domingo, 14 de novembro de 2010

Traduções hilariantes (1)

Foi, recentemente, durante uma visita ao Porto, que uma amiga, professora de Alemão aposentada, me mostrou um papelinho com uma receita em Alemão, "traduzido" com recurso ao clique respectivo do Google. Já não sei repetir tanto disparate em tão poucas linhas !
No entanto, estava longe de imaginar que um tradutor luso, certamente desprovido de qualquer noção da língua do destino, neste caso do Alemão, pudesse provocar um eventual incidente diplomático, caso algum cidadão jugoslavo adquirisse um determinado produto alimentar português, reproduzido acima.
Por sorte, fui eu que, há dias, comprei as ditas chamuças. Para se perceber melhor do que estou a falar, remeto para a leitura da preparação da receita das chamuças Topgel em epígrafe, tendo tido o cuidado de sublinhar o Português, o Inglês e o Alemão.
Ora, a palavra fritura, em Português, passou para o Alemão nestes termos: a "República Federal da Jugoslávia terminará (sic) quando atingir uma temperatura acima dos 75º C ..."
Boas compras e boa fritura !
Post de HMJ

PS. Para MR, com alegria

sábado, 13 de novembro de 2010

Leituras Antigas XXI : romance histórico





Era bastante diversificada, no início da minha adolescência, a oferta de livros sobre temas históricos romanceados. Quase sempre os motivos estavam relacionados com a História de Portugal e, muitas vezes, procuravam transmitir modelos heróicos e morais, exemplares. Os livros que se mostram, em imagem, foram alguns dos que li, com gosto e proveito.
O Naufrágio de Vicente Sodré e A Jóia do Vice-Rei, de Manuel Pinheiro Chagas (1842-1895), foram editados pela Empresa Literária Universal, Rua da Hera, 17, de Lisboa. Os livros desta colecção custavam entre Esc. 7$00 e 8$00, e creio que foram postos à venda nos anos 30 ou 40 do século passado. Estes 2 volumes comprei-os novos. O desenho das capas era de Alfredo Moraes.
A Ala dos Namorados, de António de Campos Júnior (1850-1917), foi impresso em 1951 (3ªedição) pelos Editores Romano Torres, de Lisboa. O romance é composto por 4 volumes e, cada um, custava, em novo, Esc. 18$00. Comprei-os usados na Livraria Académica, do Porto. O conjunto, em 2ª mão, foi-me vendido por Esc. 45$00. As ilustrações trazem a assinatura de Gameiro & Moraes.

Curiosidades 22 : o Cego do Maio



Por razões várias a, hoje, cidade da Póvoa de Varzim (e não, "do" Varzim) é, na minha memória, uma das terras portuguesas mais emblemáticas. Duas estátuas perpetuam dois dos seus naturais mais ilustres: a de Eça de Queiroz, na Praça do Almada, e a do Cego do Maio, no Largo do Passeio Alegre, frente ao mar.
Este último Poveiro, de nome próprio, José Rodrigues Maio (8/10/1817 - 13/11/1884) é um herói regional, pouco conhecido para lá da Póvoa, de Vila do Conde e de Esposende. Ficou conhecido pelo nome de Cego do Maio, não porque fosse cego, mas pelo destemor com que se lançava (às cegas), com a sua catraia (pequeno barco), às águas do Mar da Póvoa, para salvar camaradas da sua profissão, em situações de perigo, ou em risco de perderem a vida em naufrágios. Resgatou, assim, dezenas de vidas de pescadores.
E de tal modo era respeitado que, a 14 de Maio de 1881, quando foi para a Póvoa de Varzim o primeiro salva-vidas, esse barco teve, como primeiro arrais ou mestre, o Cego do Maio. Pelos seus feitos solidários e notáveis, foi agraciado pelo rei D. Luís, com a Ordem de Santiago da Torre e Espada. Conta-se que, para retribuição, o Cego do Maio levou umas conchinhas (beijinhos), muito estimadas e procuradas por crianças nas areias da praia, e até pelos veraneantes. E, quando o Rei lhe impôs a condecoração, o Poveiro estendeu-lhe as pequenas conchas e disse para D. Luís: "Tome lá ó Ti' Rei, uns beijinhos para as suas criancinhas brincarem !"


