quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Má língua, linguadinhos e panachê


No velho Animatógrafo, logo após o Arco de Bandeira, aglomerava-se uma dúzia de turistas ansiosos, à porta, para ver o peep show seguinte... Já não chovia, e como estávamos por ali e eram horas de almoço, optámos pela Merendinha do Arco, que tinha Dobrada e Linguadinhos com Arroz de Feijão malandrinho, entre outros pratos do dia. O restaurante, embora tenha boa cozinha e serviço, é exíguo de espaço e as mesas são contíguas e apertadas entre si. Não há discrição possível para as conversas da mesa ao lado...
As tias alfacinhas, que nos calharam como vizinhas, deviam ser monárquicas, porque a despesa da conversa se processou, exclusivamente, por entre Jorge VI e a rainha Sofia. Do monarca inglês, serviu de pretexto o ainda recente filme "O Discurso do Rei", quanto à monarca emérita espanhola foram exploradas, até à exaustão, as tensões com a nora Letizia. Desfilando, por acréscimo, os comportamentos de Juan Carlos e de Filipe VI, referidos na Caras e Nova Gente, que as sexagenárias alfacinhas referiam e acompanhavam, piedosa e solidariamente. Ao sairmos, tinham começado a falar do padre Tolentino.
Foram as duas senhoritas nos Linguadinhos, uma acompanhou com o arroz malandrinho, a outra preferiu açorda. Mas ambas beberam o típico e lisboeta panachê*.
Nós escolhemos um duriense Fraga da Galhofa, tinto, com um rótulo horrível, mas lotado com a nobre Tinto Cão e a estimável Bastardo. Para além da Touriga Nacional, Tinta Roriz e Barroca, num lote que resultava  bem.


* para quem não saiba, o panachê é uma mistura de cerveja com gasosa.

P. S.: e fiquei-me a pensar donde provirá este "panachê"... Será do francês "panache"? Não creio...

6 comentários:

  1. Também acho que não pode ser da "panache", ou será que a leveza de pluma tem a ver com a leveza da dita bebida?
    Haja conversa interessante ao meu lado num restaurante, que eu gosto tanto de as ouvir (servem também as dos transportes...) e uma lição da monarquia europeia de hoje não é de desprezar :-)
    (Ia na Dobrada, olá se ia, se bem que matei as saudades em Castelo Branco, no "Bifanas da Sé" - que bela Dobrada têm!
    Bom dia

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    1. Pode ser que alguém ajude, quanto ao "panachê". Oxalá, que eu não vou lá...
      Pois eu fui nos Linguadinhos, e a HMJ, na Dobrada, que estava apetitosa, à vista. E mal falamos, não só pelo bom repasto, mas também pelas histórias ao lado, que também eram "saborosas".
      Um bom dia, também.

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  2. "Panaché" é, há muitos anos, o que os franceses (e belgas) chamam a essa bebida. Aí, o nome vem realmente de "panache" (penacho=conjunto de penas, plumas; sendo que o verbo "panacher" tem o significado de matizar, misturar). Afinal, a mesma história do "cocktail", penas e bebidas à mistura.
    O que não sabia era que o panachê é típico e lisboeta. Eu uso-o há várias décadas e aprendi-o com emigrantes portugueses, no mundo rural profundo...

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    1. Pois eu desconhecia a palavra, até vir para Lisboa, em meados dos anos 60.
      Parece forçado, como matizar com penacho ou pluma, o significado que belgas e franceses dão à mistura... Mas, se o diz, tenho que aceitar.
      Grato pela sua achega.

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  3. Fiquei com vontade de ir a esse restaurante, nomeadamente por causa dos linguadinhos :-) Bom dia!

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    1. E estavam fresquíssimos, os linguadinhos. Vale a pena lá ir, se estiver na Baixa. Os preços são equilibrados.
      Retribuo!

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