Mostrar mensagens com a etiqueta W. B. Yeats. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta W. B. Yeats. Mostrar todas as mensagens

domingo, 3 de janeiro de 2021

Uma fotografia, de vez em quando... (143)

 


Nascido em Berlim, Arnold Genthe (1869-1942) cedo emigrou para os E. U. A. e, embora tarde se tenha dedicado exclusivamente à fotografia (os seus estudos foram na área das Humanidades), foi a tempo de deixar inúmeros testemunhos do terramoto de S. Francisco (1906) e das ruinas provocadas.


Notáveis são também os sugestivos retratos de Isadora Duncan e do poeta irlandês W. B. Yeats, este último fixado em 1915.




domingo, 2 de fevereiro de 2020

De Auden para Yeats





In Memory of W. B. Yeats
(d. Jan. 1939)

I

Morreu quando o inverno agonizava,
Os regatos estavam gelados, os aeroportos quase desertos,
E a própria neve desfigurava as estátuas pelas ruas;
Até o mercúrio se contraía pela boca do dia moribundo
E todos os instrumentos convergiam de frio, concordavam
Que o dia da sua morte era um negro, gélido dia.

Para longe da sua doença
Os lobos desapareceram no denso mais verde das florestas,
O rústico rio selvagem nem sequer foi atraído para os cais
Mais amenos; e as bocas mais gentis e discretas
Souberam poupar os seus poemas à morte do poeta.

Embora para ele tivesse sido, com efeito, a última tarde,
Um entardecer de freiras e rumores;
Todas as regiões do seu corpo revoltadas,
As praças da sua alma, de repente, despovoadas
E o silêncio invadiu todos os subúrbios;
A energia mais íntima do sentimento apagou-se. Ficou a dos outros

Seguidores. Agora ele está espalhado por centenas de lugares
E sente-se obrigado a ser gentil com os desconhecidos
Para encontrar a felicidade por entre estranhos tecidos
E ser castigado por códigos novos e alheios
De um outro vocabulário de homem falecido
Alterado pelas regras dos sobreviventes.

Mas no que vier a ser importante ou ruído de amanhã
Quando os corretores rugirem como feras pela Bolsa,
E os pobres tiverem sofrido tudo aquilo para que estão fadados,
E todos nas celas de cada um se convencerem da sua liberdade,
Alguns poucos milhares hão-de pensar na importância deste dia
Como quando alguém se apercebe no dia em que fez algo extraordinário,
Aquilo, no fundo, em que os instrumentos metereológicos concordaram
Que o dia da sua morte foi extremamente escuro e muito frio.

II

Eras tão ignorante quanto nós, mas o teu dom foi sobreviver a tudo:
À paróquia das senhoras finas, à física decadência;
A ti próprio. A loucura da Irlanda feriu-te bem fundo de poesia.
Agora a Irlanda tem outra loucura bem como o seu tempo tranquilo,
Pois a poesia não faz acontecer já nada de novo: sobrevive
No vale onde é feita e por onde os executivos
Não querem entrar, e desliza em direcção ao sul
De quintas isoladas e sentimentos diligentes,
Ingénuas cidades em que acreditamos e onde morremos;
Apenas sobrevive uma forma de ser, uma única boca.

III

Terra!, recebe este honrado hóspede:
William Yeats veio para repousar.
Deixa que o barco aporte
Despido de toda a sua poesia.

No escuro pesadelo
Todos os cães da Europa ladram
E as nações existentes aguardam,
Cada uma sequestrada no seu ódio;

A desgraça intelectual
Vai-se reflectindo em cada face,
E mares de misericórdia aí ficam
Fechados e gelados no olhar.

Segue, poeta, vai além
Até ao fim da noite,
Com a tua voz enfim liberta
Convence-nos ao júbilo.

Com o cultivo de um verso
Constrói o destino da vinha,
Contra o insucesso humano
Num êxtase de angústia;

Pelos ermos do coração
Deixa que rompa a ferida da fonte,
Pela prisão de cada dia
Ensina o homem livre a celebrar.


W. H. Auden


( versão portuguesa, feita em memória de A. de A. M.)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

W. B. Yeats (1865-1939)


The Four Ages of Man


Com o seu próprio corpo travou uma luta
Mas o corpo venceu; passou-lhe adiante.

Lutou depois contra o seu próprio coração;
A inocência partiu e com ela a paz.

