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quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Últimas aquisições (35)



O tempo tem ajudado e anteontem vimos o Jardim do Príncipe Real com as bancas de livros usados montadas. Ontem, foi na rua Anchieta que os alfarrabistas habituais dispuseram a sua mercadoria, e que provavelmente lá vai ficar até ao fim-de-semana, para as vendas natalícias.
Aviei-me com dois livros, um do poeta inglês Ted Hughes (1930-1998), o outro do ensaísta alemão Walter Benjamin (1892-1940). A ver vamos o que valem e se valeu a pena...

domingo, 28 de abril de 2019

Ainda a propósito de corujas


Às vezes, as coisas andam no ar, como as corujas... Se, em liberdade e em toda a minha vida, apenas vi uma, de dia, branca, por alturas do Pragal, em horas mais recentes, e por estranha coincidência, passaram-me pela vista várias imagens delas e textos que falavam dessas aves nocturnas.
Frieda Hughes (1960), poeta e pintora inglesa, tem por si o facto de ser filha de Sylvia Plath e Ted Hughes, já falecidos e ambos poetas. Frieda tem uma particular estima por corujas e escreveu um curioso e interessante texto no TLS (nº 6054) sobre elas (Kitchen owls), de que vou traduzir um pequeno excerto:

As corujas também têm sido identificadas como anunciadoras de morte (na antiga Roma e no Médio Oriente), se cozinhadas, servem de mezinha curativa (Peru), como feiticeiras e mensageiras (Malawi), trazendo má sorte quando vistas à luz do dia (Escócia), como espíritos caridosos (Sibéria), e até já li que os camponeses da Transilvânia costumam, para  assustar e afastar as corujas, passearem-se completamente nus pelos campos.


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Divagações 136


Dificilmente um suicídio se explica, ou justifica. Menos ainda por uma única razão, como Albert Camus defendia, apoiando a hipótese de que a imolação própria é originada por mais do que um motivo pessoal.
Após o suicídio de Sylvia Plath (1932-1963), o marido, também poeta, Ted Hughes (1930-1998), directa ou indirectamente, foi acusado, nos meios intelectuais ingleses, de ter sido o responsável moral pela morte da mulher, que tinha abandonado, pouco tempo antes.
O facto de ter destruido parte do diário da Mulher, corroboraria o sentimento de culpa. Com o tempo, porém, esta ideia de culpabilidade indirecta foi-se atenuando, tendo ganhado força o aspecto de Sylvia ser dada a depressões e, já anteriormente, se ter tentado suicidar.
A recente publicação da correspondência da poetisa coloca novas hipóteses. O penúltimo TLS (nº 6031), em relação ao livro, e, numa recensão de Hannah Sullivan, obriga a repensar o assunto, reforçando com peso, ambas as possibilidades e motivos.
A pergunta mantém-se, por isso: porquê o suicídio?
O mistério rodeia sempre este acto humano capital. Se somos capazes de ensaiar razões bastantes para o suicídio de Camilo, já a morte de Antero de Quental, por exemplo, deixa-nos em quase total obscuridade. Pelo menos, a mim.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Impromptu (24)


Num texto relativamente extenso, Federico García Lorca (1898-1936) fala de duende, tendo o cuidado de lhe cunhar a autoria: o artista andaluz Manuel Torres. A caracterização de tiene duende, no conceito lorquiano, aplicava-se, do ponto de vista da criação (literária), a um misto de inspiração, talento e objectivo literário, plenamente conseguido.
O poeta inglês Ted Hughes (1930-1998), porém, abordando uma temática semelhante, é mais conciso nos pressupostos. Chama à sua musa inspiradora: the Fox. Descreveu, até, de um sonho que teve, essa entidade misteriosa, que aparecendo sob a forma de raposa, se foi transformando num ser humano de grandes dimensões a quem ele dava a mão.
No livro "The Hawk in the Rain" (1957), Hughes incluiu o poema "The Thought-Fox" que, declamado, aqui deixo em vídeo, a encimar o poste.
Quanto a mim, modestamente, se tivesse de escolher um bicho, para caracterizar essa entidade misteriosa, a que se dá o nome de inspiração, estro ou musa tutelar, optaria pelo canário. Porque é uma das aves de que gosto mais. E também canta, se for do género masculino...