Girolamo Frescobaldi (1583-1643)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Dino de Laurentiis (8/8/1919 - 11/11/2010)





Agostino de Laurentiis, mítico produtor de mais de cinco centenas de filmes, faleceu ontem. Foi casado com a actriz italiana Silvana Mangano (1930-1989) de quem teve 4 filhos. Produziu filmes de Fellini, Dino Risi, Visconti, Roger Vadim, Bergman e de tantos outros realizadores italianos e estrangeiros. Patrocinou também o filme Anna, com Silvana Mangano, então, em início de carreira.

Civilidade (6) : Princípios...


O livro (em imagem) que, de propósito, não incluí na secção Bibliofilia, por se encontrar em mediocre estado de conservação devido à humidade que afectou grande parte das páginas, data de 1809. Junto com ele está encadernado, também, "A Father's Legacy" impresso em Filadélfia (U. S. A.), no mesmo ano (1809). O volume tem a particularidade do carimbo de posse ser de casa ducal - creio que da Casa Palmela.

Leilão em Novembro


Organizado por Luís Gomes (Livraria Artes e Letras) e José Vicente (Livraria Olisipo), mais um Leilão de Livros, e não só, que terá lugar em Lisboa, Largo de S. Domingos, 11, nos dias 22, 23 e 24 de Novembro, às 21 hrs. A exposição e consulta dos lotes poderá ser feita a 21, 22, 23 e 24 /11, no mesmo local, entre as 15 e as 20 horas.

Citações LI : Rainha Cristina da Suécia


"Há reinos que fazem grandes os seus reis, e há reis que fazem grandes os seus reinos."
Cristina da Suécia (1626-1689).

Auguste Rodin



Auguste Rodin nasceu a 12 de Novembro de 1840. Para além de várias, célebres e pessoalíssimas esculturas (Balzac, Os Burgueses de Calais, O Beijo, O Pensador...) que levaram a que fosse considerado o pioneiro da escultura moderna, há dois nomes de artistas que, culturalmente, lhe estão associados. De grande qualidade, também: Camille Claudel e Rainer Maria Rilke. O poeta checo, de língua alemã, foi seu secretário entre 1905 e 1906. Mas Rodin, ao que parece, mal deu por ele ou prestou-lhe pouca atenção. Mas Rilke escreveu algumas monografias sobre esculturas do artista francês e, por outro lado, em contacto com Rodin, ganhou uma perspectiva nova sobre a Arte. Entre o escultor e Camille Claudel (1864-1943), também escultora de grande mérito e, apesar da diferença de idades (24 anos), deu-se uma paixão fatal. A ruptura contribuiu para o agudizar de perturbações do foro psiquiátrico de Camille, que veio a ser internada em 1913, e até à morte. Há quem diga que algumas das mais conhecidas esculturas de Auguste Rodin terão tido, pelo menos, a colaboração activa de Camille Claudel. Rodin faleceu em 1917.

Nota: ao invés de reproduzir alguma escultura, preferi colocar um desenho de A. Rodin, por menos conhecido.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Releituras


"Não tenho presente quem um dia escreveu (o conceito é muito conhecido) que a partir de uma certa idade já pouco de novo se lê, prefere reler-se. Esse gosto da releitura tem, porém, seus riscos: livros há que, na juventude, nos parecem obras-primas e somente mais tarde são restituíveis às devidas proporções. A experiência, a cultura adquirida, os sucessivos estados de espírito que aos poucos nos vão fazendo, muitas vezes roubam a uma obra esse sabor inicial de «descoberta» que haveria de marcar-nos muito tempo... até à tal releitura que pode ser decepcionante. Em compensação, há livros que nos impressionaram menos na juventude, embora os apreciássemos e até lhes aproveitássemos ensinamentos e que - talvez por isso mesmo - relidos muito mais tarde avultam aos nossos olhos mais exigentes, adquirem o valor definitivo que juízos mais serenos e uma observação mais rigorosa acabam por dar-lhes. ..."

Luís Forjaz Trigueiros, in O Prélio Solitário, 1992, pg. 115.

