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quarta-feira, 5 de junho de 2024

Sobre poesia, ainda


 
Um poeta, como deve ser e obra bastante, tem muitas vezes um poema para cada situação. A exemplo de Thomas More, e nas palavras do dramaturgo Robert Bolt (1924-1995), é  A man for all Seasons (1967).
Ao meu lado direito, há dias, no restaurante, sentou-se uma balzaquiana com um vestido de cor muito singular. E lembrei-me logo de dois versos de Eugénio de Andrade, do Mar de Setembro (1961):

De que cor te vestiste?
De madrugada ou limão?
...
que se lhe aplicavam lindamente.

domingo, 2 de junho de 2013

Os eleitos


Tenho cada vez menos paciência e capacidade para suportar o purismo impoluto de algumas criaturas que, sendo transversais a vários ofícios, têm o epicentro etário e maioritário entre os quarenta e poucos e os ciquenta e muitos anos. É um modo de vida, uma forma de estar e dizer-se independente, um certo elitismo provinciano ou snobeira que os leva a rechaçar tudo, a tudo excluir, mas a nada, nunca, apresentar como alternativas ou opções que apoiem, declaradamente. No fundo, reservam-se sempre e não gostam de sujar as mãos na lama dos dias. E quase nunca nomeiam referências.
Quando eu era novo, tinha como heróis Nuno Álvares Pereira e Thomas Moore, sabendo que não eram homens perfeitos. Um pela soberba ética de algumas atitudes, outro, pelo gosto ou ganância de acumular riqueza, e pelas birras. Eram humanos, apenas, e como diz o povo: "o bom é inimigo do óptimo". É difícil dizer, hoje, que ainda tenho heróis e exemplos, ou nomeá-los. Mas admiro Steiner porque me faz pensar, e aprecio a irreverência paradoxal de Cioran que me obriga a situar a minha própria posição. Gostei, por exemplo, do exercício político discreto de Jospin que foi, nos tempos que correm, o último socialista autêntico, na Europa. Ou Delors. E acompanhei, com curiosa atenção, o percurso presidencial de Mittérrand. Não se pode dizer que não tenho referências.
Não me consigo é dar ao luxo desses devaneios de independência de alguns tecnocratas balofos, alguns deles lusos, de cérebro minguado, sem deus nem pátrias, e de espírito e pensamento, dito, independente. Chamávamos-lhes, nos meus tempos de juventude: os fanãs...

domingo, 6 de janeiro de 2013

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Sinais


1. Quando o desemprego, em Portugal, atingiu (e não vai há muito tempo) o número redondo de 500.000 trabalhadores, da população activa, houve um sobressalto nos comentadores políticos e a Oposição vociferou, alto e bom som. Hoje foi notícia que os desempregados ultrapassaram o número recorde de 770.000. Na UE somos já o 4º país com mais  desemprego, depois da Espanha, da Grécia e da Irlanda.
2. Aquando da reeleição, em 2011, do nosso actual PR, a percentagem de abstenção nos eleitores foi quase igual à daqueles que votaram em Cavaco Silva. Há dias, e pela 1ª vez desde o 25 de Abril, um PR foi apupado nas ruas. Concretamente, no Porto. Hoje, e à última hora, Cavaco Silva desmarcou uma visita à Escola Secundária António Arroio. "Imponderáveis de agenda" - foi a justificação. Convenhamos que a manifestação que o esperava não seria muito calorosa, nem muito amigável. Mas também há a coragem ardilosa das raposas e a cobardia das hienas. Há leões e há coelhos. E há homens "for all seasons", para lembrar Thomas Moore.

São sinais. Mas, talvez, a ter em conta.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Para Miss Tolstoi, na sequência de um seu comentário





Aqui ficam o esboço e retrato de Thomas Moore, feitos por Hans Holbein; e a fotografia do actor inglês Lawrence Olivier, para cotejo. Na sequência do poste anterior e de um comentário de Miss Tolstoi.

Osmose (3)


São figurações interiores. Factores quase indistintos e situações que se respiram, imperceptíveis, mas que dificilmente consentem expressão exterior. Por pudor, por temor no erro de avaliação, por dúvida sobre a clarividência intuitiva. Regressam, assim, silenciosamente à memória. Pela impossibilidade racional de as justificarmos.
Há quase uma certeza, mas como a dos oráculos metafóricos, ou como a generalização abstracta dos astrólogos: não ousamos torná-la exterior e concreta. Porquê a semelhança do rosto de Thomas Moore e a face de Lawrence Olivier? É evidente que estamos perante uma irrealidade e a única coincidência é que eram ambos ingleses.
O ponto de partida foram dois corpos debruçados sobre o mesmo assunto. O retrato pintado por Holbein, que encima este poste, é apenas uma derivação, embora o tenha colocado por associação.
Essas figurações, de que falava no início, podem vir duma expressão do rosto, de um cheiro longínquo, de um tom de voz que parece mais quebrado do que o costume. Por um gesto que surpreendemos, ou pela posição de dois corpos que se debruçam sobre o mesmo assunto, e se ajustam, paralelos, em consentida harmonia.
Como dizia José Régio: "há mais mundos".