Eu creio que qualquer país, que se preze, tem sempre actualizada e acessível uma seleção de obras e autores clássicos da sua literatura. Por iniciativa privada (Rolland, Bibliotheca de Clássicos Portuguezes [Mello d'Azevedo]), no nosso caso, ou institucional (IN-CM), sobretudo no consulado de V. da Graça Moura (1942-2014), esse cânone deve poder ser adquirido, facilmente, por quem queira acompanhar a sua história e cultura.
Julgo, por exemplar, dever destacar o meritório trabalho, no passado, da Colecção de Clássicos Sá da Costa.
Os ensaístas, bem como os filósofos, nunca abundaram na terra portuguesa. Se considerarmos apenas o ensaio literário, desde o pioneiro Moniz Barreto (1863-1896), luso-indiano, a lista de figuras, que abordaram a temática, reduz-se ainda mais. Deixo de fora o ensaio académico feito por universitários, mas também aí as obras de qualidade escasseiam.
Estudiosos há, cuja actividade literária sai prejudicada da sua excessiva exposição política. Antes como agora. Estou-me a lembrar, por exemplo, do esquecido Fidelino de Figueiredo (1889-1967), que tem uma obra ensaística muito interessante sobre as literaturas comparadas peninsulares. E que é raramente referido.
Poeta estimável, Vasco da Graça Moura (1942-2014) incorreu no mesmo pecado de exposição partidária. Tradutor de grande mérito e crítico arguto, não o devemos esquecer, pese embora o seu polémico grau de intervenção política, em anos ainda recentes e talvez nem sempre pelas melhores causas...
Estes Discursos Vários Poéticos (Verbo, 2013) são no entanto obra limpa e valiosa. Desde os capítulos sobre tradução de poesia à síntese explicativa e brilhante da obra de Nemésio, passando por alguns concisos apontamentos sobre a poesia de Mourão-Ferreira e de Sophia. Não resisto, por saborosa, à transcrição que VGM faz, oblíqua a propósito dos portugueses, colhida em Fastigímia, de Tomé Pinheiro da Veiga:
Em descobrindo o Portugalete, se nos mostrou uma cara de vilãozinho, encarquilhada, mui trefo, tudo penedos escabrosos e montes, sem nenhuma lhaneza, muita silveira e a terra partida aos palmos com suas paredinhas, como quem diz: isto é meu, não é teu, não me furtes as minhas uvas.
Bem como esta afirmação polémica - com que aliás eu concordo - de sua lavra, numa avaliação comparada: "Essa palavra poética toca-nos não porque revela Deus, mas porque Nemésio era muito melhor poeta do que Régio ou Torga." (pg. 400)
Por estes e outros motivos, estimulantes, aqui venho recomendar este livro de ensaios de Vasco da Graça Moura. Tirará o seu proveito, quem o ler.
Não há nada como arrumar os sonhos, para começar o dia por inteiro. Ora, às vezes, é bem difícil...
Imagine-se um capítulo em que entram, de forma quase caótica, um Mestre parado e cristalizado nos anos, que nos recomenda, veemente, um crítico já falecido; uma rua ensolarada da Amadora envolvida em sedução e tatuagens (ou seriam graffiti?), Vasco da Graça Moura armado em duelista sobre o Acordo O., um prémio pouco esclarecido sobre um poema que nem tinha começado... sobre um broto redondo de um limoeiro que se vai formando em fruto oval, pela graça de deus. Mais uma rola invisível que, paralela a mim e saltitando de árvore em árvore, arrulha incessantemente. A isto se junte o desenrolar de um pedestre que tenta chegar a Campolide.
Fico-me pelo limão, arrumo as outras bugigangas para debaixo da cama, e vou à vida. Porque hoje é domingo...
No passado dia 10 de Junho, e na BNP que abriu propositadamente para o efeito, o Prof. Dr. João Alves Dias deu-nos notícia da existência, muito fundamentada, de uma nova versão do primeiro poema impresso de Luís de Camões, incluído no Colóquio dos Simples e Drogas da Índia, de Garcia de Orta, editado pela vez primeira em Goa, no ano de 1563. A comunicação do Investigador serviu de bom prefácio à exposição que a BNP inaugurou. Tive o grato prazer de assistir.