1 ano de Arpose



Pois é, o Arpose completa hoje, 11 de Novembro de 2010, um ano. Nasceu um pouco à revelia do seu progenitor, a quem os oficiantes do parto (ms, no aspecto técnico, e HMJ, na vontade), de certo modo, contrariaram. Dei-lhe o nome, é certo, como fazem os pais quando vão à conservatória registar o nascimento do filho, ou da filha.
A ideia da imagem, para teste, de Georges de La Tour, também me pertenceu. Mas, de 11 de Novembro de 2009, ficou apenas um teste e o blogue aberto, e as palavras: boa noite! Só a 29 de Novembro lá pus o primeiro poste e, a partir daí o "rapaz" foi tomando balanço e crescendo... Fez-se à vida.
Por isso, hoje, reitero La Tour e acrescento-lhe a foto de alguém que, na altura do retrato, tinha também um ano.
O meu grato reconhecimento a HMJ e ms, afectuosamente.
Aos Amigos, conhecidos e visitantes, o meu obrigado, por acompanharem o Arpose.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Revivalismo Ligeiro XXXII : Charles Aznavour (2)

As devidas proporções...


Cromos 5 : Branca de Neve e os 7 anões



A colecção de cromos da "Branca de Neve e os 7 anões" data da primeira metade dos anos 50. Falta-me o cromo nº16 para estar completa. As imagens baseiam-se no filme homónimo, de Walt Disney, distribuído, em Portugal, pela RKO. E a colecção é uma edição do Mundo de Aventuras. A caderneta custava Esc. 3$50. Escusado seria dizer que esta colecção teve extremo sucesso.

P.S.: para MR, que ainda se deve lembrar.

Onde é que está o erro?


Com agradecimentos ao António.

Museologias


Informações há, que lemos, mas não sendo relembradas, somem-se no esquecimento para sempre. Sobre este, chamado por alguns "delirante", desconhecido ou anónimo pintor vimaranense do séc. XVI, li algumas coisas, creio que por volta de 1996 ou 1997, mas tinha-o esquecido. Não fora a visita guiada (e muito bem guiada) ao Museu Alberto Sampaio, de Guimarães, e, tão cedo, não o recordaria. O Museu tem, no seu acervo, algumas (poucas) obras dele, vindas de igrejas e conventos dos arredores, e que permitem datar a sua actividade entre 1510 e 1550.
O intricado da vegetação, nos seus quadros ou frescos, bem como uma pessoalíssima simbologia utilizada, por exemplo, na figura de S. Jerónimo (flagelando-se e mutilando o corpo com uma pedra) permitem reconhecê-lo. Também a repetição do desenho das calças, às riscas (à "tudesca"), dos homens, marcam a sua autoria. A elegância estética das suas figuras humanas e trajes, em X para os homens e em S (barriga empinada, como se fosse de grávidas) para as mulheres, atestam os seus conhecimentos de pintura, pelas normas da época.
Na imagem das 2 obras, numa aparece a "Virgem do Leite" (terá vindo da Igreja de S. Miguel do Castelo, onde dizem ter sido baptizado D. Afonso Henriques) ladeada por S. Bento e S. Jerónimo. Esta obra integrou a exposição de Primitivos Portugueses de 1940, em Lisboa. A segunda, um fresco retirado da sala capitular do Convento de S. Francisco (Guimarães), representa a "Degolação de S. João Baptista". Ambas, portanto, do Mestre desconhecido vimaranense.
Registe-se, a título de curiosidade, que o Museu Alberto Sampaio incentiva o mecenato particular, e que este último fresco foi restaurado graças ao patrocínio do Prof. Freitas do Amaral, que nasceu em Guimarães.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Filatelia IX : selos comemorativos


O primeiro país a emitir selos para uso postal foi a Inglaterra, em 1840. Seguiram-se-lhe a Suiça (Zurique) e o Brasil, ambos em 1843. Portugal teve os seus primeiros selos em 1853. Estes selos iniciais - selos base, digamos, em linguagem filatélica - tinham, como motivos iconográficos, a imagem do chefe do estado, um símbolo nacional ou, simplesmente, o número indicativo da taxa de porte (Brasil e Suiça, por exemplo). Só posteriormente vieram a aparecer os chamados selos comemorativos, que eram emitidos para celebrar uma data, um acontecimento histórico, ou alguém célebre.
Foram os Estados Unidos da América os pioneiros, em 1893, a pôr em circulação uma série, comemorativa, sobre Cristovão Colombo. Mas, desta vez, Portugal não se atrasou: em 1894, saíu a 13 de Março uma série a comemorar o 5ºCentenário do nascimento do Infante D. Henrique, com 13 valores e desenhos de Veloso Salgado. E, no ano seguinte (1895), a 13 de Junho, saía a série comemorativa do 7ºCentenário do nascimento de Santo António, de 15 valores e desenhos de Monteiro Ramalho e Carlos Reis.
Destas 2 séries comemorativas portuguesas se mostram alguns exemplares.

