sábado, 8 de outubro de 2011

Nortenhas e populares (quadras) 6


Da região de Amares, mais concretamente de Barreiros, retiradas da Monografia antes referida, mais 3 quadras:

O mar pediu a Deus peixe
Para andar acompanhado:
Quando o mar quer companhia
Que fará um desgraçado.

Ó rosa de Alexandria,
Onde perdeste o cheiro?
- Perdi-o na tua cama,
Na renda do travesseiro.

Tenho sono de galinha,
Galinha dorme de pé;
Tenho meu sentido vário,
Ninguém sabe por quem é.

O Limoeiro em Outubro de 2011


Desde Junho que não falo de limoeiros. É tempo de lá voltar para dar notícias sobre o que tenho na varanda a Sul. São visíveis 12 frutos adolescentes e saudáveis. E todos os limões me parecem bem robustos para aguentar as agruras do próximo Inverno. É a segunda melhor safra de sempre. O recorde é de 17, nunca ultrapassado, e no ano passado de 2010 colheram-se 11 limões. Este ano será melhor. E, como de costume, as palavras são acompanhadas da fotografia do limoeiro, tirada hoje, ao sol da tarde deste Verão de S. Martinho.

Leituras Antigas XXXVI : Colecção Gigante





Num tempo em que quase tudo era medido por padrões de conveniência e normalidade, estes livros de altura avantajada (32,5 cms.) despertavam a atenção e cobiça de os comprar, entre os mais jovens. A "Colecção Gigante" era editada pela Romano Torres (de Lisboa), com sugestivos desenhos de Júlio Amorim, nas capas, e de Alfredo Moraes, nas páginas interiores. Os textos corriam sob a responsabilidade de Leyguarda Ferreira. Os enormes livros custavam Esc. 15$00, e suponho que a colecção data do início dos anos 50 do século passado. Tenho apenas 2 volumes: "As Mil e uma Noites" e "O Gigante das Sete Cabeças", sendo que esta última história era muito do meu agrado.

A prosaica manhã e suas cores


Depois do que parece ser o luto que a noite derrama, apesar da Lua Cheia adivinhada, sucedem os "dedos róseos da aurora", como Homero lhes chamava.
Mas este laranja, quase fogo, ao longe no céu e sobre o horizonte - será porventura do meu ligeiro daltonismo -, lembra-me, também, prosaicamente, o interior de uma torta de cenoura fatiada. Onde foram generosas as gemas de ovo e intensas as raspas de cenoura. Sem corantes, nem conservantes.
Só depois vem o azul anémico e pálido, que vai robustecendo com a força do Sol. 

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Eugénio


Sobre a Palavra

Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece.

Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama.

Assim se morre dizias tu.
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura.

Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada.

Interminavelmente.

Eugénio de Andrade, Véspera da Água.

Música e Poesia XXXIX : Rodrigo Leão

Notas de Viagem 1

Embora com algum atraso, seguem algumas notas de uma última viagem à Colonia Agrippina. Da estadia, dedicada essencialmente a ocupações prosaicas, recuperou-se a predominância do jardim da casa a entrar pelo terraço e a própria casa.


Não nos esquecemos, no entanto, de uma leitora assídua do ARPOSE, com obra relevante na área dos livros de cozinha. Para lhe aguçar o apetite e, porventura, a inveja, segue a foto da colecção particular de livros de cozinha. A proprietária, livreira de profissão, organizou os livros por ordem alfabética e temas, o que facilitava as consultas, ao fim do dia, no terraço da casa.


Por fim, apresenta-se a última aquisição, feita numa das idas regulares a feiras da ladra [= Flohmarkt], dedicando esta pequena nota, obviamente, a MR.



