segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Mily Balakirev (1837-1910)

Pinacoteca Pessoal 84


Se o acantonamento de artífices da mesma profissão, na mesma rua, durante a Idade Média (e ainda hoje há, disso, vestígios) tem razões, sobretudo, administrativas, o desejo de alguns artistas, durante o século XX, de organizar grupos habitacionais com a mesma afinidade, em locais concretos, não o saberei eu explicar. Talvez a re-constituição de informais Academias de interesses comuns, que promovessem o diálogo teórico de ideias e o progresso das próprias artes, em execução. Na Inglaterra, embora de duração breve, há vários exemplos destes grupos, como por exemplo a comunidade, chamada Rananim, no País de Gales, constituída pelos escritores D. H. Lawrence e mulher (Frieda Lawrence), Katherine Mansfield e John Middleton Murray, e que foi criada no ano de 1916.
Embora mais tardia, por volta de 1936, foi criada no Essex (Eastbourne), uma comunidade de pintores, por iniciativa de Peggy Angus (1904-1993), que viria a juntar, também, Eric Ravilous - de quem já falámos aqui, no Blogue - e John Piper. Personalidade carismática e interventiva, há mesmo quem a tenha qualificado de exibicionista, Margaret MacGregor Angus, que usou o nome artístico de Peggy Angus, dinamizou essa comunidade, de forma muito significativa. Professora, gráfica, pintora e designer, tem uma vasta obra que fala por si. Foi a muralista que decorou inicialmente o aeroporto de Londres (chamado, mais tarde, de Heathrow), bem como projectou a decoração do pavilhão inglês na Expo de Bruxelas, em 1958. Porque também se interessou pelo azulejo.
Em imagem um auto-retrato de Peggy Angus, bem como o retrato que fez do seu amigo e também pintor, John Piper.

Um encontro : George Steiner / António Lobo Antunes


O vídeo, que ora coloquei, é longo - cerca de 1h15. Mas bem interessante. No Youtube, teria tido, até ao momento, 1.905 visitantes. Será para se ir vendo e ouvindo - como farei - à medida do tempo, vontade e disponibilidade... Mas aqui fica, porque eu não queria perder este documento humano importante.

domingo, 7 de setembro de 2014

Contos : breve balanço de leituras


A palavra escrita, para quem sabe ou gosta de ler, tem o condão de despertar o respeito e/ou a curiosidade, por todo e qualquer documento impresso. Ainda hoje, ao depositar os jornais antigos, no contentor do papel, não pude deixar de sobrevoar uma olhadela platónica pelo que por lá havia. Folhetos de publicidade e jornais velhos, na sua quase totalidade. De vida breve, portanto.
Lidos os 25 contos de ficção, para intervalar a prosa longa de "Guerra e Paz", das duas antologias que comprei, há dias, há que fazer um balanço curto. Há dois de que poderei contar a história resumida, para algum amigo ou conhecido, que tivesse curiosidade. O primeiro que li, "A senhora do cãozinho", de Anton Tchekhov, passado em Ialta; e "A piscina orfã", de John Updike, ajudado talvez pela - julgo - magnífica tradução de Luísa Costa Gomes. À distância, e com benevolência, poderia fazer alinhar, ainda, uma curta narrativa de David Lodge e, outra, de O. Henry (Primavera à la carte). Os restantes contos são esquecíveis.
E foi tudo: magra colheita...

Avios


É um duo, no mínimo, muitas vezes são três, todos eles jovens, e chegam a ser um quarteto, mas o ritmo do avio não se altera. O espaço não é grande e, por vezes, na simpatia pressurosa, mas nem por isso rápida, quase se atropelam. Mas são muitíssimo educados (o jovem empresário e as colaboradoras), mesureiros, salerosas, as meninas que atendem.
Era sábado, e o advogado cinquentão, às tantas, não se conteve: "- Eu não posso estar aqui a manhã inteira! Só quero 3 jornais e ainda tenho muito que fazer!..." Eu compreendi-o. Mas as meninas e o jovem empresário fizeram, todos, sorrisos amarelos e comprometidos. Em coro, pediram desculpa e agradeceram.
Eu consegui sair de lá, passados 10 minutos, com o TLS na mão. Devo ter beneficiado da reclamação jurídica anterior...

De Diane Wakoski (1937), norte-americana, para português

Amulet


À volta do meu pescoço,
âmbar enquadrado em prata, uma
gota de sangue
como se fora uma lágrima de árvore.