Seguiu-se-lhe a luta com o espírito;
Deixando para trás o seu orgulhoso coração.

E agora começaram as guerras com Deus;
Ao bater da meia-noite, Deus vencerá.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Este país não é para velhos ( W. B. Yeats)

É um eufemismo, e até mesmo um erro, dizer-se que é uma conquista da civilização e melhor qualidade de vida viver-se até mais tarde. Às vezes, muito raramente, pode ser.
É também um mito afirmar-se que o sistema de saúde, nos países do Norte da Europa, é uma maravilha. O nosso SNS, do meu ponto de vista, é melhor. E mais humano. O vídeo não o aconselho a pessoas excessivamente sensíveis.

agradecimentos a C. S..

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

"Este mundo não é para velhos"


O título deste poste plagia, com a diferença de apenas uma palavra, parte do verso inicial (That is no country for old men...) do poema de Yeats, "Sailing to Byzantium", que aqui traduzi, em 1 de Maio de 2010. Os irmãos Coen também o usaram para título de um seu filme recente.
Pese embora o facto do irlandês Yeats ter aceitado muito mal a sua velhice, também Leonard Cohen a encara com amargura e, em muitos casos, essa idade ser propícia à insegurança e ao cepticismo acentuado para com o mundo à volta.
O regresso à "estrada" das digressões e a intensidade de gravações, nos últimos anos, explica-se, sobretudo, pelas necessidades financeiras do cantautor canadiano. Que, já no início do século XXI, foi vítima de abuso de confiança por parte da sua antiga companheira, Kelly Lynch, que era também gestora dos seus dinheiros. E o defraudou, desviando 3,8 milhões de dólares...
No seu último livro, também Herberto Helder diz, no poema final:

...e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,/ ...

Diferentes perspectivas que convergem por motivos de insegurança e tristeza na velhice, mas que não impedem, porém, a existência de beleza nos poemas tardios destes três poetas de países bem diferentes.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Arte, liberdade e intervenção


Quando, a 1/9/14, aqui citei uma frase de Justin Willis, veio-me à memória um verso de Drummond de Andrade: "...não faças versos sobre acontecimentos..." Mas também poderia invocar W. Wordsworth que definia poesia como "emoção recordada em tranquilidade". Não significa isto que o artista não deva participar, activamente, e do ponto de vista cívico, no dia a dia da sua comunidade e contemporaneidade, tomando posição clara sobre os acontecimentos mais relevantes. Mas deve deixar de lado a sua arte, para que ela se possa assumir com mais isenção e intemporalidade.
À roda das obras de Yeats e, mais recentemente, de Seamus Heaney criou-se, em alguns espíritos mais preconceituosos, a ideia de que esses poetas irlandeses quiseram manter uma certa neutralidade, nos seus poemas, de forma a poderem beneficiar, por uma certa ambiguidade, de um público mais alargado. No entanto, uma leitura mais atenta das suas obras, permitirá ver que eles assumiram posição sobre as questões que afectaram a Irlanda, nas suas épocas - que foram conturbadas.
Há que lembrar, ainda, Robert Frost: "(a poesia) nasce da liberdade criativa, mais do que da obrigação social". Ou, finalmente, referir Eugenio Montale: "a poesia terá de fazer uma peregrinação obscura através da consciência e da memória", muito embora deva mergulhar na "circulação diária, donde retira o seu primeiro alimento e inspiração".

sexta-feira, 29 de março de 2013

domingo, 25 de março de 2012

Gostos


Com a velhice, as coisas simples vão ganhando mais valor, muito embora, ao longo da minha vida, a exuberância, a excessiva perfeição, o alambicado quitche e o bonitinho sempre me tenham desagradado.
Na minha modesta opinião, há muito poucos poetas cuja poesia possa acompanhar, integralmente, as idades do Homem: Sá de Miranda, inteiramente, algum Eugénio de Andrade, Yeats, Quevedo, Jimenez e pouco mais.
Na pintura, Angelo e Resende também souberam acompanhar as idades, até pelo seu despojamento característico, numa ascese gradual que quase se diria arte "povera", que também teve as suas épocas de moda.
Em relação à música, de que sou um ignorante amador, diria que o meu gosto tem evoluído ou, simplesmente, se tem modificado. Mantenho o gosto pelos clássicos consagrados e por Liszt mas, nestes últimos tempos, venho gostando cada vez vez mais de Philip Glass e Preisner, de que não gostava, em anos mais tenros. Compositores que, não sendo clássicos, com o tempo, poderão vir a ser considerados como tal. São gostos...da idade.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Portugal não é para velhos


