quarta-feira, 3 de agosto de 2011

"A vida é um estado mental"

2 quadras (quase populares), para não perder o pé


A amar e a escolher amante
Ensinou-me quem podia:
A amar, foi a Natureza,
A escolher, a simpatia... 

Amar, e saber amar
São dois pontos delicados:
Os que amam são sem conto,
Os que sabem, são contados.

António Leite C. P. de Mello (1812-1896).

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Citações LXXIII : Albert Camus (3)


"Para um homem que observa o mundo sem prescindir de nele tomar parte, é bem difícil pensar como Chamfort. E, por exemplo, dificilmente se admitirá que a superioridade possa fazer sempre inimigos, que o génio seja obrigatoriamente solitário. São coisas que se dizem para dar prazer ao génio ou a si mesmo. Mas, aí, não há nada de verdadeiro. A superioridade vai de bem com a amizade, o génio é algumas vezes uma boa companhia. O tipo de solidão que ele encontra não lhe é particular: ele está só quando o quer."
Albert Camus, no Prefácio (1944) a "Chamfort - Maximes et pensées...".

Pinacoteca Pessoal 15 : Giovanni Pietro Rizzoli


O que é que nos atrai numa obra de Arte? É sempre difícil justificarmos uma escolha subjectiva, com rigor. Mas este quadro que conheci há muito pouco tempo, e que nem sequer soube localizar, cativou-me. Talvez o tratamento pictórico da pele (embora inferior ao evanescente de Lucas Cranach), nos seus tons pálidos, a barriga ligeiramente descaída desta Madalena que lê, abandonada e arrependida, esta perfeição geral inacabada que quase parece, se fosse completa, o "bonitinho" dos Pré-Rafaelitas - mas não é.
Não será um pintor de primeira água, este Giovanni Pietro Rizzoli, provavelmente, da escola de Leonardo da Vinci, que viveu entre 1495 e 1549, em Itália. Inicialmente chamavam-lhe "Giampetrino". Deixou várias Marias Madalenas, que era um dos seus temas recorrentes. Mas nenhuma como esta, da imagem - creio.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Fragmentos de umas férias descomprometidas (1)


Chove. Sander leva a sério a tarefa difícil de escalpelizar um pêssego careca e maduro. A Loore, pela enésima vez, diz, ao visor do telefone de entrada: "Hello!?", acariciando o Putchy, ao mesmo tempo. Só a Hebe, em pose adulta e reclinada no divã da Ikea, em silêncio não se mexe da leitura adolescente. Mas a casa está cheia de vozes. Nem pensar ir à praia, muito embora a impaciência das crianças tenha limites, e faça temer o pior. Uma pequena revolta familiar é previsível. Continua a chover...
Pelo menos, não será preciso regar as plantas.

Adagiário XLVII : Agosto (2)


1. Pela Senhora de Agosto (15), às sete é sol posto.
2. Agosto madura, Setembro vindima.
3. Se não debulhas em Agosto, terás sempre desgosto.
4. Água de Agosto, açafrão, mel e môsto.

domingo, 31 de julho de 2011

Franz Liszt (1811-1886)

Em aditamento a um comentário que fiz no Prosimetron


 No Minho, entre gente de poucas posses, em tempos recuados, as famílias que tivessem crianças convalescentes de alguma doença, ou débeis por natureza, para as tonificar ou robustecer, costumavam dar-lhes "sopas de cavalo cansado", porque os medicamentos eram caros para as suas bolsas limitadas. A receita era mais ou menos a seguinte:
- Vinho verde tinto (cerca de meia malga sopeira)
- Mel (uma colher de sopa não muito cheia)
- 1 gema de ovo
- Pedaços de Pão.
Na malga deitava-se o vinho tinto, acrescentando o mel e a gema de ovo, e misturando muito bem. No final acrescentavam-se as fatias de pão ou, preferencialmente, miolo de broa de milho, migado. As "Sopas de cavalo cansado" poder-se-iam também amornar, ligeiramente.
Ao que diziam, as crianças que as comessem durante alguns dias, recuperavam a saúde e ficavam fortes.

para o JAD, com Amizade.

