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domingo, 17 de março de 2019

Citações CCCXCV


O tédio tem a sua expressão social no domingo.


Arthur Schopenhauer (1788-1860), citado por Roland Barthes, in O grão da voz (pg. 334).

terça-feira, 5 de março de 2019

Citações CCCXCIII


Um romance não se define pelo seu objecto, mas pelo abandono do espírito de seriedade.

Roland Barthes (1915-1979), in O Grão da Voz (pg. 180).

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Moda - a regularidade conservadora, na alternância


Se, nos últimos dias, a Moda esteve em destaque pela morte de um dos seus ícones mais representativo, exuberante e conhecido, não tenho dúvidas ao pensar que os limites que se lhe deparam, para além das cores dos tecidos, são relativamente estreitos e até previsíveis. Dos sapatos pontiagudos aos de biqueira arredondada, das calças justas às de boca de sino, dos vestidos justos ao corpo, aos tipo-saco dos anos 50...
Por isso, não me custa subscrever e concordar com algumas afirmações de Roland Barthes (1915-1980), em O Grão da Voz (1981), nomeadamente com esta, que passo a transcrever, da página 65 desta obra: 

" E poder-se-ia perfeitamente prever o fenómeno actual, que as saias chegariam hoje ao estado mais curto possível, em relação a um outro polo de comprimento, ele próprio relativo e que se atingiu há cinquenta anos, por volta de 1900. Isto é, a mini-saia parece-nos muito curta, sem dúvida, mas o analista retém apenas este facto: ela é não muito curta, mas o mais curta possível relativamente ao ciclo completo. É certo que a história constitui, mesmo assim, uma força que conserva a sua liberdade e reserva algumas surpresas; mas, normalmente, se o ritmo da moda continua a ser regular, as saias deveriam, a partir de hoje, ficar mais compridas pouco a pouco, através das variações sazonais. Digamos que no ano 2020 ou 2025, deveriam de novo ser muito compridas."

Quanto à premonição, havemos de ver...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Recomendado : cinquenta e cinco


Não sei se o livro, em imagem, terá sido, entretanto, traduzido para português. Valeria bem a pena, em compensação para tanta burundanga, indigente e inútil, que se verte, actualmente, para a nossa língua.
Este Journal d'un lecteur (Actes Sud/Leméac, 2004), de Alberto Manguel (1948), é uma obra na esteira de "Fragmentos de um discurso amoroso", de Barthes; ou seja, um livro que fala de outros livros, através do estímulo e reflexões que a leitura dessas outras obras provoca. E é agradabilíssimo de ler.
Emprestado, que me foi, o volume tem a particularidade de ter uma dedicatória manuscrita de Alberto Manguel, datada de 23/6/10.


domingo, 8 de junho de 2014

Diário sucinto de umas férias, sem rede, no Alto-Douro (6 e último)


Há viagens que se fecham em si, uma vez feitas, bem como algumas férias já passadas. Outras, que se procuram e se guardam, para sempre, num compartimento estimado da memória. Mas, à partida, nunca saberemos a brevidade ou longevidade desse tempo delimitado que foi nosso.
30/5
Manhã de sol, embora ligeiramente nublado a sul, cobrindo os píncaros mais altos. Céu totalmente limpo, pelas 9h00. O pequeno-almoço, por aqui, além de um bom momento de convívio, é sempre reconfortante: se o leite (Vigor) e a manteiga (açoreana) vieram do sul, o pão regional, fabricado em Donelo, é excelente.
Sejam as simples carcaças, que nada parecem ter de industrial, quer o pão grande, bem cozido, que dá um fatiado de miolo pleno e fofo. Não podemos é perder o padeiro ambulante e simpático, que se faz anunciar pelo buzinar da carrinha, todas as manhãs, pelas veredas sinuosas das povoações. A alternativa é ir buscá-lo ao minimercado da aldeia (mercearia-café, melhor dizendo), mas o pão esgota-se depressa.
A águia-de-asa-redonda (?) só aparece ao fim da tarde. Deixa aos pequenos pardais os campos livres, no entretanto. Mas também aos melros, às rolas, aos pintassilgos, que aproveitam, numa justa distribuição comunitária, natural. Como nos minifúndios minhotos, a rega, entre vizinhos, é horariamente partilhada...
Os dias crescem ainda e a luz solar, às 20h30, estende-se pelas encostas, fazendo ressaltar o casario branco, por entre os tons diversos do verde: olivedos, vinhas, pinhais... Não há vento e toda a natureza parece acomodar-se à tranquilidade da noite de quarto-minguante, que será a última, para nós, aqui.
Parcimoniosamente lidas, vou acabar as "Mitologias" de Barthes.
31/5
Às 6h50, o sol já ilumina os topos mais altos dos montes, em frente da casa.
Arrumar, regressar... Havemos de parar na Régua, para o almoço.

domingo, 1 de junho de 2014

Diário sucinto de umas férias, sem rede, no Alto-Douro (1)