Hoje, no DN, Vasco da Graça Moura saíu-lhe à estocada, pelo feito.
Camões sempre teve os seus Sumo-sacerdotes que, mal ou bem, lhe defenderam o Templo. Refira-se que os bons pastos são poucos e muitos os pastores...
Quando Jorge de Sena, nos anos 60, começou a estudar Camões, o Sumo-sacerdote Pimpão, saíu-lhe ao caminho de cajado em punho, verberando-lhe a ousadia. E tentou fazer-lhe a vida negra, até no Brasil.
Entre a generosa inclusão de Hernâni Cidade e a usura exclusiva de Costa Pimpão, vão dezenas e dezenas de páginas, e a obra camoniana tem dado para tudo, pela sua grandeza.
O mesmo vai acontecendo com a pessoana da arca sem fundo. Também aqui há alguns Sumo-sacerdotes.
Muito recentemente, tive conhecimento da patriótica e louvável iniciativa da Real Academia Española de começar a editar os clássicos nacionais. Desde La Celestina, Cantar de Mio Cid, ao Milagros de NuestraSeñora, de Berceo, as principais obras-primas castelhanas irão ter reedições. Respeito, divulgação aprofundada e amor à língua, terão sido os motivos principais da Academia. Cada geração de espanhóis - julgo poder afirmá-lo, sem exagero - teve oportunidade de ter, no seu tempo, à mão e ler os seus maiores. Ao contrário de Portugal, infelizmente. Quantos dos nossos clássicos estarão acessíveis (não esgotados e a preços módicos) ao público leitor, hoje?
Tirando a colecção de Clássicos Sá da Costa (parcial e limitada), iniciada nos anos 40, a estratégia (embora um pouco desordenada e muito incompleta) semelhante da Imprensa Nacional, nos anos 80, durante o consulado de Graça Moura, desde o séc. XX que não há um plano de divulgação alargado, com a publicação das nossas obras e autores maiores. Visão estreita de quem tinha a obrigação de a apoiar e incentivar, até por uma questão de saudável patriotismo. O declínio dos estudos dos Clássicos e leituras, no Ensino oficial, são o sintoma mais evidente deste desamor e desleixo nacionais que grassa e se vai prolongando, sempre.
O livro é excessivamente datado pela capa e contracapa, que contêm fotografias de David Mourão-Ferreira e Vasco da Graça Moura em trajes e cabelos marcados, pelos anos 70. Foi editado em 1978, pela Brasília Editora (Porto), e não é raro, até porque só me custou 4,00 euros, num alfarrabista aonde muito raramente vou. A boa surpresa, só dei por ela em casa. A páginas 73 vem uma dedicatória manuscrita de David - nem eu me apercebi, ao comprar o livro, nem o alfarrabista terá dado por ela. Se tivesse visto, o livro seria um pouco mais caro, de certeza. E aí vai, a jeito de bónus, um epigrama de Mourão-Ferreira, inédito, na altura. Tem por título Permanência:
Nunca percebi muito bem a razão, necessidade e até a urgência do Acordo Ortográfico. A não ser por essa, bem portuguesa, mania de legislar sobre tudo e sobre nada, até aos mais ínfimos pormenores, para depois não observar, nem cumprir. Lembrava-me sempre do exemplo da ortografia inglesa nas suas vertentes variadas: Grã-Bretanha/Estados Unidos/Commonwealth. Nem mesmo os mais puristas ingleses se lembraram, alguma vez, de uniformizar as variantes e disciplinar a escrita do inglês. E daí nunca veio mal ao mundo...
