segunda-feira, 12 de maio de 2014

De Pero Meogo (séc. XIII)


Ai cervas do monte, vin vos preguntar:
foi-s'o meu amigu'e, se alá tardar,
que farei, velidas?

Ai cervas do monte, vin vo-lo dizer:
foi-s'o meu amigu'e querria saber
que farei, velidas?

domingo, 11 de maio de 2014

Da toponímia regional


Da Consolação (praia) há marcas e vestígios numerosos em poemas de Ruy Belo e J. M. Fernandes Jorge. De S. Bartolomeu dos Galegos ou A-da-Gorda, porque excessivamente ruanos, não conheço memórias em escritos de gente ilustre.  Em relação a Atouguia da Baleia ou Baleal, que fica perto, há referências históricas longínquas, talvez pelos cetáceos que, por esses tempos antigos, visitavam estas paragens marítimas. Mas de Paimogo, palavra e nome de terra de que eu gosto particularmente, pouco se diz. Aprecio-a, porque me lembra o trovador Pero Meogo dos cancioneiros medievais; e, se eu estiver bem disposto, não posso deixar de me recordar das lentes garrafais de Mr. Magoo. Uma coisa não vem sem a outra...
Embora, hoje, Paimogo seja, apenas ou quase só, um forte do séc. XVII, bastante derruído. E é pena.

Curiosidades 27


Com a provecta idade que o mundo já tem é impossível sabermos tudo sobre algum assunto específico, mesmo que, ao longo das nossas pequenas vidas, nos dediquemos apenas a especializar a nossa parca sabedoria em dois ou três motivos particulares.
De vinhos brancos sabia eu que, ao contrário do que se julga, podem ser tanto ou mais longevos do que os tintos de guarda. Estão aí os Sauternes e os do Bussaco, para o provar. Mas o que eu desconhecia é que o vinho branco mais antigo, e bebível, era alemão. E quase tricentenário.
Fiquei também a saber-lhe o nome, Rüdesheimer Apostelwein 1727, pela crónica de Rui Falcão, na Fugas do jornal Público, de ontem. Um tonel de 3.000 litros encontra-se à guarda da Câmara de Bremen que, excepcionalmente, disponibiliza meia garrafa, engarrafada na altura da visita de alguma personalidade importante que se desloque à cidade hanseática, e que assim é presenteada com esta preciosidade de uma colheita excepcional e das melhores de sempre.
Em abono do seu valor posso acrescentar que a última meia garrafa vendida, em 2000, pela Christie's, atingiu a astronómica soma de 825 libras esterlinas, quando foi arrematada.

sábado, 10 de maio de 2014

Produtos Nacionais 16


Nesta outrora Estremadura, duma conveniente geografia administrativa centralizada, ressalta, ainda hoje, uma homogeneidade singular e característica que, como na Bairrada (sobretudo em relação aos vinhos), faz circular, apenas regionalmente, alguns produtos da terra e da zona, de muito boa qualidade. Os ventos marítimos terão porventura alguma influência na excelência dos resultados agrícolas.
Não será, por agora e ainda, de todo, o caso da batata que, na Lourinhã, e até há pouco tempo, com a produção do Montijo, mais tardia, bastava para abastecer Lisboa; e que, pela sua qualidade, era procurada, famosa e preferida. Hoje, na capital e infelizmente, vem predominando a de origem gaulesa. E a fruta, senhores, que é tão boa, por aqui, na região do Oeste?! Porque, tirando a celebrada pera rocha, autóctone, rara e pouca vai até Lisboa... Vem de Espanha a fruta, também, na sua maioria. Como os morangos e o tomate, inexplicavelmente.
Da Companhia Agrícola do Sanguinhal (Bombarral), o tinto Sanguinhal, de rótulo amarelo ou tijolo, aparecia algumas vezes em Lisboa, mas hoje é raro ver-se. Mas o Quinta das Cerejeiras, da mesma proveniência, nas suas duas versões (branco e tinto), é que não aparece de todo. No entanto, é bem frequente, em restaurantes e mercearias desta zona Oeste. E, na sua versão Colheita Seleccionada de 2008, tinto (Aragonez e Cabernet Sauvignon), é um vinho excelente.
Fica a recomendação, para quem por aqui passar, pela antiga Estremadura portuguesa. A garrafa ronda os 4 euros, e merece-os, com os seus 14º arredondados e saborosos, que podem bem acompanhar um bom queijo de ovelha, ou um assado a preceito, seja ele de cabrito ou de vitela.

