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sábado, 27 de janeiro de 2018

As palavras de ontem


Só hoje dei por uma crónica de António Bagão Félix (1948), sobre o direito ao silêncio. Num jornal que cada  vez sinto mais afastado de mim, na sua deriva direitista que se iniciou, mais ostensivamente, desde a entrada deste último director, que tinha sido assessor do anterior PR. Et pour cause...
Transcrevo o início da crónica de A. B. F., por me parecerem justas e oportunas as suas palavras:

"O silêncio é agora urbi et orbi quebrado pela autocracia do som ainda que musical. Na espera dos telefones onde nos impingem músicas e ritmos que não pedimos e que nunca ouviríamos, a maior parte das vezes para intervalar um serviço de atendimento permanentemente entupido ou deficitário de qualidade. Uma pessoa em desespero e luto é agredida com um alegre folclore ou música pimba que àquela hora a apanhou num telemóvel. Nos elevadores, a má-criação de um mau silêncio de quem não tem a educação mínima de cumprimentar quem entra ou sai, é envolta numa qualquer musiqueta de pacotilha. Nos transportes ou nos táxis, o seu utilizador tem de aturar, sem dar autorização, música rasca ou anúncio aparvalhado. ..."

Ironicamente, eu chamaria a isto a verdadeira ditadura do proletariado, sobre as minorias.

sábado, 14 de março de 2015

Da Janela do Aposento 59: Ócio e Silêncio



Inspirada numa afirmação certeira de A. Guerreiro, recordando-nos que é “do otium que nascem as artes, as letras e as ciências”, acrescentaria também o silêncio.

Se “o otium, como tempo de liberdade,” propicia o encontro com o outro, tanto na sua versão textual como noutra forma artística, o silêncio acrescenta, a esse supremo bem do ócio, a condição indispensável para centrar a atenção na essência – na nossa e na alheia.

Para bom entendedor, bastariam estas duas categorias para uma formação humana essencial.

Libertavam-se as criaturas dos ruídos alheios à leitura e ao pensamento e, sobretudo, terminava o rodopio das actividades permanentes com que a indústria do lazer planeia e preenche os dias desde tenra idade.

Post de HMJ

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Balanço


A colheita nocturna, imaterial, por entre o ruído, a música e o silêncio do dia que está para acabar, nem sempre é inútil, sendo embora escassa.
De hoje, diria que as palavras terão sido poupadas e não excessivas ou dissipadas, para além daquelas que são sempre necessárias ao quotidiano e à sobrevivência, nomeadamente, a burocrática. Gastas, perdulariamente, foram poucas. E um homem não tem assim tantas coisas novas a dizer ao longo de uma vida. Às vezes até parece que já tudo foi dito. E o silêncio é a forma mais sábia de viver, para além das palavras úteis para ir subsistindo, no dia a dia. 
Para além do silêncio, que quebramos tantas vezes para ocupar espaço, só a música tem expressão superlativa. O resto, e em excesso, tem sempre uma tentação redundante de eco ruidoso e inútil. Muitas vezes, para nos ouvirmos.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Recuperado de um "moleskine" (3)


Entre o silêncio e uma soada tímida, vai alguma diferença e alguns degraus na escala; entre o resmoneio da reza, na fresca e pétrea catedral, e uma restolhada de pássaros, escondidos na árvore frondosa, pela tarde de Verão, abre-se uma clareira de diferenças. Entre ruído e barulho, as coisas sobem de tom. A voz humana pode assumir vários timbres, mas a música tem um poder mais forte - e qualitativo. Irmã do silêncio, manifesta-se, quase sempre, em harmonia.
Mas também uma criancinha ululante, na rua, se distingue do urro colectivo nos estádios superpovoados.
E de um infante que grita, ligeiramente, para chamar a atenção dos pais, ausentes ou distraidos, pode vir apenas uma diferença cultural que, em nada se assemelha a um grupo adolescente que grunhe, porque mal sabe pronunciar palavras humanas.
Aos adultos deve-se-lhes pedir algum equilíbrio, em contexto próprio. Mas o homem de cabeça já saraivada, que entrara ziguezagueante na esplanada, vinha alumbrado de olhar e foi canhestro (quase caiu), ao sentar-se à mesa. Contemplou desbocado o casal jovem, a uns 3/4 metros, mais a criança loira com corte de cabelo exótico. Cerca de dois minutos depois, balbuciou a meia voz: "O cabrão do rapaz tem um cabelo lindo! Parece um cão rafeiro..."

domingo, 14 de abril de 2013

Silenciamentos


De algum modo, o TLS (nº 5739) dedica, não intencionalmente, uma boa parte das suas páginas a dois tipos de silêncio: o formal ou de apagamento social, e o sagrado ou religioso, nas suas formas de consentido, mas também imposto, por vezes.
Lembro-me, na minha juventude, de como algumas famílias "escondiam" em casas isoladas ou quintas afastadas, os seus filhos diminuídos ou mentecaptos, de forma a fazê-los escapar à irrisão social, mas também por vergonha ou conveniência - e para sua maior comodidade familiar. Muitas vezes, uma criada acompanhava este sepultamento em vida, dedicando-se por inteiro a estes seres humanos. Frequentemente, acontecia, em alternância, serem internados, para sempre em instituições psiquiátricas.
Mas segundo o TLS, na época vitoriana, com restritas normas de comportamento, essas instituições proliferaram e albergaram, muitas vezes com a cumplicidade de médicos, pessoas cuja extravagância, conduta (sexual, às vezes) e comportamento se afastavam da regra vigente. Mas não só em Portugal e na Inglaterra, a diferença se castigava com o silêncio. O caso da escultora Camille Claudel (1864-1943), em França, é exemplar, porque foi "sepultada" viva em hospitais psiquiátricos, desde 1913 até à morte. O caso - escandaloso para a época - do seu romance tempestuoso com Rodin, contribuiu também para justificar o seu apagamento social, imposto pela família.
Depois, há o silêncio religioso que, de algum modo, se religa, intrinsecamente, ao sagrado. Que, na sua forma mais visível, é observado nas Cartuxas. Mas também aqui houve um aproveitamento social para muitos apagamentos humanos, em Portugal, por conveniência familiar, pelo menos, até ao séc. XIX, e maioritariamente atingindo mulheres que se desviaram da norma. E mesmo que, no interior desses mosteiros e conventos, o diálogo fosse permitido, era-o apenas nessa comunidade. O contacto com o exterior era vedado, em princípio.
Nos dois casos, o silêncio foi sempre uma forma de punição social ou familiar.