Houve muito boa gente, em Portugal, que se pronunciou, aberta e violentamente, contra o Acordo Ortográfico. Um deles foi Vasco da Graça Moura. Entretanto, tomou posse, há dias, no CCB, substituíndo Mega Ferreira. E, hoje, o jornal "Público" noticia que V. da Graça Moura "mandou retirar dos computadores do CCB a ferramenta informática que altera os textos segundo a nova ortografia". Coerências...e, agora, o Viegas que descalce a bota.
Deviam estar a preparar alguma coisa nos jardins do Palácio do Conde de Farrobo, ao Chiado. Recepção, festa, ou vernissage, porque os canteiros estavam cuidados, os arbustos aparados e, por uma nesga de uma porta que dava para a rua, consegui ver 2 cozinheiros aperaltados a preceito e vários tachos e panelas sobre o fogão industrial da cozinha. Próximo, e de um caminhão parado na rua descarregavam vitualhas. Como sempre, à portuguesa, 3 moleques faziam o trabalho, e 5 "cavalheiros", muito direitos e aristocráticos, encostados à parede, davam ordens ou mandavam bocas correctivas aos oficiais mecânicos. Estava calor.
Eu já vinha da Bertrand, após ter resolvido, metafisicamente, uma dúvida difícil. Na mão direita eu tivera "Uma viagem à Índia" de Gonçalo M. Tavares, com prefácio de Vasco da Graça Moura, na esquerda sopesara, indeciso, de João Paulo Martins, "Vinhos de Portugal 2012", sem prefácio, a não ser do próprio autor. Mas eu só queria comprar 1 livro. Tinha que optar...
Entre os muitíssimos autores citados, de um dos livros, e os inúmeros vinhos referenciados, no outro, preferi o João Paulo Martins. Entre a poesia e o vinho, desta vez ganhou Baco. Também é verdade que havia alguma diferença de preços entre as duas obras, o que também conta, num orçamento limitado...
Mão amiga me trouxe, ontem, uma voz desconhecida para mim: Gottfried Benn (1886-1956), poeta alemão. Os poemas são traduzidos por Vasco da Graça Moura e, embora não cotejados com os originais, as versões parecem-me de grande qualidade. Escolhi "Chopin".
Não muito fecundo na conversa,
as ideias não eram o seu forte,
as ideias vão de roda,
quando Delacroix desenvolvia teorias
ele ficava inquieto, por seu lado
não podia dar razões para os Nocturnos.
Fraco amante:
sombra em Nohant
onde os filhos de George Sand
nenhum conselho proveitoso
lhe aceitavam.
Doente dos pulmões,
com hemorragias e formação de cicatrizes
naquele modo que se arrasta;
morte tranquila
ao contrário de uma
com paroxismos de dor
ou com salvas de tiros:
encostaram o piano (Erard) à porta
e Delphine Potocka
na hora extrema
cantou-lhe um Veilchenlied.
Viajou para Inglaterra com três pianos:
Pleyel, Erard, Broadwood,
tocava a vinte guinéus por noite
um quarto de hora
nos Rothschilds, Wellington, em Strafford House
e perante inúmeras jarreteiras;
sombrio de fadiga e do acercar da morte
voltava para casa
no Square d'Orléans.
Depois queimou os seus esboços
e manuscritos,
sobretudo nenhuns restos, fragmentos, notas,
esses indícios traiçoeiros -
e disse no fim:
«As minhas tentativas consumaram-se à medida
do que me era possível alcançar».
Cada dedo devia tocar
com a força correspondente à sua estrutura,
o quarto é o mais fraco
(só irmão siamês do dedo médio).
Quando começava, pousava-os
em mi, fá sustenido, lá sustenido, dó.
Quem dele já ouviu
certos Prelúdios,
seja em casas de campo ou
em colinas
ou por portas abertas de terraços,
por exemplo, de um sanatório,
dificilmente o esquecerá.
Nunca compôs uma ópera,
nenhuma sinfonia,
só estas progressões trágicas
de convicção artística
e com uma mão pequena.
Nota breve: G. Benn exerceu durante a sua vida a profissão de médico. Enquanto lia este poema não pude deixar de pensar na "Arte de Música" de Jorge de Sena.