A par e passo 91


O mundo está irregularmente semeado de disposições regulares. Os cristais, por exemplo; as flores, as folhas; um conjunto de ornamentos estriados, manchas nas peles, as asas, as conchas dos animais; os traços do vento sobre as areias e sobre as águas, etc. Por vezes, estes efeitos dependem dum tipo de perspectiva e de agrupamentos inconstantes. O afastamento é que pode produzi-los ou até alterá-los. O tempo é que os mostra ou os cobre. Assim o número de mortes, nascimentos, de crimes e de acidentes apresenta uma irregularidade na sua variação.

Paul Valéry, in Variété I (pgs. 223/4).

sexta-feira, 9 de maio de 2014

De uma entrevista de Steiner, e sobre o predomínio do inglês


"...perder uma língua, é perder uma possibilidade infinita de criação, de invenção; é também perder os lugares da memória ancorados na linguagem. Não resta senão uma esperança para o escritor de uma língua minoritária (não há pequenas línguas; todas as línguas são infinitas): ser traduzido em anglo-americano. (...) Mas é muito difícil fazer previsões: os linguistas anunciam que dentro de 20 ou 30 anos o anglo-americano se irá cindir, e que haverá um dicionário do canadiano, do neo-zelandês, do inglês das Antilhas, e até o inglês e o americano serão eles próprios objecto de cisões. ..."

George Steiner (1929), em entrevista ao Magazine Littéraire (nº 427, Janeiro de 2004). 

Em louvor da Areia Branca


O cacimbo e a neblina, hoje, não deixam ver as Berlengas. Também o oceano forma apenas quatro linhas de espuma branca, em ondas paralelas e sucessivas, que vêm tornar-se cinzentas, na miscigenação da praia matinal e deserta.
Das terras pequenas se retém a comodidade das pequenas casas: tudo está à mão. Padaria, mercado, correio, café, jornais, é quase só atravessar a rua. Se a isto acrescentarmos, ainda, a visão do mar, a perder de vista, em amplo horizonte, perfaz-se o encanto singular.
Porque também os avios são gentis (embora nem sempre muito rápidos), quem atende, sorri, e quase agradece a visita. As gentes da terra dão o seu melhor, honrando quem entra ou fica, por alguns dias. E na papelaria, que ao mesmo tempo serve de mini-mercado, livraria e quiosque, podemos encontrar algumas coisas desaparecidas de outros lugares: livros esgotados, vinhos velhos bem amadurecidos, postais desenquadrados no tempo, artesanato original...
E, se as roupas que os habitantes usam são modernas e actuais, tudo o resto, das vivendas às placas toponímicas, tem o sabor tranquilo do princípio do mundo ou de um tempo perdido para sempre, na memória, e que volta à tona, num ressurgimento inesperado.

Regionalismos transmontanos (37)


1. Estamagado - agoniado, debilitado, fraco, cansado.
2. Estauta - diz-se de mulher alta e feia, um pouco estouvada.
3. Estirete - foguete.
4. Estrefegar - comer com grande apetite, devorar. Afugentar, escorraçar (cavalgadura) até a esfalfar. Trasfegar.
5. Estrefura - pessoa enganadora, velhaca.
6. Estulizar - inventar, supor, imaginar.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Etimologias


Discutível será, como alguns defendem, que a palavra sardinha provenha de Sardenha, ilha em cujas águas mediterrânicas ela era abundante, nos tempos antigos. Mas a leitura do livro, em imagem, de Jean-Pierre Colignon, permitiu-me adquirir alguns conhecimentos sobre a origem de algumas palavras menos usuais.
Assim, não haverá dúvidas que lacónico provém da região grega da Lacónia. E que Filipe da Macedónia, ao pedir autorização para lá entrar, recebeu, como resposta, um lacónico: Não! Sem mais, assim sucinto.
Quanto a cachalote, Colignon atribui a sua origem à palavra portuguesa cachola, ou cabeça grande.
Finalmente, horripilante terá origem no latim (horripilare), que significava cabelos eriçados ou arrepiados. E que expressava grande medo ou temor. Ou, ainda, irritação.
A estas origens, e nalguns casos, o tempo alargou o significado, para mais amplo e abrangente. 

com agradecimentos a H. N. .