Música e Poesia XXVI : Lawrence of Arabia


 
O silêncio do deserto poderá ter uma espécie de música própria.
A frase de Lawrence : " My name is for my friends.", foi uma resposta que compreendi tarde, na vida.

Viagem, tempo e memória


As horas, que se fizeram ordenadas ou domadas pelos homens, são agora usadas, por mim, de outro modo. Deixo-as, em liberdade, expressar a sua força. Não é caótico o método, simplesmente mais solto, na extensão do tempo que me é dado. Ou, neste caso concreto, porque há que arrumar o que trouxe, de forma pessoal, pela importância afectuosa da viagem, para ficar até onde...
O Sol voltou, baixo mas forte, mais curto no dia, mas tão intenso que quase cega. E na efusão mais densa e desnudada que, muitas vezes, acompanha a velhice, há que ser sábio e poupado (diria mesmo, avaro) na memória já tão plena, para que ela possa, ainda, reter o essencial.

Mercearias Finas 21 : perdizes em Aldoar



Não sei se elas terão vindo do Alentejo (nem o António sabia), como veio o tinto Cartuxa de 2006, mas vieram morrer, maneirinhas, à mesa, lá para as bandas de Aldoar. Não estavam sozinhas: foram acompanhadas de túbaras, lardeadas de bacon, com batatas às rodelas e pequenos cogumelos - eram muitíssimo boas, as perdizes, neste Outono do ano da graça de 2010. Foram, para nós, as primeiras desta época.
Antes, e para fazer boca, umas vieiras, em pequenos cilindros vestidos de (quase laminadas) courgettes, tendo por cima umas pequeníssimas bagas de pimenta rosa que, pela côr, mais pareciam framboesas. Eram lindíssimas mas, rapidamente, se foram, pelo gosto que tinham. Casaram-se com o E. A. branco, também alentejano (Antão Vaz, Perrum e Roupeiro) da Fundação Eugénio de Almeida. Excelente.
Quase no final chegou à mesa o celebrado Toucinho do Céu que, com as Tortas, há quem diga, nasceram da doçaria conventual vimaranense; no entanto, este toucinho era tripeiro de gema, e feito pela mão cuidada da Isabel - na perfeição, ponto e gosto. Depois do café, para coroar tudo isto, a suprema Adega Velha, da Aveleda, elegante na sua garrafa alta e estreita, e de sabor divino.
Obrigado, Amigos!

Memória 45 : Hedy Lamarr


Hedwig Eva Maria Kitsler, austríaca de ascendência judaica, nasceu a 9 de Novembro de 1913, em Viena, e morreu nos Estados Unidos, em 2000. Naturalizada americana (1953), ficou conhecida, no cinema, pelo nome de Hedy Lamarr, e era célebre a sua beleza. O seu filme com mais sucesso terá sido "Sansão e Dalila", em que contracenou com Victor Mature. Poucas pessoas se lembrarão deles, hoje em dia. Eu ainda me lembro do filme.

Nota: o cromo reproduzido, na imagem, pertence à minha velha colecção artesanal, dos anos 40, de que já mostrei 2 fotos de Sonja Henie.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A vinha de enforcado, minhota


Da carta a António Pereira, senhor de Basto, escrita por Francisco Sá de Miranda:

...Estas terras e penedos
fazem-se-vos vistas feias;
já torceis o rosto às aldeias,
dizeis dos vinhos azedos
o que já disse Cineas.

A quem nos convites dado
a provar, se lhe aprouvesse,
depois nos olmos mostrado:
- Nunca vi - disse - enforcado
que a forca assim merecesse (...)

Ali não mordia a graça,
eram iguais os juízes,
não vinha nada da praça,
ali da vossa cachaça,
ali das vossas perdizes. (...)

Ó ceias do paraíso,
que nunca o tempo vos vença,
sem fala trocada ou riso,
nem carregadas de siso,
nem danadas de licença! ...

Desgarrada Minhota

... embora as que eu ouvi tivessem sido muito melhores...

Por falta de palavras e de tempo...


...e para um cenário dos meus últimos dias.

