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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Memória 160

 


Este jovem, Armand Joseph Desire Roulin (1871-1945), filho  do chefe de correio de Arles e que teria cerca de 17 anos de idade, quando Vincent van Gogh o imortalizou por ter pintado o seu retrato, acabou por ficar na memória da arte. Do modelo e amigo do pintor holandês acabaram por restar 2 retratos, sendo que este em imagem integra o acervo do Museu Folkwang, de Essen (Alemanha).
O espaço imaginário que o retratado ocupa na imaginação de quem o vê, acaba por ser semelhante ao lugar de uma Mona Lisa ou da Bela Fornarina (Margherita Luti) pintada por Rafael. Eis o que uma obra prima consegue, perpetuando a existência virtual e referências existênciais do modelo retratado, para sempre. Ao menos, no espaço da cultura.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Pinacoteca Pessoal 205

 

Em Arles, na Fondation Vincent Van Gogh, e até 8 de setembro de 2024, estará aberta ao público uma exposição sob o título Van Gogh et les étoiles, com obras do próprio e vários outros pintores, com base nesta temática que tanto fascinou o artista holandês, desde 1888 (La Nuit etoilée), quadro que hoje se guarda no Museu d'Orsay. As duas outras obras pertencem ao MoMA e ao Museu Kröller-Müller, respectivamente.



Em registos bastante diferentes queria destacar porém mais duas pinturas da mostra referida: a primeira de Georgia O'Keeffe (A luz estelar da noite,  no lago George), de 1922, e o Azul do Céu, quadro muito singular de Vassily Kandinsky, realizado em 1927.


A perspectiva  de cada uma das obras testemunha a diversidade subjectiva da imaginação dos 3 pintores.

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Recomendado : noventa e sete



Não tenho a certeza sobre qual foi o primeiro grande pintor cuja obra me fascinou. Fra Angelico (1395-1455) ou Van Gogh (1853-1890)? Embora me incline para este último, através dum livro ilustrado (da Aster?) que comprei na minha juventude e folheei dezenas de vezes para contemplar as imagens dos seus quadros. 
Na sequência, não resisti portanto a este hors-série de Le Figaro, sobre o genial pintor holandês. Com 162 páginas em papel couché e um aparato gráfico de excepcional qualidade, só o posso recomendar, vivamente. Um pequeno óbice: o preço - 14,50 euros. Bem merecidos, aliás.


Nota: a imagem deste último quadro é o retrato da mãe do pintor, feito no ano de 1888, por Van Gogh.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Confusões



Há quem misture alhos com bugalhos nos postes. E junte Rieu com Van Gogh, por exemplo.
Uma imprudência desabusada.  Até na soberba da quantidade...
Mas é no que dá a cultura básica dos espalhafatosos, ao quererem alardear sabedoria.


sexta-feira, 14 de outubro de 2022

As pequenas javardas


 
Em cultura, estes dois primatas serão talvez primas afastadas da Greta nórdica. Tiraram o bacharelato em selvajaria e barbárie. Não chegaram a acabar o ensino primário de culinária e, por isso, não sabem cozinhar. Assim, para atingir e vandalizar os "Girassóis" (National Gallery), tela de Van Gogh, usaram dois enlatados de sopa de tomate da Heinz. 
Empresa que lhes agradeceu, patrocinou e lhes deu um subsídio, muito provavelmente para lhes pagar o custo da proeza cavernícola e da publicidade cultural reles (esta última parte do poste é que é uma fake news).

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Pinacoteca Pessoal 179


Há frases, livros, filmes que nos marcam na juventude e, ao primeiro encontro, nos ligam a um nome ou autor, nos verdes anos. São paixões fatais, embora eu não goste de abusar deste substantivo nem do adjectivo referidos atrás. O uso reiterado destes exageros mal medidos de sentimentos incontinentes só acaba por banalizar e desvalorizar o que deveria ser usado com respeito e parcimónia, para ganhar solidez e credibilidade humana... Isto para dizer que terá sido com 14 anos que dei, no Petit Larousse, com o primeiro quadro do pintor inglês Thomas Gainsborough (1727-1788) que retratava o casal Andrews, em fundo paisagístico, pintura que se guarda no Louvre. Não mais o esqueci.


