quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Bibliofilia 158


Eram de grande apuro gráfico e muito bom gosto estético, as publicações da Editorial Inova (Porto), que se iam editando sob a batuta engenhosa de Cruz Santos. A colaboração de Pintores e bons Gráficos era constante, dando uma garantia de qualidade aos livros que a Inova foi publicando. Também os colaboradores literários asseguravam um contributo importante. A orientação artística era de Armando Alves.



Esta colecção Indícios de Oiro era  dirigida, do ponto de vista literário, pelo poeta Egito Gonçalves. O terceiro número da série foi dedicado a Eugénio de Andrade (1923-2005). Era uma edição bilingue, com os poemas traduzidos por Carlo Vittorio Cattaneo para a língua italiana. Os desenhos ficaram a cargo de Angelo de Sousa, em boa hora. E a obra publicou-se em Setembro de 1974.



O meu exemplar, assinado, é o nº 165 (como se pode ver pela terceira imagem do poste), dos apenas 310, que foram publicados. Apesar de ter sido comprada usada, a obra está como nova.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Lembrete 60


Nem sempre as decisões são fáceis. Mas esta, de José de Guimarães (1939), parece-me, pragmaticamente, corajosa e feliz. Hoje, institucionalmente concretizada, pelas 18h00, na BNP.


Liszt / Horowitz

Retratos (18)


Há pessoas e coisas que, com o tempo, perdem a sua carga evocativa e se desvalorizam. Outras que se robustecem por força das comparações que vamos fazendo, verificando o quanto lhes são inferiores as que, depois, viemos a conhecer. Casos em que até passam a ser o modelo da exemplaridade de uma função determinada, para nós.
Ao longo da minha vida, assisti a vários leilões, sobretudo de livros, e com maior intensidade entre 1976 e o dobrar do século. Hoje, são residuais as minhas presenças nestes acontecimentos mundanos.
Se o espaço onde decorre um leilão é importante, a qualidade do leiloeiro (pregoeiro) é fundamental. A voz, bem timbrada e clara, é um requisito imprescindível, antes de mais. Mas também uma grande capacidade de atenção que permita, ao leiloeiro, atender ao mais leve sinal de lance, que algum cliente, por mais tímido ou discreto, faça. E discernir, na quase simultaneidade eventual de lances, qual terá sido o primeiro a fazê-lo. Finalmente, a autoridade e presença para dirimir conflitos suscitados entre licitadores agressivos.
De tudo isto era possuidor, na mais alta craveira, o sr. David Pedro, que deixei de ver, há muito, nos leilões que se faziam em Lisboa. Embora baixo de altura, tinha autoridade com elegância, voz claríssima e bem articulada, e uma urbanidade a toda a prova, mesmo em situações muito conflituosas. Um exemplo perfeito pelo seu profissionalismo. Único, tanto quanto me lembro. Além disso, tinha uma boa memória: raramente se esquecia do nome de um cliente habitual nos leilões a que presidia.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Citações CCCXXX


O Comércio liga toda a humanidade numa fraternidade comum de mútua dependência e interesses.

James A. Garfield (1831-1881).

domingo, 12 de novembro de 2017

Iconografia moderna e laica (26)


"E disse (Jesus) aos que vendiam pombas: «Tirai isso daqui!
 Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio.»"

João, 2, 13-25






Comentário pessoal: para lá da histeria desmedida, originada, sobretudo, em algumas redes sociais infantis e nalguns blogues mais desmiolados de virgens ofendidas, creio que valerá a pena ver este episódio com alguma frieza e aduzir as razões a montante que o permitiram: o despacho do Secretário de Estado da Cultura (Barreto Xavier) - numa altura em que o anterior Governo queria pôr tudo em patacos; a jusante, a figura eminente e insensata da Administração Pública que autorizou o ágape, no local. E talvez seja útil lembrar que o uso do Panteão Nacional, não foi inédito, para este fim. Ainda há cerca de um mês (16 de Outubro de 2017) a NAV (Navegação Aérea de Portugal) usou o espaço para os mesmos efeitos de restauração...
Por que razão essas virgens ofendidas do costume, nessa altura, não se teriam queixado e escandalizado?

