domingo, 9 de novembro de 2014

Apontamento 59: Efemérides (III)



Perante determinadas efemérides aconselha a prudência alargar o horizonte a uma variedade de abordagens possíveis, próprias de uma leitura plural da História. Respeito, e tento compreender, os olhares múltiplos, sendo sérios, sobre o mesmo acontecimento, como foi a queda do muro de Berlim. Não suporto, contudo, na História e na vida, o espectáculo em detrimento de um esclarecimento abrangente que acrescente algo sobre o caminho do ser humano pela terra.

Com efeito, o que sucedeu a 9.11.1989, e não apenas em Berlim, foi o final de uma divisão artificial de um espaço geográfico, linguístico e cultural comum, como consequência do fim da 2ª Guerra Mundial. Convém lembrar, até confirmação oficial em contrário, que existe apenas um armistício entre a Alemanha e as nações vencedoras: a França, a Inglaterra, a América e a Rússia. Enquanto a América, na área da sua influência, mantinha, ainda nos anos 70 do século passado - certamente com anuência do Estado Federal - as placas nas auto-estradas em Inglês e Alemão, a Rússia, por razões diversas, optou por traçar uma fronteira - estanque - à volta da sua zona de ocupação, cujo símbolo passou a ser a divisão da cidade de Berlim.

No entanto, e no meio dos festejos, que muitas vezes não contribuem para um esclarecimento cabal da História, convém lembrar que na noite de 9 para 10 de Novembro de 1938 ocorreu, na maior parte das cidades da Alemanha, a começar com Berlim, a chamada "Noite de Cristal" em que, entre outros atentados à dignidade humana, os estabelecimentos de judeus foram vandalizados, sem esquecer as grandes fogueiras de livros nos idos de 1933.

Das duas efemérides muito próximas, quanto ao dia, fica a apreensão perante uma "mole de gente" neo-fascista - tanto de um lado como, sobretudo, do outro lado da antiga "cortina de ferro" - assim como a herança transformada numa versão neo-liberal, profundamente provinciana, de uma figura a desempenhar o cargo de chanceler.

Será que o armistício se transforma num Tratado de Paz - duradouro - antes que se celebrem os 70 anos do fim da 2ª Guerra Mundial ?

Post de HMJ

Uma reflexão de J. Constable, em início de carreira


"Durante os últimos dois anos andei atrás de pinturas, procurando a verdade em segunda mão. Não me esforcei em representar a natureza com a mesma elevação de espírito que pretendia, mas procurei que as minhas obras se parecessem com o trabalho de outros homens... Creio que há espaço suficiente para um pintor natural."

John Constable (1776-1837).

Nota: o retrato de John Constable, que encima o poste, foi executado por Daniel Gardner. A paisagem abaixo, Barges on the Stour, foi pintada por Constable, em 1811. Ambos os quadros pertencem ao Victoria and Albert Museum, que leva a efeito, até 11 de Janeiro de 2015, uma grande exposição deste último pintor inglês.


Iconografia moderna e laica (21)


Creio ter encontrado, finalmente, o elemento que me faltava para a santíssima trindade (feminina) da modernidade - verdadeiros ícones sagrados para grande parte das senhoras, ilustradas, do meu tempo. E, porque é de bom tom citá-las ou referi-las (em livro, na crónica jornalística, em blogue, em conversa...), aqui ficam, ad usum delphinae, cronologicamente, os seus nomes famosíssimos:

1 Frida Kahlo (México, 1907-1954).
2 Clarice Lispector (Ucrânia, 1920-1977).
3 Myra Landau (Roménia, 1926).

Regionalismos transmontanos (61)


1. Perlêndia - historieta.
2. Perna-marota - perna que coxeia.
3. Pial - local do forno onde se coloca o tabuleiro do pão.
4. Piasca - piorra, piusca, pequeno pião que se joga entre os dedos. Bebedeira.
5. Picho - carrapito de cabelo no alto da cabeça, corucho, puxo.
6. Pilar - estar morto, ansioso por, desejar ardentemente.

sábado, 8 de novembro de 2014

Alkan (1813-1888)


Alkan, pianista e compositor francês, de seu nome próprio: Charles Henri Valentin Morhange.

Filatelia XCVI


Não tendo eu, como é politicamente correcto ter-se, uma visão idílica da queda do Muro de Berlim, antecipada pelo desmantelamento da URSS e abertura de fronteiras a Leste, não quero deixar de sublinhar, mesmo que filatélicamente, a passagem dos 25 anos sobre a data (9/11/1989), através da emissão do selo comemorativo alemão dos 5 anos da ocorrência do facto. Que foi o ponto de partida para a supremacia totalitária, embora subtil, da renovada Alemanha, sobre a Europa. E de uma nova Rússia, talvez ainda mais cleptocrática e mafiosa, na sua oligarquia. Para não falar da Hungria, neo-fascista...
Chega?