Curiosidades 40 : origens, invenções e descobertas


Do livro "Diccionario de Invenções, Origens..." (1876), de Alberto Pimentel (1849-1925), respigamos algumas curiosidades que nos pareceram mais interessantes (com actualização ortográfica):
1. Agulhas - "As agulhas cuja invenção os gregos e os romanos atribuem a uma mulher, estiveram longo tempo sem ser aperfeiçoadas, porque eram feitas geralmente de espinhas de peixe, como os alfinetes. Parece ter sido no século XIV que se começou a empregar o arame nas agulhas e aí pelo século XVII que o arame foi substituído pelo aço."
2. Anspeçada - " Este posto hoje introduzido nos corpos de todas as armas do exército, no seu princípio pertencia só à Infantaria. O seu nome provém de duas palavras italianas lancia spezzata, lança quebrada, de que os franceses tiraram o seu lanspessada, e nós daí o nosso anspeçada. Chamavam-lhe assim, porque este posto era dado aos velhos gendarmes, que não podendo já servir na Cavalaria (cuja arma principal era a lança) os agregavam, como por uma espécie de reforma, aos corpos da Infantaria;..."
3. Bambochata - "Tem esta denominação um género de quadros ou desenhos que representam cenas populares, facetas e grotescas. Esta palavra deriva d'um pintor flamengo, Pedro van Loor, nascido em 1613, alcunhado Bamboccio, porque tinha defeituosa configuração. Como ele fosse o maior pintor d'este género, deu-se por analogia o nome de bambochatas às suas composições e às dos seus imitadores. ..."

Notas: a) o termo "anspeçada", no meu tempo de tropa (1968-1971), creio que já não era usado.
           b) existe um poema herói-cómico intitulado " A Lusa Bambochata" (1885) de Joannico C. Mila.

sábado, 30 de julho de 2011

Nos 70 anos de Paul Anka

E. M. Cioran e o Tabaco


"...Terei falado aqui da minha intoxicação pelo tabaco? Dizia eu há dois meses a um cirurgião australiano, que veio jantar a nossa casa, que eu tinha sido um grande fumador e que era impossível tomar a mais pequena decisão sem acender um cigarro, e esta dependência total, esta escravatura, acabaram por se me tornarem intoleráveis. Quando deixei de fumar, foi uma total libertação.
O cirurgião que parecia visivelmente interessado por aquilo que eu dizia, contou-me que lhe tinha acontecido o mesmo que a mim, e que uma vez, no meio de uma operação muito grave, parou bruscamente, não conseguindo decidir-se em que sentido devia prosseguir. Abandonou a sala de operações e foi fumar um cigarro, no exterior. Depois, sem dificuldade, soube aquilo que deveria fazer, tomou a decisão que se lhe revelou correcta uma vez que a operação, contra todos os receios, foi bem sucedida.
Depois que eu deixei de fumar, sinto-me menos capaz de afrontar os problemas da vida prática (sem contar com a baixa de rendimento intelectual que se seguiu!), mas finalmente não tenho mais o sentimento de me sentir dependente de um veneno, de um dono impiedoso."
E. M. Cioran, in "Cahiers - 1952/1972" (pg. 596). 

Da janela do aposento 4


Tenho andado às voltas, por questões técnicas, com o impresso de Germão Galharde, de 1526, cuja portada se reproduz acima.
No entanto, o olhar técnico não se abstraíu de uma parte significativa da Ordenaçam, "dada em Santarem, aos cinco dias do mes de Iulho", de 1526, por D. João III (1521-1557). Passados séculos, eis a transcrição de uma verdade ainda actual: "vendo eu o muyto tempo que ate ora se gastaua no processar: e ordenar os feytos" ...


