domingo, 3 de setembro de 2017

Especulação imobiliária e consequências


O penúltimo TLS (nº 5968/9), a propósito da recensão crítica ao livro Big Capital, de Anna Milton, referindo o pavoroso incêndio da Grenfell Tower de North Kensington (Londres), ocorrido a 14 de Junho de 2017, em que houve 79 vítimas, elenca a evolução da especulação imobiliária, na Grã-Bretanha, iniciada, com a política do Right to Buy, no consulado de Margareth Thatcher, em finais dos anos 70. Lembrei-me, por associação, da legislação sobre o imobiliário e rendas, que a ministra Assunção Cristas fez aprovar em anos bem recentes...
A colaboradora, do TLS, Katherine Hibbert, ao recensear o livro referido acima, exemplifica, de forma linear, mas expressiva, o deprimente espectáculo de uma cidade (Londres) em que: os bimilionários vão expulsando os milionários das suas casas, os quais, por sua vez vão comprando as casas dos ricos que, por seu lado, vão ocupando as casas dos pobres, remodelando-as. Até que, finalmente, os pobres, já sem casa na cidade, vão habitar a periferia e os subúrbios, em habitações de bairros sociais ou enormes torres de deficiente construção, com grandes vulnerabilidades de segurança...
Em Lisboa (e no Porto?), esta especulação sucessiva do imobiliário já se vai notando. Não virão a ser os mesmos os perigos e o futuro em Portugal?

Palavras mágicas


As expressões Shazam e  Abracadabra perderam, há muito, a sua força encantatória. Agora, são as workshops, as startups e quejandos, que fazem sonhar. Para alguns, ditas estas palavras, logo eles entram em transe hipnótico de felicidade tecnológica e alumbramentos de alma.
Graças aos economistas, aos comentadores espúrios, aos CEO, aos informáticos mono-aculturados e a alguma juventude pária, o linguajar português transformou-se, pouco a pouco, numa incaracterística manta de retalhos, talvez semelhante à "linguagem meada de ervilhaca" de que falava Camões, na sua carta da Índia.
Penso até que não devíamos perder mais tempo com a CPLP, por causa do A. O.. Melhor seria encetarmos negociações, pragmaticamente e desde já, com a administração norte-americana. E criarmos, cheia de futuro, uma nova sub-língua, neste rectangular espaço europeu à beira-mar plantado. 

sábado, 2 de setembro de 2017

Da Janela do Aposento 66: O Mundo do Espectáculo



Mesmo distante deste frenesim do “Regresso às Aulas”, não consigo evitar uma sensação de repulsa íntima pelo desenfreado consumismo que tomou conta da educação. Ano após anos, lá estão as escolas a fazer listas de uma material de uso corrente, alimentando uma ideia nociva e colaborando com este mundo aparvalhado.
Quem olhar com alguma seriedade, já não falo de estética, para o “vasto mundo, ó, Raimundo”, das mochilas, com “moçoilas” todos os anos renovadas, pergunta, afinal, o que resta para o espaço da educação.
Ao que parece, e pela imagem acima, até já as Gramáticas não escapam a este universo de afectos.
Posta em sossego, dou-me por feliz de poder centrar-me neste lugar do silêncio e da dedicação a assuntos úteis e sérios. 

Post de HMJ

Uma fotografia, de vez em quando... (92)


É óbvio que, à excepção de uma parte dos grandes fotógrafos ainda vivos (Sebastião Salgado, por exemplo) ou dos casos de vocação estética de comprovada qualidade, depois das polaróides, quase toda a gente comum fotografa a cores. Dizia e bem, Derek Jarman (1942-1994) que O uso do preto e branco anula, de algum modo, o lado decorativo e intensifica a concentração. Eu acrescentaria que não perdoa nem o amadorismo, nem a vulgaridade, que se tornam mais evidentes e notórios. Para lá dos temas formatados e habituais.



Não será o caso da espanhola Cristina García Rodero (1949) que, maioritariamente, se desafia no contraste imperdoável e vital do preto e branco, sem atenuantes, abrindo apenas excepções para retratos régios (rainha Letizia, e pouco mais), de personagens que não abdicam destas fulgurações coloridas e banais, para um aplauso da geral, raramente criterioso e ainda menos fundamentado.



Privilegiando instantâneos do mundo rural, em muitas das suas fotografias se esboçam sinais discretos de um humor inocente, mas inteligente, sobre cenas tradicionais do seu país, evitando embora o traço vincado da caricatura crua e dura. Cristina Rodero integrou a Agência Magnum, em 2005, -  atestado seguro de que a qualidade da sua obra é reconhecida internacionalmente.