A par e passo 105


As últimas páginas (cerca de 50) do volume "Variété II", de Paul Valéry, são dedicadas a Mallarmé, de quem foi próximo e amigo. "Variété III" inicia-se, em sequência, com o capítulo "Je disais quelquefois à Stéphane Mallarmé". É por aqui que começamos a seleccionar e traduzir alguns passos:

Estas propriedades sensíveis da linguagem têm também uma notável relação com a memória. As diversas formações de sílabas, de intensidades e de tempos que se podem combinar são irregularmente favoráveis à sua conservação pela memória, como o são, por outro lado, à emissão de voz. Poderíamos dizer que umas terão mais afinidade que outras pelo misterioso apoio da recordação: cada uma parece afectada por uma probabilidade própria de restituição exacta, que depende da sua figura fonética. (...) E isto porque a poesia diz respeito e radica, sem dúvida, num qualquer estado humano anterior à escrita e à crítica. Eu encontro, por isso, num verdadeiro poeta, um homem muito antigo; ele bebe ainda nas fontes da linguagem; ele inventa "versos", - muito próximo daqueles seres primitivos mais dotados que criaram as "palavras", ou os antepassados das palavras.

Paul Valéry, in Variété III (pgs. 18/9).

sábado, 6 de setembro de 2014

Regionalismos transmontanos (52)


1. Machacaz - indivíduo que não tem siso, doido, néscio.
2. Majandra - rapaz indolente, inactivo, preguiçoso.
3. Malato - cordeiro de um ano. Carneiro de meia idade.
4. Manaio - tosco, vesgo. Pisco.
5. Manganão - preguiçoso, mandrião.
6. Marar - estragar, enganar. Roubar. V. r. : enlouquecer.

Divisa


"Impõe a tua sorte., agarra a felicidade e afronta o teu risco. Ao verem-te, eles hão-de habituar-se."

René Char (1907-1988).

Uma versão de Joan Baez

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Lembrete 22


O Outono deve estar com pressa. Até porque já hoje vi, sobre o Tejo, quando é normal só os ver em Outubro, um bando de estorninhos. Seriam 8 ou 9, longe dos grupos de dezenas ou centenas, que costumam aparecer mais tarde. Seja como for, são um agradável sinal de presença. Bem-vindos!

Um quadro de Claude Monet


Não será um tema muito frequentado por pintores. Mas, Camille Doncieux (1847-1879), primeira mulher de Claude Monet (1840-1926), além de ter sido retratada por Renoir, foi modelo de muitas telas do marido. Que também a retratou, no seu leito de morte, pouco depois de ter dado à luz o seu segundo filho - Michel Monet.
O quadro, pintado em Setembro de 1879, integra o acervo do Museu d'Orsay.

Arte, liberdade e intervenção


Quando, a 1/9/14, aqui citei uma frase de Justin Willis, veio-me à memória um verso de Drummond de Andrade: "...não faças versos sobre acontecimentos..." Mas também poderia invocar W. Wordsworth que definia poesia como "emoção recordada em tranquilidade". Não significa isto que o artista não deva participar, activamente, e do ponto de vista cívico, no dia a dia da sua comunidade e contemporaneidade, tomando posição clara sobre os acontecimentos mais relevantes. Mas deve deixar de lado a sua arte, para que ela se possa assumir com mais isenção e intemporalidade.
À roda das obras de Yeats e, mais recentemente, de Seamus Heaney criou-se, em alguns espíritos mais preconceituosos, a ideia de que esses poetas irlandeses quiseram manter uma certa neutralidade, nos seus poemas, de forma a poderem beneficiar, por uma certa ambiguidade, de um público mais alargado. No entanto, uma leitura mais atenta das suas obras, permitirá ver que eles assumiram posição sobre as questões que afectaram a Irlanda, nas suas épocas - que foram conturbadas.
Há que lembrar, ainda, Robert Frost: "(a poesia) nasce da liberdade criativa, mais do que da obrigação social". Ou, finalmente, referir Eugenio Montale: "a poesia terá de fazer uma peregrinação obscura através da consciência e da memória", muito embora deva mergulhar na "circulação diária, donde retira o seu primeiro alimento e inspiração".

