Mostrar mensagens com a etiqueta Yevtushenko. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Yevtushenko. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de abril de 2017

Yevtushenko


Faleceu, ontem (1/4/2017), o poeta russo Yevgueni Yevtushenko que, sovieticamente, tinha nascido a 18 de Julho de 1932, na então U. R. S. S..
A poesia panfletária ou, melhor dizendo, comprometida, tem a virtualidade de arrastar emocionalmente todos aqueles que estão predispostos a aceitá-la a priori, do ponto de vista ideológico, lendo ou ouvindo a sua mensagem, sobretudo, em anos de extrema juventude. E, se for bem dita, o milagre ainda é maior: uma espécie de Fátima poética, superior e transcendente. Estou a lembrar-me do nosso grande diseur, da sua própria obra, Ary dos Santos.
Eu creio, criticamente, que Yevtushenko não era um poeta maior, mas tinha carisma e muita qualidade na sua declamação. Teatral e emotiva.  
Tive oportunidade de o ver e ouvir no Teatro Capitólio (Lisboa), ao vivo, em 1967, graças a um convite e insistência amiga de Mário Castrim. Babi Yar e a " Entre a cidade Sim e a cidade Não" (?), não conhecendo eu a língua russa, eram um milagre litúrgico, ditos por ele. Fiquei convertido. Nunca cheguei, no entanto, a perceber como ele conseguia ser o embaixador literário da U. R. S. S. e sair do país dos sovietes, naquela altura. Mas também, apresentado que foi por Fernando Assis Pacheco, nunca entendi como é que ele conseguiu entrar em Portugal, nesses tempos estadonovistas...
Seja como for, tão cedo, não irei esquecê-lo.

domingo, 12 de abril de 2015

Mistérios


Nunca consegui ver (ou ler) explicado esse estranho contágio simpático que, às vezes, se estabelece entre nós e os sons de uma língua desconhecida, que nem sequer entendemos. Será talvez da mesma natureza da empatia que experimentamos por uma ária, uma melodia, um trecho musical que, feitos apenas de sons, sem representação ou equivalente material, nos seduzem, misteriosamente. Assim se poderá explicar, por exemplo, o sucesso estrondoso que Amália Rodrigues teve no Japão, há muitos anos atrás; ou, mais recentemente, um idêntico sucesso, dos Madredeus, nesse mesmo país asiático. Perante plateias que, na sua quase totalidade, não dominavam a língua portuguesa.
Eu próprio experimentei essa adesão afectuosa (ou hipnótica), também, em 1967 (1968?), ao ouvir Yevtushenko (1932), no Capitólio (ou terá sido no Maria Vitória?), em Lisboa, declamar Babi Yar e A Cidade do sim e a cidade do não, na sua voz vibrante e em russo, em que apenas o sim e o não me eram perceptíveis. O mesmo que me acontece, por vezes, quando ouço Mikis Theodorakis a cantar, em grego, e a dirigir uma orquestra. Aqui, no entanto, também a gesticulação contribui para o encantamento. Como se o movimento dos gestos, prolongasse o corpo, e os seus fios finíssimos e invisíveis, amarrassem outros corpos, de forma sedutora e fatal. Será a isto que se chama carisma?