Uma questão de géneros...


com agradecimentos a ms.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Gide sobre Simenon


No seu Diário, a 13 de Janeiro de 1948, André Gide (1869-1951), após ter acabado a leitura de um romance de Georges Simenon (1903-1989), escreve as seguintes notas pessoais:

Acabado de ler Touriste de Bananas, um dos menos conseguidos de Simenon. É uma pena, porque ele desperdiça um tema surpreendente; por precipitação, e, poder-se-ia dizer: por impaciência. As personagens de Simenon têm muitas vezes um interesse psicológico e ético profundo; mas insuficientemente expresso, como se ele não se desse conta da sua importância; ou como se ele esperasse ser compreendido apenas por meias palavras. Mas também é por isso que ele me atrai e retém. Ele escreve para «o grande público», sabemos. Mas até os sofisticados e mais exigentes podem encontrar-lhe interesse desde que o tomem a sério. Porque ele faz reflectir e por pouco não atinge o melhor da arte; quão superior ele é em relação a esses romancistas maçudos que não nos provocam a graça de um pequeno comentário. Simenon expõe um facto particular, de interesse geral talvez. Mas defende-se de o generalizar: isso é um problema do leitor.

André Gide, in Journal 1939-1949 ( Bibliothèque de la Pléiade, 1955).

Revivalismo Ligeiro CCLXXI

Esquecidas as peripécias caprichosas da atribuição do Nobel e de menino mimado que se fez caro, na melhor esteira de uma Ópera bufa de terceira qualidade, será tempo de recordar Dylan, naquilo que ele tem de melhor: como um grande cantautor judeu e norte-americano, apesar da sua voz a cair da tripeça, que tem em Marceneiro um precursor luso e notável.

Adagiário CCLXVIII : Setembro (9)


1. Por S. Simão e S. Judas, colhidas são as uvas.
2. Em Setembro tem Deus a mesa posta.
3. Em Setembro, ramo curto, vindima longa.
4. Chuvas verdadeiras, em Setembro as primeiras.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Citações CCCXXIV


O dinheiro é um bom servo, mas um mau mestre.*

Alexandre Dumas, filho (1824-1895), in La Dame aux Camélias (1848).


* Há também quem atribua a frase ao poeta Horácio.



dedicado a um visitante da COPEL, Curitiba (Brasil), que, desde ontem, tem vindo, teimosa e persistentemente, a consultar, na íntegra, todos os postes de Citações, do Arpose... Sem comentar, como é costume.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Recomendado : setenta


Nunca fui muito de conhaques franceses. Sabem-me a sabão. Abro uma memorável excepção à minha vernissage de L'Aiglon, que provei, pela primeira vez, numa noite invernosa, em casa amiga donde se via o Atlântico, na tripeira rua de Gondarém. O conhaque era magnífico. E o meu amigo, generoso.
De uísques, já os frequentei mais, mas prefiro os produtos nacionais, sempre que posso, embora não seja xenófobo nem chauviniste. Uma Adega Velha (Aveleda), uma aguardente velha da Casa de Saima, até mesmo uma modesta Fim de Século (Caves Velhas), são produtos de enorme qualidade.
Em 2012, num restaurante italiano de Köln, iniciei-me na Grappa. No caso concreto feita de Barolo, cujos vinhos tintos são dos que mais respeito, na península itálica. Rendi-me: a aguardente branca era excelente. Há um ano, reincidi com uma Grappa de Chardonnay. Muito boa também.
Como não sou egoista, nem patrioteiro em excesso ( e perdoe-se a publicidade), por alguns dias, o Aldi tem em destaque essa Grappa, ao imbatível preço de 6,59 euros. A garrafa, de 0,50 lt., é elegante. O conteúdo, elegantíssimo.
Recomendo.