Post de HMJ

Cidade Capital de Cultura 2012 / Fastos vimaranenses I


Guimarães será, em 2012, Capital Europeia de Cultura. Não sendo isento, eu diria: mais que merecidamente. Porque tem, em si, um património histórico, cultural, urbanístico e social invejável e muito bem cuidado - mérito de gerações e gerações vimaranenses que dele trataram com afecto e, também, souberam restaurar, genuína e condignamente. Há que confessá-lo, não sendo a terra onde nasci, Guimarães é a minha pátria adoptiva e estimo-a muito.
Por isso projectei, a partir deste mês de Outubro, ir dando conta paulatinamente de alguns factos de que tenho conhecimento, de algumas particularidades mais anódinas, ou úteis informações que possam interessar a quem visite a cidade, no próximo ano. Mas também de algumas obras ou livros importantes que possam contribuir para melhor conhecer a história de Guimarães.
Começarei por dar conta das monografias mais significativas sobre a cidade. O primeiro Alguém que falou, monograficamente, sobre Guimarães, terá sido André Afonso Peixoto que nasceu e viveu na cidade, tendo morrido a 15 de Abril de 1642. Mas não se lhe  conhece nem manuscrito, nem livro sobre o assunto. O segundo, citado por Barbosa Machado, foi Luís da Gama que também não deixou vestígios escritos, localizáveis. Na sequência cronológica, mas já documentados, aparecem as:
- "Memórias da Resuscitadas da Antiga Guimarães" (sic), obra escrita em 1692, pelo Padre Torcato Peixoto de Azevedo (1622-1705), mas só editadas em 1845. O livro teve uma 2ª edição em Abril de 2000.
- "Guimarães: apontamentos para a sua história" do Padre António José Ferreira Caldas (1843-1884). O livro foi publicado, em 2 volumes, no ano de 1881. Teve uma segunda edição, em 1996, promovida pela Sociedade Martins Sarmento e pela Câmara Municipal da cidade-berço.
- "Monografia de Guimarães e seu Termo", de António Lino (1914-1996), publicada em Lisboa, no ano de 1984.

Filatelia XXVII : Castelos de Portugal


Na data em que se celebra o Dia Nacional dos Castelos, aproveito para lembrá-los, filatélicamente. A primeira emissão, inteiramente dedicada a este motivo central da arquitectura militar portuguesa, é de 1946. O desenho dos 8 castelos portugueses pertence a Cottinelli Telmo, sendo as gravuras de Karl Bicker. A impressão é a talhe doce, o que lhes confere uma particular nobreza e uma estética de sóbrio equilíbrio. Há uma segunda emissão com a temática castelos, que foi posta a uso, gradualmente, de 1986 a 1988 (mostram-se 4 exemplares). Os desenhos são de José Luís Tinoco e J. Bènard Guedes.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Divagações 13


Triangular, a casa, terminava como a proa de um navio. E a sala final tinha dois níveis: o maior envolto em penumbra suave, depois, subindo três degraus havia uma luz coada e brilhos leves sobre vidros azúis.
Mas, na parte maior da sala, eram as avencas. Vários vasos, em assimetria, traziam frescura ao aposento, mesmo no Verão; deles vinha também uma alegria discreta de aromas ténues, harmoniosa na paz vegetal do verde quieto.
Parecia que nada nunca iria perturbar o silêncio e que ele existia, desde sempre, na sala tranquila.
É certo que por lá passavam, raras vezes, correrias e risos infantis, em busca de um esconderijo mais secreto para o jogo, mas logo tudo ficava como antes: a penumbra, o tempo, o silêncio, a frescura do verde muito frágil das avencas.

Euforia, segundo Cioran


"Não saberemos desconfiar o suficiente da euforia. Quanto mais ela dura, mais nos devemos sobressaltar. Raramente justificável, ela surge triunfante, e não apenas sem nenhuma razão séria, mas ainda sem o menor pretexto. E em lugar de nos regozijarmos, seria melhor ver nisso um presságio, um aviso..."

E. M. Cioran, in Ébauches de vertige (pg. 78).

Ainda uma Décima, de Tomás Pinto Brandão


Ao Conde de Unhão, que costumando mandar ao Autor um porco por festas, nesta o fez com uma leitoa 

Mulato, a Xabregas vai,
E ao Conde, da parte minha,
Dirás, que a leitoa vinha
Grunhindo por sua mãe;
Mas que de leitões um pai
Suprir pode a falta desta;
E se vier este, ou esta,
Fora da festa outro dia,
Ainda sendo porcaria,
Sempre direi bem da festa.

