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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Uma fotografia, de vez em quando... 208

 

Destes Cristos em madeira, normalmente do século XVIII e em mãos de particulares, raros são os íntegros. Dos meus dois, a um faltam-lhe os braços e, ao outro, o corpo acaba-se-lhe nos joelhos. Ainda assim não deixam de ser interessantes, expostos na parede.
Este, na fotografia, do escritório de José Régio (1901-1969), em Vila do Conde, só lhe faltam as mãos. Quase um milagre...

quinta-feira, 7 de março de 2019

Das histórias


Será que ainda haverá histórias por contar? Duvido.
Originárias de mitos, ancestrais, dão expressão catárctica às angústias humanas ou, de forma positiva, aos anseios mais íntimos, inconfessáveis ou não, dos seres humanos. E a sua urdidura ou trama reside em contos ou fastos mais antigos, normalmente, a que cada geração dá formato actualizado na sua época, sem transgredir demasiado, a matriz original. O ponto acrescentado ("quem conta um conto, acrescenta um ponto") à verdade real ou à imaginação ficcionada pode, no entanto, dar-lhe a suficiente beleza e qualidade que obriga a narrativa da mera tradição popular e oral, a passar para a classe superior de literatura escrita.
Será por isso curial lembrar, a propósito, as palavras de Almeida Garrett, para explicar a génese da sua peça teatral "Frei Luís de Sousa":

Há muitos anos, discorrendo num Verão pela deliciosa beira-mar da província do Minho, fui dar com um teatro ambulante de actores castelhanos fazendo as suas récitas numa tenda de lona no areal da Póvoa de Varzim além de Vila do Conde. Era tempo de banhos, havia feira e concorrência grande; fomos à noite ao teatro; davam a comédia famosa não sei de quem, mas o assunto era este mesmo de Frei Luís de Sousa. Lembra-me que ri muito de um homem que nadava em certas ondas de papelão, enquanto num altinho, mais baixo que o cotovelo dos actores, ardia um palàciozinho também de papelão... era o de Manuel de Sousa-Coutinho em Almada!

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Adagiário CCLXXII


1. Onde há redes, há rendas.
2. Aprende chorando e rirás ganhando.


Nota: os dois provérbios foram colhidos no livro Roteiro Sentimental (3), de Manuel Mendes (1906-1969); a fotografia, que encima o poste, pertence ao arquivo da C. M. de Vila do Conde.

domingo, 26 de abril de 2015

Retratos (14)


As Caxinas eram e são, para mim, a Senhora Margarida J., embiocada de negro que, por Agosto, quando a visitávamos, invariavelmente, me oferecia - era eu criança -, da prateleira, uma pequena embalagem de bolachas Maria, que era o que havia de melhor, na Loja. O que se via, do seu rosto, crestado por sol e mar, eram as rugas, oriundas quase todas das comissuras dos olhos.
Viúva, administrava, com zelo e autoridade, uma pequena tasca-mercearia, na fronteira entre a Póvoa e Vila do Conde. Essa visita anual, exemplo de austeridade e devoção, por parte de minha Mãe, agradava-me sempre, não tanto pelas bolachas, mas pelo ambiente que se respirava, tão diferente daqueles a que estava habituado. E tinha uma verdadeira simpatia pela velha Senhora, que pouco sorria, embora se agradasse de nos ver.
Não sei donde lhe vinha o luto, nem a rede imensa de rugas fundas que, provavelmente, pressupunham lágrimas passadas e, talvez naufrágios, pensava eu, na altura. E, agora, é já muito tarde para perguntar...