Idiotismos 42


O facto de ter dois dedos de testa não seria um glorioso atributo, antes denunciava, no entendimento popular, diminuta inteligência, comprovando assim, pela similitude antropológica, as teorias de Darwin. Enquanto que uma testa alta e ampla prognosticava, para muita gente no passado, boas capacidades de pensamento. Ainda hoje se exercitam, sem fundamento científico, estas artes divinatórias, através das feições dos seres humanos, analisadas à lupa.
Os brasileiros têm mais tendência para classificar estados de espírito, fazendo essa projecção através do reino animal. Para caracterizar a felicidade dizem que um sujeito está como um pinto (pintaínho) no lixo. Invocando indirectamente o facto de ter muito por onde escolher, para bem se alimentar. Cabe aqui recordar tempos de penúria, ou o médico e sociólogo brasileiro Josué de Castro (1908-1973) e o seu clássico  A Geografia da Fome (1946).
Nestes dois casos, que referi, une-os a oposta dicotomia: abundância/escassez. Que a esperançada voz do povo preferiu consagrar e transformar em provérbio feliz: Não há fome que não dê em fartura.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Do que fui lendo por aí... (12)


Precisamente há 75 anos (28/8/1942) e no quarto ano da II Grande Guerra,  Ernst Jünger (1895-1998) encontrava-se em Paris, integrando, como oficial alemão, o exército ocupante. O seu contacto com a França não era o primeiro. Alguns anos antes, tinha-se alistado na Legião Estrangeira, em que permanecera algum tempo.
Mas nesse final de Agosto de 42, de temperaturas parisienses ainda amenas, o coleccionador de insectos, apaixonado e especialista, que, antes de ser militar condecorado na I Grande Guerra, era também escritor, químico e botânico, lançava no seu diário estas palavras:

Podemos ir visitar alguém, com as melhores intenções de sermos, nesse dia, particularmente cordiais para com esse anfitrião, mesmo afectuosos (...), mas a frieza pode vir a instalar-se e, depois, será preciso dias, semanas, meses para que a justa harmonia venha a ser restabelecida. (pg. 181)

O convívio de Ernst Jünger com franceses, nessa altura, era muito diversificado. Sobretudo, com artistas, escritores e a velha aristocracia (que nunca são muito de fiar, em matéria de convicções e fidelidades à Pátria...). Entre eles contavam-se Jean Cocteau, Sacha Guitry, Jean Marais, a princesa de Polignac. Nesse Agosto longínquo, o Outono já se fazia anunciar pelo amarelo de algumas folhas de árvores. E  a cidade de Hamburgo já começara a ser bombardeada pela R. A. F., como Jünger refere.
Este diário, do controverso escritor alemão, merece a pena ser lido. Eu, pelo menos, estou a gostar.


para MR, que deve andar por Paris, nesta data. Se tiver tempo para ler este poste...

Glosa 8


O filósofo australiano Damon Young (1975), em The Art of Reading (2016), enumera 6 preceitos ou qualidades, necessários, para se ser um bom leitor. A curiosidade, que caracteriza o prazer da actividade e movimento intelectual, a paciência, para ultrapassar as dificuldades e a coragem de evitar a tentação do controlo excessivo, sem algum abandono, e as conclusões muito apressadas sobre a obra, que estamos a ler; mas também o orgulho de ter prazer nos progressos e sucessos alcançados, a temperança, no sentido de um equilíbrio de apetites (gosto), e, finalmente, a justiça que permita, ao leitor, um ajuízado, porém generoso, sentido crítico sobre o que foi lido.
Não estando eu em desacordo com este critério, nem com esta enumeração de virtudes necessárias a uma arte de leitura, pessoalmente, acrescentaria às 6, mais 2 requesitos: a persistência, porque nem sempre o livro, que estamos a ler, se coaduna com o nosso estado de espírito, e é preciso um esforço de continuidade, nem sempre fácil. E, um pouco em sentido contrário, a supressão da gula (causada  por excesso de gosto) que nos faz ler, por vezes, demasiado depressa uma obra, sem a acompanharmos de uma atenção devida. O ritmo de leitura parece-me ser um factor fundamental para a apreensão integral de um livro, nos seus múltiplos aspectos de estilo, fantasia e reflexão.
É obvio que todas estas considerações se referem à verdadeira literatura...

domingo, 27 de agosto de 2017

Ao anoitecer


Nos últimos dias, inesperadamente, tivemos na varanda a Leste uma invasão de formigas gigantes, ao contrário das habituais, que costumam ser minúsculas e pouco frequentes. Talvez a falta de água tenha provocado esta insólita migração. Uma  desceu, há pouco, do limeiro, e parecia com pressa...
Todo o horizonte está, porém, quieto, e apenas alguns cães, ao longe, com os seus latidos perturbam a vontade silenciosa do entardecer.
Já se recolheram as poucas aves da tarde, e uma aragem suave se levantou, talvez do Norte, para agitar, ao de leve, as folhas tenras da oliveira, na varanda.
Luzes vão despontando para a sua obrigação nocturna, aqui e ali. Como dantes, mais bruxuleantes, apareciam pela colina descendente de S. Roque, perto da Penha.
De súbito na rua (?) ouço uma voz rouca de mulher, praguejando.
Será chuva? Será vento?
É altura de eu recolher ao interior. Arrumo as coisas e apago a luz, na varanda a Leste, que a minha vocação é de paz - pelo menos, por hoje.