O dia, às avessas


Eu sei que não consegui explicar ao Zé Carlos a alegria que ainda sinto, quando olho este Augusto Gomes, de 1953, quase "botticelliano" - como gosto de o adjectivar. Estes traços, a tinta da China, provavelmente indecisos de propósito, ajudaram-me, muitas vezes, em dias mais pesados, desde Janeiro de 1976 (data em que o comprei), a encarar a luz ou o dia seguinte. E, isto, não se consegue transmitir, facilmente, encostado ao balcão de um bar, com CR&F à mistura, tendo por cenário, ao fundo, um vale verdejante, minhoto, delimitado por pinheiros altos.
Falávamos dos preços de Resende (Júlio): óleos e aguarelas, e dos anos mais procurados - cinquentas, sessentas. E eu chamei-lhe "marchand", mas com amizade. O Sáa sorria, o Paulo, sempre muito sério, abanava a cabeça, e o Fernando, meu primeiro grande amigo ( e mais antigo), na sua autenticidade, apoiava-me convicto. Já a Ró tinha feito, loira e cordial, uma visita guiada, excepcional, ao Museu Alberto Sampaio - onde eu aprendera muitas pequenas coisas.
O Carlos S., maestro deste encontro, circulava pelas mesas, imenso de gratidão à vida, e aos amigos que tinham vindo, pelos seus recentíssimos 70 anos. Foi bonito! Até com desgarradas...
O que é que eu posso fazer?, senão mostrar em regozijo manso e funda alegria, esta rapariga simples e contente, talvez um pouco marota, de Augusto Gomes, neste Outono de melancolia, semeado por gotas intensas de chuva...

P. S.: para Carlos S., em Guimarães. E para a Maria José.

domingo, 7 de novembro de 2010

Citações L: Diogo de Paiva de Andrade


"...E pois nas que passam os limites, assim de feias, como de formosas, há tantos males de que fugir, tantos perigos, que recear, e tantos exemplos, com que se possam escarmentar os que estão de fora, bem se infere que o parecer do rosto, que os homens devem procurar, não há-de ser tão formoso, que os meta em cuidado, nem tão disforme, que lhes cause fastio, ..."
Diogo de Paiva de Andrade, in Casamento Perfeito ( Sá da Costa, 1982), pg. 93.

W. A. Mozart : Contradanças

Cecília Meireles


Dois dias separam apenas as efemérides capitais da brasileira Cecília Meireles: nascida a 7 de Novembro de 1901, morre em 9 de Novembro de 1964. De ascendência açoriana, através da avó materna, a sua poesia é, das brasileiras, aquela onde mais se sente um ritmo e respirar português. A ausência ou perda, o amor e a morte são seus temas mais recorrentes, nesse balouçar elegíaco ondulante entre a vida e o seu fim. Transcreve-se o poema Retrato:
Eu não tinha este rosto de hoje
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

Desmanchar a regra


O pensamento é muito mais raro do que a emoção. E a exteriorização de um e de outra, quando singulares ou contra a corrente, manifestação raríssima. O silêncio é vasto, por timidez, atavismo rústico, ignorância crassa. Excepcionalmente, por extrema sabedoria. Já Eça falava do Pacheco, deputado, de calva luzidia e impenetrável silêncio. A afirmação de uma vontade raramente se faz voz, daí a irrelevância da sociedade civil portuguesa e o cinzentismo nacional. Caracterizado por uma resignação hipocondríaca no seu comodismo neutro e medíocre.
Por mero acaso, hoje, tive conhecimento de um Mestre pintor desconhecido vimaranense, do séc. XVI, autor de algumas obras (poucas), singulares e muito pessoais, ao arrepio da época em que viveu. Um dos seus quadros integra a exposição de Primitivos Portugueses que se fará em Lisboa. Na intimidade, os estudiosos e historiadores de Arte chamam-lhe o "pintor delirante de Guimarães". Voltarei a ele, provavelmente, em breve.

P.S. : que o António de A. M. me desculpe o roubo de um seu verso para título deste poste.

sábado, 6 de novembro de 2010

Mimetismos


A re-visitação de fotos antigas, a evocação de factos quase esquecidos e a reconstituição dos puzzles incompletos, pelas achegas dos outros intervenientes permitem, muitas vezes, rematar, de forma definitiva, os acontecimentos do passado, com maior rigor.
Por momentos, voltamos a essa idade e a esse local, de memória, acrescentando-lhe palavras, recompondo os pormenores, ajustando-lhe alguma razão, esclarecendo um gesto, percebendo uma atitude ou decisão que, na altura, foi tomada.
Depois, tudo regressa, mais completo, à gaveta da memória - que se volta a fechar.