Uma fotografia, de vez em quando (49)


Fundador, em 1966, da Gamma, o fotógrafo francês Raymond Depardon (1942) é também membro da Agência Magnum, sendo conhecido, sobretudo, por algumas das mais famosas fotografias da queda do Muro de Berlim (1989). Retratista oficial da Presidência da República francesa (de De Gaulle a Hollande), o seu portfólio inclui ainda um vasto número de  fotografias que têm África por motivo.


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

1 Nobel, entre mais 2 autores franceses


A leitura que fiz de "Un Pedigree" (2004), em menos de um dia, ter-se-á ressentido, porventura, de ter sido ensanduichada entre a imediatamente anterior (L'Escalier de Fer, de Simenon) e a que se tem vindo a seguir (Balanço Final, de Simone de Beauvoir). Há que dizê-lo, por uma questão de isenção e honestidade. Porque são ambos, estes dois últimos livros, de grande qualidade literária.
Em jeito de resumo ou conclusão de leitura, eu diria que esta obra de Patrick Modiano (1945) é um livro, no mínimo, desconcertante. Porque, não sendo propriamente uma autobiografia, também não é uma obra de ficção, até porque as variadas figuras que por ele perpassam, não chegam a ter consistência literária, nem suficiente espessura psicológica. Muito menos será um ensaio. Mas Modiano bem nos tinha avisado: "J'écris ces pages comme on rédige un constat ou un curriculum vitae...".
Tirando uma acrimónia ressentida subtil, mas crónica, em relação ao pai e, embora menor, em relação à mãe ("C'était une jolie fille au coeur sec."), a narrativa é bastante asséptica (fria?), quanto a sentimentos ou descrição de emoções. A multidão infinita de personagens, que a cruzam e o ritmo veloz, fazem lembrar umas "Páginas" (ou será "O mundo à minha procura"?), de Ruben A., a que faltasse um estilo marcado e uma efabulação metafórica e imaginativa.
E há uma pergunta que, uma vez lido este "Un Pedigree" (título homenageando Simenon), fica a pairar, neste leitor que eu fui: Será isto verdadeira literatura? Pese embora que a leveza é este ar fluído, breve e efémero que predomina, em muitos dos livros que se publicam, nos nossos dias...

agradecimentos a H. N., pelo empréstimo amigo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Revivalismo Ligeiro CI


Curiosidades 32


Com um objectivo semelhante, e generoso, ao das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que tanto fizeram pela leitura em Portugal, em meados do século passado, este Biblioburro (que são dois, na realidade) é bastante mais artesanal e primitivo.
A notícia vem no último TLS (nº 5822) e refere que o colombiano Luis Soriano percorre, com os seus dois burros carregados de livros, os lugares mais sertanejos do seu país, promovendo leituras para as crianças. Muitas delas analfabetas.

Impromptu (10) : algumas singularidades virtuais


Pelo espaço virtual, que chega até nós, têm-se vindo a acumular, nas minhas notas, os habituais sinais extravagantes deste mundo às avessas. Tenho poupado estes desconchavos e estranhezas aos mais fiéis leitores do Blogue, mas acho que é altura de dar conta de alguns exemplos mais insólitos. Assim:

1. Recebemos, no mês passado, uma gratificante visita do Instituto de Informática e Estatística de Solidariedade Social (em horas de expediente), que indicou como search words: "fotos hilariantes".
2. Com IP Adress Banco de Portugal, Internet & Extranet, também em horas de expediente, vieram consultar o poste "Curiosidades 5: impostos e obras", de 28/5/10. Coerente, sem dúvida.
3. Algures, deste mundo, alguém escreveu, em 19/10/14, as seguintes search words: "retrospectiva big broda angola". Não sei bem porquê, o Google  remeteu o(a) curioso(a) para o poste: "Uma história de E. de A., para o fim da tarde".
4. Finalmente, e talvez num novo dialecto do A. O., um empenhado melómano pediu: "espricação de estrumentos obdcos" (sic). Será que ele conseguirá ler pautas de música?

E é tudo, por hoje.

Citações CCIV


Eu detesto flores - pinto-as porque são mais baratas do que os modelos e não se mexem.

Georgia O'Keeffe (1887-1986) ao N. Y. Herald Tribune, em 18/4/1954.

René Aubry (1956) : "Solitaire"

A par e passo 113


O papel, sabemos, representa um acumulador e um condutor; ele conduz não só um homem até outro homem, mas um tempo a outro tempo, num testemunho muito variável de autenticidade e credibilidade.
Imagine-se então o papel desaparecido: notas de banco, títulos, tratados, códigos, poemas, jornais etc. Em pouco tempo toda a vida social se perderia e, desta ruina do passado, ver-se-ia emergir o futuro, oriundo do virtual e do provável, o real puro.

