Eu poderia, com discrição e modéstia, simplesmente calar-me. Mas não consigo. É que há visitas que me desvanecem e o meu orgulho cresce, desmedido. E tenho que espalhar o facto aos quatro ventos.
Então, não é que o Arpose foi hoje visitado, às 14h48, nada menos do que pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna?! Que veio, direitinha, ao poste: Meter o Rossio na Betesga, de 31 de Agosto de 2011. Em boa hora o pus, e aqui biso a imagem.
Convivo mal com a estatuária portuguesa actual. E tenho que recuar largos anos para encontrar algumas esculturas de que gosto, normalmente figurativas, sendo que duas ou três são de João Cutileiro (1937). O problema será porventura meu que, não sendo especialista, me guio apenas pelo meu subjectivo gosto estético, faltando-me, talvez, o acompanhamento teórico e crítico de suporte para o que se vai esculpindo pelo país.
A permanência durante uma semana na zona de Inverness Terrace (Bayswater, Londres), levou-me a passar quase todos os dias por um busto muito interessante, de expressão determinada e de boa execução escultórica, pelos meus padrões estéticos. O nome do retratado, Skanderbeg, nada me dizia e, displicentemente, imaginei-o como sendo de algum Viquingue nórdico que, por razões históricas, estivesse ligado à Grã-Bretanha.
O nome do escultor, Kreshnik Xhiku (1958), apesar de me soar a oriental, também nada me dizia. Mas o busto continuou a pairar na minha memória visual, persistentemente lembrado. E resolvi esclarecer a sua razão de ser e origens. Skanderbeg é afinal o grande herói albanês Jorge Castrioto (1405-1468), que foi também conhecido em Portugal e celebrado pelo historiador e cronista Francisco de Andrade (1540-1614), em livro (Crónica do valeroso Príncipe, e invencível capitão Castrioto) traduzido, de 1567. Jorge Castrioto defendeu a independência da Albânia, contra os turcos.
O busto de Skanderbeg foi executado pelo escultor albanês Kreshnik Xhiku, que reside presentemente nos Estados Unidos, e que já tinha esculpido uma estátua equestre, muito interessante, de Jorge Castrioto em Michigan, inaugurada em 2006. O busto de Inverness Terrace foi instalado, para celebrar o centenário da restauração da independência albanesa, em 2012.
Li há dias, com surpresa agradável, uma sugestão curiosa de um autor (?), que defendia a hipótese de, ao contrário de levar, para uma ilha deserta, os dez livros canónicos e preferidos, se devia antes levar um bom dicionário. Isso pouparia o intrépido robinson crusoé a emoções excessivas, impossíveis de partilhar, permitindo, no entanto, um enriquecimento vocabular extraordinário. Que talvez pudesse vir a ser de grande utilidade no futuro, caso o náufrago viesse a ser resgatado. Se isso, porventura, não viesse a acontecer, todo esse léxico, porém, viria a morrer com ele.
E não é isso o que acontece com todos e cada um de nós?
Entretanto, poupar-se-ia a presunção da escolha dos tais 10 livros, para deslumbramento dos incautos...
Eu sempre vi este quebra-nozes, como um leão metálico e quase cubista... Desde infância que o imaginava assim, já com mais de 60 anos na minha memória, na sua pragmática de adereços úteis, na sala de jantar vimaranense. Creio que a minha Mãe o terá comprado numa das suas idas ao Porto.
Ora, a HMJ atribuiu-lhe, e bem, a personificação de um cão, e eu tive de retocar a ideia que tinha, enraizadíssima nos anos que passaram. Em prol da verdade.
Pois, ontem, comemos as primeiras nozes. Como já me estreei, duas ou três vezes nos diospiros*, que estão óptimos. Faltam as castanhas e as romãs para completar o périplo dos frutos de Outono, cá por casa. Mas ainda vamos a tempo...
* não é gralha, continuo a grafar diospiro, por teimosia e como aprendi.
É um facto triste da nossa cultura que um poeta possa ganhar muito mais dinheiro ao escrever ou falar acerca da sua arte do que a praticá-la. Todos os poemas que eu escrevi, foram escritos por amor; naturalmente, quando acabava de escrever um, procurava publicá-lo e comercializá-lo, mas a perspectiva desse comércio não desempenhava qualquer papel no acto da escrita.
