segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Produtos Nacionais 20


Em matéria de bolos, o meu gosto é sazonal, nunca fui compulsivo. Nem me colo às montras das pastelarias, de olhos esbugalhados, em transe de baba e gula...
Mas, este fim-de-semana, lá comprei e comi um Jesuíta. Não dos originais (Confeitaria Moura - Santo Tirso): este, que comprei, era desnaturadamente alfacinha, pobrezinho, embora até tivesse amêndoa laminada torrada, por cima, desvirtuando a receita tradicional, mais sóbria, de massa folhada, com cobertura de açúcar e claras, estratificada e acastanhada, quebradiça.
A sua origem, no norte de Portugal, é recente. Parece que de finais do século XIX, e terá sido criação de um pasteleiro (de Bilbau?) espanhol, que se fixou em Santo Tirso, e lá abriu loja. Inspirando-se, talvez, nos Jesuítas do celebrado Colégio das Caldinhas, ali bem perto, e nos seus antigos chapéus, deu aos bolos o formato singular, que ainda hoje conhecemos e os identifica.
Sobre a excelência deste bolo, quando original, uma pequena história comprovativa. Há cerca de 2 anos, em viagem de Guimarães para o Porto, eu e um amigo, parámos em Santo Tirso, para tomar um café. Eu quis comprar dúzia e meia de Jesuítas, para oferecer à dona de casa, que me aboletava, por uns dias, na Invicta. O meu amigo dissuadiu-me, dizendo, que os três não conseguiríamos dar conta de tanto bolo, lá em casa. Acabei por comprar apenas 6. Que desapareceram, até à noite, nesse mesmo dia...

domingo, 9 de agosto de 2015

Impromptu (18)


"É melhor não tentarmos entrar em contacto com os extra-terrestres! Porque se eles nos visitassem, poderíamos deparar-nos com uma situação catastrófica, muito semelhante à dos Índios, quando Cristovão Colombo desembarcou na América!"

Stephen Hawking (1942), numa declaração, no ano de 2010.

arte menor (21)

Poema-colagem (2)


Revivalismo Ligeiro CXIV

Florindo (2)


Quase uma epifania. E apenas seis, dos treze casulos verdes, se abriram ao Sol de Agosto. Mas há mais dois brotos, pejados e tensos, que devem romper ainda hoje. Da extrema beleza, é sempre difícil falar. Pergunto-me apenas, numa metafísica vegetal, se a primeira e mais velha das orquídeas conseguirá viver até que a última, fraternalmente, venha a florescer.

Da leitura (3)


Do último TLS (nº 5861), traduzido de uma recensão de Anne Magurran:

"...Mas é irónico que as conchas sejam, não apenas o símbolo da oração e peregrinação religiosa, mas também façam parte da identidade (logotipo) de companhias multinacionais cujas actividades pesam e podem comprometer o seu futuro. ..."

sábado, 8 de agosto de 2015

A propósito de Kierkegaard


"... o prazer de não compreender. A alegria de não compreender é aquilo que nos atrai, simultaneamente, na filosofia e na religião. ..."

Vincent Delecroix (1969), em entrevista a L'Obs (nº 2648).

Osmose (55)


Perguntava-se o porquê daquela restrição e fascínio pela música minimalista de Glass, de Mertens... Esses estribilhos contínuos, como um refrão repetitivo e obsessivo. Quase sempre previsível.
Talvez a fuga ao desconforto da novidade, evitando as surpresas - os círculos fechados da velhice. Ou, antes, a concentração do essencial. Ou, ainda, as histórias que os velhos vão contando, interminavelmente. 

De Lisboa, em tempo de guerra, pequeno excerto de carta familiar


"...Aqui no Hotel estão quase só estrangeiros, parecendo estar num país estranho, pois as pessoas que me rodeam são de origem Alemã, Inglesa, Olandesa e Americana, parte d'estas famílias são expatriados que estavam na America do Sul como diplomatas e aguardam oportunidade para seguirem para as suas nacionalidades em troca de outros. ..."

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Hildegard Knef / Jacques Brel


Não será melhor, esta versão de Hildegard Knef, da Amesterdão de Brel - é diferente. Mas não lhe falta qualidade...

Divagações 94


Li algures, há pouco tempo, que a verdadeira, a grande literatura, ou a arte maior, não nos deixa indiferentes, faz mal, como um caminho pedregoso que percorremos, descalços. Interroga-nos, agride-nos, deixa marca. Coetzee? Céline? Rimbaud? Herberto Helder? Talvez. Que o resto, é paisagem, papinha doce, água chilra ou benta, que nos santifica. E faz seguir, descansados...