Post de HMJ

Neste dia, dedicado a c.a. e todos os leitores amigos, artífices de justiça

Pelo aniversário de c. a.


Albatroz

Frente à janela o velho marinheiro
Sonha com baleias que navegam pela alma
E que o seu olho feroz não arpoou.
O seu coração é na verdade um único
Cemitério marinho. Não o do poema.
O que viaja nessa pequena vaga
Que lhe circula, lentamente, pela face.

Ómar Ortiz

Nota: expresso, ou não, cada poema traz em si um legado, uma herança de referentes, para além do seu impulso original e pessoal. Pela tradução deste poema de Ómar Ortiz (Bogotá, 1950) se podem notar vários ascendentes: Coleridge ("A rima do Velho Marinheiro"), "O Cemitério Marinho" de Valéry; e, porventura, o capitão Ahab do romance de Melville. As ilhas, em Arte, são uma ficção imperfeita.

para c. a. , com parabéns. 

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Aqui há dez anos


Arrumos de época própria, fazem-me deparar com um JL do período de 25 de Julho a 7 de Agosto de 2001 (a primeira data gralhada na capa). É o nº 804, do ano XXI. Dá para ver a efemeridade das coisas e o eco amortecido ou sepultado do que terá sido "importante", aqui há dez anos atrás - não vale a pena correr pela moda muito presente e demasiado actual... Dos best-sellers de ficção (10) passo a referir os 5 mais vendidos (alguém se lembrará deles?):
1 - Gaby Hautmann: "Um amante a mais ainda sabe a pouco" (Quetzal).
2 - Edith Wherton: "Sono Crepuscular" (Asa).
3 - Marion Zimmer Bradley e Diana L. Paxton: "A Sacerdotisa de Avalon" (Rocco).
4 - Luísa Castel-Branco: "Luísa" (Oficina do Livro).
5 - Brian Gallaghr: "Marido Infiel" (Presença).
As duas notícias em destaque, neste JL, são: "Os 5 anos da CPLP: Balanço e Perspectivas" e a atribuição do Prémio Camões a Eugénio de Andrade, com testemunhos e artigos de Eduardo Lourenço, Arnaldo Saraiva e José Tolentino Mendonça. O JL traz ainda 3 poemas inéditos do Poeta. Transcrevo um deles que não sei se terá tido inclusão e posterior impressão em livro. Tem como título "À beira da água" e está datado da Foz do Douro (27. 8. 2000). Segue:

Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.

Portuguesas no século XVIII


Mais uma vez usando o pitoresco das observações contidas na "Relação do Reino de Portugal - 1701", de Thomas Cox/Cox Macro, editado pela BNP, em 2007, se transcrevem as notas sobre as mulheres portuguesas da época:
"...As Mulheres são geralmente pequenas e muito bonitas, excedendo a maior parte das mulheres da Europa. Mas assim que atingem a perfeição, decaem rapidamente e não restam vestígios dos seus anteriores encantos; atribuo duas razões a isto: em primeiro lugar, o seu uso excessivo de Pinturas e Loções compostas de preparados de Mercúrio que lhes endurecem e enrugam a Pele; e andam sempre com Leites e Feltros nos bolsos, e, quando a ocasião assim o exige, usam-nos mesmo em público, na rua e nas Igrejas. Outra razão é a sua prática excessiva de Lascívia; pois não existe outro sítio na Europa onde as mulheres sejam tão libidinosas, nem mais livres nos favores que dispensam. Começam a ter Filhos entre os doze e os treze anos, e aos vinte seis, vinte sete não têm mais." 

