Há pessoas que são discretas, cuidadosas com os livros. Tratam-nos com desvelo e deixam-lhes poucos sinais, para os vindouros: uma pequena mancha, um pó minúsculo de tabaco, um vinco atenuado de marcação, ao alto de uma página, onde a leitura fora interrompida, um dia...
Outras, têm a mão pesada: os livros acusam acentuado desgaste, vêm sublinhados (a lápis ou esferográfica, até), têm comentários ( que, porventura, serão avaliados por outros, no futuro), anotações despropositadas, algumas cabalísticas e subjectivas mensagens, muitas vezes, ingénuas.
Do livro de Tomas Tranströmer, que acabei de ler - emprestado por um amigo, seu segundo dono - há vestígios grosseiros e abundantes da primeira proprietária, que o terá comprado na FNAC do Colombo, a 25/2/2012, segundo indicação manuscrita.
Imensos comentários a lápis enxameiam uma boa parte das páginas da obra, há muitos sublinhados, observações feitas numa caligrafia tosca, que parece de criança. Mas não é.
E despachou cedo, o livro, essa sua dona inicial. Em justiça poética - talvez pouco isenta e muito rigorosa -, eu diria que a obra de Tranströmer, por sorte, libertou-se. E veio a encontrar folheadores e leitores muito mais respeitosos da sua integridade, por agora.
Até os livros têm sorte e/ou azar...