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domingo, 8 de outubro de 2023

Divagações 189



Entre a fama e o apagamento dos lugares, o mais difícil é o gradual equilíbrio intermédio da passagem.
No primeiro capítulo do Viagens, livro focado anteriormente, aqui no Arpose, Stefan Zweig (1881-1942) escreve sobre a praia belga de Ostende, em 1902, então no seu esplendor turístico e veraneante. Também eu ouvira falar dela, ainda em meados do século XX, como praia estrangeira de moda. Mas quando por lá passei, em finais dos anos 90, a sua decadência era já notória e deprimente. Melhor estava, ou parecia estar, Blankenberge que sempre fora modesta ou pouca ambiciosa na sua projecção de destino turístico de Verão, guardada, muitas vezes, para mutilados da II Grande Guerra e famílias mais humildes ou de poucas posses.
O declínio de Ostende no final do século, fez-me lembrar a portuguesa praia da Granja, a norte, que também fora famosa, mas se encaminhara para a ruína turística, com os seus palacetes abandonados e jardins descuidados. Entretanto, e no sentido contrário, a Póvoa de Varzim que fora, nos anos 50/70, de arquitectura harmoniosa, à beira-mar, crescera depois, de forma desmesurada e selvática, para mal de nós.

sábado, 7 de outubro de 2023

Últimas aquisições (48)



É uma edição recente (Relógio D'Água, 2021) e acabei de comprar o livro hoje.
Stefan Zweig (1881-1942) foi um autor polifacetado e que era muito apreciado e vendido nos anos 50/70 do século passado. Li vários livros dele, na altura. E assisto recentemente, com muito agrado, à reedição de várias obras suas. É um ressurgimento pouco habitual em autores do passado. Mas que eu acho bem merecido.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Recomendado : setenta e cinco


Eu já não lia, há anos, nada de Stefan Zweig (1881-1942), de cuja obra fui largo consumidor na juventude. Com proveito e gosto, aliás. O escritor, muito em moda nos anos 50 e 60, entrou num ocaso editorial, que se rompeu, felizmente, nos últimos anos.
O livro estava na banca da Escriba, a tentar-me. E eu fiz-lhe a vontade, afortunadamente. É uma breve biografia, limpa e justa, do senhor de Eyquem, Montaigne (1533-1592), que não lhe poupa os defeitos, mas também não lhe diminui as qualidades humanas.
A obrinha, devorei-a eu, enquanto esperava a vez no barbeiro. Ficaram-me 20 páginas das 92 que o livro tem. Acabei-o à tardinha, com enorme prazer, e pena por se me acabar este diálogo renovado com Zweig. Dos últimos trabalhos do escritor, parece-me dos mais perfeitos.
Por isso o recomendo, sem reservas.


para H. N., a quem se destina...

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Glosa 7


Pergunto-me, muitas vezes, quando é que se irá dar o redescobrimento de Somerset Maugham (1874-1965). A exemplo de Stefan Zweig (1881-1942), seu coevo parcial, austríaco, que já foi repescado do limbo por que passou, e voltou a ser lido, foram ambos escritores muito populares, em meados do século passado. Muito apreciados e publicados, tinham, ambos, uma escrita de qualidade, realista e gulosa. Mas, também é verdade, não seriam muito prezados pelas academias dessa época. Coisas e caprichos, que costumam ocorrer, com alguma frequência...
Numa altura em que eu devorava tudo o que me aparecesse do escritor britânico, lembro-me que apreciei muito The Summing Up (publicado em 1938), uma espécie de memórias anti-memórias, muito vivas e cheias de pormenores pitorescos e ligeiramente reflexivas, que li na versão inglesa, original, em meados dos anos 60. Ontem, cruzei-me, na biblioteca de um amigo, com a versão portuguesa do livro ( Exame de Consciência), da Livros do Brasil, revista por Freitas Leça (Óscar Lopes?) da tradução brasileira de Mário Quintana. E recomecei a lê-la, com gosto.
A actualidade do seu pensamento, no meu entender, mantém-se. Ora, ouçámo-lo:

"... Os ingleses são um povo político, e muitas vezes fui convidado para reuniões em que a política era o interesse dominante. Não consegui descobrir, entre os eminentes estadistas que lá encontrei, nenhuma capacidade notável. Concluí, talvez apressadamente, que não era necessário um elevado grau de inteligência para governar uma nação. Desde então, tenho conhecido em vários países muitos políticos que atingiram elevados postos. E continuei a sentir-me intrigado com o que se me afigurava a mediocridade do seu espírito. Achei-os mal informados sobre as coisas ordinárias da vida, e quase nunca descobri neles subtileza de espírito ou vivacidade de imaginação. Durante algum tempo senti-me inclinado a pensar que deviam a sua ilustre posição ùnicamente aos dotes oratórios, pois numa comunidade democrática deve ser quase impossível subir ao poder sem captar os ouvidos do público; e o dom da palavra, como sabemos, nem sempre vem acompanhado do poder do pensamento. Mas, logo que vi estadistas que não me pareciam muito inteligentes conduzirem os negócios públicos com razoável êxito, tive de reconhecer que estava enganado: devia ser que, para governar uma nação, é preciso um dom específico, e que esse pode muito bem existir sem aptidões gerais. Da mesma forma, conheci homens de negócios que fizeram grandes fortunas e conduziram vastas empresas à prosperidade, mas que se mostravam desprovidos até de bom-senso em tudo quanto não se referisse ao seu ramo. ..." (pgs. 6/7, da obra citada).

Ora, e aqui, para além da subjacente ironia de Maugham, é que bate o ponto. Neste desencanto e surpresa pela qualidade dos políticos. Pela sua menoridade quase geral, e que, praticamente, todos nós sentimos. Sobretudo, quanto mais avançamos nos anos das nossas vidas. E chego a pensar que tudo isto se repete, de geração em geração, talvez pela exigência maior do nosso sentido crítico, quando envelhecemos. Dos "Vencidos da Vida", da geração de 70, aos Vencidos do Catolicismo (progressista) dos anos 60 do século passado. De degrau em degrau, parece que tudo piora e nos encaminha, sempre, para um pessimismo ontológico, que só a juventude e a superficialidade pueril de muitos não vê ou sente. Desencanto e desistência fatal que Zweig levou à prática, no Brasil, e Maugham foi arrastando pela Rivieira, penosamente e sem grandes ilusões...

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Favoritos III : Rainer Maria Rilke



Poeta do espaço invisível, onde Deus e a Morte quase sempre têm lugar cativo, Rainer Maria Rilke (4/12/1875-29/12/1926) teve uma vida errática entre a Áustria, França, Alemanha e Suiça. Foi secretário de Rodin e, a propósito do escultor francês, disse que "a vida dos grandes homens é como se fosse uma estrada abandonada, invadida pelas silvas, porque eles entregam tudo à sua arte".

Sendo um dos maiores poetas da língua alemã, segundo Stefan Zweig, a sua poesia não podia ser traduzida. Felizmente que há e houve tradutores à altura desta dificílima tarefa. Um deles foi Paulo Quintela. Aqui deixamos a sua versão do "Epitáfio" de Rilke, um dos poemas mais emblemáticos do autor, e que se encontra inscrito no seu túmulo, em Raron, na Suiça.


"Rosa, ó contradição pura, volúpia de ser

o sono de ninguém sob tantas pálpebras."