As palavras do dia (30)


Subscrevo inteiramente a crónica de hoje (A culpa é do politicamente correcto), de Vicente Jorge Silva, no jornal Público.
E transcrevo o seu final: ...não simpatizo com o primarismo "politicamente correcto", mas simpatizo ainda menos com os que o utilizam como desculpa para um primarismo ainda mais repugnante.

Vídeo tremido e pouco nítido, mas uma parceria de respeito...

Haikai



Do Buda colossal,
pelas narinas, nasce e vem
o nevoeiro matinal.


Kobayashi Issa
(1763-1827)

Por entre Bibliofilia, História e Filatelia


Criada em Jerusalém, por volta dos anos de 1080/90 da nossa era, a Ordem de Malta foi chamada, ao longo dos séculos, sucessivamente, Ordem de S. João de Jerusalém, do Hospital ou dos Hospitalários, até ser conhecida apenas pelo nome da ilha mediterrânica onde se instalou a sua sede e o seu Grão-Mestre residente. De 1722 até 1736, ano da sua morte, a Ordem de Malta foi presidida pelo português António Manuel de Vilhena (1663-1736), a quem o Abade de Vertot, em 1726, dedicou a sua monografia monumental, em 7 volumes, que se tornou rapidamente um best-seller: em 1885, a obra contava já 123 edições, em várias línguas. A minha edição (capa em imagem), de 1761, é a segunda, em língua francesa, e foi comprada em finais do séc. XX.


O nome de António Manuel de Vilhena é hoje lembrado numa rua de La Valletta e ainda agora é considerado como um dos mais importantes Grão-Mestres da Ordem. Foi o terceiro  português Grão-Mestre - o primeiro era filho bastardo do nosso rei Afonso Henriques. Filho do conde de Vila Flor, um dos grandes combatentes da Restauração, António Manuel de Vilhena tem, em Malta, um sumptuoso jazigo em que se encontra inumado, bem como uma estátua que testemunha a sua memória ilustre, reconhecida pelos habitantes da Ilha.



Pelo menos, desde o século XX, a Soberana Ordem de Malta tem emitido selos. Decerto, inicialmente, apenas na categoria de vinhetas, que acompanhavam, para efeitos de propaganda, a franquia postal de correspondência, em alguns países europeus, onde tinha representação.
A má língua refere que, em Portugal, a grande maioria dos cavaleiros de Malta é composta por bancários e sucedâneos. Os banqueiros eram mais da Opus Dei...
Voltando aos aspectos meramente filatélicos, posso ainda informar que, desde 1967, a França, pelo menos, aceita esses selos da Ordem de Malta, na correspondência nacional, e certifica-os com poder de franquia.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Memória (116)


Iriam a meio os anos 60, aqui por Lisboa, quando um querido amigo meu, já falecido, me convidou para o acompanhar e  assistir a um recital de poesia, ali para as Portas de Sto. Antão, no Ateneu. Lá fui.
O ambiente era encasacado, algo decotado também, e do melhor: roupas boas e de marca, mas de muito mau gosto estético, no seu conjunto. Assistência oxigenada, perfumada, cheia de tentativas frustes de rejuvenescimento sobre o já caduco.
Deprimente e decadente, em suma, o recital. Havia em tudo aquilo um mofo espiritual.
A diseuse, então, nem se fala. Requebros lânguidos, refegos flácidos, transparências, tules a que presidia uma voz cavernosa, entre o delicodoce e o melodramático, que começou a entoar Florbela e acabou em poetas menores desconhecidos. O último soneto era dela, declamadora.
Às vezes, quando vou à deriva pela net, encontro montes de versinhos destes, muito felizes de si, dignos de recônditos e regionais semanários de província. Como também encontro, em comentários de alguns blogues, essa maneira forçada e pobrezinha de querer fazer prosa poética saloia, à viva força. Como, às vezes, me aparecem, em logotipos de blogues, fotos de senhoras pretensamente capitosas, loiras, diáfanas e de cabelos longos à Veronica Lake. De óculos escuros, quase sempre, a disfarçar a idade e as rugas nas comissuras dos olhos... Tudo isto me parece patético e, nessas alturas, vem-me à memória essa deprimente noite poética, no Ateneu de Lisboa, pelos idos de 60...