T. P. Brandão, in "Pinto Renascido...(pg. 308), com ligeiras actualizações ortográficas.

Carl Ditters (1739-1799)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Civilidade (14) : à mesa (3)


Antes da República, de que hoje se celebra o aniversário, Beatriz Nazareth no seu "Manual de Civilidade e Etiqueta" (1898), escrupulosamente, recomendava:
"...Todos os fructos se descascam e se comem com o auxilio d'uma faca e d'um garfo á sobremesa: o quarto de pera, de pecego ou de maçã, etc., é picado com o garfo seguro na mão esquerda, e faca na mão direita."
( esqueceu-se, digo eu, a excelsa Senhora, de referir o que fazer com as nozes e castanhas, que não são pera doce, a descascar, ou as ameixas e abrunhos que se desfazem em sumo. E as laranjas?...) E continua:
"...As tortas de fructos, os bolos, etc., comem-se da mesma maneira. É inutil dizer que se parte o pão com a mão. Porque não se hade cortar? Porque as partículas da côdea poderiam, sob o esforço da faca, saltar aos olhos dos vizinhos (e os esguichos das laranjas? - pergunto eu.), ou sobre os hombros nus das senhoras."

Amigos, contribuições e gíria profissional


Cada profissão é como uma sala fechada ou dicionário oculto cujo acesso e descoberta, nos seus rituais, no seu linguajar e gíria própria, só são acessíveis aos iniciados e a quem com eles conviva. Quem saberá?, por exemplo, que "basbaia", entre cortadores e marchantes, é uma palavra que define: carne de fraca qualidade, normalmente, de novilho ou vaca. A palavra "avultar", para os profissionais de panificação, é aplicada ao crescer da massa do pão, depois de lhe ter sido acrescentado o "isco" ou fermento. O vocábulo bigodes que, correntemente, é entendido como ornamento piloso masculino, entre os homens do mar corresponde, também, às ondas laterais que se formam, com o avançar de um barco sobre as águas.
Ora, muito recentemente, o meu amigo AVP, grande conhecedor das coisas marítimas e com boa experiência neste particular, ao visitar o Arpose, deparou-se-lhe o poste "O tempo que passa" (4/9/2011), em que eu refiro a intensidade com que hoje se usa, a torto e a direito, o vocábulo: caralho. E o meu amigo AVP achou por bem informar-me que, o considerado palavrão, tem ainda um outro significado, inócuo, registado pela Academia Portuguesa de Letras, e que é: cesto no alto dos mastros das caravelas. Para se saber mais (obrigado, AVP!), consultar: http://issuu.com/vilardaga/docs/caralho.
Aqui fica este precioso aditamento.

com grato reconhecimento a AVP. 

2 haiku de Bashô


1.
Ao começo do Outono
- arrozal, oceano,
um único verde.

2.
Outono - até as aves
e nuvens
envelhecem.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Saia de lá um Brel, para enrijar a alma!

Entre o leste e o sul, pensando a norte


A restolhada dos pássaros miúdos nas duas árvores, ao fundo, é enorme e dissonante. Desde o fim do mês passado que a noto. Os pardais aconchegam-se decerto, no ramo mais cómodo, preparando a noite, que ainda não chegou. Mas a lua já se adivinha, crescente e alta, quase a sul, para onde se desloca. Vai amarelecendo, a pouco e pouco, como o Outono. Ameno Outubro, no entanto, na varanda, como para fazer esquecer o inóspito Agosto deste ano.
Vou fazendo minutos para o telefone, para as notícias que serão sempre inconclusivas, como linha tracejada e incerta, em relação ao futuro. As certezas ficaram quase todas na juventude, sobraram dúvidas para depois, e agora. Inteira meia lua, no alto e ao centro, parece cortada à faca, muito recta no diâmetro. Como dizia o Pessoa (e cito de cor): Cortei a laranja a meio,/ para qual das metades fui injusto?

Uma confidência de Outono


Eu costumo ser discreto e ter caridade, quase sempre, em tudo aquilo que é público e pode atingir outras pessoas. Tenho é que me contrariar, no imediato, e deixar as coisas arrefecerem. Normalmente e em relação às "search words" estúpidas de algum visitante estouvanado, e às indicações parvas à "Rain Man" (e é favor, este cognome) do motor Google de busca, deixo passar tempo, até lhes fazer referência, no blogue. Não gosto de confrontar o espanto com a estupidez embora, e se calhar, nenhum dos 2 percebesse. E não gosto de os envergonhar, porque tive uma educação católica... É evidente que se o motor de busca do Google tivesse um Tutor ou supervisor competente, evitar-se-iam algumas burrices abissais...Mas não tem.
Mas a esta "search word" de anteontem, não consigo resistir. O (A) preclaro(a) visitante indicou ao motor de busca Google: "rei juan carlos e rainha sofia e infidelidade" - pensei eu: coscuvilhice chineleira, mentalidade lumpen...
Mas o melhor ainda estava para vir. O Google, se tivesse dois dedos de testa, mandava o perguntador para a "Caras", a "Nova Gente", para a "Hola", ou quejandas. Mas não, porque o Google é "literal" (obrigado LB, obrigado  Prosimetron!). E, por isso, muito senhor do seu nariz, o Google, em vez de mandá-lo para as malvas róseas, remeteu o(a) visitante para o Arpose. Concretamente para o poste "Memória 40 : os meus Barbeiros". Aí, embatuquei...mas, depois, compreendi. O texto do poste começa assim: "Ninguém me poderá acusar de infidelidade excessiva em relação aos artífices que me cortaram o cabelo..."
Ah Google!, que são teus os reinos do Céu!

