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sábado, 6 de junho de 2015

Ainda Tranströmer


Postais sombrios

II


Acontece que, pelo meio da vida, a morte chega
para nos tirar as medidas. Esta sua visita
é esquecida e a vida continua. Mas o fato
vai-se cosendo sem darmos por isso.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Da leitura (2)


Há pessoas que são discretas, cuidadosas com os livros. Tratam-nos com desvelo e deixam-lhes poucos sinais, para os vindouros: uma pequena mancha, um pó minúsculo de tabaco, um vinco atenuado de marcação, ao alto de uma página, onde a leitura fora interrompida, um dia...
Outras, têm a mão pesada: os livros acusam acentuado desgaste, vêm sublinhados (a lápis ou esferográfica, até), têm comentários ( que, porventura, serão avaliados por outros, no futuro), anotações despropositadas, algumas cabalísticas e subjectivas mensagens, muitas vezes, ingénuas.
Do livro de Tomas Tranströmer, que acabei de ler - emprestado por um amigo, seu segundo dono - há vestígios grosseiros e abundantes da primeira proprietária, que o terá comprado na FNAC do Colombo, a 25/2/2012, segundo indicação manuscrita.
Imensos comentários a lápis enxameiam uma boa parte das páginas da obra, há muitos sublinhados, observações feitas numa caligrafia tosca, que parece de criança. Mas não é.
E despachou cedo, o livro, essa sua dona inicial. Em justiça poética - talvez pouco isenta e muito rigorosa -, eu diria que a obra de Tranströmer, por sorte, libertou-se. E veio a encontrar folheadores e leitores muito mais respeitosos da sua integridade, por agora.
Até os livros têm sorte e/ou azar...

terça-feira, 2 de junho de 2015

Tomas Tranströmer (1931-2015)


Música lenta


O edifício está fechado. O sol entra pelas vidraças
e aquece, do alto, as secretárias
sólidas bastante para suportar o peso do destino.

É o nosso dia de saída, para a longa extensão dos taludes.
Muitos vestiram os fatos escuros. Podemos apanhar sol
e fechar os olhos e sentir o vento que nos leva, suave.

Eu, que raramente venho até à beira-mar, aqui estou,
por entre os rochedos cobertos por algas macias.
Rochedos que, lentamente, souberam emergir das águas.


Tomas Tranströmer, in Klanger och Spär (1966).

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Mais um poema, traduzido, de Tomas Tranströmer


Aos amigos, para lá de uma fronteira


I
Acabei por escrever-vos uma carta tão seca. Mas tudo aquilo que não pude dizer
foi enfunando e assim pleno, como outrora os dirigíveis
pode, finalmente, partir pelo céu durante a noite.

II
A minha carta está agora nas mãos do censor. Ele acende a sua lâmpada.
Nesse súbito clarão, as minhas frases evoluem como pequenos símios por entre grades de metal
que eles vão abanando, fazendo momices e arreganhando os dentes.

III
Terão de ler por entre as linhas. Havemos de nos ver dentro de duzentos anos,
quando os microfones estiverem esquecidos por dentro das paredes dos hotéis,
e quando puderem, por fim, adormecer, como se se transformassem em eternas trilobites.


Tomas Tranströmer (1931-2015), in Stigar (1973).

terça-feira, 26 de maio de 2015

De "As Fórmulas da Viagem", o poema V, de Tomas Tranströmer



A caminho para uma longa noite. Obstinadamente, o meu relógio
faz cintilar o insecto prisioneiro do tempo.

Uma sala sobrelotada torna o silêncio mais espesso.
Na penumbra, as planícies passam em tropel.

No entanto, o escritor está apenas a meio da sua imagem
e é por aí que se deslocam, simultaneamente, a águia e a toupeira.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Mais um poema de Tomas Tranströmer


A planície no Verão


Vimos já tanto.
A realidade usou-nos demasiado,
mas, de súbito, eis que chega o Verão:

este grande aeroporto - em que o agulheiro
faz descer do céu carregamentos
de pessoas transidas, uma após a outra.

Ervas, depois as flores - aterram por aqui.
As ervas têm um dono verde.
Eu faço-me anunciar.

domingo, 10 de maio de 2015

T. Transtörmer, poema sobre um Portugal antigo


Lisboa


Os eléctricos amarelos pareciam cantar subindo Alfama.
Duas prisões havia. Uma, para os ladrões.
Que acenavam com as mãos por entre as grades.
Gritando que queriam ser fotografados.

«Mas aqui," disse-me o cobrador hesitante, como a fazer troça,
«é aqui que metem os políticos». Eu olhei a fachada, a fachada
contínua, e lá em cima, na janela, um homem
com um binóculo contemplava o mar.

A roupa branca secava pelo céu. As paredes ardiam.
As moscas pareciam decifrar letras minúsculas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma senhora de Lisboa:
«Era mesmo assim, ou terei sonhado?»


Tomas Tranströmer, in Klanger och Spär (1966).


para H. N., por razões óbvias.

sábado, 9 de maio de 2015

Levar o fio à meada


Regressado que foi o bom tempo e as temperaturas amenas, retomo, na varanda a leste, por entre os 4 limõezinhos recém-nascidos do limoeiro novo e as flores brancas das sardinheiras, a leitura de "Guerra e Paz" de Tolstoi. Abandonada que fora, há meses (Novembro de 2014), a obra, na página 247 do segundo volume, que vai a mais de meio, reabro de novo o calhamaço. Ao lado, e à mão, tenho, porém, Baltiques, de Tomas Tranströmer - gentilmente emprestado por H. N., em mais um rasgo atento de boa amizade - para o caso de o tédio vir a ser grande, na leitura da obra-prima (sem ironia, MR!) do escritor russo.
Re-constato as inúmeras gralhas, imperdoáveis, desta tradução portuguesa, da Inquérito, do já longínquo ano de 1957.
São quase sete horas da tarde, ainda há luz na varanda, e o céu, quase limpíssimo de nuvens, está nitidamente azul. Acabei a página 272...

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Um poema do sueco Tomas Tranströmer


Criptas românicas

Na penumbra da vasta igreja acotovelavam-se os turistas.
Uma cripta dava a outra cripta uma visão incompleta.
As chamas de uns quantos círios oscilavam.
Um anjo sem rosto veio abraçar-me
e sussurrou-me por todo o corpo:
"Não te envergonhes de ser homem, orgulha-te!
Dentro de ti uma cripta leva a outra cripta, indefinidamente.
Nunca estarás completo e assim deve ser."
Cego pelas lágrimas
fui empurrado até à praça incendiada de luz
juntamente com o sr. e a sra. Jones, o sr. Tanaka e a senhora Sabatini
e, dentro de cada um deles, uma cripta
dava para outra cripta, indefinidamente.


Nota: o poeta Tomas Trantrömer (1931-2015) foi Prémio Nobel da Literatura, em 2011.