2 andamentos, no tempo


1. De pequeno me habituei a que, às refeições, presidisse, dramática e séria, em cópia pictural ou baixo relevo acobreado, a Última Ceia, de Leonardo da Vinci. Era uma constante o seu destaque nas paredes das salas de jantar nacionais.
2. De há três dias a esta parte, tenho-me vindo a habituar, nesta casa de férias à beira-mar, à contemplação refeiçoeira e laica, dos alegres Girassóis de van Gogh. Tenho de concluir, para ser justo, que foi um progresso notável, no tempo...

Lembrete 17


Maio, primeiro mês do ano sem r, é, por isso e por tradição popular registada em adágio, considerado como início da época gastronómica das sardinhas. E, na costa oeste (Peniche, concretamente), prateadas e tentadoras, na vitrine, elas já se recomendavam à vista. "Que ainda estão magras, mas vieram hoje!" - disse-nos a empregada, profissionalmente franca. Por isso, ainda não foi desta...preferimos uma caldeirada, óptima, que também sabia a mar e que, por lá, andava perto.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Citações CLXXIV


Um advogado com a sua pasta pode sempre arrecadar mais do que 100 homens armados.

Mario Puzo (1920-1999).

Castas


Famílias há, em que as vocações se perpetuam, um pouco por devoção atávica, conveniência ou por hábito acomodatício. Até, quem sabe, por adaptação genética, inexplicável. Assim acontece, por exemplo, na sucessão de escritórios de advogados, consultórios médicos em que as gerações se eternizam, como que num determinismo inexorável e previsto. O mesmo acontece com muitas famílias políticas: Kennedy, Papandreou, Gandhi (Nehru), Soares... Apesar de tudo, nestas dinastias, referidas atrás, haverá sempre algum risco possível ou, nalguns casos, a ousadia e ambição de ir mais longe do que os antecessores - embora nem sempre bem sucedidas, nem isentas de algum perigo de carreira.
Mas dei-me conta, ao longo da leitura de um livro do embaixador Marcello Duarte Mathias (Diário da Índia - 1993-1997), como a casta de diplomatas - que quase nada arrisca - ao longo de gerações tem, quase sempre, o futuro assegurado, colhendo, por educação, mimetismo e contactos privilegiados, os lugares que os seus antecessores também tiveram, no passado, sem dificuldades de maior. Bastará, apenas, prudência, gradual adaptação a novos regimes políticos, camaleonismo e alguma inteligência no saber viver, em altas esferas.
E é curioso como o único embaixador, que sai "fora do baralho", porque não pertencendo, por família, à casta dos intocáveis, de nome Fernando de Castro Brandão - que, por acaso, eu conheci, ainda jovem universitário - é, também, o único que é beliscado, diplomaticamente, por M. Mathias, como sendo "trocista e truculento" (pg. 300).
Creio que está tudo dito...

Divagações 65


A comodidade maior, ao ler um livro desinteressante, usado e que esteja sublinhado pelo anterior proprietário, é que nos permite uma selecção antológica antecipada e nos poupa a uma leitura integral da obra, se for fastidiosa. Mas a coincidência, nos destaques, nunca é perfeita. Até em livros nossos que relemos: perguntamo-nos, muitas vezes, como é que fomos sublinhar passagens que, hoje, já nada nos dizem. Porque o espírito se move interminavelmente, evolui, nem sempre em continuidade, nem no melhor sentido - convenhamos. Daí a frequente discrepância ou não concordância de gosto, em alguns livros que apreciamos imenso, na juventude, e que, agora e na maturidade, já nem paciência temos para reler.
Daí ser, talvez, um absurdo afirmarmos que, se voltássemos ao passado, repetiríamos  e faríamos tudo, da mesma maneira, integralmente... Só uma absoluta falta de sentido crítico ou de maturidade justifica uma afirmação como esta, tantas vezes repetida, por muitos, que revela uma certa cegueira dogmática e teimosa na sua imobilidade racional. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Mozart, ainda