24/5
Almoço desinteressante em Lamego.
Chegados, verifico que as assimetrias de Portugal, por aqui, são ainda mais evidentes. Consegui ver que há comentários nalguns dos últimos postes do Blogue, mas nem sequer consigo abri-los, muito menos, responder. No entanto, da janela vejo, enormes e altos, 3 "moínhos eólicos", no monte defronte, sinal da modernidade tecnológica e ambiental portuguesa, mas a inefável tmn-MEO quase não tem rede, aqui, nem mesmo para telemóveis, e trabalha, no mínimo, à velocidade obesa e preguiçosa de um caracol distraido.
Vou-me resignando à hipótese provável e desagradável de o Arpose ficar "congelado" por uns tempos...
Mal que eu só tenha trazido dois livros para ler! Paciência... olho a paisagem, que é lindíssima. À noite, inicio as "Mitologias" de R. Barthes.
25/5
Domingo, 8h44. Mais 4/5 tentativas frustradas para ligar a net e aceder ao Blogue. Em frente, cinco oliveiras retorcidas e centenárias asseguram a antiguidade do lugar e a permanência estática do espaço. Isolado, agreste, sem abertura alguma ao futuro ou à modernidade que, fatalmente, nunca passará por aqui. Fecho o computador e desisto. O telemóvel, inerte e sem vida. Inesperadamente, consigo mandar uma mensagem... mais nada.
Donelo, Gouvinhas, Ferrão, Covas do Douro, andam por aqui à volta, numa babel de nomes estranhos e  cujo som fonético convoca tempos imemoriais, no mesmo ermo de solidão e penedia alta. Para chegar a casa, são cerca de 350 metros de picada exígua de largura, e inóspita.
16h10, Pinhão. Por momentos, no computador, a ligação"...Paris, S. Petersburgo, o mundo..." (Cesário). A suprema ironia...

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Uma fotografia, de vez em quando (18)


A fotografia, em imagem, correu o mundo e foi, na altura, um libelo e denúncia, importantes, contra a guerra do Vietname. Instantâneo, captado pelo fotógrafo Eddie Adams, em 1968, ganhou o Pulitzer. Em termos concretos retrata a execução sumária de um prisioneiro vietcongue, por um chefe de polícia do Vietname do Sul, de nome Nguyen Ngoc Loan.
Para o texto que citarei a seguir, deveria dizer que é uma fotografia pré-morte, ou de morte antecipada.
Com a finura mental que lhe é característica, Roland Barthes, no seu admirável "La chambre claire", teoriza sobre o documento de morte que é uma fotografia, quando de qualidade: prova que houve esse momento na realidade, mas jamais vai existir. Mas acrescenta (e passo a traduzir): "Todos estes jovens fotógrafos que se agitam pelo mundo, dedicando-se à captação da actualidade, não sabem que são agentes da Morte. É a forma com que o nosso tempo assume a Morte. Sob o elemento de denegação daquilo que é profundamente vivo, de que o Fotógrafo é de algum modo o profissional. Porque a Fotografia, historicamente, deve ter alguma relação com a «crise de morte», que começa na segunda metade do século XIX; ..." 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Roland Barthes, sobre Fotografia


"...Ora, desde que eu me sinto olhado pela objectiva, tudo se altera: eu constituo-me na perspectiva de «posar», fabrico-me instantaneamente noutro corpo, crio uma metamorfose antecipando-me à imagem. Esta transformação é activa: eu sinto que a Fotografia recria o meu corpo ou que o mortifica a seu prazer (apólogo deste poder mortífero: alguns homens da Comuna pagaram com a vida a sua complacência em posar sobre as barricadas: vencidos, eles foram identificados pelos polícias de Thiers e quase todos fusilados). ..."

Roland Barthes (1915-1980), in La chambre claire (pg. 25). 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Roland Barthes e a Torre Eiffel


O suplemento de "Le Monde" de 16/12/2011, a propósito de ofertas literárias pelo Natal, faz um destaque especial, na primeira página, chamando a atenção para um pequeno (96 páginas) livro de Roland Barthes, publicado inicialmente, em 1964, com o título La Tour Eiffel. O livro foi reeditado, agora, pela Seuil. É um exercício de Barthes sobre o triunfo do "vazio". Passo a traduzir um pequeno excerto do texto de R. Barthes:
"A Torre não é nada, cumpre apenas uma espécie de grau zero do monumento; ela não participa de nada em matéria do sagrado, nem mesmo da Arte; não se pode visitar a Torre  como se visita um museu: não há nada para ver na Torre. Este monumento vazio recebe, no entanto, cada ano duas vezes mais visitantes do que o Museu do Louvre."

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Cinema em Casa VI (e último)


O "Álbum dos Artistas", publicação da Agência Portuguesa de Revistas (Edição de Aguiar & Dias, Lda.), era de início monocromático mas, ainda em finais dos anos 50, passou a ter capas policromadas e tamanho menor. Custava Esc. 2$00. Trazia biografias detalhadas de artista de cinema, filmografia e curiosidades. E, por vezes, até um ou outro pequeno apontamento cultural. No "Álbum dos Artistas" nº 43, sobre Brigitte Bardot, há, por exemplo, uma citação de Roland Barthes a propósito da actriz do cinema francês, que diz: "Brigitte Bardot representa um erotismo mais aberto despojado dos substitutos falsamente protectores que eram o semi-vestuário, a caracterização, a alusão, a fuga."