Nascido na Grã-Bretanha, Gainsborough veio a estudar em França e até Van Gogh o refere, de forma entusiástica, nas suas cartas ao irmão Theo. Acima pode ver-se a tela retratando a família Baillie. Considerado como um paisagista de eleição, os seus quadros eram muito apreciados pela nobreza e pela burguesia. Retratista notável, não quero deixar de destacar o seu retrato do célebre actor David Garrick (1717-1779) ou o da senhora Lowndes-Stone, quadro que pertence ao acervo do Museu Calouste Gulbenkian.




terça-feira, 3 de setembro de 2019

Arte ?


Muita da arte contemporânea, na sua tentativa democrática e excessiva de se aproximar das maiorias, deixa-nos muitas vezes dúvidas sobre a sua qualidade, avaliação e mesmo validade efectiva. Agradar a muitos nem sempre será um bom sinal.
Matthew Bown, no último TLS, conta-nos um episódio que para alguns já deve estar esquecido. Lembremo-lo, sucintamente: quando os actuais inquilinos da Casa Branca lá chegaram, querendo alterar a decoração-Obama da residência, pediram de empréstimo ao Guggenheim Museum, de Nova Iorque, um dos primeiros quadros de Van Gogh: Paisagem com Neve. A curadora Nancy Spector recusou, mas em sua substituição informou que poderia ceder America*, de Maurizio Cattelan. Facto que, na altura, foi considerado um insulto pela maioria.


* Na imagem inicial, "America" é a primeira obra à esquerda, recoberta a ouro.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Curiosidades 75


Até 11 de Agosto de 2019, a Tate Gallery expõe a mostra Van Gogh and Britain.
O título da exposição poderá colher desprevenido quem não saiba que o pintor holandês passou em Londres dois anos da sua vida, de Maio de 1873 até 1875, antes de se dedicar à profissão por que é mais conhecido. Aí trabalhou na Goupil & Cie, firma de origem parisiense, que pertencia a um tio de Van Gogh (1853-1898) e que se situava muito próximo da Tate Gallery, instituição que Vincent visitava com frequência. A loja produzia e vendia gravuras e litografias de arte muito diversas.
Pelas cartas ao irmão Theo, e não só, se nota e destaca o gosto de Van Gogh por dois quadros que ele refere frequentemente. Um do pintor neerlandês Meindert Hobbema (1638-1709), The Avenue at Middeharnis, de 1689; o outro, do inglês John Everett Millais (1829-1890): Chill October (1870).
Ambos de paisagens, e que se reproduzem no início e final deste poste, para que constem.


terça-feira, 16 de abril de 2019

A arte de rebaixar a Arte


Sabe-se que Rembrandt foi um dos pintores europeus que mais se auto-retratou.
Não conheço, nem sei da qualidade mental do sr. Taco Dibbits que, ao que diz o TLS, será o director do Rijksmuseum de Amesterdão. Onde, até 10 de Junho de 2019, estará patente uma grande exposição (All the Rembrandts) sobre a obra do pintor holandês.
Mas aquele sr. director deve ser um homem propenso a afirmações ambíguas ou infelizes, e o seu pensamento deve puxar-lhe, intrinsecamente, para o chinelo. Bombástico, afirmou tonitroante - também segundo o TLS - que Rembrandt terá sido "o primeiro Instagrammer" (sic). Qualquer dia, e se não o calam de vez, ainda é capaz de dizer que Van Gogh foi o primeiro autor de "selfies"...
Irra!

domingo, 15 de julho de 2018

As borboletas da net (e aí vai mais um poste "elitista" e politicamente incorrecto)


