segunda-feira, 4 de julho de 2016

Apontamento 81: Venturas e desventuras de uma hortelã citadina


Ora, como bem se lembram, estávamos à espera de um valente aboboral, transformando até o meu escadote em suporte para as ditas abóboras à medida que iam crescendo. Iam, bem dito, porque até ao momento não se safou nenhuma !



No entanto, ficou-nos o belo espectáculo das flores que ainda vão abrindo. Ao fim do dia murcham e passados dois dias caem. Ao que parece, são masculinas e não dão fruto. São segredos da natureza que não sei resolver.

Como este ano tem sido pródigo, também ficámos com uma boa colheita de beldroegas no vaso da roseira que, infelizmente, morreu. Ora vejam !



O tamanho das beldroegas inspirou a gula e lá fomos nós consultar, novamente, a receita da sopa. Tudo comprado e tudo preparado foi, então, hoje o dia em que o almoço servido veio, na substância, da nossa horta caseira.



 Post de HMJ

arte menor (25)


Epigrama


Dareis as pérolas
aos porcos, que julgarão
serem bagos de uvas.

Ávidos, vorazes
engolirão as pérolas.
Que hão-de, no futuro,

dar melhores presuntos. 


Sb., 30/6/2016.

Tuxedomoon : "Muchos Colores"


pelo cânone e para ms.

domingo, 3 de julho de 2016

Mercearias Finas 114


Por uma vez, não falarei de viandas cozinhadas, que o fim da tarde ainda está tórrido, no ar. Apraz-me entrar na cozinha e ver o melão aberto ressumando frescura, as cerejas luzidias, os figos de pingo na ponta, as laranjas, é certo que um pouco retraídas, os morangos rútilos, o pêssego maduro... E é por aí que me vou servir, no lanche ajantarado que apetece.
Remato, ao de cima, com uma bela natureza morta de George Lance (1802-1864), que me traz, virtuais, as uvas e as framboesas que me faltam para ser feliz.

Cesar Vallejo (Peru, 1892 - 1938, Paris)


Margens do Gelo


Venho ver-te passar todos os dias
vaporzinho encantado sempre longe...
Teus olhos são dois rubros capitães;
teu lábio um vermelho e breve lenço
acenando sempre um adeus de sangue!

Venho ver-te passar; até que um dia
ébria de tempo e crueldade,
vaporzinho encantado sempre longe,
a estrela da tarde há-de partir!

As enxárcias; ventos que atraiçoam;
ventos de mulher que já passou!
Os teus frios capitães hão-de dar ordens;
E quem terá partido serei eu!...


Cesar Vallejo (1892-1938).

sábado, 2 de julho de 2016

Uma louvável iniciativa (53)


Se o tema desta série de pacotinhos de açúcar (Descubra o que é nosso) me parece interessante, à partida, a sua concretização prática julgo que ficou aquém - como diria Mário de Sá-Carneiro...
Redutora, em absoluto, e composta por apenas  três motivos de que aqui se apresentam 2: o Fado e, provavelmente, o Eléctrico (28?). Ou será o café, na mesa do casal, ou o açúcar?
Ao pôr de pé a ideia, a Tofa falhou, totalmente, na sua concretização. Ou, como se costumava dizer na tropa: borregou  por completo.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Comic Relief (127)


Para quem gostar de cães...

Gato por lebre


Andam por aí, na net, uns blogues de aparentes leitores fervorosos e dedicados, elogiando livros. Por vezes, até têm fotografia dos (das) testas de ferro, que fazem este serviço disfarçado, mercenário e um pouco sujo, a troco duns trocos. Ou recebendo, em paga, uns livritos de refugo, que as editoras não vendem e pensam vir a guilhotinar. Essas pessoas são apenas o braço armado, na net, de algumas editoras pouco escrupulosas. Depois, e acriticamente, essa gentinha vil faz umas observações sobre as obras, às vezes retiradas das badanas, e/ou, normalmente, de muito má qualidade crítica e literária, como as costureiras costumam fazer remendos nas meias puídas. O pior é que algumas almas simples, que também por aí andam, acreditam na bondade e pureza destas informações e lá vão comprando esses livros de refugo.
Já não nos bastavam os publicistas travestidos de escritores!...

José Saramago a Carlos Reis, com alguma ironia


Eu escrevi há anos um prefácio para uma exposição de retratos de Fernando Pessoa, prefácio que eu aliás meti nos "Cadernos de Lanzarote" este ano, e chamei-lhe "Da impossibilidade deste retrato". A certa altura digo, de Pessoa e também de Camões, que eles vão a caminho da invisibilidade. O Camões transformou-se numa coroa de louros e num olho fechado; e o Fernando Pessoa é um chapéu, uns óculos e um bigode. Vão a caminho da invisibilidade. E é assim que falamos de grandes autores porque sim, porque são grandes autores; mas isso não implica que estejam a ser lidos.

