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quinta-feira, 26 de julho de 2018

Transições (4)


Uma das primeiras coisas que eu fazia, quando pelas férias regressava a casa, na juventude, e depois de pousar as malas que trouxera, era descer ao pequeno quintal minhoto e ver como estavam as rosas e o estado do limoeiro. Dava pouca atenção aos jarros, se os havia, que cresciam abundantes e brancos, na sua insólita sugestão fálica, encostados à parede mais húmida da casa. Normalmente, cortava uma rosa madura e levava-a para dentro, para pôr numa jarra da sala de jantar. Hoje, tenho que me contentar com as varandas da casa, onde não crescem rosas. Na altura própria e breve, colhemos frésias amarelas, que trazem consigo um aroma fresco e lavado, e dão cor e perfume à mesa da cozinha.
Este ano, tirando as cerejas que mantiveram o seu sabor de ácida doçura, quer os morangos, quer os pêssegos me pareceram deslavados ao gosto. Veremos as uvas como se vão portar... Porque até os figos me pareceram mais aguados e desinteressantes. Por outro lado, o limoeiro,  mais velho, na varanda a leste, só tem a crescer 4 limões, quando, no ano passado, nos presenteara com 5. A falta de sol terá sido fatal para as safras. E a pródiga oliveirinha que, em 2017, nos brindara com 115 rechonchudas azeitonas, neste ano da graça de 2018, não chegará decerto às 50. Até as hortênsias deram um sinal inequívoco, ao resumirem-se, avaras, a dois míseros bouquets, esbranquiçados e anémicos na sua pequenez.
Bem posso eu, vulgar campesino transplantado, com esta infelicidade, mas que dirão os pobres dos agricultores olhando os seus campos e árvores, minguados...

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Transições (3)


De costas, o olhar apercebe-se do que poderia ser o cavername em madeira de um enorme barco, ao inverso. De bruços, é possível imaginar duas escotilhas redondas, ao fundo, de um navio ancorado. Até chegar às pistas líquidas, no entanto, o asséptico mural dos azulejos claros e a tejoleira térrea e torrada, algures, faz-nos hesitar entre um hospital limpíssimo e um forno para cozer pão. Até porque a água está a uma temperatura convidativa, entre os 29 e os 30 graus.
E, como dizia Einstein: A imaginação é um músculo. Ela tem necessidade de exercício.
E nadar, tirando braços e pernas, deixa ainda muita coisa livre... 

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Transições


De Alcântara para a 24 de Julho, caíu, subitamente e com nitidez, a noite, como se fosse uma cortina. Nunca me apercebera, assim, desta mudança de luz para sombra. E creio que, nas cidades, esta transição do dia para a noite é muito mais perceptível.
Não pude, por isso, ver ainda os estorninhos nas suas nuvens compactas sobre o Tejo, que se pressentiam já em finais de Outubro, embora em pequenos grupos dispersos. Da janela alta, apenas um ruído de besouro sobre as águas já escuras que, da ponte, eram de azul cobalto. Um helicoptero, ruidoso, a treinar decerto para a reunião da Nato. Em nome da segurança nacional e internacional. Mas o sindicalista dos polícias queixou-se no telejornal que não havia coletes à prova de bala, suficientes. Valham-nos deus e os homens de boa vontade.
Amanhã, levantar cedo. Talvez o melro matutino do Jardim Farrobo se despeça, em serenata, de nós, que vamos para o Norte. A essa hora, ainda os estorninhos não dão sinal de vida.