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Divagações 72


Há quem conceba a vida como uma forma superior de ficção. E lá está Calderón de la Barca (La vida es sueño) para o justificar, de algum modo. Para não falar de Pessoa.
Ao descer as escadas da estação do Metro, já no regresso, reparei num sem-abrigo, ainda novo e de barba crescida que, embora vestido dignamente, se abandonara ao sono e ao cansaço, esparramado que estava, num dos patamares. Um jovem (25? 30 anos?) de calções, que ia à minha frente, parou um pouco, e à socapa tirou-lhe uma foto, através do telemóvel. O sem-abrigo não deu por nada.
Raras são as relações humanas que se iniciam, ou terminam, por vontade explícita de ambas as partes. Muitas vezes, até crescem ao abandono e naturalmente, sem intenção expressa, ganhando consistência e dimensão. Mas há quase sempre um clic, um ponto de partida notório, como é o caso do final de "Casablanca" (1942), de Michael Curtiz: "Isto pode ser o princípio de uma bela amizade!" E, em determinada altura do almoço, a glosa, inesperadamente, começou a impor-se-me, por razões diametralmente opostas: "Isto pode ser o fim de uma bela amizade!..."
Com justiça se poderá afirmar que o "post-scriptum" da conversa decorreu com a maior elegância. Não seria de esperar outra coisa de quem se conhecia há mais de quarenta anos.

Vivaldi / Shapira

Recuperado de um moleskine (9)


As nuvens intercaladas mais parecem gretas milenares de um vulcão extinto e silenciado. Mas face a esta laranja afogueada, que vai nascendo, crescendo e subindo, de Leste, haveria que contrapor-lhe alguma música mais suave, para poder entrar no dia, mais devagar.
Para a direita, a Arrábida está envolta numa neblina de algodão macio, e o Seixal ribeirinho vai pelo cinzento azulado, com as águas. As aves fazem silêncio e nem se vêem. Nuvens glaucas apagam, por momentos, o incêndio solar. E um azul, lavado e claro, vai-se caldeando no pós-cénio e ataviando o dia para entrar.
É então que, surrealmente e à la Serna, me vem à voz e do fundo de mim mesmo, perante estas mudanças, no horizonte, uma definição de molusco: simbiose de gelatina e músculo, visível ao lusco-fusco.
Inexplicavelmente...

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Turismo e xenofobia, ou o reverso da medalha


São quase 20h00 e há mais um paquete-jumbo que entra, pelo Tejo, engalanado.
Por vezes, somos tão tolerantes, indiscriminadamente, para com a chamada arte moderna actual, como nos habituaram a ser com a prática democrática em relação a comportamentos que, no íntimo, quase consideramos aberrantes ou desumanos. Os tribunais da Inquisição ou de Nuremberga foram criados, sobretudo, para julgarem europeus, e não se aplicam a jihadistas de califados primitivos. Democracia, sim, mas devagar.
Veneza começou a recusar mais turistas ou, pelo menos, que os paquetes gigantescos globais atracassem nas redondezas, porque lhes minavam ainda mais os seus já deteriorados alicerces submarinos. Os ambientalistas começam a impugnar, um pouco por todo o lado, o CO2 produzido por estes monstros, nos oceanos e nos portos. E até os berlinenses começam a olhar de esguelha estes magotes sucessivos de turistas que lhes invadem a cidade, perturbando a sua vida tranquila do dia a dia.
Na semana passada, no eléctrico 28, um alfacinha de gema encrespava, em legítimo vernáculo, os fotógrafos pasmados e frenéticos, estrangeiros, que coalhavam todo o espaço do seu meio de transporte público diário, para o trabalho. E, quanto a lugar sentado, nem sonhar.  Mochilas, malas, sacos, quase nem permitiam sequer a menor circulação vital e necessária.
Realmente, no 28, entre Março e Outubro, eles são como enxames fervilhantes de estupor...
  

Memória (92)


Agora que o ano escolar estará prestes a começar, pergunto eu: quem é que não se lembrará do seu primeiro dia na Escola? Com aquela estranheza, a falta de jeito, talvez até o temor que despertavam aquelas coisas grandes e graves, para uma inocente criança?
Mas estas oito meninas flamengas de outro tempo, parecem compostas e muito seguras de si, perante tanta responsabilidade. Pelo menos, iam bem aperaltadas e, a maior parte delas, com lacinhos nos cabelos. O que sempre deve ter dado uma boa ajuda psicológica...

com agradecimentos cordiais a A. de A. M..

Revivalismo Ligeiro XCVIII


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Apontamento 52: CTT - atrasos, incompetências e abusos



1 – Dos atrasos na entrega de correspondência nacional ficamos esclarecidos com os exemplos que MR publicou, ultimamente, no Prosimetron.