É escusado fantasiar ou iludirmo-nos: muitas das anódinas visitas, ocasionais, vêm ao Arpose por causa das imagens, não por causa dos textos. O bing é pobre em iconografia, o pintrest é um plagiador pimp de imagens alheias, o Google é um conservador inato e estandardizado...
Por isso, quando um brasileiro vem ao Blogue para centrar a sua atenção no poste sobre o "Bestiário de Da Vinci", ou um americano clica num poste de parabéns, eu sei que vieram pela imagem da Senhora com um Arminho, e pelo desenho de um gato de Picasso, mas o texto que acompanha essas imagens pouco lhes interessa. A América Latina também é muito atraída pela fotografia de uma Santa com barbas (Wilgefortis) o que só demonstra o lado animista africano que subsiste nas Américas do Sul e do Norte. Mas também as botas de um quadro de Vincent van Gogh, que encimam necessariamente e a propósito uma transcrição de Heidegger, colhem a atenção dessas muitas borboletas que circulam pela net. Heidegger deve ser, para essas mariposas néscias, apenas um nome esquisito. Só o insólito e extravagante das imagens as desinquieta, da sua inércia ignorante e boçal.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Pinacoteca Pessoal 131


Pintor de entardeceres, ou melhor, de anoiteceres brumosos e paisagens de largos horizontes, o inglês Atkinson Grimshaw (1836-1893) privilegiava nos seus quadros a proximidade dos cais, ruas nevoentas e ribeirinhas, nimbadas por uma luz crepuscular que instala, em muitas das suas obras, uma sugestão de melancolia outonal.



Tendo iniciado a sua vida profissional como mero funcionário dos Caminhos de Ferro britânicos, na esteira tradicional do pai, cedo contrariou o seu progenitor, pela forte vocação que o arrastava para a Pintura, a que veio a dedicar-se, inteiramente, até à morte.



Influenciado, a princípio, pelos Pré-rafaelitas, de pronto ganhou voz própria e estilo marcante, em tema e cores, facilmente detectáveis nas suas telas muito originais. Como poderá notar-se pela primeira imagem do quadro (Cais de Liverpool), que pertence à Tate Gallery.



Algumas das suas paisagens parecem pressagiar, embora em tom mais discreto, algumas obras recentes de Hockney. O perfeccionismo da obra de Atkinson Grimshaw despertou a admiração de Van Gogh, que a ele se referiu na correspondência ao seu irmão Theo.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Pinacoteca Pessoal 129


Aos que nos estão mais próximos, muitas vezes, nem damos por eles.
E eu nunca me lembrei de  incluir o artista francês nesta pessoal temática de Pintura.
Henri Matisse (1869-1954), a quem eu me referia,  dizia que um quadro era uma lenta deliberação.
Os vários retratos da sua filha Marguerite têm atenuantes compreensivas e afectuosas para as suas  experiências e a justificação da sua reflectida tirada, até pelo acompanhamento das diversas idades da sua descendente. Mas penso que ele se referia a cada um dos quadros, em si, fosse qual fosse o motivo que desse origem ao acto da criação.



No entanto, os cerca de 50 esquissos, que fez, sobre a italiana Laurette (ou Lorette), para além das várias telas que a têm como motivo, comprovam indiscutivelmente a sua afirmação, de experiência feita. Na elaboração pictórica de um mesmo rosto, através das suas múltiplas perspectivas. E também idades e momentos próprios. Do pintor e do modelo.
Não disse o crítico de arte Andrew Forge (1923-2002):... porque uma paisagem por Van Gogh ou uma natureza morta são também um auto-retrato ?



Informa-nos o TLS (nº 5972) que, na Royal Academy of Arts (Londres), estará patente uma exposição de Henri Matisse, até 12 de Novembro de 2017, subordinada ao tema: Matisse in the Studio. Apesar do preço de ingresso ser exorbitante (17 libras inglesas), penso que não irei perdê-la...



Nota: o retrato de Matisse, que encima este poste é da autoria do seu amigo André Derain (1880-1954).  

