domingo, 12 de dezembro de 2010

O verde na infância


O rapaz deitava-se na relva muito verde do coradouro, ainda húmida do orvalho matinal, e pacientemente esperava. Ia vendo, a pequena distância, formigas em carreiro, bichos-de -conta que se encaracolavam quando lhes tocava, e outros pequenos animais rastejantes de que nem sabia o nome, sinuosos por entre as hastes pequenas das ervas.
Tinha armado as duas ratoeiras, depois de alisar a relva em volta, na fronteira do coradouro, pouco antes de começar a horta, onde as couves já despontavam de espigos. Quando um pardal se aproximava, o coração dava saltos, inquieto, mas raramente os pássaros debicavam o pequeno pedaço de miolo de pão que fazia de isco, na armadilha. Mas, ao rapaz, bastava-lhe essa emoção infantil da caça.
Sozinho perante o mundo, levantava-se, manhã já alta, recolhia as ratoeiras, sacudia da camisola as pequenas gotas de água, que luziam ao sol, e regressava, contente, para casa.
Muitos anos passados (Maio de 1986), e com experiências múltiplas acumuladas, havia de escrever um poema sucinto e breve, que intitulou Lição de Ser:

Não há paixão nenhuma que se aprenda
amor que nos distraia ou verde
que não venha de infância
ofendido ao longe pelo som dos passos.

2 comentários:

  1. Todos os miúdos (e não só) gostam de ver os carreiros de formigas, tocar nos bichos-de conta...
    Um bela evocação.

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