2 –Relativamente a incompetências dos serviços de correio no espaço europeu, designadamente no eixo Alemanha/Portugal e vice-versa, ficamos sempre sem saber a quem atribuir a origem – ou responsabilidade – dos muitos “rabos de palha” que se vão somando ao longo dos anos.
Eis alguns exemplos:
            a) um livro da colecção Bibliothèque de la Pléiade, de valor considerável, perdeu-se não se sabe onde nem a favor de quem, até hoje;
            b) uma caneta de tinta permanente evaporou-se, algures, até hoje;
            c) encomendas violadas, com conteúdos saqueados, estragados ou entregues fora do prazo normal, i.e., não aproveitáveis.
Contudo, o último envio – uma devolução sem custo para o remetente – parece ser de “almanaque” (!).
Expliquemos, então, o processo:
            a) a DHL.de disponibiliza, electronicamente, um formulário de devolução, endossado aos serviços dos CTTExpresso, e que permite entregar o objecto,  em qualquer estação dos CTT nacionais, sem custo para o remetente, convencendo-se o cliente de que a encomenda será encaminhada para o destinatário, na Alemanha, claro !
            b) passado uns dias, o incauto cliente, através da “pesquisa de objectos” conclui que a sua encomenda “paira” por céus nacionais, aliás perto da sua morada de REMETENTE (!);
            c) envia e-mails com pedido de esclarecimento – ou de reclamação – e telefona para o número de apoio;
            d) durante o contacto telefónico instala-se a dúvida final: o funcionário “baralha” remetente com destinatário. Por mim, está explicado, portanto, o caso de o objecto está a ser encaminhado para o remetente, nacional, em vez de seguir caminho para a Alemanha.
Contudo, o incidente, fez-me lembrar o trabalho docente “inglório”, quando se tinham de ensinar, a uns meninos “toscos” e sobretudo “madraços”, as regras para escrever umas cartas. Normalmente, depois de escrever um texto em “forma de assim”, colocava-se o problema de eles perceberem a diferença entre REMETENTE e DESTINATÁRIO.  Com o caso exposto acima, apercebi-me, então, que os “meus meninos” já tinham ocupado, finalmente, lugares de atendimento e responsabilidade nos CTTExpresso.

3 – Abusos
Como todos sabemos, os “portais” electrónicos das empresas disponibilizam muita informação inútil, excepto um endereço claro, rápido e acessível para pedir esclarecimentos ou para apresentar reclamações.
Mesmo assim, lá consegui. Preenchi vários formulários – tipo “chapa zero” – sem resposta durante vários dias e até hoje.
No entanto, a última reclamação teve uma vertente completamente abusiva.
Em vez de responder às diferentes mensagens enviadas electronicamente, os CTT aproveitaram o meu endereço electrónico para me aliciar com o seu serviço: “CTT-Crédito pessoal” !

Ainda poderemos falar de um qualquer serviço com um nome semelhante a PROTECÇÃO DE DADOS ?


Até agora desconheço o paradeiro do meu “objecto”, enviado a 27.8.2014, mas, a 2.9.2014, fiquei a saber que tenho acesso a um crédito pessoal dos CTT !

Post de HMJ

Burlesca e sentimental


Vai-se-me acabando o livro ( Categorias e outras paisagens, de F. Echevarría), pela tarde (17h40), enquanto a Lua, na sua crescente meia calote fosca, já visível, de Leste, se opõe frágil ao Sol que vai declinando para o mar de Oeste.

Tornou-se, aos poucos, sensível
a tez da velhice. A mágoa
recolheu-se ao doce timbre
de azular-se na palavra.

E a palavra desceu
ao halo feliz da tez,
com a velhice a crescer
dentro da luz que se fez.

Quando saio para a estrada, já a noite começou, discreta a cair. Há ainda dois escravos (vide Il Surpasso, de Dino Risi), devocionalmente, a passear os cães, pela rua. E parecem felizes...

Pequena história (30) : estatísticas e bom senso


Com base numa progressão estatística estável, é possível concluir, pelos números de hoje, que, no ano de 2048, todos os norte-americanos serão obesos. No entanto, há imponderáveis que poderão vir a alterar, significativamente, esta previsão matemática. O bom senso, neste caso, e a humildade e a incerteza dos prognósticos devem ser sempre considerados.
No decurso da II Grande Guerra e para evitar a perda de demasiados aviões, nas batalhas aéreas, pôs-se aos Aliados uma questão importante: reforçar a blindagem dos aparelhos, mas de forma parcial, para não obrigar, pelo aumento do peso das aeronaves, a um aumento de consumo de gasolina. A observação cuidadosa de vários aviões, que tinham entrado em combate, permitia concluir que eles eram atingidos por balas, sobretudo na fuselagem; sendo poucos os vestígios de balas, na área dos motores. Daí concluir-se que as fuselagens é que deveriam ser reforçadas.
Mas um matemático, especialista em estatísticas, Abraham Wald (1902-1950), alertou para uma realidade muito simples, mas também muito significativa: provavelmente, a maior parte dos aviões atingidos nos motores não regressou, porque tinham sido abatidos. E não tinham contribuido para a decisão, que devia estar errada, nas suas conclusões dogmáticas...

