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quarta-feira, 20 de julho de 2022

Mercearias Finas 180



Amavelmente me fizeram chegar uma série de fotografias (Obrigado!) que, em geral, me lembraram, pela profusão de marcas de vinho, as paredes do saudoso e já desaparecido Restaurante Isaura que honrava pela qualidade da sua gastronomia e rica escolha vínica a Avenida Paris, ali para os lados do Areeiro lisboeta.



Este caso acontece em Évora, num café, e privilegia temática e graciosamente vinhos com pássaros nos rótulos, desde o Norte até ao Sul, não faltando sequer o renomado duriense Quinta de la Rosa e um bairradino Luís Pato. Um senão que devo anotar: não se destinam a consumo de clientes do café, mas a consumo dos donos. E é pena...


A mostra, diga-se, contempla várias dezenas de vinhos, nestas pelo menos 7 estantes existentes na insólita enoteca eborense.

Adenda: embora pouco a propósito, insere-se nos temas desta rubrica dizer que ontem saboreámos uma deliciosa sopa de beldroegas, feita das plantas que, quase todos os anos, crescem, espontaneamente, em dois dos vasos da varanda a Sul. Acompanhada por um Dão branco de Silgueiros, que não tinha nenhuma ave no rótulo...

domingo, 13 de agosto de 2017

Mercearias Finas 125


Quase todos anos, espontâneas, por Agosto, florescem as beldroegas, na floreira das sardinheiras da varanda a Leste. Oferenda generosa da Natureza ou, mais realisticamente, fruto, trazido pelo vento, ou por algum pardalito que, em aflição, ali se tivesse aliviado, deixando algumas sementes, que vieram a germinar na terra desocupada e limpa de vegetação.
Sopa de pobres, enriquecida, por quem pode, de alguns primores que lhe dão mais gosto: queijinhos frescos daqueles rústicos e bons, ovos amarelíssimos na gema de galinhas de campo criadas à solta, e uma cabeça inteira daqueles alhos pequenos, terrunhos e nacionais. Cebolas e batata, cortadas em rodelas finas. As fatias de pão, para acompanhar, convém que sejam do melhor. Assim se faz uma sopa substancial e saborosa.
De nome científico, a planta: Portulaca aleracea, assim mesmo.
Ora, para este caldinho rústico, o único trabalho estrénuo é ter que separar as folhas tenras dos talos suculentos das beldroegas. E isto demora o seu tempo, se for feito como deve ser. Mas a debulha compensa.



Em nome da simplicidade, abriu-se um Dão branco Monástico 2016, da UCB, com 12º e sem pretensões de maior. Não fora, talvez, um ligeiro excesso de Malvasia-Fina no lote, que o adamou demasiado, e teria sido o acompanhante perfeito. Mesmo assim, não desmereceu. Isto, de escolher o vinho certo e ajustado a uma refeição, tem muito que se lhe diga...



Após cerca 25 minutos de cozedura da sopa de beldroegas, e cortado o pão escuro de centeio, a refeição estava pronta. De tão substancial, que era, dispensámos a sobremesa. Para o ano há mais, se a Natureza quiser fazer-nos o obséquio...

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Apontamento 81: Venturas e desventuras de uma hortelã citadina


Ora, como bem se lembram, estávamos à espera de um valente aboboral, transformando até o meu escadote em suporte para as ditas abóboras à medida que iam crescendo. Iam, bem dito, porque até ao momento não se safou nenhuma !



No entanto, ficou-nos o belo espectáculo das flores que ainda vão abrindo. Ao fim do dia murcham e passados dois dias caem. Ao que parece, são masculinas e não dão fruto. São segredos da natureza que não sei resolver.

Como este ano tem sido pródigo, também ficámos com uma boa colheita de beldroegas no vaso da roseira que, infelizmente, morreu. Ora vejam !



O tamanho das beldroegas inspirou a gula e lá fomos nós consultar, novamente, a receita da sopa. Tudo comprado e tudo preparado foi, então, hoje o dia em que o almoço servido veio, na substância, da nossa horta caseira.



 Post de HMJ

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Mercearias Finas 13 : bisando as beldroegas