Miscelânea de Oeste


Entre a diligente Marta que serpenteia por entre as mesas, para nos servir, e as 5/6 ondas sucessivas e paralelas que, suavemente, morrem na praia, interminavelmente, vou olhando as Berlengas ao longe, fixas como cachalotes antigos incrustados no mar. A praia vai deserta e limpa com o vento ligeiro de Maio, que alisou a areia sobre as rochas invisíveis.
Do sono me desperta um telefonema nimbado de desespero, que me pede conselho. A voz amiga, a quem não pagam o trabalho extra, há já dois meses, pergunta-me o que deve fazer. E eu, mal desperto, dificilmente consigo atinar uma resposta que não seja violenta, face a tal injustiça. Mundo cão, este, em que nem sequer há hombridade para ensaiar uma explicação humana, perante quem precisa de trabalhar diariamente para o seu sustento.
Volto-me para o inefável, das altas esferas, através do livro (Marcello Duarte Mathias, Diário da Índia, 2004) que mão amiga me deixou pousado sobre a mesa, na casa emprestada:
"...Gisbert narra que a inimizade entre Mittérrand e Rocard levou o primeiro a estabelecer uma lista de possíveis presidenciáveis em que Rocard aparece em sexta posição, logo a seguir ao cão de Mittérrand situado, esse, em quinto lugar.
A este propósito, a Helena Vaz da Silva contava-nos ontem ao jantar que Cavaco, instado a responder nos mesmos moldes, havia esclarecido: «No meu caso, teria de colocar o meu cão mais acima!» "(pg. 58)
Sem dúvida, que outros mundos caninos, mas a mesma desumanidade...

A par e passo 90


Ao contrário dos poemas, um romance pode ser resumido, isto é recontado em si mesmo; ele consegue suportar que dele se deduza uma figura semelhante. (...) Pode também ser traduzido, sem perda do essencial. Pode ser desenvolvido interiormente ou prolongado até ao infinito, como pode ser lido em várias sessões. Ele não contém outros limites à sua duração e à sua diversidade senão aqueles que os ócios e as forças do seu leitor permitem; todas as restrições que lhe queiram impor não procedem da sua essência, mas somente das intenções e das decisões particulares do escritor.

Paul Valéry, in Variété I (pg. 154).

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Apontamento 45: A adaptação aos "novos tempos"



Por vezes, um “banho de realidade” com todo o desconfortante e decepcionante vale mais do que mil explicações. Acontece que umas viagens pelo país real nos fornecem, sobretudo aos forasteiros minimamente atentos, uma visão mais aguda do desenvolvimento perverso dos últimos anos que foi criando dois países paralelos, o das estatísticas e o outro, “de carne e osso”.

Voltei, hoje, a um palácio classificado pelo IGESPAR, chamado Quinta das Torres, situado no meio de uma mancha florestal admirável, à saída de Azeitão. A visita tinha por objectivo reencontrar um lugar onde “outrora”, ou seja, há uns anos largos, os nossos visitantes tinham sido felizes, apreciando, sobretudo, a singularidade do lugar e a diferença cultural que apreciaram.

Nesse passado, aparente longínquo, funcionava, no dito Palácio, uma Estalagem e, designadamente, um restaurante. Servindo almoços e jantares, num espaço soberbo virado para o “lago, com frescos, em forma de tempietto”, segundo a informação do IGESPAR, comia-se bem, com produtos da terra e empregados locais, atentos e educados. Sem preços exagerados, era um lugar onde se aliava o bem-estar a um ambiente marcadamente tradicional, no bom sentido do termo, que marcaria, de forma indelével, a diferença cultural dos países da Europa, mesmo durante uma estadia breve. Facto é que o nosso visitante de outrora quis voltar ao mesmo lugar !

Embora tivesse alertado os meus visitantes para o facto de o “país paralelo” dos mercados ter provocado muitos estragos, designadamente naquilo que mais nos distinguia, geográfica e culturalmente, dos restantes países da Europa, eles insistiram em voltar ao tal “lugar de excepção”.

Assim foi. Subimos a álea de acesso ao palácio, rodeado de uma vegetação frondosa. Reparamos logo no abandono e desleixo completo. No espaço fronteiriço, nem vivalma, apenas um portão entreaberto para o pátio interior, com dois cães, pachorrentos, a olhar para os forasteiros. Ainda houve tempo para apreciar, como outrora, as laranjeiras e o espaço. Surgiu-nos, então, uma daquelas figuras sobejamente incaracterísticas do “outro país” paralelo. Uma criatura, vestida de fato preto, com listas turquesa, como novas “trolhas” do patrão, a saber ao que vínhamos. Se nos servissem um almoço ou um jantar, como outrora, ficaríamos, com muito gosto e prazer.

Ah! Não, o restaurante já fechou, há quatro anos, e “adaptamo-nos aos novos tempos [sic]”, agora é só para grupos e outras coisas quejandas. Deixou, no entanto, um recado final muito explícito: “os senhores não podem circular, nem tirar fotografias”! No entanto, como a lembrança do passado foi mais forte, os meus acompanhantes ainda tentaram ver o lago. Qual quê ! Veio logo a “megera”, dando ordens para abandonar o lugar, sublinhando que não podiam tirar-se fotografias, claro está, de telemóvel na mão, em jeito de ameaça!