Lembranças de Londres (por entre Filatelia e Arte)


Faço, quase sempre, uma boa, embora demorada, digestão feliz das viagens que empreendo. Ainda que viajar me seja cada vez mais desagradável, pelo desconforto físico e mental das partidas e chegadas, das malas a carregar e dos processos burocráticos que lhes estão associados. Mas também pelo balbuciar inepto e inicial das primeiras frases gaguejantes em língua estrangeira, quando vou para fora de Portugal.



O dia (17/10/17), razoável para um Sol londrino, intermitente, não estava, de modo nenhum destinado à Arte, porque o tinha previsto para vir a ser consagrado a prosaicos assuntos de Filatelia. Dois números de rua, na Strand, me ocupavam o espírito: o nº. 399 (da Stanley Gibbons) e o 99, que ainda devia albergar o Stamps Centre, onde, em 1976, eu tinha comprado, afortunadamente, a um comerciante de origem polaca, um belíssimo lote de selos clássicos portugueses, por 50 libras. Mas, e como diz o povo, "o homem põe e Deus dispõe."



Saí na estação de Embankment e, atravessando uma rua transversal, dirigi-me para a Strand, paralela. O número 399 foi fácil de encontrar. Lá comprei o último Stanley Gibbons Stamp Monthly, com um interessante estudo sobre as emissões de selos do reinado de Jorge VI, e saí à procura do número 99, que sempre pensei ser no mesmo lado da rua, por também ser número ímpar, como acontece em Portugal. Não era, era quase em frente, mas só o vim a descobrir muito mais tarde, depois de passar pelo retrato do português Helder Macedo, no meio de vários outros professores ilustres, em fotografia de corpo inteiro, nas vitrines do King's College, e de ter visitado uma maravilhosa exposição na Somerset House.



Mas vamos por partes. Depois de calcorrear a Strand até ao fim, desenganado de encontrar o Stamps Centre, na volta, pelo outro lado da rua, por mero e feliz acaso deparei-me com um anúncio discreto, no passeio, a informar sobre uma exposição de pintura subordinada ao tema promissor de Da Renascença ao Impressionismo, na Courtauld Gallery que, integrada na Somerset House, ocupava seis salas, com pinturas esplêndidas de grande qualidade, e que iam de Cranach a Monet, passando por Gauguin e Van Gogh.



Tenho de confessar que nunca, em tão breve espaço de instalações, eu vi reunidas tantas obras-primas. O Adão e Eva, de Cranach, que iniciava a mostra, embora numa tábua pequena, era de uma perfeição admirável. Nunca também pensei lá encontrar  uma das versões de Os Jogadores de Cartas, de Cézanne, e, muito menos, uma variante primeira (?) de Le Déjeuner sur l'Herbe, de Manet, aparentemente inacabada e ainda algo incipiente. Mais O Balcão, de Renoir, um auto-retrato de Van Gogh e vários Degas. Só o quadro de Cranach, deixou-me fascinado, em frente dele, por uns bons cinco minutos de alumbramento e prazer...



Mas o que mais me surpreendeu, na verdade, foi uma escultura magnífica de Gauguin, para além do Nevermore, cuja obra eu pensava ser apenas constituída por pintura. O artista terá feito, em mármore, apenas duas esculturas. Uma do filho, Emil, e outra da esposa dinamarquesa, Mette. Foi esta última, de 1877, e única, que eu pude admirar na Courtauld Gallery, da Somerset House. Há um aspecto muito curioso no olhar da mulher. Normalmente - creio - na maioria dos rostos esculpidos, o olhar inclina-se para baixo ou está, no plinto que o suporta, à altura do olhar do observador visitante. No rosto de Mette, porém, o olhar dirige-se para cima, numa ascese que Gauguin quis, talvez, sugerir.




Só por esta escultura de Paul Gauguin valeria a pena eu ter entrado na Courtauld Gallery, da Strand, nessa manhã de  17 de Outubro de 2017, em Londres.

Comecei a tarde, já passava muito do meio-dia, a almoçar uma dose generosa de Fish and Chips, numa esplanada da Queensway. Que o Sol tinha aberto, esplendoroso, numa solidariedade alegre de beleza...

sábado, 11 de novembro de 2017

Variações sobre um tema de Händel

Das pequenas composições de música clássica, sou particularmente sensível a algumas peças de Bach, Pachelbel, Liszt, Schubert. E à Sarabanda, de Händel, que Kubrick utilizou no filme Barry Lyndon, ajustadamente. E que até já consta, em vídeo, no Arpose.
O que eu não conhecia eram estas 13 variações, em guitarra antiga, executadas, com primor, por Peter Blanchette (1958-2015), que considero uma pequena obra-prima. Pois aqui ficam. Em dia festivo de aniversário do nosso Blogue.