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Poetas vistos por poetas


Popa
à memória de Ted Hughes

"E como era ele," perguntei-lhe eu,
"O estar com Eliot?"
                     "Quando nos olhava"
Disse ele, "era como se nos encontrássemos parados no cais
Observando a proa do Queen Mary
Chegar até nós, muito lentamente."

                     Agora parece-me
Que estou parado no paredão do molhe a vê-lo
Ao mesmo tempo que ele me observa enquanto vai zarpando
E uma inacabada popa de madeira
Vai sendo trabalhada, mas trémula se afunda
Sem conseguir verdadeiro progresso.


Seamus Heaney, in District and Circle (Faber and Faber, 2006).

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Fevereiro de 63


Ao que parece, o Inverno inglês de 1963 foi gélido e agreste. Como agrestes são, ou tensos, pelo menos, muitos dos versos de Sylvia Plath (1932-1963). Na madrugada de 11 de Fevereiro, cerca de cinco meses depois de se ter separado de Ted Hughes, Sylvia, depois de ter calafetado minuciosamente a cozinha, deixando o casal dos filhos a salvo, abriu o gás do forno do fogão e suicidou-se.
O poema Frog Autumn, que vou traduzir, foi escrito em 1958.

O verão envelhece, a mãe de sangue frio.
Os insectos são escassos, descarnados.
Nestas casas palustres nós somente
Grasnamos e vamos mirrando.

Gasta-se a manhã na sonolência.
O sol começa a brilhar já tarde
Por entre os juncos frágeis. Faltam-nos
As moscas e o pântano adoece.

A geada cai até sobre a aranha. Claramente
O génio da plenitude abriga-se
Muito longe daqui. O nosso povo
Escanzelado lamentavelmente.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Um poema traduzido de Ted Hughes (1930-1998)


Teologia

Não, a serpente não
Seduziu Eva a comer a maçã.
Houve aqui um equívoco
Na visão dos factos.

Adão comeu a maçã.
Eva comeu Adão.
A serpente comeu Eva.
Este é o lado negro do intestino.

A serpente, entretanto,
Vai jiboiando a refeição fora
Do Paraíso - ouve sorrindo
A chorosa chamada de Deus.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sylvia Plath



Sylvia Plath (1932-1963) suicidou-se faz, hoje, 47 anos. Nasceu nos Estados Unidos da América e cedo começou a escrever. Excelente aluna - embora sujeita a depressões profundas que a levaram a uma primeira tentativa de suicídio, ainda na adolescência -, obteve uma bolsa de estudo para frequentar Cambridge. Aí conhece Ted Hughes (1930-1998), poeta inglês, com quem vem a casar em 1956. Com 2 filhos, separam-se em 1962. A 11 de Fevereiro de 1963 suicida-se na sua casa de Londres. Para os admiradores de Sylvia Plath, a figura de Ted Hughes é controversa, nomeadamente, por ter censurado alguns inéditos da ex-mulher, aquando da sua publicação póstuma. A poesia de Sylvia Plath, muito densa e sugestiva, tem uma grande riqueza de temas que vão dos mais intimistas aos panteístas, sempre dominados por grande tensão expressiva. Traduzimos o poema " A Better Ressurretion" em seguida:

Não tenho juízo, nem palavras, nem lágrimas;

O meu coração como se fora uma pedra

Está blindado contra medos ou esperanças;

Olho à direita, olho à esquerda, vivo só;

Os meus olhos erguem-se, mas sombrios de dor

Por não ver mais as colinas infinitas;

A minha vida é como a folha caindo;

Jesus, apressa-me.