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Uso pessoal 14


De facto, nunca virei a saber a razão exacta que torna tão popular e visitado o antigo poste, do Arpose, "Heidegger, sobre um quadro de Van Gogh" (23/1/2013). Se a reprodução da célebre tela das cansadas e camponesas botas do pintor holandês, se as sábias e humanas palavras do filósofo alemão. Inclino-me, no entanto, para a imagem, por várias razões. Que os nómadas ligeiros e aéreos, que pululam na net, não gostam de perder tempo com palavras e leituras. Creio que, muitos deles, são até analfabetos funcionais.
Estes meus velhíssimos e desgastados sapatos de pala, em imagem fotográfica, confesso à puridade que me acompanham há duas ou três décadas - nunca juntei coragem para os deitar fora. Acusam longa vida, mas ainda os uso por casa ou em brevíssimas surtidas exteriores que, por curtas, não chegam para envergonhar-me perante os meus semelhantes mais atentos e observadores...
Sinto-me bem com eles: são cómodos, dão-me bom andar, são seguros, flexíveis q. b., e nem preciso de apertar ou desatar os atacadores quando os calço ou descalço. Em suma, que poderia eu querer mais?


Nota: para os devidos efeitos, tenho a declarar que este poste não é uma geminação da sofisticada temática "Elegâncias", que a MR costuma publicar no seu Prosimetron.

domingo, 15 de maio de 2016

Da incompletude


Tem-se rodeado de alguma polémica uma recente e ambiciosa exposição, em Nova Iorque, intitulada Unfinished: Thoughts left visible. A mostra abarca diversas obras inacabadas que vão desde pinturas de Leonardo da Vinci a Picasso, passando por Van Eyck, Rembrandt, Turner e Cézanne, entre outros mestres.
O mote para esta exposição partiu de uma citação  de Plínio, o Velho, que, na sua obra História Natural, refere, mais ou menos, o seguinte: "...um facto pouco comum, mas memorável, são as últimas obras de um artista, inacabadas, que acabam por ser mais admiradas do que as que foram terminadas, porque naquelas se podem ver os traços preliminares e descortinar as intenções do pensamento do artista." Esta citação poderia aplicar-se a Da Vinci, sobretudo, ao quadro incompleto S. Jerónimo, que seria um bom exemplo.
Tenho alguma dificuldade em aceitar este postulado, que me parece excessivamente dogmático, considerando até o facto de saber-se que algumas pinturas (abandonado o tema original) foram pintadas por cima, com motivos divergentes dos iniciais. Mas Patrick McCaughey (TLS nº 5901) refere ainda, a propósito da inacabada Rue en Anvers-sur-Oise (1890), de Van Gogh, onde o  céu não foi completamente pintado: "Todos poderão reconhecer a veemência do trabalho de Vincent van Gogh, cujas pinceladas muito marcadas de azul parecem ter a força de marteladas que imprimissem na tela, a fresca revelação do poder e paixão do Pintor."
Mais convincente esta afirmação, mesmo assim deixa-me dúvidas.




sábado, 13 de fevereiro de 2016

Uma definição excêntrica de G. K. Chesterton (1874-1936)


Uma cadeira é um dispositivo de quatro pernas de pau para um aleijado de duas.

citado por Alberto Manguel em "Uma história da curiosidade".

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Adagiário CCXLII


Natal à sexta-feira, por onde puderes semeia.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Adagiário CCXXXVIII : Dezembro (6)


1. Quem colhe azeitona antes do Natal, deixa metade no olival.
2. Não há Dezembro valente que não trema.
3. Quem quer bom ervilhal, semeia-o antes do Natal.
4. Dia de S. Silvestre (31) nem no alho, nem na réstea.

sábado, 15 de novembro de 2014

Contra-cultura


Para o homem comum um par de botas conta muito mais do que as obras completas de Shakespeare ou de Puchkine. 

Dmitry Pissarev (1840-1868).

quinta-feira, 8 de maio de 2014

2 andamentos, no tempo


1. De pequeno me habituei a que, às refeições, presidisse, dramática e séria, em cópia pictural ou baixo relevo acobreado, a Última Ceia, de Leonardo da Vinci. Era uma constante o seu destaque nas paredes das salas de jantar nacionais.
2. De há três dias a esta parte, tenho-me vindo a habituar, nesta casa de férias à beira-mar, à contemplação refeiçoeira e laica, dos alegres Girassóis de van Gogh. Tenho de concluir, para ser justo, que foi um progresso notável, no tempo...