Nota: a citação acima foi colhida na obra Carlos Reis/ Diálogos com/ José Saramago (Caminho, 1998). Livro que recomendo, vivamente.

Ólafur Arnalds : "Remember"

Adagiário CCLV : Julho (7)


1. Em Julho, boi no debulho.
2. Julho passado sempre foi melhor.
3. Pelo S. Tiago (25), cada pinga vale um cruzado.
4. Quem em Julho frio tiver, tem o juízo a arder.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Uma fotografia, de vez em quando (84)


Tendo a encadernação como sua profissão inicial, o checo Joseph Sudek (1986-1976) cedo a abandonou por, no decurso da I Grande Guerra (1916), ter sido ferido com gravidade no braço direito, que veio a ser-lhe amputado. E porque lhe ofereceram uma máquina, começou a interessar-se, cada vez mais intensamente, pela fotografia. A sua vasta obra é de grande qualidade, muito embora a sua temática predominante seja, insistentemente, a cidade de Praga. De tal modo, que ainda hoje o recordam, afectuosamente, como o Poeta de Praga. A série da reconstrução da Catedral de S. Vito, em Praga, é um dos conjuntos mais bem sucedidos da sua obra fotográfica, em que a luz coada cria uma poalha fantasmática muito singular e aparentemente misteriosa.






Joseph Sudek terá sido sempre um homem tímido, discreto e modesto. Conta-se que, na inauguração das suas exposições (e teve muitas), raramente aparecia. Gostava de expor a sua obra, mas não gostava de se expor...

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Ver melhor


Quando eu era pequenino, lembro-me que praticamente só usava óculos de sol, na praia.
A meio da minha idade, alguém que vivera em África, onde eu nunca estivera, ensinou-me duas coisas: que os nativos raramente dispensavam o uso desse adereço, mesmo que chovesse; e que um negro de cabelos brancos era, forçosamente, muito velho - duas coisas que nunca mais esqueci. 
Com o tempo e a globalização, habituei-me a ver excessivamente as pessoas mais diversas a usarem óculos de sol, estivesse o tempo que estivesse. E dava-me a pensar comigo: devem ver o mundo ainda mais negro do que ele é, na realidade... Mas, por outro lado, dizia: isto é óptimo para as lojas de óptica! E para os ciganos que os vendem pela rua, contrafeitos.
Ora, logo pela manhãzinha, HMJ contou-me uma história divertida, que me pôs bem disposto. Como Lisboa, e embora há muito mais tempo, Colónia (Alemanha) tem muitos turistas. Que se dirigem, invariavelmente, para ver a Catedral, como, na capital portuguesa, têm de, obrigatoriamente, viajar no eléctrico 28 ou subir, em rebanho acarneirado, ao elevador de Sta. Justa. Todos lêem pela mesma cartilha, acefalamente. Quantos deles irão, em contrapartida, ao MNAA? Porque ao Museu dos Coches vão eles: reza da cartilha globalizante...
Pois bem, o Deão da Catedral de Colónia estava a receber muitas reclamações de turistas, sempre pelo mesmo motivo: que a Catedral estava muito mal iluminada. O Deão acabou por responder-lhes, em entrevista: "Quando entrarem na Catedral, tirem os óculos escuros!" 

terça-feira, 28 de junho de 2016

Philip Glass : da Suite para piano "Orfeu"

Osmose 84


Quase todos nos consideramos normais, excepto os génios e todos aqueles que nem sequer sabem pensar sobre isso. São os felizes que, como a Bíblia prescreve, hão-de alcançar, em beatitude, o reino dos céus.
Mas as visões existem. De um modo subjectivo e individual que, por força da veemência emocional (a montante) pode atingir e contagiar o colectivo, de forma irracional, a jusante (Lourdes, Fátima...).
Daí, eu estar de acordo, à partida, com a classificação que Jeffrey A. Lieberman atribui a Freud, pela sua activa contribuição pioneira nos domínios da psiquiatria:
... a tragic visionary far ahead of his time (...) simultaneously, psychiatry's greatest hero and its most calamitous rogue.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Apontamento 80: Um galerista fala sobre a Arte e os Artistas


Jörg Johnen, galerista em Berlim e que iniciou a sua carreira, em 1984, em Colónia, Alemanha, deu, recentemente, uma entrevista ao jornal DIE ZEIT, tecendo considerações sobre o estado actual da Arte e dos Artistas.

