Falava, às vezes, como se fosse um oráculo tenebroso. As coisas que dizia pareciam disparatadas ou soavam a charadas apocalípticas, medievais. Com boa vontade, poderiam ser acrescentadas à Bíblia, em capítulos próprios do Velho Testamento. As frases de M. P. careciam de um pensamento lógico, de uma razão objectiva e compreensível, ou de uma inteligência mais subtil do que a minha. Disse-me uma vez, muito sério: "Morrerei, algures, num futuro mês de Janeiro, entre 10 e 20." E a sua voz era tão profunda, assertiva e hipnótica que eu não fui capaz de lhe perguntar nada - calei-me, simplesmente. Mas a profecia viria a cumprir-se, anos depois, a 19 de um Janeiro frio, em que choveu muito.