Cedo, na manhã de Julho


Do interior da janela, abro as férias ao cinzento. Há uma incomodidade neste frio inesperado de final de Julho, e esta troca de azul pelo escuro suscita um desconforto biológico e mental. Depois, na esplanada sem mar à frente, desdobro as páginas e leio, sobre Faulkner, umas linhas de crítica avulsa e breve. Hesito se devo levar, para o interior do café donde os trouxera, a chávena com o pires e o copo da água, já vazios. Há mais chávenas vazias pelas mesas abandonadas. O empregado virá buscar, com certeza, com a bandeja (se for redonda?) ou o tabuleiro (se for rectangular?), a louça usada e suja, para a lavar, no interior.
Uma pá metálica arrasta-se pelo chão, num ruído agressivo e desagradável, levando areia grossa de um lado para outro. Levanto-me e regresso. Há que fazer qualquer coisa pelo dia...

Mercearias Finas 35 : livros antigos de cozinha portugueses


Provavelmente, o mais velho livro de cozinha portuguesa terá pertencido à Infanta D. Maria que o terá levado para Itália, quando casou com o duque de Parma, em 1565. O livro foi encontrado por Giacinto Manupella, em Nápoles, nos anos 40 do século passado, sendo publicado, posteriormente. N' "O Livro das Sopas - a viagem do paladar", de Maria Antónia Goes, editado pela Colares Editores (s/d), faz-se a cronologia dos mais antigos livros de cozinha, nacionais e até ao séc. XIX, que passamos a transcrever:
1550 - Livro de Cozinha da Infanta D. Maria
1680 - Arte de Cozinha, de Domingues Rodrigues
1780 - O Cozinheiro Moderno, de Lucas Rigaud
1788 - Arte Nova para Confeiteiros e Conserveiros, de autor anónimo
1841 - Arte do Cozinheiro e Copeiro, do Visconde de Vilarinho de S. Romão
1849 - Cozinheiro Completo, de autor desconhecido
1860 - Formulário para Cozinha e Copa, de autor anónimo
1870 - O Cozinheiro dos Cozinheiros, de Plantier
1876 - Arte de Cozinha , de João da Matta
1890 - Manual da Cozinheira, de Henrique Zeferino
1891 - Manual de Receitas e Segredos Úteis, de autor desconhecido, publicado em Lisboa
1894 - O Cozinheiro Indispensável, editado no Porto, pela Livraria Internacional.

Nota (de culpa): Reparação em tempo útil (amável lembrete de HMJ), mas indesculpável não ter referido, sobretudo para quem se interessa pelo assunto, o magnífico catálogo "Livros Portugueses de Cozinha", da BNP (2ª ed., 1998), trabalhado com rigor por Manuela Rêgo e José Quitério. Hoje (29/7/11, 14,27 hrs.), em tempo. 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

3 colombianos por uma esplanada de Verão


As Armas

Muitos se armam para a guerra.
É necessário.
Outros se armam contra o mundo.
É preciso.
Alguns se armam contra a morte.
É natural.
Tu armas-te para o amor
e estás tão indefeso
para a guerra,
contra o mundo,
para a morte.

Luz Helena Cordero (1961)

O Arroz

É como se fora
um baixo da orquestra
toda a clareza
afim da melodia
formosura branca
O arroz caminha
como dedos de pomba.

Horacio Benevides (1949)

para MR, este "trocar de rosa", feito em liberdade, numa esplanada de Verão, com votos de boas férias.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...


Dentro de 11 dias passará mais um ano sobre a morte (8 de Agosto), aos 45 anos, de Ruy Belo (1933-1978). Sozinho, em Queluz, numa zona incaracterística de betão profuso, mas que dá pelo nome bíblico de Monte Abraão. Tal como a sua poesia, singularíssima e original, batia ao hausto longo de ressonância bíblica. Ontem, estive a reler o seu "Na senda da Poesia" (1969) e, no prefácio, ele fala com autenticidade dos gostos e amores perdidos de juventude. Vou passar-lhe a palavra:
"...Não escreveríamos hoje o ingénuo estudo sobre Sebastião da Gama nem a crónica jornalística sobre a poesia italiana, apesar de não deixarmos de sentir alguma saudade de um entusiasmo que passou e talvez não volte mais. ..."