A sua visão crítica, num olhar de despedida sobre a sua carreira, não engrandece a Arte, nem abona nada sobre a maioria dos Artistas.

Johnen sublinha que uma recepção intelectual da Arte foi substituída por fenómenos como a “posse”, a “auto-representação” e o “glamour”, tornando-se duvidoso o caminho dos Artistas que seguem esta “pista do capital” de coleccionadores endinheirados.

O galerista, mantendo-se fiel a alguns, poucos, artistas, confessa-se cansado de uma arte contemporânea feita de “cliques de rato”, “junções artesanais” de “corte e costura”. No fim, fala de um dos seus Artistas que ele considera pela espiritualidade, mas que não consegue ter o êxito merecido pela timidez e modéstia, características tão fora do mundo actual.


 Post de HMJ

Da Holanda, em particular


Não é sequer dos meus escritores policiais preferidos, mas o inglês Nicolas Freeling (1927-2003) rodeava de ingredientes muito interessantes as obras que tinham o inspector holandês Van der Valk como protagonista central. Falava dos costumes, de gastronomia, do ambiente paisagístico holandês, com à vontade e propriedade. Talvez porque, apesar de britânico, vivera na Holanda, casara com uma holandesa e tinha uma avó dessa mesma naturalidade, com o apelido Vierling.
O livro (em imagem) que acabei, ontem, de ler, "Na pista do crime" (Sand Castles, 1989), foi o último que Freeling escreveu da série de Van der Valk que foi  adaptada pela BBC, em televisão. Comprei-o numa abada de Vampiros, que adquiri, usados, no Montijo, algumas semanas atrás, por 1 euro cada. São várias, nesta obra acima referida, as referências aos holandeses, e bem curiosas. Por isso, vou proceder a algumas transcrições:

" Os holandeses são democratas: quando tratam alguém por Meneer estão a ser sarcásticos. Como por exemplo: «Meneer, não se importava, por favor, de retirar a ponta da sua bengala de caça de cima do meu dedo do pé?" (pg. 8)
" O quarto de casal dava para o mar. Tal como todos os quartos holandeses era mal ventilado e sobreaquecido." (pg. 14)
" Os holandeses não são dotados para as artes culinárias. Falta-lhes o instinto que os belgas tão bem possuem (quando se deixam persuadir a cozinhar os seus pratos típicos). (pg. 15)
" Primeiro, a paixão dos holandeses pela luz eléctrica; as ruas podiam não estar mais iluminadas do que uma aldeia remota do Texas, mas no interior de uma sala de estar de doze metros quadrados, era vulgar encontrarem-se dez lâmpadas acesas." (pg. 17)

para a Sandra, no seu "Presépio com Vista para o Canal", que, com propriedade e conhecimento de causa, poderá apoiar ou refutar estas insinuações..:-)

Revivalismo Ligeiro CCXXXIII


domingo, 26 de junho de 2016

Desabafo (13)


Vai sendo sistemático, repetitivo, corriqueiro, banal. Os jornalistas ouvem os vizinhos e amigos do assassino ou do autor do massacre, e estes dizem: "Ele até era educado, discreto, sossegado... Nada fazia prever isto!" Os jornalistas ouvem os pais, os irmãos, a família, enfim, e sai o estereótipo: "Nunca pensei...Fiquei em estado de choque (ou: "estou devastado", que se usa muito, hoje em dia, sobretudo nas revistas róseas...)!" Depois, vêm os psicólogos (lobby muito importante e essencial, actualmente, nestas coisas) explicar ou, então, dar apoio psicológico aos familiares das vítimas. É esta a rede assistencial e clientelar dos acidentes ou desastres - os suspeitos do costume. Mais a gentinha que, no local fatídico ou simbólico, vem pôr inúmeros ramos de flores, cartazes e velinhas acesas - uma espécie de indústria caseira de caridade, que os meios de informação aproveitam para fotografar ou filmar. Porque tem colorido, emociona as almas simples, apaga remorsos, e faz vender jornais...
Quando é que isto terá começado? E será que algum dia irá acabar? Dando lugar ao silêncio, à discrição, à compassividade interior de cada um e sem o mínimo folclore exibicionista.

Citações CCXC


O mau gosto é um gosto autêntico, evidentemente, e o bom gosto é o resíduo do privilégio de alguns.