8 anos : um balanço


Há quem leve o seu blogue a sério, quem o leve a brincar. Quem lhe ponha exigência e quem  se balde, de forma ligeira, divertida ou, às vezes, infantil.  Eu lembro-me quase sempre de Ricardo Reis: "...põe quanto és no mínimo que fazes." E, às vezes, é quase um castigo para lançar mais um poste no Arpose. Mas já lá vão mais de 9.500 postes, nestes 8 anos de exercício, até agora consistente. Como dizia Machado : o caminho faz-se andando. Não hipoteco nem comprometo o futuro por estados de alma momentâneos, nem por restrições à minha liberdade. Até porque as compensações de uma exposição pessoal, em visitas e comentários retributivos são pouco mais do que exíguas. Mas também mal vai quem, sendo minimamente generoso nas partilhas, espera gratificantes recompensas.
Já vi muita gente desistir, no decurso destes 8 anos. Dos 11 blogues que acompanho, vários se apagaram e outros são bissextos, presentemente, ou asseguram uma presença activa meramente residual, que parece prognosticar a morte absoluta a médio prazo. (Entretanto, vou seguindo mais 5 blogues, de forma livre e descomprometida - por não os ter inscritos - para compensar o vazio deixado...) Pragmaticamente, também não quero omitir a realidade crua dos números: o Arpose, que já teve uma média de 360 visitas, tem hoje pouco mais de 70 visitantes diários, dos quais apenas 11 ou 12 são presenças fiéis e constantes, todos os dias. Assim seja! Porque a vida também é isso - uma espécie de ilha com mais melancolia do que júbilos e com mais ligeireza do que fidelidade.
E talvez a conquista maior, mais sábia e difícil de qualquer ser humano seja mesmo a modéstia do silêncio, como matriz suprema da Criação ou, em termos para-científicos, do momento antes do Big Bang inicial. Creio que ainda não estou preparado para isso. Assim, há que celebrar este 8º aniversário do Arpose, mas com singeleza.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Apontamento 108: RECLAM - 150 Anos de uma editora alemã de referência




Por motivos que não vêm ao caso, tenho andado a reler livros que me orientaram e formaram numa determinada época. No meio deste “reviver”, encontrei a informação sobre os 150 anos da editora alemã RECLAM com os seus livrinhos baratos, amarelos a partir de uma dada altura, como se pode ver pela imagem acima.

O primeiro volume publicado, em 1867, era, quase obviamente, o Fausto, de J.W. von Goethe. A actividade editorial, que neste momento abarca 3500 títulos, abrangia o que se podia chamar um “cânone literário” ao gosto do leitor. Da Antiguidade Clássica à literatura moderna, mas também obras de Filosofia, História, Arte e Música, os alunos de liceu, como eu, forneciam-se do essencial para a leitura escolar e, pela facilidade de acesso físico e económico, andávamos a “cheirar” um pouco de tudo. Ou por sugestão de alguém, ou por impulso de querer ultrapassar a barreira da ignorância perante autores e títulos desconhecidos.

A estante dos livrinhos que se vê acima constituiu, com efeito, sempre um atractivo em qualquer livraria. E, normalmente, lá se encontrava mais um título ou um autor desconhecido. Lembro-me ter comprado muitos livrinhos amarelos por qualquer coisa como 1,50 ou 2,00 marcos.

Para mim, o maior contributo da RECLAM continua a ser a “batalha” contra a ignorância e o contributo para a “imortalidade da produção literária”, de que fala W. Somerset Maugham no seu The Summing Up, sublinhando, e com imensa razão, que essa imortalidade “is seldom more than the immortality of the schoolroom” !

Ora, a RECLAM contribuiu imenso para estas leituras de “salas de aulas”, tanto de obras de língua materna como de outras línguas, através das suas edições bilingues e com tradutores e comentadores de reconhecido mérito.


Aqui fica o meu grato testemunho por este trabalho de 150 anos !