Paul Valéry, in Variété III (pg. 222).

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Matemática ou política?


Os zeros tomaram consciência de que, para valerem alguma coisa, teriam de posicionar-se à direita.

Vladimir Nabokov (1899-1977) em carta à Mulher, Véra Nabokov (1902-1991).

O desmame e o crescer


Amadurecemos, como os frutos, consoante o clima. Familiar, adjectivaria eu, por íntima convicção. Crescer é tomar forma e responsabilidade, ousar um caminho, arriscar o modo e o tom de vir a ser.
Objectivamente e tirando casos de grande equilíbrio familiar na transmissão educativa, hoje em dia, as crianças são infantis até mais tarde, caprichosas, excessivamente mimadas, mas também, muitas vezes, abandonadas aos seus quereres de natureza instintiva, para não dizer: selvagem ou anti-social. A chupeta e a língua de trapos vão longe, e serôdias, no seu uso.
Por perverso romantismo e afecto parental e preguiçoso conforto filial, já tarde e adultos é que os filhinhos (e, antes da crise, já isto acontecia) saem da casa paterna, para fundar a sua. Este atrofiamente mental e de responsabilidade terá, sem dúvida, algumas consequências nefastas, na vida já adulta.
O crescimento e a autonomia não são isentos de sacrifícios, de luta e de dificuldades, mas são necessários e salutares para o desenvolvimento humano. Este vídeo, que se segue, é para mim uma parábola perfeita e muito instrutiva. Até pela sua feliz conclusão. 



com agradecimentos a C. S..

De que cor era o cavalo branco de Napoleão?


O título deste poste era a pergunta retórica de uma adivinha ingénua da minha meninice.
Em relação a Napoleão, dizem as crónicas, que o seu guarda-roupa, em 1811, não era muito avantajado: 2 robes, nove casacos, 4 chapéus... Mas com características tão próprias que, no meio de gente bem vestida, logo se reconhecia o Imperador dos franceses, pela singularidade da sua indumentária.
O bicórnio, em imagem, terá sido utilizado por Napoleão, na batalha de Marengo (1800). Bem conservado, irá à praça, no próximo dia 15 de Novembro, em Fontainebleau, com mais quase 1.000 objectos de temática napoleónica. Prevêem-se grandes disputas e altas licitações: o mito continua...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Memória (96) : António Dacosta (1914-1990)


Singular e discreta figura do surrealismo português, passa hoje o centenário do nascimento do pintor António Dacosta, nascido em Angra do Heroísmo (Açores), a 3 de Novembro de 1914. Carreira e obra significativa, separada por um fosso criativo de cerca de 30 anos, em que quase nada pintou, tendo-se dedicado apenas à crítica de arte.
Quem hoje passar pela estação de metropolitano do Cais do Sodré, poderá lembrá-lo pelos seus murais, onde coelhos apressados aparecem (I'm late), inspirados em "Alice no País das Maravilhas".


Em síntese e paradoxo


- A justiça custa caro.
- É por isso que a poupam.

Marcel Achard (1899-1974), in L'Idiote.

domingo, 2 de novembro de 2014

Bibliofilia 112


Em Outubro de 1949, quatro anos após o fim da II Grande Guerra, saíu dos prelos da Coimbra Editora e em edição de autor, este livro Heterodoxia I, do jovem e recente licenciado, em Histórico-Filosóficas, Eduardo Lourenço (1923). Constituído maioritariamente pela sua tese de licenciatura.
Numa Europa, da altura, caracterizada entre esquerda e direita, bem definidas, e num império português, cujas figuras pensantes e politicamente activas se extremavam entre estadonovistas e comunistas, Eduardo Lourenço, neste seu primeiro livro, propunha uma alternativa isenta, justa e humanista. Escusado será dizer que as reacções, agressivas, não se fizeram esperar, quer da direita, quer da esquerda.
O livro, como objecto bibliográfico, nesta sua primeira edição, não sendo raro, não é muito frequente encontrar-se em alfarrabistas ou à venda, em leilões, porque teve uma tiragem de apenas 500 exemplares. A obra custou-me, no final dos anos 80, Esc. 1.000$00, ou seja, cerca de 5 euros.

Miquel Gil (1956)


Regionalismos transmontanos (60)


1. Papalear - narrar tim-tim por tim-tim. Revelar ou descobrir um segredo.
2. Paracismos - mesuras, cerimónias. Atitudes maçadoras.
3. Parpalhaz - codorniz, o m. q. parpalhó.
4. Pegar - confrontar, confinar.
5. Pelicanas - arrecadas, pingentes, brincos.
6. Peniscar - comer pouco, sem apetite, debicar.