Dave Hickey (1940), in Art Guitar: Essays on Art and Democracy.

sábado, 25 de junho de 2016

O romance da coxinha


Estes avisos funestos que, agora, aparecem nos maços de tabaco, fazem-me lembrar as novelas Tide radiofónicas dos anos 50/60 portugueses. Pela sua iconografia quitche, paupérrima de imaginação, pueril, emocionalmente primária, que foi gerada pelos apparatchik da CEE, e por eles imposta que constassem nas embalagens de cigarros europeus. Bem fizeram os britânicos em querer sair deste navio de tolos, que mete água por todos os lados...
Quanto à vertente imagem piedosa, que encima o poste, gostei que tivessem ressuscitado a saudosa Lady Di, travestida de mãe inconsolável. Mas, por outro lado, fiquei desconfiado. E muito! Não será isto uma forma ardilosa e uma alternativa encapotada para publicitar a interrupção voluntária da gravidez? Ora, cuidem-se!...

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Ludovico Einaudi

Esboço premonitório ou projecto em jeito de fábula


Era no tempo em que tudo parecia poder vir a acontecer. E ainda não havia a CEE...
Sentado frente à janela da sala de jantar, eu via as metamorfoses vertiginosas das nuvens. Porque elas têm, em si, uma capacidade de sugestão e engano infinitos. E são como um pintor que desenha, mas nunca está satisfeito com o que faz. E vai apagando.
Devia ser Junho. Um Junho não muito definido, que ameaçasse chuva ou trovoadas. E, nessa altura, eu gostava muito de Geografia: aqueles mapas coloridos dos países, os riscos a negro dos rios, o castanho macio das montanhas. A princípio, nas nuvens em frente, começaram a aparecer-me os contornos nítidos da Grã-Bretanha; mas logo, e pouco depois, desenharam-se os limites mais pequenos da ilha de Chipre. Cinco minutos após, as nuvens eram apenas um ponto, como se fora, ao Sul de Espanha, o minúsculo protectorado de Gibraltar.
Que se desvaneceu da minha visão, como por encanto quase de imediato, e eu voltei, de novo, à realidade. E pensei que devia ter ido chover para outro lado...

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O grande EfE


Já lhes chamaram os Magriços, e portaram-se bem, numa altura em que não havia inflação nem exagero nas previsões, antes modéstia e prudência objectiva.
Hoje, que há falta de melhor pretexto para a auto-estima nacional, os comentaristas residentes e mercenários desdobram-se em elogios e em ais Jesus! nas antevisões oníricas e parvas sobre a selecção nacional.
Ora, parece-me que os antigos Magriços se transformaram, agora, nos novos Empatas...
Mas também quem nos obriga a pôr o destino da nossa alegria nos pés de 11 criaturas?

A par e passo 169


O pensamento é, em suma, o trabalho que faz viver em nós aquilo que não existe, que lhe empresta, queiramos ou não, as nossas forças actuais, que nos faz tomar a parte pelo todo, a imagem pela realidade, e que nos dá a ilusão de ver, de agir, de experimentar, de possuir independentemente do nosso velho e querido corpo, que nós deixámos, com o seu cigarro, na cadeira, esperando retomá-lo bruscamente, se o telefone tocar, ou por ordem, mais prosaica, do nosso estômago que reclama algum subsídio nutritivo...

Paul Valéry, in Variété V (pg. 169).

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Da antiga Porcalhota (Amadora)


É pelos antigos, quase sempre, que nós descobrimos coisas novas para enriquecer a nossa sabedoria. Da Amadora, que fora Porcalhota até 1907, sabia eu. E não era novidade que o nome sujava o brio dos seus moradores, para lhe quererem mudar o seu topónimo para coisa mais asseada...
Mas, porquê Porcalhota?
Pois fui encontrar a explicação em Aldeia, de Aquilino Ribeiro (1885-1963), de forma muito linear, lógica e compreensiva. Aqui ficam, por isso, as palavras do Mestre:
"... Em pecuária se cifrava a primeira riqueza da aldeia. Numa parte da serra, comunal desde a pedra de arranque ao mato galego, pastava o gado lanígero, na outra os suínos. Chamava-se dar porcos ao fintão, confiá-los a tanto por cabeça a um guardão que todas as manhãs vinha, tangia a sua corna de chifre, e abalava com as varas para o monte. No século XVIII ainda se usavam tais contratos nos arredores de Lisboa; daí Porcalhota, pastagem dos ditos. ..."

Abóboras (bis)


E vão três...
Para já são apenas flores. Esplendorosamente amarelas, ao Sol. Não imagino no que irão dar, só faço votos para que sejam maneirinhas, mas saudáveis se vierem a desabrochar em fruto...

Adagiário CCLIV


Aos seis meses assenta, aos sete adenta, ao ano andante e aos dois falante.

W. A. Mozart / Teresa Berganza