à memória de J. M. F. M..

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Será que ainda se usa?

Seja como for esta canção foi Top of the Tops, em 1971. Quando Tom Jones tinha uma bela voz.

Apontamento 105: A História da Boneca



Aqui está ela, de novo lavadinha e com o casaquinho pelos ombros, já que o tempo ainda não pede lãs.



Como se pode ver pela marca nas costas, é uma boneca SCHILDKRÖTE [i.e. tartaruga], muito em voga na minha infância. O catálogo actual da marca ainda vende esta “colecção clássica”, como lhe chamam, dando um nome específico a cada criatura.

A minha boneca sobrevivente, T 40, i.e. de 40 cm. de altura e de nome Ursel, terá surgido pelo final da década de cinquenta do século passado. A data até condiz com a altura em que julgo ter-me sido oferecida.

De muitos banhos que lhe dei, porque os cuidados diários faziam parte das brincadeiras, ficou com as pernas um pouco bambas e a cabeça menos firme do que gostava que tivesse. Assim, resolvi, há algum tempo, perguntar o que se poderia fazer às maleitas da boneca no Hospital das Bonecas, na Praça da Figueira, em Lisboa.

Confesso que não gostei do atendimento. Comprei apenas umas cuecas novas – produto fraco e caríssimo. Os vestidos, que ainda apreciei, eram e são muito pouco airosos, muito antiquados, caríssimos. Parecem de feira, sem gosto, nada do que fala a Paula Lima, roupinha feita com dedicação, estilo e saber.

Assim, sentei-me um dia e fiz eu a roupinha. [ver “posts”: Da janela do aposento 16 e Os trabalhos e os dias (5)].

O casaquinho comprei-o numa loja que, por vezes, frequento, com porta aberta para o Largo de S. Carlos.

Post de HMJ, dedicado às minhas leitoras do "post" anterior

Escrita e oral


Dizia, quem o conheceu e com ele privou, que o polaco (nascido na, hoje, Ucrânia), naturalizado britânico na idade adulta, Joseph Conrad (1857-1924), nunca falou correctamente o inglês. No entanto, alguns dos seus romances são considerados como extraordinariamente bem escritos e pertencem ao melhor da literatura da Grã-Bretanha, a par da obra de Kipling ou Dickens.
Outro tanto se poderia dizer do romeno E. M. Cioran (1911-1995), que tinha um francês falado algo atabalhoado, mas cuja obra escrita está expressa num francês puríssimo e do melhor estilo.
Esclarecem-nos os especialistas da Fonética que o aparelho fonador, de qualquer ser humano, se forma e adapta nos primeiros anos de vida. E, uma criança, ou começa logo a ser bilingue, ou mesmo trilingue, ou nunca conseguirá falar devidamente outras línguas, na sua pronúncia correcta e pureza original.
Caberia aqui lembrar o velho provérbio: "De pequenino, é que se torce o pepino."

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Apontamento 104: Tratar da Boneca


A minha boneca de infância já tem sido vedeta no Arpose. Precisava de alguns cuidados, a saber, lavarem a roupinha que, em tempos, lhe fizerem de novo. Pois, o tempo passou e a roupa já estava um pouco suja. 

Lá decidi que seria hoje o dia da roupa branca. E o resultado foi o seguinte.

Sem roupinha e nua, com homens a passar por casa, lá resolvi engendrar um roupãozinho, de um lencinho meu,  para tapar as "vergonhas" da boneca como se vê pela foto acima.

Entretanto, na cozinha lá se arranjou um fio para pôr a roupinha, não a "corar", porque o sol não chega a tanto, mas a secar.


Espero, pois por amanhã para passar tudo a ferro e voltar a vestir a boneca. 

Post de HMJ

Citações CCCXXIII


" Toda a viagem é um regresso à infância; não à nostalgia de um bem perdido, mas duma possibilidade de felicidade que acenava na infância e que o futuro, em vez de concretizar, sufocou; duma stendhaliana promesse de bonheur, que a vida e a História, no seu curso sequente, desmentiram."

Claudio Magris (Trieste, 1939), in Alfabetos (pg. 220).