Post de HMJ, como contributo para uma outra comemoração

Mary McCarthy (1912-1989)


À excepção de John Updike, dos autores norte-americanos, é talvez Mary McCarthy a escritora mais representada na minha biblioteca. Acontece que, em finais dos anos 60, estive para fazer um trabalho universitário sobre a sua obra e só à última da hora optei antes por Updike.
Numa das suas últimas entrevistas, Mary McCarthy, perguntada se posta perante uma escolha de voltar a re-viver, faria tudo na mesma, terá respondido que escreveria mais, mas leria menos.



Mulher de fortes convicções, a escritora teve uma polémica intensa com Simone de Beauvoir, figura que detestava, aliás. A emulação entre as duas é atestada por dois livros que, com diferença de apenas um ano, publicaram. Em 1957, McCarthy editou Memories of a Catholic Girlhood e Beauvoir, no ano seguinte (1958), fez editar Mémoires d'une Fille Rangée. Por outro lado, a norte-americana cultivou, com grande fidelidade, uma forte amizade com a filósofa Hannah Arendt, cuja evidência é testemunhada pela volumosa correspondência, recentemente publicada.
Os direitos cívicos e a guerra do Vietname foram duas das grandes causas em que também se empenhou intensamente.



Depois de alguns anos de relativo apagamento, a obra de Mary McCarthy parece suscitar um renovado interesse revelado pela publicação da sua obra completa (The complete fiction), em dois volumes, pela Library of America. O que não deixa de ser uma boa notícia.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Adagiário CCLXXII


O castanheiro em Agosto quer ferver e em Fevereiro  beber.

(Provérbio transmontano)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Beach House : "Chariot"

Visitas de Estado


Eu poderia, com discrição e modéstia, simplesmente calar-me. Mas não consigo. É que há visitas que me desvanecem e o meu orgulho cresce, desmedido. E tenho que espalhar o facto aos quatro ventos.
Então, não é que o Arpose foi hoje visitado, às 14h48, nada menos do que pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna?! Que veio, direitinha, ao poste: Meter o Rossio na Betesga, de 31 de Agosto de 2011. Em boa hora o pus, e aqui biso a imagem.
Porque já ganhei o dia!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A propósito de um busto, numa rua de Londres


Convivo mal com a estatuária portuguesa actual. E tenho que recuar largos anos para encontrar algumas esculturas de que gosto, normalmente figurativas, sendo que duas ou três são de João Cutileiro (1937). O problema será porventura meu que, não sendo especialista, me guio apenas pelo meu subjectivo gosto estético, faltando-me, talvez, o acompanhamento teórico e crítico de suporte para o que se vai esculpindo pelo país.
A permanência durante uma semana na zona de Inverness Terrace (Bayswater, Londres), levou-me a passar quase todos os dias por um busto muito interessante, de expressão determinada e de boa execução escultórica, pelos meus padrões estéticos. O nome do retratado, Skanderbeg, nada me dizia e, displicentemente, imaginei-o como sendo de algum Viquingue nórdico que, por razões históricas, estivesse ligado à Grã-Bretanha.
O nome do escultor, Kreshnik Xhiku (1958), apesar de me soar a oriental, também nada me dizia. Mas o busto continuou a pairar na minha memória visual, persistentemente lembrado. E resolvi esclarecer a sua razão de ser e origens. Skanderbeg é afinal o grande herói albanês Jorge Castrioto (1405-1468), que foi também conhecido em Portugal e celebrado pelo historiador e cronista Francisco de Andrade (1540-1614), em livro (Crónica do valeroso Príncipe, e invencível capitão Castrioto) traduzido, de 1567. Jorge Castrioto defendeu a independência da Albânia, contra os turcos.



O busto de Skanderbeg foi executado pelo escultor albanês Kreshnik Xhiku, que reside presentemente nos Estados Unidos, e que já tinha esculpido uma estátua equestre, muito interessante, de Jorge Castrioto em Michigan, inaugurada em 2006. O busto de Inverness Terrace foi  instalado, para celebrar o centenário da restauração da independência albanesa, em 2012.

Recuperado de um moleskine (29)


Li há dias, com surpresa agradável, uma sugestão curiosa de um autor (?), que defendia a hipótese de, ao contrário de levar, para uma ilha deserta, os dez livros canónicos e preferidos, se devia antes levar um bom dicionário. Isso pouparia o intrépido robinson crusoé a emoções excessivas, impossíveis de partilhar, permitindo, no entanto, um enriquecimento vocabular extraordinário. Que talvez pudesse vir a ser de grande utilidade no futuro, caso o náufrago viesse a ser resgatado. Se isso, porventura, não viesse a acontecer, todo esse léxico, porém, viria a morrer com ele.
E não é isso o que acontece com todos e cada um de nós?
Entretanto, poupar-se-ia a presunção da escolha dos tais 10 livros, para deslumbramento dos incautos...