W. H. Auden (1907-1973), no prefácio a The Dyer's Hand (2012).
Por associação, muito subjectiva e intricada, lembrei-me há pouco deste quadro de Henri Matisse (1869-1954), The Open Door, Britain, que o artista pintou em 1896.
A tela não constava da mostra que eu vi em Londres. Mas, hoje de manhã, no Escritório, perante um céu azul, com poucas nuvens, hesitei se havia de abrir a janela de par em par, ou deixá-la fechada.
Optei pelo meio termo, receando a chuva repentina...
Exemplares clássicos da traça e design publicitário que se praticava em Portugal, nos anos 60, estes dois anúncios só se desactualizaram (?) por uma certa ingenuidade do texto que os acompanhava, no reforço das imagens de marca.
Para a chegada da chuva.
Intitulada "Chegada da rainha do Sabá", esta entrada vem de encontro ao regresso da chuva.
Até porque, ontem, e em Lisboa, apanhei uma molha de todo o tamanho... Que seja por bem!
E, cumulativamente, dedico esta alegre peça musical à Margarida Elias, que faz anos hoje!
Com os anos, vamos sendo mais frugais. Vamos sendo mais discretos e comedidos, deixando de ter mais olhos do que barriga - como diz o provérbio, aconselhadamente. Inscrevem-se neste aspecto os livros a ler, as coisas por fazer, os países a visitar, os filmes a não perder, os quadros que queremos ainda ver... Mas um dos aspectos secundários, que me levou a Londres, era ver, realmente, na Royal Academy of Arts, a exposição Matisse in the Studio, aberta até 12/11/2017. E vi-a.
Por alturas do início da II Grande Guerra e posterior ocupação nazi de parte da França, houve, pelo menos, dois pintores que se deslocaram para fora de Paris, vindo a usar outra residência. Henri Matisse (1869-1954), que já habitava Nice desde 1917, episodicamente, por uma questão de tranquilidade criativa, provavelmente, e Chaim Soutine (1893-1943), de origem judaica, por questões de segurança física. Ambos tiveram, também, problemas de saúde, graves, por essa altura, no início dos anos 40.
Curiosamente, na sequência da mostra de Matisse, na Royal Academy (Londres), seguia-se uma exposição de Soutine, que eu já não tive oportunidade de visitar, infelizmente. Sendo, como é, um dos meus pintores europeus preferidos.
Soutine, em 1943, na sequência do rebentamento de uma úlcera de estômago, foi transportado, em condições urgentes e adversas, para Paris, onde veio a falecer, pouco depois. Matisse teve mais sorte. Levado de Nice para Lyon, foi operado, de urgência, a um tumor no duodeno, e apesar de muito fragilizado, sobreviveu. Esteve algum tempo acamado e foi durante esse tempo, na impossibilidade de pintar, que começou a recortar pedaços de papel colorido, e intensificou o seu período inovador e pioneiro de colagens, que tinha iniciado de forma incipiente, nos anos 30.
A exposição de Matisse, que ocupa algumas salas da Royal Academy, é muito coesa e, sobretudo, intimista na sua sobriedade. E a existência de objectos domésticos cria uma envolvência muito peculiar, de outro tempo, e de interior, que quase nos faz esquecer que estamos numa galeria pública. Reconstitui parte do ambiente do seu estúdio: as obras preferidas do Pintor e de que ele nunca se quis separar, um bela cadeira veneziana que comprou, fascinado, duas cafeteiras antigas, uma das quais oferecida como presente de casamento, colagens, têxteis norte-africanos, alguns objectos de uso pessoal, e um pequeno acervo de esculturas africanas do Mali. Além dos quadros.
Gostei muito de ver a mostra. E, para concluir, devo dizer que valeu a pena, apesar das 13 libras que esportulei pelo ingresso. Que os ingleses são austeros, e só descontam 1 libra para quem é sénior...
A fotógrafa norte-americana, de ascendência francesa, Vivian Maier (1926-2009), levou uma existência apagada, com empregos diversos e indiferenciados, nunca chegando a expor, em vida, obras suas. Discreta ou tímida, provavelmente pouco confiante na qualidade das suas fotos, até uma boa parte dos seus auto-retratos foram tirados indirectamente, muitos deles por reflexão do seu corpo em espelhos.