Eu já andava com saudades delas, sobretudo, depois de ter contado aqui, no Arpose (31/7), uma história sobre a sopa de beldroegas. Por outro lado, via-as crescer, imparavelmente, em dois dos vasos de flores da varanda virada a leste. De geração espontânea, aliás, que eu nunca as plantei. Era uma perdição e, embora HMJ me dissesse que a quantidade de folhas era insuficiente para uma sopa substancial, ainda assim foi gentil a ponto de me deixar uma fotocópia da receita. Tirou-a da "Cozinha Tradicional Portuguesa" de Maria de Lourdes Modesto. Entretanto, eu fui ganhando balanço e coragem, ao vê-las crescer, imensas, nos vasos da varanda. Acontece por acréscimo que eu nunca tinha feito uma sopa, na minha vida. Mas " a necessidade pode muito", já lá dizia o Garrett. Quanto ao resto, e em matéria de cozinha, sou como aquelas empregadas domésticas antigas, que diziam: "Sei fazer o trivial!"
No sábado passado, comprei 2 queijinhos frescos, de cabra, em sítio recomendável e aqui perto; e adormeci a planear a sopa de beldroegas. No domingo, de manhã, "ceifei" cerca de 12 ramos e durante vinte minutos depeniquei as folhas verdes. Segui a receita à risca, embora adaptando-a a uma mini-dose. A confecção correu bem, afora devesse ter posto um pouco menos de água e de azeite. O resto estava correcto, e usei apenas meio queijinho fresco de cabra.
A sopa de beldroegas estava excelente. Acompanhei-a com dois tragos de branco alentejano "Figueirinha, Reserva, 2009" (Chardonnay, Antão Vaz e Arinto), fresco, que se portou bem como companhia. E, como não sou invejoso e gosto de partilhar as coisas boas, aqui deixo a receita.
Boa sorte e bom proveito, a quem quiser arriscar!
Nota curiosa: o nome científico da beldroega é "portulaca".

sábado, 31 de julho de 2010

Mercearias Finas 12 : A sopa de beldroegas e o TLS



O professor Bernardo da Fonte ia, todas as sextas-feiras, buscar à tabacaria "Velho do Restelo" o seu exemplar do TLS (The Times Literary Supplement). Às vezes, encontrava a Cilinha, com as suas assimetrias caprichosas e voz aguda, a quem, paternalmente, beijava as bochechas, até porque eram colegas de profissão. Outras vezes cruzava-se com o Sr. Murphy, louro e fleumático, que resmoneava um bom dia com sotaque; vinha também um paquete do "JL" para levar outro dos exemplares reservados. O quinto TLS era para mim, que vou contar a história. Acrescento, desde já, que eramos uma irmandade distante, sem familiaridades entre si, mas fiel.
A tabacaria tinha dois empregados: o Heitor, alentejano de gema, já quarentão, e o Rodrigo, ainda moço, fantasista e sonhador, que tentava sempre falar de mundos distantes e culturas exóticas com os clientes menos apressados. Mas veio a morrer, de repente, em circunstâncias estranhas, três anos antes da tabacaria "Velho do Restelo" fechar. No entretanto, sucedeu-lhe o Fulgêncio, a rondar os vinte anos, um pouco raquítico, baixinho e magro, mas enérgico e prestável. Sempre com um "olho na burra, outro na albarda", não lhe roubassem as revistas dos expositores. Justiça lhe seja feita: mal eu assomava à porta, já o Fulgêncio procurava o TLS para mo entregar, com um sorriso.
Ora uma sexta-feira, ainda eu estava a pagar a "BBC music" e o jornal inglês, ao Fulgêncio, quando entrou o Heitor, épico e esbaforido, clamando: "- Já ganhei o dia! Hoje, no restaurante, ao almoço vou comer sopa de beldroegas!" Ao professor Bernardo da Fonte, que entrou quase a seguir, ouvi-o perguntar: "- E é boa a sopa de beldroegas?", e o Heitor respondeu: "- Se é, senhor professor!, tem é que se depenicar as folhas, como as penas às perdizes..."
Este pequeno incidente, inofensivo na aparência, foi, no entanto, como um rastilho aceso num cartucho de dinamite progressivo. Eu nunca mais descansei enquanto, lá em casa, não me fizessem uma sopa de beldroegas que, confirmei, sendo bem feita, é de apetite! Amarguei-as, porém, porque tive que depenicar 4 molhos de beldroegas, durante quase duas horas, e nunca mais me atrevi a pedir uma segunda dose. Prefiro depenar perdizes...
Com o professor Bernardo, o caso foi mais dramático. Parece que, por essa altura, ele já não se dava muito bem com a mulher, embora o casamento já levasse mais de trinta anos, e quatro filhos. Por outro lado - segredou-me o Heitor -, a esposa do professor, e homem de letras, não era lá grande cozinheira, nem alentejana. Mas ele tanto insistiu com a senhora que ela lá lhe fez a sopa de beldroegas. Porém esqueceu-se de lhe pôr os dois queijinhos frescos da receita. E a sopa parecia mais um caldo de ervas daninhas. O professor passou-se...
Seis meses depois, ele e a dona Custódia estavam divorciados. Um ano mais tarde, Bernardo da Fonte veio a desposar, pelo civil, a Cilinha Gomes Alves - nessa altura, já uma cronista consagrada e muito presente em mesas-redondas, de temas literários, na TV. E foi assim que, dos 5 exemplares que a tabacaria "Velho do Restelo" guardava e vendia, passou a vender apenas quatro. O professor e a Cilinha passaram a ler pela mesma "cartilha". Mas não foi por isso que a tabacaria veio a fechar. Mas isso, é outra história. Já sem sopa de beldroegas...
Nota: qualquer semelhança das personagens com pessoas da vida real é mera coincidência.