Alguns regionalismos albicastrenses (3, e último)


1. Anagalhar - casar.
2. Aquedéde - favor. (Se pudesse fazer a aquedéde.)
3. Arreganhar - arrefecer.
4. Assarilho - feijão pequeno.
5. Assobacado - aturdido. Confundido.
6. Azounada, azounadinha - carregadinha.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Em sequência musical e dançante...

Imaginário


Eu sempre vi este quebra-nozes, como um leão metálico e quase cubista... Desde infância que o imaginava assim, já com mais de 60 anos na minha memória, na sua pragmática de adereços úteis, na sala de jantar vimaranense. Creio que a minha Mãe o terá comprado numa das suas idas ao Porto.
Ora, a HMJ atribuiu-lhe, e bem, a personificação de um cão, e eu tive de retocar  a ideia que tinha, enraizadíssima nos anos que passaram. Em prol da verdade.
Pois, ontem, comemos as primeiras nozes. Como já me estreei, duas ou três vezes nos diospiros*, que estão óptimos. Faltam as castanhas e as romãs para completar o périplo dos frutos de Outono, cá por casa. Mas ainda vamos a tempo...

* não é gralha, continuo a grafar diospiro, por teimosia e como aprendi.

Poesia e comércio, segundo Auden


É um facto triste da nossa cultura que um poeta possa ganhar muito mais dinheiro ao escrever ou falar acerca da sua arte do que a praticá-la. Todos os poemas que eu escrevi, foram escritos por amor; naturalmente, quando acabava de escrever um, procurava publicá-lo e comercializá-lo, mas a perspectiva desse comércio não desempenhava qualquer papel no acto da escrita.

W. H. Auden (1907-1973), no prefácio a The Dyer's Hand (2012).

domingo, 5 de novembro de 2017

Lou Harrison (1917-2003)

Citações CCCXXIX


Não se pode fazer a revolução de luvas brancas.

Lenine (1870-1924).

sábado, 4 de novembro de 2017

Adenda ao poste sobre a exposição de Matisse, em Londres


Por associação, muito subjectiva e intricada, lembrei-me há pouco deste quadro de Henri Matisse (1869-1954), The Open Door, Britain, que o artista pintou em 1896.
A tela não constava da mostra que eu vi em Londres. Mas, hoje de manhã, no Escritório, perante um céu azul, com poucas nuvens, hesitei se havia de abrir a janela de par em par, ou deixá-la fechada.
Optei pelo meio termo, receando a chuva repentina...

Retro (96)


Exemplares clássicos da traça e design publicitário que se praticava em Portugal, nos anos 60, estes dois anúncios só se desactualizaram (?) por uma certa ingenuidade do texto que os acompanhava, no reforço das imagens de marca.


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

G. F. Händel (1685-1759), da Oratória "Salomão"

Para a chegada da chuva.
Intitulada "Chegada da rainha do Sabá", esta entrada vem de encontro ao regresso da chuva.
Até porque, ontem, e em Lisboa, apanhei uma molha de todo o tamanho... Que seja por bem!


E, cumulativamente, dedico esta alegre peça musical à Margarida Elias, que faz anos hoje!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Onde me apetecia estar... e estive, realmente


Com os anos, vamos sendo mais frugais. Vamos sendo mais discretos e comedidos, deixando de ter mais olhos do que barriga - como diz o provérbio, aconselhadamente. Inscrevem-se neste aspecto os livros a ler, as coisas por fazer, os países a visitar, os filmes a não perder, os quadros que queremos ainda ver... Mas um dos aspectos secundários, que me levou a Londres, era ver, realmente, na Royal Academy of Arts, a exposição Matisse in the Studio, aberta até 12/11/2017. E vi-a.



Por alturas do início da II Grande Guerra e posterior ocupação nazi de parte da França, houve, pelo menos, dois pintores que se deslocaram para fora de Paris, vindo a usar outra residência. Henri Matisse (1869-1954), que já habitava Nice desde 1917, episodicamente, por uma questão de tranquilidade criativa, provavelmente, e Chaim Soutine (1893-1943), de origem judaica, por questões de segurança física. Ambos tiveram, também, problemas de saúde, graves, por essa altura, no início dos anos 40.