Captava cenas de rua, banais, fixando gente anónima e sem história, mas também, dissimuladamente, se juntava a paparazzi, na esperança de fixar um instantâneo de celebridades que iriam aparecer. Como foi o caso de um retrato de Salvador Dali, que veio a ser descoberto no seu espólio, composto por milhares de fotografias e filmes, muitos dos quais não tinham sequer sido revelados, e que apareceram, depois da sua morte, armazenados em caixas de cartão.
Pressionada por dificuldades financeiras, Vivian Maier, em 2007, vendeu uma parte do seu acervo fotográfico, que foi adquirido pelo coleccionador John Maloof. Foi este que primeiro reconheceu a qualidade artística do seu trabalho e o divulgou. Mas só após o seu falecimento, e com a descoberta do enorme acervo da fotógrafa, lhe foram consagradas algumas exposições e a fama estética lhe foi atribuída, mais do que merecidamente.
Aquele aroma inesperado a morte,
esse cheiro a soldado sem nome nem família,
legando aos formigueiros da terra
talvez o melhor traje da sua vida,
de à beira de um olmo me levou
para muito longe do sabor da minha amiga.
Rafael Alberti, in Entre el clavel y la espada (pg. 97).
Nota pessoal: a capa, em imagem e muito danificada, pertence ao meu exemplar da primeira edição (1941). O livro, de bom apuro gráfico, contém vários desenhos (surrealistas) do Poeta.
1. Novembro à porta, gado na horta.
2. Se em Novembro ouvires o trovão, o ano será bom.
3. Em Novembro põe tudo a secar, que pode o Sol não voltar.
4. Do S. Martinho (11) ao Natal, o médico e o boticário enchem o bornal.
Paulatinamente, creio que desde meados de Julho deste ano, tenho vindo a ler este diário (em imagem de capa) do escritor alemão Ernst Jünger (1895-1998). Faltam-me agora cerca de dez páginas para concluir a sua leitura. O livro, cuja maior parte é constituído por anotações feitas durante a sua estadia em França, na sua terça parte final completa-se com apontamentos feitos no Cáucaso, para onde, como oficial alemão foi deslocado, a partir de 24 de Outubro de 1942. Há 75 anos, portanto.
Da leveza e elegância dos dias parisienses, com frequência dos meios intelectuais, as palavras de Jünger, escritas no Cáucaso, vão adquirindo, gradualmente, um peso e um pessismo ontológico decorrente dos mais raros contactos humanos, quase só consignados aos colegas militares e ao povo rural da região. Agravando-se as reflexões do escritor alemão pela morte do pai, o começo da retirada germânica desta zona ocupada e pelo pressentimento objectivo da derrota alemã, na II Grande Guerra.
E o curioso é que também o meu ritmo de leitura do livro se foi alterando. Nas páginas do diário de Paris, terei feito uma leitura normal, como é costume. Ao início do texto escrito na Rússia, por Ernst Jünger, a leitura foi mais lenta e morosa; sendo que estas últimas páginas, de maior tensão e dramatismo, naturalmente, me fizeram acelerar o ritmo de leitura... Mas não para acabar o livro mais depressa.
É apenas a constatação dos factos, objectiva. Embora vá reflectir sobre isso.
Será inaugurada no próximo dia 2 de Novembro, uma mostra do norte-americano Paul Kohl, integrada no Mês da Fotografia da Câmara Municipal de Almada. O fotógrafo é professor visitante da universidade de Nanyang (Japão), mas já fez várias exposições em Portugal. A mostra, na Galeria Municipal de Almada, estará patente ao público até 20 de Janeiro de 2018.
Contemporâneo e amigo de Rembrandt, o pintor holandês Hercules Segers (1589-1638), filho de pais flamengos emigrados, teve algum sucesso profissional, em vida, mas, depois, a sua obra foi esquecida. Principalmente, porque não pintou muitos quadros, embora a sua obra gráfica seja extensa. Ele próprio comercializava os seus trabalhos, directamente. Mas muito do papel das suas gravuras, na sua fase de apagamento, acabou por servir para embrulhar sabão, pimenta, peixe, manteiga e outros produtos de alimentação... Sobreviveram, no entanto, cerca de duas centenas de obras.
As suas poucas telas espelham horizontes rasos e limpos, a perder de vista, nimbados, quase sempre, por uma luz crepuscular.