quarta-feira, 27 de julho de 2011

"Bokassas" há muitos


Por vezes reencontramos, nas arrumações, livros que tiveram importância numa determinada fase da vida. Por coincidência, ou não, o "livro negro" da imagem surgiu pouco depois de termos falado aqui de alguns "Bokassas" europeus.
Ao folhear o livro, voltei a lembrar-me do motivo da compra. Hoje, já poucas pessoas se lembram que F.J. Strauss foi ministro da defesa da Alemanha. Durante o seu exercício adquiriu os malfadados aviões "Starfighter" para a Força Aérea alemã e que tanto pelo preço exorbitante, como, principalmente, por problemas de segurança ficaram célebres.
Menos célebres ficaram os 300 pilotos que, até 1989, faleceram ao serviço do país, pilotando os ditos aviões.

Post de HMJ

Josquin des Prez (1450-1521)

Balanço e contas, pouco antes das férias

O blogue, neste mês de Julho de 2011, atingirá o seu máximo mensal de postes colocados. Ultrapassará, muito provavelmente, o número de 140. Tal não teria sido possível sem a preciosa colaboração de HMJ e de H. N. (que, oportunamente, dará a sua opinião de leitura, aqui, sobre uma obra de Eduardo Lourenço). Mas também me foram essenciais as sugestões, dicas e informações amigas transmitidas por: A. A. M., C. S. e ms (estou a citar, por ordem alfabética). Não menos importante e motivadora foi, sem dúvida, a visita e comentários de alguém que muito prezo: MR. Mas também foram estimulantes as visitas, comentários e interacção, bissextos de: c. a., JAD, LB, Margarida Elias, Miss Tolstoi, "oliveira da Eurídice" e Ralf Wokan (volto a citar por ordem alfabética). Que se me perdoe alguma clamorosa omissão!
Finalmente, as visitas tímidas ou caladas, e anónimas oscilam entre 130 e 140 diárias, presentemente, com predomínio das brasileiras. Um agradecimento especial aos 29 seguidores do Arpose, pela paciência com que me têm vindo a acompanhar, com desvelo e atenção. E, já agora, uma última nota: o Arpose entrará, a partir de agora em velocidade de cruzeiro. E a seguir ao próximo fim-de-semana, optará por uma hibernação bissexta. Como dizia José Gomes Ferreira: "Viver sempre, também cansa!"
Obrigado a todos. E muito boas férias!

Bibliofilia 50 : Vasconcellos Coutinho


Está muito representado na "Fénix Renascida", este autor madeirense cuja obra foi publicada postumamente (1729). Francisco de Vasconcellos Coutinho (1665-1723) era um excelente "fabbro" do barroco cultista e dominava bem as normas poéticas da época. David Mourão-Ferreira sublinha-lhe acentos camonianos e algum pré-romantismo antecipado. Só se lhe conhecem, para além das poesias publicadas na "Fénix Renascida", estes dois conjuntos de poemas, numa edição interessante, de marca joanina característica. As obras, desencadernadas, comprei-as num alfarrabista da Calçada do Carmo, nos anos 90, por Esc. 2.200$00 (cca. 11,00 euros) - pareceu-me um preço justo, na altura. Depois foram para um encadernador, ali para as bandas da Sé, que fez um bom trabalho, limpo e perfeito, atendendo às condições. Nunca mais dei, até hoje, por mais nenhum exemplar à venda. Mas suponho que não será muito raro.