Bibliofilia 51 : Tomás Pinto Brandão


O livro, cujo frontispício se mostra em imagem, não é meu: confiou-mo um Amigo, a quem o pedi emprestado, para ler. Mas não desdenhava possuí-lo pois, em tempos e leilões passados, cheguei a licitar outros exemplares desta obra, muito embora não lograsse adquiri-la - até porque não é muito frequente aparecer à venda.
O seu autor, Tomás Pinto Brandão nasceu no Porto, em 1664. É um poeta de cariz essencialmente barroco e as composições (46 sonetos, oitavas, romances...), deste "Pinto Renascido...", caberiam bem e por mérito próprio na "Fenix Renascida" ou no "Postilhão de Apolo". A frescura e jovialidade de alguns poemas ultrapassam, porém, a circunstancialidade cultista da época. Esta segunda (?) edição de 1733 (não referida por Inocêncio que data a primeira de 1732) teve uma terceira (?) edição, em 1753.
Tomás Pinto Brandão foi grande amigo de Gregório de Matos, e teve, além de palavra fácil e atrevida, uma vida turbulenta. Esteve preso várias vezes, uma delas por acção judicial da sua sogra, e de que há um reflexo, em poema: "...A doce liberdade se malogra,/ De todo o paraízo se desterra,/ E de viver, em fim, os termos erra:/ Porque em vida se enterra, se se ensogra:...". O Poeta, que andou por Angola e pelo Brasil, era porém realista e objectivo, como se pode ver por este "Epitáfio" que compôs:

Aqui jaz quem nos intima,
Que a morte é pequeno mal,
por muito que a vida opprima;
Pois o Sabio em Portugal,
Só quando falta, se estima.

Tomás Pinto Brandão morreu em Lisboa, em Outubro de 1743. Este seu livro, em presença, encontra-se em razoável estado de conservação, embora com alguns sinais de traça que quase atingem o texto. Foi comprado em Lisboa, a 18 de Junho de 1993, por Esc. 6.200$00 (cca. 31,00 euros). O que me parece ter sido um preço justo.

Com agradecimentos ao Emprestador e Amigo. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Sinais


Nada faz prever as situações difíceis. A Biologia pontua 65, e o  reconhecimento da velhice faz-se, objectiva e concretamente, do exterior. Pode ser um mero sinal inesperado: pela primeira vez, alguém que se levanta, num transporte público, para nos dar o lugar. As cãs, as mãos, o cansaço e as rugas do rosto podem denunciar-nos, muito claramente, e para os outros. A velhice começou.
E o que os outros, mais jovens, pensam ser um acto de respeito, atenção e delicadeza, pode ser, pelo contrário, um choque psicológico para o visado.
Mas o sinal definitivo virá, sempre, do interior de nós mesmos. Mesmo que não se faça anunciar, previamente. Alguma coisa começou a ceder, irremediavelmente. E, às vezes, vem com pés de veludo.

John Ireland (1879-1962)

O desamor aos animais


É da história: o amor é um sentimento, quase sempre, fugidio. E a necessidade pode muito - já lá dizia Almeida Garrett. A crise, por outro lado, tem muita força. Diz o povo: vão-se os anéis, fiquem os dedos. Já aqui dei conta, em 3/1/2011 (Os cavalos irlandeses e a crise), que os irlandeses tinham abandonado 20.000 cavalos à sua sorte: uns morriam à fome, outros iam sendo abatidos...
Vejo hoje nos jornais portugueses que a Liga Portuguesa dos Direitos dos Animais tem para adopção 250 animais, que lhe foram entregues pelos anteriores donos. A maior parte são gatos. Aqui, na zona outrabandista, também já se nota o aumento das matilhas e dos gatos vadios. E a procissão ainda vai no adro. Ao contrário do que dizia Júlio Dantas, n' "A Ceia dos Cardeais", não é assim tão diferente o amor em Portugal...