Curiosamente, na sequência da mostra de Matisse, na Royal Academy (Londres), seguia-se uma exposição de Soutine, que eu já não tive oportunidade de visitar, infelizmente. Sendo, como é, um dos meus pintores europeus preferidos.
Soutine, em 1943, na sequência do rebentamento de uma úlcera de estômago, foi transportado, em condições urgentes e adversas, para Paris, onde veio a falecer, pouco depois. Matisse teve mais sorte. Levado  de Nice para Lyon, foi operado, de urgência, a um tumor no duodeno, e apesar de muito fragilizado, sobreviveu. Esteve algum tempo acamado e foi durante esse tempo, na impossibilidade de pintar, que começou a recortar  pedaços de papel colorido, e intensificou o seu período inovador e pioneiro de colagens, que tinha iniciado de forma incipiente, nos anos 30.



A exposição de Matisse, que ocupa algumas salas da Royal Academy, é muito coesa e, sobretudo, intimista na sua sobriedade. E a existência de objectos domésticos cria uma envolvência muito peculiar, de outro tempo, e de interior, que quase nos faz esquecer que estamos numa galeria pública. Reconstitui parte do ambiente do seu estúdio: as obras preferidas do Pintor e de que ele nunca se quis separar, um bela cadeira veneziana que comprou, fascinado, duas cafeteiras antigas, uma das quais oferecida como presente de casamento, colagens, têxteis norte-africanos, alguns objectos de uso pessoal, e um pequeno acervo de esculturas africanas do Mali. Além dos quadros.


Gostei muito de ver a mostra. E, para concluir, devo dizer que valeu a pena, apesar das 13 libras que esportulei pelo ingresso. Que os ingleses são austeros, e só descontam 1 libra para quem é sénior...


Uma fotografia, de vez em quando (100)


A fotógrafa norte-americana, de ascendência francesa, Vivian Maier (1926-2009), levou uma existência apagada, com empregos diversos e indiferenciados, nunca chegando a expor, em vida, obras suas. Discreta ou tímida, provavelmente pouco confiante na qualidade das suas fotos, até uma boa parte dos seus auto-retratos foram tirados indirectamente, muitos deles por reflexão do seu corpo em espelhos.



Captava cenas de rua, banais, fixando gente anónima e sem história, mas também, dissimuladamente, se juntava a paparazzi, na esperança de fixar um instantâneo de celebridades que iriam aparecer. Como foi o caso de um retrato de Salvador Dali, que veio a ser descoberto no seu espólio, composto por milhares de fotografias e filmes, muitos dos quais não tinham sequer sido revelados, e que apareceram, depois da sua morte, armazenados em caixas de cartão.



Pressionada por dificuldades financeiras, Vivian Maier, em 2007, vendeu uma parte do seu acervo fotográfico, que foi adquirido pelo coleccionador John Maloof. Foi este que primeiro reconheceu a qualidade artística do seu trabalho e o divulgou. Mas só após o seu falecimento, e com a descoberta do enorme acervo da fotógrafa, lhe foram consagradas algumas exposições e a fama estética lhe foi atribuída, mais do que merecidamente.


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

De Rafael Alberti (1902-1999), traduzido


18

Aquele aroma inesperado a morte,
esse cheiro a soldado sem nome nem família,
legando aos formigueiros da terra
talvez o melhor traje da sua vida,
de à beira de um olmo me levou
para muito longe do sabor da minha amiga.



Rafael Alberti, in Entre el clavel y la espada (pg. 97).



Nota pessoal: a capa, em imagem e muito danificada, pertence ao meu exemplar da primeira edição (1941). O livro, de bom apuro gráfico, contém vários desenhos (surrealistas) do Poeta.

Um fado de Carlos Ramos (1907-1969), para este tempo de nem cá nem lá...

Adagiário CCLXXI : Novembro (8)


1. Novembro à porta, gado na horta.
2. Se em Novembro ouvires o trovão, o ano será bom.
3. Em Novembro põe tudo a secar, que pode o Sol não voltar.
4. Do S. Martinho (11) ao Natal, o médico e o boticário enchem o bornal.