No final do século XX, a sua obra foi redescoberta e o talento, que lhe era próprio, reconhecido. É hoje considerado, por grande parte dos críticos de arte europeus, como um inovador, sobretudo pelas suas gravuras muito singulares, que antecipam a modernidade.
Mas também pela sua perspectiva visual das paisagens e por uma atenção muito própria às coisas da Natureza. Representado no Rijksmuseum (Amsterdão), Hercules Segers foi objecto de uma exposição recente no Metropolitan Museum, de Nova Iorque.
1. Alagosto - glutão.
2. Alancado - caído.
3. Alavão - gado (ovelhas) de criação.
4. Alcatruz - brinquedo de crianças feito de pau de sabugueiro.
5. Amacachos - nome que, em Segura, dão aos sapos.
6. Amojo - úbere do animal que dá leite.
Pois é, amanhã já a noite cairá mais cedo e a luz se há-de ir, pouco depois das 18h00...
Que, esta noite, pela madrugada, os relógios serão atrasados das 2h00 para a 1h00.
Boas notícias para os dorminhocos: sempre podem descansar mais uma hora.
Embora a edição de livros, na Grã-Bretanha, continue florescente, confesso que tive dificuldade, no que diz respeito a livros novos, em encontrar alguns clássicos ingleses. Por exemplo, a obra ensaística de W. H. Auden. E muito menos os encontraria na loja-livraria da British Library. Que, sendo agradável, privilegiava sobretudo a literatura infanto-juvenil e a temática policial na sua exposição e acervo. De lá trouxe estes 2 marcadores e posso informar que a colecção policial promovida e editada pela BL conta já com várias centenas de títulos...
Ouvido num check-in da TAP, no aeroporto Humberto Delgado, aqui há alguns dias atrás:
- Tenho a dar-lhe uma má notícia... Está em lista de espera e não sei se será possível embarcar neste voo...
- Não me diga que a TAP também faz overbooking!? Era o que me faltava!
- Acontece e lamento, mas eu sou apenas o mensageiro.
- Pois é, mas o mensageiro é que costuma levar, normalmente, nas trombas.
- Olhe que você está a ofender-me...
Viemos a saber, mais tarde, que, presentemente, quase todas as companhias aéreas estão a fazer overbooking com cerca de 10% dos passageiros inscritos, excepto no que diz respeito àqueles que pagaram pela classe executive.
Acabou-se o tempo em que as grandes instituições (bancos, multinacionais, companhias aéreas...) tinham, com os utentes, uma ligação de honesta seriedade, confiança e lisura. A desregulação selvagem, feita de um capitalismo sem regras, começou pela Banca e seus colapsos fraudulentos, para contagiar rapidamente as grandes empresas na sua relação com os clientes. Veja-se a Ryanair, a Air Berlin, por exemplo, no que ao transporte aéreo diz respeito. E os governos ou a UE nada fazem, a não ser declarações inócuas e patéticas de intenção.
Não posso deixar de referir que a organização de serviço no aeroporto de Heathrow (Londres) era absolutamente caótica. Se não tivemos a ameaça do overbooking, no entanto, fomos metidos, à última da hora, num voo anterior àquele em que tinhamos reserva, no regresso para Portugal. Com 2 horas de antecedência - ambos voos da TAP. As nossas correrias tiveram que ser mais que muitas, para além do stress decorrente...
Não se deve subestimar o lado Kitsch da cultura inglesa, paralelo a um elevado índice cultural da sua elite intelectual que, talvez, só encontre correspondência europeia na Alemanha e na França. Para além de um apurado sentido crítico, pouco desenvolvido nos países do Sul da Europa.
Perto da London Bridge e à saída da Victoria Station, dois jovens e uma rapariga distribuíam, aos passantes, folhetos apelativos para que visitassem The UK's Scariest Experience, instalada num rés-do-chão engalanado, por fora, na melhor tradição da parafernália barroca do Harry Potter.
Alguns pais iam entrando, com as suas criancinhas, para essa versão popularuncha, e talvez mais barata, do Museu de Cera de Madame Tussaud. Ou para essa sessão do que eu consideraria a versão malsã das Disneilândias que pululam por toda a nossa Europa de fantasias... Ou ainda para esses Halloween de importação clonada que, dentro de dias, todas as Escolas portuguesas irão celebrar, através das suas criancinhas ingénuas e mascaradas.
E viva a festa!, que o show must go on...