Finalmente, o célebre e incomparável...


...Prof. Karamba, cujas "amarrações" são notáveis. O mundo, no entanto, é ingrato. É inadmissível que a conhecidíssima e reputada Universidade de Voodu, do Haiti, sediada em Port-au-Prince, não tenha ainda atribuído, ao distinto Prof. Karamba, o doutoramento "honoris causa". É, simplesmente, incompreensível! A menos que o facto do Professor ter chumbado sempre na cadeira de Candomblé, tenha pesado na indecisão...

domingo, 2 de outubro de 2011

Curiosidades 42


Sabe-se que foi o dito Estado Novo, com autorização de Salazar, que saldou as dívidas remanescentes à livraria antiquária Quaritch, em Londres, contraídas por D. Manuel II (1889-1932), na compra de livros antigos portugueses que estão, hoje, no Palácio de Vila Viçosa, à guarda da Fundação da Casa de Bragança. As compras foram, em vida, sendo feitas pelo nosso último monarca, com a ajuda do bibliófilo inglês Maurice Ettinghausen.
Do que eu já não me lembrava, é que o quadro de Hieronimus Bosch (1450?-1516), "Tentações de Santo Antão", que hoje se encontra no Museu de Arte Antiga, fora também pertença de D. Manuel II. Recordei-o ao ler "A Casa de Bragança - História e Polémica" (1940), onde, na página 70, se refere o seguinte:
"...Por agora direi apenas que só a livraria de Fulwell Park tem estado segura no valor de 5.000 contos ou mais, e que, segundo me informa pessoa competentíssima, só um dos quadros - cujo direito de propriedade foi oportunamente reconhecido ao Senhor D. Manuel - deve valer de 15.000 a 20.000 contos. Refiro-me à "Tentação de Santo Antão", de Jerónimo Bosch, tríptico guardado no Museu da Arte Antiga. ..."

Notas: Fulwell Park era a residência de D. Manuel II, na Inglaterra, aquando do exílio. O texto transcrito integra uma carta de Fernando Martins de Carvalho, a um jornal português.

O Gaspar e a frase assassina


Com o pedido de licença a LB, no seu Prosimetron, com a devida vénia ao jornal "Público" e a Vasco Pulido Valente, re-cito e transcrevo a frase magistral e homicida deste Outono ameno, utilizada com propriedade por este cronista:
"...O ministro das Finanças, com o seu pequeno ar de contabilista melancólico..."

sábado, 1 de outubro de 2011

Osmose (23) : 4 estações


Pesa as palavras muito devagar, como se cada frase fosse crucial para a imortalidade ou, humildemente, para mais uns anos de vida, lúcida e inteira. O corpo quase imóvel, no sofá, ao fundo. Dir-se-ia que uma pele antiga o abandona, nas mãos ligeiramente esfaceladas. Uma pele rósea, que parece jovem, vem ocupando o espaço a descoberto. Como as cobras deixam, pelos trilhos da mata que acabamos de percorrer, as suas gazes inconsúteis e transparentes de Verão, que já de nada lhes servem, para se revestirem da melancolia do Outono. Faz um gesto brusco, com a mão esquerda, para anunciar o Inverno, e cala-se por momentos. Mas, pouco depois, apesar das manchas pelo corpo, das rugas e do cansaço, volta a falar da Primavera. Mas só o faz de memória, pese embora um brilho intenso nos seus olhos azúis.

Citações LXXIX : Hugo von Hofmannstahl


"Uma inteligência vulgar é como um mau cão de caça, que depressa encontra a pista de um pensamento e depressa a volta a perder; uma inteligência invulgar é como um cão de fila, que segue firme e resolutamente a pista até atingir o que é vida."
Hugo von Hofmannstahl (1874-1929), in Livro dos Amigos.

O gosto e a coincidência, para um aniversário


O gosto, JAD, será a sua preferência por Max Ernst (1891-1976). A coincidência é que o compositor italiano Giovanni Battista Ricci (1724-1808) também nasceu a 1 de Outubro. Muitos parabéns, JAD!

Adagiário LXXI : Outubro (2)


1. Outubro, recolhe tudo.
2. Com a vinha em Outubro, come a cabra, engorda o boi e ganha o dono.
3. Andar, marinheiro, andar, não te apanhe S. Simão (28), no mar.