Esquecimentos e omissões


Das ex-colónias portuguesas, tirando, eventualmente, o dito Estado da Índia (Goa, Damão e Diu) - que, da Índia, têm vindo vários visitantes ao Arpose - só faltava que alguém de Timor viesse ao Blogue. Aconteceu hoje, às 5h34, e o visitante dirigiu-se a um poste antigo de 8/3/2012, intitulado Lembrar Ruy Cinatti (1915-1986), poeta esquecido que tanto amou Timor. Alguém, por lá, o terá recordado.
Similarmente, ontem (hoje), no blogue amigo Prosimetron, JAD evocou o historiador Oliveira Marques (1933-2007). Assim se vai tentando alimentar a memória dos vivos, com a lembrança dos mortos queridos. Mas, penso, que é uma tarefa inglória neste nosso tempo de glórias efémeras e memórias curtas. Em que incensámos ontem o que amanhã sepultamos, para eleger um novo ídolo.
No entretanto, as Academias vão lembrando, burocraticamente, os seus maiores, como lhes compete, mas estas evocações ficam restritas às suas instalações geográficas e não chegam ao povo, nem às gentes das ruas. Como nos cemitérios, as inscrições biográficas e afectuosamente saudosas vão sendo delidas, nas lápides votivas, pelo bater inclemente do Sol, diariamente. Até que já não podem ser decifradas, pelas omissões das letras.
Quantos poetas, quantos historiadores, quantos escritores, quantos nomes ilustres se foram apagando, no tempo!...
( Por isso, não foi sem algum cepticismo e alguma melancolia, que eu fui escrevendo estas palavras.)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Revivalismo Ligeiro CCLXX

Das Aves


Diz, quem sabe, que o Corvo é das aves mais bem apetrechadas para imitar os humanos, e não destituido, de todo, de sentido de humor e originalidade própria, consoante o seu convívio, maior ou menor, com os homens. Creio que os Papagaios também os acompanham, nessas qualidades singulares, bem como os melros, embora com muito maiores limitações. E alguns periquitos, treinados, também fazem algumas pequenas habilidades...
Mas, há dias, li uma história sobre rouxinóis, que me deixou pasmado. Um Pastor do sul da Alemanha costumava levar as suas ovelhas, acompanhadas do seu cão, para um campo de pasto determinado, havia tempos. Até que para lá foi nidificar um bando de rouxinóis.
O Pastor costumava comandar o seu cão através de assobios modulados para cada uma das actividades que pretendia que ele executasse junto do rebanho. Até os rouxinóis terem aprendido a imitar esses assobios. E, de tal maneira, aperfeiçoaram os seus pios, que o cão-pastor passou a andar numa fona, tipo barata tonta, sem saber a que assobio contraditório obedecer...
Claro que o Pastor germânico teve que mudar de pastagens.
Donde se poderá talvez concluir que algumas aves são mais inteligentes do que alguns cães. E têm gosto em se divertir. Só talvez não tenham ainda aprendido a rir...

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Produtos Nacionais 22


Não se exclua dos ofícios mecânicos uma certa linhagem de nobreza que, no antigamente, era óbice para ascender à aristocracia ou manchava de suspeita qualquer artífice, por melhor que fosse.
Ramalho, de Rosa (1888-1977), que até foi celebrada por Agustina, os Côta, Prazeres, Milagres, são alguns dos nomes e apelidos familiares que ilustraram e ilustram essa genealogia de barristas gentios de Barcelos.
E foi o galo, milhares de vezes reproduzido em cores variadas e berrantes, que se constituiu ex-libris indiscutível e símbolo regional, e mesmo nacional, destes artesãos simples, mas imaginativos.
Monstros inomináveis, mafarricos assustadores, zoomorfismos apenas existentes no imaginário popular foram povoando de figuras estranhas esta mitologia única que se vai fazendo à beira do Cávado.



Eu sempre fui mais atraído pelos músicos canhestros de bigodaças, mas compostos na sua indumentária, destas bandas de barro rústico, que fui juntando até compor uma orquestra de 10. Todos têm a particularidade de serem assobiadores, porque na base posterior de todos existe um apito primitivo, por onde se pode soprar. O gigantone, ao fundo à direita, com o seu bombo, reuniu-se-lhes, por oferta gentil de uma minha amiga, já em meados dos anos 80. E esse sei eu que é do Milagres. Talvez algum dos outros, mais pequenos, possa ter saído das mãos hábeis e talentosas de Rosa Ramalho.

Adagiário CCLXVII


Os homens fazem o almanaque e Deus manda o tempo.