O ogre de Oslo e o silêncio dos inocentes


O comportamento humano, na sua expressão e manifestações, é infinito. E mesmo em seres humanos, aparentemente normais, equilibrados e previsíveis há, muitas vezes, desvios da norma, reacções e respostas de atitude que nos desarmam e nos deixam perplexos. Na memória de cada um haverá, também porventura, exemplos de comportamento desadequado, e inexplicáveis, pelo nosso critério e ética de estar no Mundo. Embora não nesta forma desmesurada de horror e apocalipse. Por outro lado não gosto, e evito pronunciar-me, aqui no Arpose sobretudo, a quente e de imediato, sobre casos complexos e que não se podem explicar pela Razão. Demorei a pronunciar-me sobre o caso DSK. Mas penso que devo dizer alguma coisa sobre o ogre de Oslo e o repúdio que sinto pelos seus actos assassinos.
Mitómano, exibicionista (basta ver os "uniformes" com que se autofotografou) dissimulado sob a capa de uma aparente discrição, frio até ao detalhe na execução do seu plano homicida, ideologicamente incoerente, carente de atenção e sedento de publicidade na forma como, por palavras, quase se auto-diviniza... Não creio, por isso, que falar muito do ogre seja a melhor forma de o esconjurar. E, não obstante, é o que os media estão a fazer, copiosamente, aliás. Há sempre espíritos débeis em que estes casos exercem algum fascínio e desejo de imitação.
Finalmente, gostaria de reter, transcrevendo, algumas declarações que me parecem ajustadas ao assunto. Do professor Marius Wülfsberg: "...um homem muito inteligente que enlouqueceu. (...) Não devemos permitir que uma pessoa tão bem informada esteja à nossa frente e faça propaganda..." E uma frase do Pai do ogre de Oslo, embaixador norueguês reformado, a viver no Sul de França: "...era melhor que ele se tivesse suicidado, antes de matar tantas pessoas...". Que o ogre não descanse em paz!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Marguerite Yourcenar aos 74 anos

André Maurois : as personagens


"A personagem é o homem que os outros imaginam que nós somos, ou fomos. Ela é talvez múltipla. Duas personagens diferentes, contraditórias e, por vezes, hostis entre si, que nos podem sobreviver no espírito dos nossos amigos, dos nossos inimigos, e continuar, depois da nossa morte, uma luta de que a nossa figura póstuma é o motivo."
André Maurois (1885-1967), in Mémoires (1942).

Osmose (22)


A única mesa vazia do restaurante estava-me ao lado e o par, um pouco distanciado em idades, não tinha outra alternativa. Ela, tão ágil de gesto e passo, dava ideia alta de uma gazela da Núbia, ele, mais setentrional, de boa máscara, bronzeado mas com duas brancas rugas paralelas, no pescoço, como se marcado para ser degolado. Pela conversa breve, dele, percebi que uma viagem os iria separar. Ela estagnava os olhos grandes, abstractos, no espelho em frente e respondia por monossílabos discretos. Foi então que o homem lhe estendeu um pequeno embrulho delicado, e disse: "- Toma!" Vagarosamente, a rapariga sussurrou: "- A minha estima não merecia tanto..." E foi a única frase completa que lhe ouvi, até me ir embora, em direcção à rua. Tinham eles começado a tomar o café.

Navegar, navegar...


Em memória de umas férias de suma liberdade, com crianças felizes à volta. E também para o António.

No tempo em que...


O verso: não apenas a lembrança
fica. Como voltar ainda? Aos dias,
anos até, e tanto por viver.
No sonho se levanta e não concorda
com ritmos, regras e este sobressalto:
cidade passo a passo desenhada
no amarelo linho, lentamente.
Tão baços copos de vermelho, o vinho,
só palavras bebidas que ficaram
feridas na memória, palmo a palmo
tão curtos dias e afinal palavras
de silêncio em protesto, tão incerto
melhor seria não o ter sonhado.

António de Almeida Mattos, in Conjuntivo Presente

para o António, o reflexo abraço de sempre, hoje, de parabéns.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Regionalismos minhotos (4)


Aqui vão mais 4 regionalismos minhotos retirados de Vocabulário Minhoto (1916, Esposende), de M. Boaventura, com os respectivos significados, e para que conste:
1. Alambazar - besuntar; comer despropositamente e com sofreguidão.
2. Alfotrecos - utensílios, trastes velhos.
3. Algariça - colmeia. (Provavelmente de origem árabe).
4. Alquitetes - espertalhão; manhoso.