Posso ser acusado de plágio, mas os irmãos Cohen ( pelo título deste poste) terão de vir comigo à barra dos "au ralenti", minuciosos, morosos tribunais portugueses - até lá estarei morto e descansado, em cinzas etéreas distribuídas por esta Terra que tanto amei.
O "este país não é para velhos" tem seminal propriedade num Poeta que muito admiro: Yeats. Mas passemos ao assunto que aqui me trouxe.
Alguém (???) decidiu que, para fazer uma declaração às Finanças, via Internet, um cidadão português, todos os anos, tinha que ter uma nova "password".
Imagine-se uma anosa cidadã beirã e viúva, com mais de 80 anos, que tem umas ovelhitas que lhe dão queijos, e uns campitos pequenos que lhe dão sustento, com dedos muito nodosos de uma vida de trabalho, mas pouca imaginação poética (ou informática)... No primeiro ano escreve: Ludovina, que foi a filha que morreu nova. No segundo ano, lembra-se da neta, e escreve: Vanessinha. No ano seguinte lembra-se da bisavó que era Hermengarda. No quarto ano, exausta, recorda uma amiga de peito alentejana, e põe na "password", em jeito de memória votiva: Maria Tim-Tim Pão Mole Vieira. Benze-se, a seguir.
Por uma vez o nosso Cavaco, o nosso(?!) PR parece ter razão. Os políticos cada vez mais têm dificuldade em distinguir o Portugal virtual, do Portugal real... Benza-nos deus!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Pelo aniversário da morte de Yeats


A Drinking Song

O vinho chega-nos à boca
E o amor ao olhar;
É tudo o que sabemos na verdade
Antes de ser velhos e morrermos.
Ergo o copo até à boca,
Ollho para ti, e suspiro.

1910
W. B. Yeats (1865-1939)

domingo, 26 de setembro de 2010

T. S. Eliot : a idade, nos poetas


Thomas Stearns Eliot nasceu nos Estados Unidos da América a 26/9/1888. Foi prémio Nobel de Literatura em 1948. Naturalizado inglês, morreu em Londres a 4 de Janeiro de 1965, convertido ao catolicismo, e monárquico. Além de poeta, foi um crítico e ensaísta de Literatura extremamente perspicaz e lúcido. A propósito de W. B. Yeats e sobre a influência da idade nos poetas, T. S. Eliot escreveu:

"...É difícil e precipitado generalizar sobre modos de composição - cada cabeça, seu modo - mas é experiência minha que, quando se aproxima da meia-idade, um homem tem três opções: deixar completamente de escrever, repetir-se talvez com crescente virtuosismo ou reflectindo, adaptar-se à meia-idade e descobrir um modo diferente de trabalhar. (...) Ora, em teoria, não há razão para que a inspiração ou os materiais de um poeta falhem, na meia-idade ou em qualquer altura antes da senilidade. Porque um homem que é capaz de experimentar descobre-se num mundo diferente em cada década da sua vida; como os vê com outros olhos, os materiais da sua arte renovam-se continuamente. Todavia, de facto muito poucos poetas têm mostrado esta capacidade de adaptação aos anos. ..."
T. S. Eliot, in Ensaios Escolhidos, Cotovia, 1992 (tradução de Maria Adelaide Ramos).

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Entre a Irlanda e a Inglaterra : John Dowland

Para uma sequência harmoniosa, depois de Yeats, escolhi Dowland. Nascido em Dublin, para os irlandeses, natural de Londres, segundo os ingleses. John Dowland (1563-1626), seja como for, é um compositor notável.

Trocar de Rosa : W. B. Yeats



Quantos terão amado os teus gestos gráceis,
Tua beleza com amor falso e sincero,
Mas apenas um soube amar a alma errante,
E as tristezas que transformam o teu rosto.

William Butler Yeats (1865-1939).