As palavras do dia (5)


Não é pelo preço dos bilhetes que os portugueses não consomem cultura - não o fazem porque não são cultos.

António F. Pimentel (1960?), director do MNAA, ao jornal Público (2/11/2014).

sábado, 1 de novembro de 2014

Apontamento 58: Jardins urbanos



Nos últimos tempos, tenho acompanhado com algum interesse uma tendência na promoção de jardins urbanos que, afora a intenção imobiliária subjacente a determinadas notícias, sempre os considerei como complemento essencial da vivência citadina.

De facto, os que viveram, como eu, durante uma parte considerável da sua formação humana – a infância e a adolescência – numa casa com jardins e horta, dificilmente se libertam do apelo telúrico de meter as mãos na terra, mesma que reduzidas ao tamanho de um vaso.

Com efeito, a partir do momento em que fui obrigada a viver em apartamentos, nunca dispensei os jardins urbanos, por uma questão de vivência que dispensa modernices.

Nas varandas outrabandistas e nos terraços citadinos foram crescendo oliveiras, limoeiros, abetos, pinheiros e loureiros.



Mesmo assim, ainda se arranja espaço para ofertas generosas de pés de alfaces, tomates, e pimentos, como o “pequenitates” que surgiu já um pouco serôdio. Com os últimos dias de sol, lá se desenvolveram três pimentos, dando ares da sua graça.



Logo de manhã, gosto de olhar para as flores da imagem acima, ver o crescimento dos pimentitos, e, sobretudo, apreciar o verde que me tapa o desagradável do cimento que certas criaturas espalham à nossa volta. É uma forma de dissimular o mau gosto dos patos-bravos e reconquistar um espaço desprezado pela ignorância e o mau gosto.

 Post de HMJ, dedicado a MR

À tarde, e em sequência de leitura


Com o tempo ameno que fez hoje dediquei uma pequena parte da tarde, na varanda, ao prosseguimento da leitura do segundo volume de "Guerra e Paz", de Leão Tolstoi. Cheguei até à página 230, um pouco depois da narração do início da invasão da Rússia, pelos exércitos de Napoleão, no Verão de 1812.
Como em qualquer romance, a obra tem pontos altos e de maior movimento, e momentos de distensão ou transição, em velocidade e ritmo de cruzeiro, onde cabem também algumas reflexões do autor. Em relação a estes últimos e abordando as razões múltiplas e absurdas da guerra, Tolstoi, metaforicamente, escreveu:

"...A maçã cai da árvore quando está madura. Porquê? Será porque é atraída para a terra, será porque seca o pequenino pedículo que a sustenta, será porque o sol a amadurece, porque se torna mais pesada, porque o vento a sacode, ou porque o garoto que está debaixo da árvore a quer comer?
Nada é uma causa, tudo é apenas concordância daquelas condições em que se realiza cada acontecimento vital, orgânico, elementar; e o botânico, ao explicar-nos que a maçã cai porque o tecido que a constitui se decompõe, tem tanta razão como o rapaz debaixo da árvore ao dizer que a maçã caiu porque ele queria comê-la e tinha rezado para que isso acontecesse. ..." (pgs. 218/9).

Claude Debussy (1862-1918)


Os Trabalhos e os Dias (5)



Na sequência de um “post” de 26.9.2012, dedicado à feitura de uma saia para a minha boneca, resolvi, ontem, completar o trabalho. De facto, a blusinha precisava de ser substituída, estava amarelecida, como se vê pela imagem acima.

E como de velho se faz novo, a antiga blusa serviu para fazer o molde, base essencial para começar a tarefa. Nada melhor do que aproveitar um dia predisposto à costura, o que nem sempre acontece. É preciso paciência, dedicação e tempo para “coisas miúdas”, porque uma blusinha de bonecas dá tanto ou mais trabalho do que uma peça de roupa para gente crescida.
Aqui fica o resultado em forma de confronto, velho e novo.



Agora só falta lavar e engomar a blusa e, sobretudo, agradecer ao amigo A. de A.M., que forneceu o pano branco e os adereços para concretizar a inspiração.

Concluíram-se, já de noite, os trabalhos com a lembrança daqueles que me deram os ensinamentos para me poder dedicar a tarefas variadas ao sabor dos dias.

Post de HMJ

Adagiário CXCIII : Novembro (5)


1. Novembro à porta, geada na horta.
2. Por Santo Urbão (3), gavião na mão.
3. Por S. Martinho (11), nem favas nem vinho.
4. Por Santo André (30), o sete estrelo posto é.