terça-feira, 26 de julho de 2022

Memória 143



III

Não digas nada. Não venhas mais. Esquece.
Deixa que o tempo transporte da memória
quanto não chegou sequer a ser história 
e na cinza dos dias se esvanece.

Deixa ficar o sonho interminado
sem glória nem prazer. Mas sem tristeza
maior que a de perder toda a certeza
de um momento de loucura iluminado.

Um momento. De todos mais ardente.
Que fosse lume. Abismo. Fosse grito
que por dentro da pele se contivera.

Deixa ficar. Não venhas. Não me tentes
a abraçar desvairado o infinito
que há dentro de ti à minha espera.


António de Almeida Mattos (1944-2020), in Palavras de Cristal (pg. 29).



Nota: o belo soneto que AAM escolheu, bem como mais 2 poemas, para integrar a colectânea referida acima, em 2011, não chegou a ser incluído em obra pessoal. Apenas colectiva. Aqui fica, no dia que seria do seu aniversário.

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