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Citações CXCV


O perigo de escrever livros acerca de temas muito contemporâneos é que eles são facilmente ultrapassados pelos acontecimentos.

Justin Willis, in TLS (nº 5812/3).

Nino Rota (1911-1979)


Adagiário CLXXXVIII : Setembro (6)


1. Setembro, comendo e colhendo.
2. Setembro matou a mãe à sede.
3. Por Setembro meão, traz o guarda-chuva à mão.
4. Para que o ano não vá mal, hão-de encher os rios três vezes entre o S. Mateus (21) e o Natal.

domingo, 31 de agosto de 2014

Remate


Nunca gostei de falar de matadouros, muito embora tenha, como observador desinteressado e alheio, assistido a algumas desmanchas de carnes, sobretudo de bovinos, que é uma forma de ver o vermelho na sua expressão mais simples. Crua e real.
Agosto acaba-se por entre uma aragem fresca, vinda de Norte, e os gritos ululantes das hordas futeboleiras, vindas de um café chunga, aqui, à beira Sul. Mas que se integram bem na silly season, que termina hoje.
Entre a sra. Merkel que, na sua curteza de vistas e roupas foleiras, conseguiu secar tudo à sua volta, e os morticínios de África, do califado medieval e da Ucrânia, que sobra? Talvez o angelical sr. Holanda, o sorriso figé do sr. Valls, que reproduz, serôdio, o esgar católico do sr. Blair - seu antepassado - que, por sua vez, imitava (mal) o joker-Jack Nicholson da irrealidade cinematográfica.
Não me peçam para ser feliz, em Setembro, s. f. f. !

A par e passo 104


A poesia é a ambição de um discurso que seja mais carregado de sentido, e entrelaçado de mais música, do que aqueles que a linguagem quotidiana pode conter ou trazer consigo. Nada é mais simples de conceber que o desejo de enriquecer indefinidamente esta carga de maravilhas, que se sobrepõe, ou se substitui à carga útil da linguagem. Mas este acréscimo tem limites que se atingem com dificuldade; o equilíbrio que é preciso manter com o leitor, entre o esforço que se exige e as forças com que é sugerido, obriga a que a proporção não se rompa. A obscuridade por um lado, a inanidade, do outro; o vago expressivo, o absurdo, a singularidade pessoal exagerada, todos estes perigos que não cessam de abeirar-se e cercar estreitamente as obras de espírito, ameaçando especialmente os poemas, e que os atraem com perigo para os abismos do esquecimento.

Paul Valéry, in Variété II (pgs. 180/1).

Contos


Um número restrito de personagens e páginas (senão, transforma-se em novela), uma certa concisão narrativa, um leitmotiv forte, a tensão musculada das frases, de preferência breves (Hemingway, por exemplo), fazem do conto um caso à parte na prosa literária.
Há contos que são uma aguadilha, outros, um concentrado forte que não medrou para romance, talvez por impaciência do escritor. O remate, como no soneto, terá que ser apropriado e impressivo. Se possível, surpreendente, como num bom policial.
Esse clarão final, que fica na memória, é que nos permite, depois, reconstituir os antecedentes narrativos e recontar o conto a algum amigo nosso, que o não conheça. Muitos desses contos exemplares vieram da pena de Maupassant ou da caneta de Maugham.
E eu já andava com saudades de ler contos. Por isso, ontem, comprei duas antologias, na rua Anchieta, para me regalar e fartar. Ou talvez tivesse sido para funcionar como antídoto à leitura de "Guerra e Paz", de Tolstoi, que é um romance enorme, em 3 volumes. Estes contos são pequenos microcosmos narrativos...para intervalar.

sábado, 30 de agosto de 2014

Inti-Illimani


Regionalismos transmontanos (51)


1. Listo - esperto, desenvolto, arguto, vivaço.
2. Loba - preguiça, pouca vontade de trabalhar.
3. Lombelo - cada um dos dois pedaços compridos de carne que se tiram dos lados do lombo do porco e que também se chamam coelhos.
4. Longórvia - mulher alta e magra.
5. Loureiro - alegre.
6. Lúparo ou Lúpuro - rebento de couves velhas.