Obviamente não foi preciso explicar mais demoradamente aos meus visitantes que o “país da estatística, do empreendedorismo, do mundo financeiro”, afinal, a “tal adaptação aos novos tempos” tinha dado resultados. A destruição do genuinamente cultural deu lugar ao abandono completo, entregue a umas criaturas sem porte nem cabeça, porventura à espera do próximo “investidor gold” para arrasar o que ainda resta.

Os meus visitantes ficaram tristíssimos. E o país perdeu, definitivamente, como aliás, “nós por cá” sabemos perfeitamente.

Post de HMJ

Impromptu (4)


Não fora brincar com a arte, e esta escultura-montagem de Raoul Hausmann (1886-1971), multímodo artista austríaco, ilustraria bem esse antigo conceito de medir a inteligência pela altura da testa dos seres humanos...

com agradecimentos a H. N. .

Adagiário CLXXXI


Não há sábado sem sol, nem domingo sem missa, nem segunda sem preguiça.

domingo, 4 de maio de 2014

W. A. Mozart

Citações CLXXIII


Deus não fez senão a água, mas o homem fez o vinho.

Victor Hugo (1802-1885), in Les Contemplations.

Regionalismos transmontanos (36)


1. Espanado - desembaraçado, activo, vivaço.
2. Espelde - rasgo, desembaraço, expediente.
3. Espigo - segundo grelo da couve.
4. Espolinhar - escorraçar uma besta, correndo nela velozmente. Progredir na vida.
5. Esprém - abandono, desprezo. Ao esprém: ao abandono.
6. Esquiças - impertinências, questiúnculas, questões de pouco valor.

sábado, 3 de maio de 2014

Nina Simone


1 haikai


Entre íris e juncos
alta garça branca
com destino azul.


Koboyashi Ryôta
(1718-1763)

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Osmose (47)


A preguiça intacta da manhã fez-me lembrar os cachos densos e perfumados, brancos e roxos, das glicínias. E o enorme silêncio que havia por trás, apesar das torres e prédios altos que se viam, ao longe. Em três sucessivos planos, para quem avançasse no jardim, havia, de início, a gaiola das catatuas-anãs, que também comungavam do silêncio. Depois o borborinho dos periquitos impertinentes e, já no fim, junto ao muro, a quase jaula dos faisões rabilongos e terrestres, onde, por empréstimo, dois pavões discretos se acoitavam. Desafiados pelos humanos, que lhes imitaram o pio, lá se armaram e mostraram em todo o seu esplendor. De outro mundo se tratava, no entanto.
À saída, em frente, tinhamos a pequena igreja interiormente recoberta a azulejos oitocentistas (?), que vi, pela porta entreaberta que dava para a sacristia. E donde vinham a sair duas catequistas - nota última e real das coisas divinas. Ficou-me porém o cheiro diáfano das glicínias altas sobre o silêncio, da casa e jardim donde eu viera.

Dos "Cahiers" de Cioran


Um bonzo da seita budista japonesa kousha diz a um visitante ocidental: "Medite somente uma hora sobre a inexistência do «eu» e há-de sentir-se um outro homem."
Eu deitei-me  na cama e pus-me a meditar sobre este tema. Mas, na realidade, eu pratiquei este método toda a minha vida: quantas vezes não me pus a reflectir sobre a irrealidade de tudo e, por isso, de mim mesmo? Não me transformei noutro homem, mas o meditar sobre a questão sempre me serviu.

E. M. Cioran (1911-1995), in Cahiers / 1957-1972 (pg. 752).

quinta-feira, 1 de maio de 2014

(Insistindo) Pascal Comelade explica-se


Antecipando o dia da Progenitora


Antes que esqueça, aqui fica a imagem votiva, retro embora (1957), de uma família feliz tomando o seu chá doméstico, com os cavalheiros engravatados e tudo, celebrando o dia da Progenitora, antecipadamente.

Adagiário CLXXX : Maio (5)


1. Depois da Ascenção, nem salmão nem sermão.
2. Maio frio, Junho quente, bom pão, vinho valente.
3. Quando Maio chegar, quem não arou tem de arar.
4. Uma água em Maio e três em Abril, valem por mil.