quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Recomendado : cinquenta e quatro - entrevista de R. Debray a L'Obs. (nº 2619)


O século XX não conseguiu esclarecer, devidamente, o valor e significado de algumas palavras de uso corrente, apesar da sua importância, sobretudo política. E, neste domínio, a esquerda teve ainda mais dificuldade no seu uso, ao contrário da direita que, nesse particular, é bastante mais pragmática e maniqueista, dividindo à partida sem dificuldade as coisas, entre boas e más. Guerrilha, terrorismo, atentados bombistas, ou suicidas, Israel/Islão, ditaduras/democracias, são algumas das palavras que, à esquerda, continuam envoltas em nevoeiro, dúvidas e muito vagamente situadas, entre o Bem e o Mal.
Régis Debray (1940) é um homem que teve e tem mundo. Não é um menino de coro, nem um puritano ou moralista, nem sequer um teórico. Foi amigo de Fidel e Guevara, fez guerrilha na Bolívia, foi preso, tudo isto antes de Maio de 1968. Todas estas experiências enriqueceram-no e ele sabe distinguir, entre o trigo e o joio, as grandes questões que se nos põem, neste início do século XXI.
Numa excelente entrevista, que deu a L'Obs., Debray separa, inteligente e claramente, essas águas que refiro no primeiro parágrafo deste poste. Em abono da recomendação, que proponho em título, alinho, traduzidas, algumas das respostas que ele deu, nessa entrevista. Como se seguem, para reflexão:

- Malraux dizia que a seita literária eram 10.000 pessoas. Para além disso, é um mal-entendido. Ou um oportunismo. Esperança de ordem cultural, portanto. De ordem política? Temo que, por esse lado, estejamos no fim de um ciclo, aquele que começou por volta de 1789 e que ligava a luta pelo poder a uma confrontação das ideias.
- O atentado de 7 de Janeiro desempenhará nisso algum papel? Ou será preciso uma guerra de verdade? Ou a chegada de uma troika do FMI para tomar conta dos comandos como em Atenas? Será preciso aproximarmo-nos de um precipício, em qualquer dos casos. Não ignoro que todos os séculos têm a sua pequena elegia sobre a decadência. Mas uma visão histórica alargada relativiza estas lamentações.
- A França manteve o proscénio dois ou três séculos. É normal que deixe esse lugar a outros. O meu amigo Daniel Cordier diz que a França morreu em 1940. A França enquanto grande potência, assim é. Mesmo assim ainda houve um "Verão indiano" com de Gaulle, mas a missa já tinha acabado. No fundo, podemos sobreviver bem a isso. Até podemos viver mais felizes.
- A substituição das letras pelos números e a ideia de que toda a expressão tenha de corresponder a um valor cifrado, quer seja taxa, score, desempenho ou parte do mercado, é qualquer coisa de espantoso. É esta ilusão económica que esterilizou a política? Ou a política é de tal maneira estéril, que nada mais resta senão o económico? Em qualquer dos casos, há por aqui um círculo vicioso que fez com que os nossos políticos se tornassem contabilistas. Fizeram-me viver uma adolescência política e agora querem que eu tenha uma velhice económica. Isto faz-me rir, e também chorar um pouco. Porque é uma mudança radical de referências.

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