sábado, 5 de abril de 2014

Sobre Arte


Os excertos, que traduzi do francês e irei transcrever, pertencem a uma entrevista que Nathalie Heinich (Marselha, 1955) concedeu ao "Obs." (nº 2577), a propósito do lançamento do seu recente livro "Le Paradigme de l'art contemporain" (Gallimard, 2014). A socióloga francesa e estudiosa de Arte, que tem um trabalho anterior, de referência, sobre a pintura de van Gogh, dá-nos a perceber, de forma simples mas evidente, algumas questões essenciais que estão ligadas à Arte, actualmente.
Não é difícil associar, quando ela refere "as várias dezenas de pessoas que realizam as suas obras", repito, associar e pensar, por exemplo, nas instalações da artista portuguesa Joana Vasconcelos; ou, quando fala do "simulacionismo", nos lembrarmos dos trabalhos do norte-americano Andy Wahrol.
Porque me parecem reflexões importantes e pertinentes sobre a Arte actual, julgo útil partilhá-las e fazê-las constar do arquivo do nosso Blogue. Seguem:

"Temos tendência a usar «arte moderna» e «arte contemporânea» como termos equivalentes, cuja única diferença seria cronológica. É um erro: há tantas diferenças entre a arte contemporânea e a arte moderna como aquelas que existem entre a arte moderna e a arte clássica. Cada uma distingue-se pelas regras de jogo implícitas, que formam aquilo que Thomas Kuhn chamava um «paradigma». Assim, a arte moderna baseia-se na transgressão das regras da figuração clássica (impressionismo, cubismo, surrealismo...). A arte contemporânea, essa, transgride a própria noção de obra de arte tal como ela é normalmente reconhecida. Por exemplo, a obra não será mais feita pela mão do artista mas fabricada por terceiros. O acto artístico não reside já na manufactura do objecto mas na sua concepção, no discurso que o acompanha, nas reacções que suscita... A obra pode ser efémera, evolutiva, biodegradável, blasfematória, indecente. Uma corrente surgida nos anos 80, o simulacionismo propunha até fazer desaparecer toda a ideia de originalidade, porque se tratava de reproduzir com maior exactidão obras já existentes. A arte contemporânea é uma invenção permanente dos modos de experimentar os limites ontológicos (a noção de obra) e morais (a maneira de ser artista). Donde as reacções que suscita."
"...Jeff Koons é um velho comerciante e veste-se com fatos completos e clássicos, contrastando com as calças já coçadas do artista boémio. Ele e Hirst não escondem que ganham muito dinheiro e que também gastam imenso. São empreendedores, com ateliês de várias dezenas de pessoas que realizam as suas obras, e tão depressa encontramos esses dois artistas nas páginas cor de rosa, como nas páginas de revistas culturais. As suas obras situam-se no cruzamento do sensacionalismo com a cultura popular: Hirst expõe uma vitela cortada em duas e conservada em formol, Koons fabrica peluches monumentais. Esta tendência corresponde à chegada ao mercado da arte de novos compradores ligados à financiarização da economia mundial (negociantes, burguesia dos países emergentes). Desde há uma quinzena de anos que se formou uma bolha artístico-financeira que fez com que algumas obras atingissem preços exorbitantes, o que repercute o próprio espírito dessas obras - o quitche, o cinismo, o espectacular. ..."
"... Na arte contemporânea, a personagem central é, com o crítico, o comissário da exposição, uma profissão relativamente recente. O comissário opera para um organismo público - museu, bienal, centro de arte - e as suas escolhas vão permitir que a cotação de um artista cresça exponencialmente." (...) "Os intermediários procuram promover artistas sempre mais jovens, e vêem-se artistas que tiveram desde cedo a sua hora de glória, regressar brutal e rapidamente ao anonimato. (...) Para alguns, a arte contemporânea é uma decepção desoladora e uma caricatura pungente dos caprichos mais pueris da época. Para outros, é, pelo contrário, um instrumento de reflexão fascinante e até mesmo uma catarse saudável e desejável. Quanto à minha opinião pessoal, ela é das mais banais: certas propostas da arte contemporânea parecem-me excelentes, outras, sem qualquer interesse. De resto, é uma das grandes características da arte contemporânea, que é a de obrigar a ter uma opinião, de ser provocadora de opinião. E, isto, é também apanágio da nossa época."