P.S.: este poste tem dois credores: Eugénio de Andrade pelo título, e Luís Barata que, no Prosimetron, lembrou esta quadra de Yeats. Só a tradução é minha.

sábado, 1 de maio de 2010

William Butler Yeats



W. B. Yeats nasceu em Dublin (Irlanda), em 1865, mas com 11 anos a família foi para Londres, onde fica até 1880. Regressam à Irlanda, mas em 1887 estão de novo em Inglaterra. Yeats convive com os intelectuais britânicos e Ezra Pound chega a ser seu secretário, em 1913. O Poeta irlândes interessa-se por ocultismo, teosofia e lendas antigas. Em 1923 é-lhe atribuído o Nobel. Morre em França, em 1939.
Foi, predominantemente, um poeta simbolista, mas se o quisermos comparar com algum poeta português, eu diria que está muito mais próximo de Teixeira de Pascoaes, pelo seu lado visionário e um pouco místico, do que de Camilo Pessanha que foi o nosso simbolista, por excelência. W. B. Yeats conviveu mal com a sua própria velhice e, isso é visível, sobretudo no poema "Sailing to Byzantium". Particularmente no primeiro verso do poema - "That is no country for old men...". Por outro lado, quero alertar que este poema não tem nada a ver com o recente filme dos irmãos Coen, "No country for old men". O título deve ter sido, apenas, uma piscadela de olho aos intelectuais nova-iorquinos e irlandeses. Aqui vai, portanto, a tradução de "Sailing to Byzantium" de Yeats.

Zarpar para Bizâncio

I

Este país não é para velhos. Os jovens
Trocam abraços e os pássaros nas árvores
- Aquelas gerações agonizantes - no seu cantar,
Cascatas com salmão, mares de golfinhos
Povoados, peixe, carne ou aves que louvam o Verão,
Tudo o que foi gerado, nasceu e vai morrer.
Seduzidos pela música sensual todos esquecem
As grandes obras que o espírito fez eternas.

II

Um velho não é mais que um empecilho,
Um casaco esfarrapado sobre um ponto fixo, a menos
Que a alma bata palmas e cante, cante forte
Por cada trapo velho do seu mortal vestido,
Porque não há escola de canto para o estudo
Das grandes obras na sua magnitude;
Por isso eu naveguei nos mares para chegar
À sagrada cidade de Bizâncio.

III

Ó sábios guardiões do sagrado fogo de Deus
Como no dourado mosaico da parede
Deixai o fogo sagrado, falcão de seu voo circular,
Sêde os mestres-cantores da minha alma.
Esgotai meu coração; doente no desejo
E preso a um animal moribundo
Que não se reconhece no que é; acolhei-me
No artifício próprio da eternidade.

IV

Para sempre abandonada a natureza, nunca
Mais regressarei à minha forma corporal,
Apenas relevo cinzelado por gregos artífices
No ouro martelado ou esmaltes dourados
Para manter desperto um Imperador com sono;
Ou talvez eu pouse num áureo ramo a cantar
Para os senhores ou damas de Bizâncio
Celebrando o passado, o presente, e o porvir.


Obsv.: o poema é datado de 1927.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Seamus Heaney (1)


Seamus Heaney, poeta irlandês (como insiste em ser considerado) de língua inglesa, completará, no próximo dia 13 de Abril, 71 anos. Em 1995, foi agraciado com o Nobel de Literatura. O seu discurso de Dezembro desse ano, em Estocolmo, é um documento humano, muito vivo e interessante em que percorre a sua geografia sentimental, os seus afectos e experiências. A sua infância e adolescência passadas numa quinta do norte da Irlanda onde o barulho dos cavalos, no estábulo junto à casa, se misturava com as vozes das pessoas; fala da chuva sobre as árvores, nos ratos do celeiro, nas vozes dos locutores da BBC que, na infância e na sua invisibilidade radiofónica, lhe pareciam "divinas"... Refere Keats, Yeats, Hopkins para vir a centrar a sua intervenção, quase no final, na poesia. O seu discurso, na Academia Sueca, termina assim:
"... A forma do poema, ou por outras palavras, é decisivo para a força da poesia fazer aquilo que é e sempre foi a sua credibilidade: o poder de persuadir aquela parte vulnerável da nossa consciência da sua legitimidade, a despeito da evidência do fingimento que existe à volta dela, para nos lembrar que somos perseguidores («hunters») e coleccionadores de valores, e que a nossa própria solidão e angústia são credíveis na medida em que são, também, o que há de mais autêntico no ser humano."