Mostrar mensagens com a etiqueta Vasco da Gama. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vasco da Gama. Mostrar todas as mensagens

sábado, 1 de setembro de 2018

Doçuras e tradição


Era por este mês, embora com Setembro mais avançado, que se dispunham, em boa ordem na Garagem, os apetrechos competentes: as facas bem afiadas, as grandes colheres de pau, o açúcar suficiente, as tijelas de barro popular, os enormes tachos, dourados por dentro, de cobre, usados anualmente. E os marmelos.
E começava a função, ia a manhã já alta. Das compotas caseiras, lá em casa, a marmelada encerrava a tradição, com chave de ouro. Descascar, descascar, pondo de lado o interior dos caroços e pevides, que iriam dar, ainda, alguns rosados frascos de geleia, mais tarde.
As tijelinhas de barro rústico iam, depois de cheias, a secar no lambril da janela que dava para a Penha, a Oriente. Para gáudio de abelhas e vespas que, vindas sabia eu lá de onde, voltejavam inquietas sobre esta doçura, ao Sol de Setembro. Ao fim da tarde, era tempo de se pincelar a marmelada, à superfície, com aguardente minhota e colar-lhe pequenas circunferências de papel vegetal, recortado previamente, para melhor conservar a marmelada e guardá-la, depois, nos armários da sala de jantar. A mim, competia-me rapar os tachos, e provar aquela doçura...
Não era tradição recente. Até já no século XVI, Vasco da Gama levava para a Índia, além do duro biscoito e do peixe seco, para a longa viagem marítima, algumas tijelas de marmelada, mimo das mulheres portuguesas, que a sabiam fazer. Doçura que decerto compensava algumas agruras da jornada.

domingo, 10 de junho de 2012

História?



Já aqui falei, em 18/10/2011, no académico indiano Sanjay Subrahmanyam (1961), que lecciona na Califórnia, a propósito duma sua biografia de Vasco da Gama, pela dúvida sobre a sua isenção e probidade, como historiador. Pela leitura que fiz da obra, aqui há uns anos, e pelos elementos que tinha, embora como português não seja inteiramente isento, o livro pareceu-me excessivamente emocional e pouco rigoroso.
Mas é um facto que o académico indiano tem ganho fama e dinheiro à custa de Vasco da Gama e do livro que escreveu sobre ele. Desta vez, Subrahmanyam foi entrevistado por "Le Nouvel Observateur", pela tradução que saíu em França, na Alma Editeur. Classificar, como faz na entrevista, Vasco da Gama de "paranóico altivo e cruel" e acusar D. Manuel I de "megalomania", não me parece a melhor forma de escrever História. Creio haver nisto, pelo menos, demagogia e pouca isenção.
Na entrevista, já referida, há mais exageros. E há uma afirmação estranha que não sei em que Sanjay se fundamenta. Diz ele que Vasco da Gama, quando regressou a Portugal, em 1499, informou D. Manuel I que, na Índia, havia 15 reinos cristãos - que Subrahmanyam, evidentemente, contesta. Onde terá recolhido, o académico indiano, esta informação tão peremptória? Um número tão redondo deixa-me desconfiado...

sábado, 12 de março de 2011

Um Homem honrado


Quando se fala da Índia, os nomes que, normalmente, ocorrem são: Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque. Um, o descobridor, o outro o controverso, mas genial estratega. Na sombra, fica D. João de Castro, que poucas vezes é lembrado. Nasceu em Lisboa em 1500, e foi morrer a Goa, na presença de S. Francisco Xavier, em Junho de 1548, relativamente pobre. Foi o 4º vice-rei da India (dita Portuguesa), notável cartógrafo (discípulo de Pedro Nunes), bravo guerreiro. E homem honrado.
Acresce que, às suas qualidades, eu prezo sobremaneira, os retratos escritos das personagens da História. Porque, para além dos traços e cores dos retratos pintados, as palavras desvendam um pouco mais da alma dos homens, mesmo que de forma oblíqua. Ora, D. João de Castro, numa carta ao rei D. João III, datada provavelmente de 1539, escrita em Goa, faz o retrato de si mesmo e revela a sua mais íntima vontade:
"...Eu, Senhor, vim rico a esta terra e estou pobre; sou eu muito cobiçoso de natureza, e mal inclinado, porém falta-me habilidade para executar minha condição. De 18 anos tomei as armas em seu serviço; 6 vezes passei em África e lá me nasceram as barbas; mandou-me na armada de levante contra Barba Roxa; fui pessoalmente na tomada de Goleta, onde minha caravela ficou cheia de pelouros de bombardas, de que o muito excelente príncipe D. Luís é boa testemunha; vim em socorro da Índia por seu mandado, a resistir ao ímpeto e cruel fúria dos Turcos; fui em ajuda de se lançarem fora destas suas terras tão pestilenciais inimigos; nunca a opinião e honra dos Portugueses foi por mim diminuida, nem maculada; 20 anos tenho gastados no seu serviço, os melhores e mais estimados da vida; por amor de Deus e em paga destes trabalhos peço a V. A. que me dê licença para me ir desta terra a caminho de Portugal, a fazer vida com minha mulher e filhos, e a acabar estes breves e perturbados dias, que me ficam por passar, na serra de Sintra. Nosso Senhor acrescente a vida e real estado de V. A.."
O rei e o destino não lhe satisfizeram o desejo. D. João de Castro acabou por morrer em Goa.