, reanimar as nossas emoções, sugerir tudo aquilo que há de mais delicioso ou de mais trágico no íntimo dos seres, dispor da natureza, do infinito, da morte, dos deuses e da beleza, e ele não é menos, aos olhos de um observador dos seus feitos e dos seus gestos, que um cidadão, um contribuinte, que se encerra a determinada hora do dia, com um caderno de páginas em branco, e que o vai preenchendo, por vezes silenciosamente, outras vezes dando-lhe voz, e andando ao mesmo tempo no espaço entre a porta e a janela. Até 1840, um Victor Hugo é um autor muito lido que habita burguesmente um apartamento no Marais; paga o seu alojamento, os seus impostos: é um produtor modelo. Mas o que é que ele faz? O que produz? E qual é o tipo da sua indústria? O mesmo observador, friamente exacto, constatará que os produtos desta pequena indústria têm um valor variável, tão precário como aqueles do fabricante de brinquedos, que trabalha, também ele, em sua casa, a dois passos dali, na rua dos Archives ou na rua Vieille-du-Temps.
Mas este valor, o que sairá das mãos do poeta, é complexo, é dúbio, e, nos dois casos, ele é essencialmente incerto.

Paul Valéry, in Regards sur le Monde actuel (pgs. 245/6/7).

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Reno, segundo Victor Hugo

Algum estranho encanto o Reno terá exercido sobre Victor Hugo (1802-1885), para ele o superlativizar tanto, mesmo no confronto com rios franceses. Não sei donde virá este louvor, na obra de Hugo, porque a referência vem num guia turístico (Bords du Rhin, 1909?), em língua francesa. Assim segue, em tradução:
"O Reno reúne tudo; é rápido como o Loire, serpenteia como o Mosa, tão tortuoso como o Sena, límpido e verde como o Somme, histórico como o Tibre, real como o Danúbio, misterioso como o Nilo, com palhetas de ouro como um rio da América, coberto de fábulas e fantasmas como um rio da Ásia."

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Favoritos XXXVI : Abílio Manuel...



...Guerra Junqueiro, nascido a 17 de Setembro de 1850, foi, há muito tempo, com António Nobre, o meu primeiro (ex-aequo) poeta favorito. O único livro de Poesia da biblioteca (pequeníssima) de meu Pai era "Os Simples", 9ª edição, de 1924. Foi o nosso Victor Hugo, que até no funeral teve um acompanhamento numerosíssimo de gente anónima e de povo. Hoje, com alguma dificuldade, ainda lhe encontro alguns versos de um lirismo quase naif, tocante na sua simplicidade ingénua e, provavelmente, genuína:

...E a dos olhos garços pastorinha bela
Fia no seu fuso linho por corar;
É trigueiro o linho, trigueirinha é ela...
Rodopia o fuso...quando for donzela,
Já terá camisas para se ir casar!...

E esse fuso alegre onde se enrosca o linho
Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas;
Deu já cachos brancos como o branco arminho,
Já sobre ele a ave construiu seu ninho,
Já sobre ele amando palpitaram asas!...

Fuso, como giras em dedinhos breves
Prasenteiramente, com tão louco ardor!
Que estarás fiando?...que enxovais?...que neves?...
Se serão camisas, ou mortalhas leves,
Cama para bodas, ou lençóis de dor!...


P.S.: para MR que, se bem me lembro, de quando em vez relê Junqueiro.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Curiosidades 10 : Apetites franceses


Além da sua célebre gastronomia e vinhos, a França é também a pátria de François Rabelais, autor de "Pantagruel" que, por sua vez, veio a dar nome ao, talvez, mais conhecido livro de receitas português - "O livro de Pantagruel", que já ultrapassou as 50 edições. Foram seus autores: Bertha Rosa-Limpo, Jorge Brum do Canto e Maria Manuela Limpo Caetano. Mas era de França que estavamos a falar e dos seus comeres. Para que conste, vamos dar, de dois dos seus mais ilustres filhos, as preferências culinárias:
1. Napoleão (1769-1821) detestava a carne em sangue e era doido por frango de fricassé, a que chamaram "Marengo". Gostava também imenso de almôndegas de aves, de "vol-au-vent", de empadões de peixe; e tinha um fraco por macarrão à italiana com queijo parmesão.
2. Victor Hugo (1802-1885) tinha um apetite homérico. Nunca descascava uma laranja: trincava-a e comia-a com casca. Mastigava igualmente a crosta das lagostas. Devorava, facilmente, ele sozinho, uma perna de carneiro e costumava dizer: "O peru é um animal ridículo; é talvez demasiado para uma pessoa só, mas não chega para duas."

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mais um Poeta : João de Deus



Algarvio, João de Deus (1830-1896) foi um pouco, e à boa maneira portuguesa, antes de Guerra Junqueiro, uma espécie de Victor Hugo nacional, na devoção que o povo lhe consagrava. Teve honras de ser sepultado, até, no Panteão Nacional, tal era a popularidade e respeito que despertava. Era um homem bom. Por outro lado, quando jovem, teve nos estudos um percurso coimbrão errático de boémia, tendo levado 10 anos para se formar. O "Jornal de Notícias", pouco antes do Poeta falecer, definiu-o assim:"...João de Deus é uma das personificações mais belas do nosso carácter peninsular; vivo e indolente, devaneador e apaixonado, crente e sentimental..." E não só. Quem conhecer as "Cryptinas", sabe do que estou a falar...

Mas as suas obras mais emblemáticas e conhecidas foram, e são, a "Cartilha Maternal" ( um método criativo e inovador, na época, para aprender a ler) e "Campo de Flores", livro de versos muito simples e límpidos que, pela frescura e naturalidade, ainda hoje se podem ler com muito agrado. Como se tivessem sido escritos por alguém, entre um Tolentino e um Nobre, actualizados. Aqui vai um pequeno exemplo:

Arrecebo

Indo-se a casar um gebo,
Que era gago e não podia
Pronunciar bem: Recebo,
Gaguejava e só dizia:
Arre...Arre...cebo...cebo...

Alguém supõe que o dizia
Com intenção. Não percebo.