Para umas memórias genealógicas vimaranenses


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Curiosidades 46


Alijar responsabilidades, ou deslocalizar para outras paragens o pecado original do nascimento, parece ter sido, sempre, uma preocupação humana.
Se, por cá, para calar a curiosidade infantil, era hábito dizer-se que os bebés vinham de Paris, no bico das cegonhas, em França efabulava-se que as criancinhas nasciam das couves de Bruxelas...
E a imaginação não se ficava por aqui. Diz-nos José Machado de Serpa (1864-1945), na sua obra A Fala das nossas gentes (Signo, s/d) que os açorianos, de maneira geral, costumam referir: "Veio do Corvo numa cestinha". Enquanto os faialenses preferem dizer que o bebé "veio do Pico, num açafatinho."

com agradecimentos a A. de A. M..

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

2 blogues / 2 postes, de 5/8/15


Ad usum delphini

Se nos dermos ao trabalho de ler, paralelamente, dois postes de hoje, em blogues muito distintos, veremos a diferença de tom e ética política de duas personalidades portuguesas, relativamente conhecidas.
Claro e directo, não deixando de ser irónico, o poste "Entre portas", do embaixador Seixas da Costa, no seu Duas ou três coisas.
Do outro lado, enviesada mas angélica, uma Senhora, ainda descendente de um dos travessistas do Atlântico Sul, perora "Compromissos e consensos".
Feitios...
Mas não devemos esquecer que: quem sai aos seus, não é de Genebra.
(Desculpem o tom críptico, mas este poste destina-se apenas aos iniciados em política.)

Em louvor dos estorninhos, que agora já vejo da varanda a leste...

...e com a ajuda de Wim Mertens.
(Com quase 3 minutos de aplausos, infelizmente.)

Uma fotografia, de vez em quando (66)


Não haverá muito a dizer sobre esta fotografia do inglês Ian Berry (1934), da Agência Magnum. A não ser que é um belo instantâneo, muito bem apanhado. Vinha a ilustrar um artigo do TLS (nº 5860) intitulado Practices of English freedom. Acertadamente...

Citações CCXLIX


Perdi amigos, alguns deles, por morte... outros, por mesquinha inabilidade em atravessar a rua.

Virginia Woolf (1882-1941), in The Waves (1931).

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Para uma antologia da "silly season" (2)


Burro só não gosta é de principiar viagem.

(ditado popular)

Henri Vieuxtemps (1820-1881)

Retratos (15)


Havia um licor de noz, que a Inha fazia, quase tão aromático como as compotas e a marmelada, que perfumavam o longo corredor, do alto dos armários da sua térrea e frágil casa, quase no centro da cidade. Era no tempo sem fronteiras, quando o campo convivia ainda, harmoniosamente, com o tecido urbano.
Depois, era o brilho azul afectuoso dos seus olhos, os seus cabelos brancos rematados por um puxo discreto, no alto da sua pequenina cabeça, já tremelicante.
Como me separei disso tudo, não o conseguirei dizer ou explicar. O tempo (ou a distância?), além de escultor, é também um anestesiante assassino de afectos.
Ao sair de sua casa, para chegar ao portão de saída, já velho e chiante ao abrir, eu lembro-me que, pela álea frondosa, me acompanhavam, ladeantes, nogueiras e carvalhos, pinheiros e castanheiros, macieiras e limoeiros. Mas vinha, também, sempre comigo, o perfume aromático e caricioso do corredor. Até chegar a casa, que não me ficava longe..

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Filatelia CVI


São um dos mais espectaculares erros que se podem encontrar em Filatelia: os selos com o centro invertido. Resultam de impressões que se têm de executar por mais do que uma vez, e de um trabalho descuidado, que os artífices fazem, ao colocar ao contrário as pranchas. Ficam assim as cercaduras invertidas. Em relação a Portugal, este erro creio que apenas aconteceu com alguns selos da Companhia do Niassa, que foram gravados a talhe doce, pela Waterlow & Sons (Londres), em 1901. Falei destas variedades, aqui no Blogue, em "Filatelia XCVII" (11/12/2014).
Sendo erros pouco frequentes, os exemplares com esta anomalia, são normalmente muito caros, mas também muito apetecidos. Em imagem, damos conta de alguns "centro invertido" mais célebres, com o preço por que foram vendidos, recentemente. Da Europa, surgem erros da Bélgica e Hungria. E ainda exemplares dos E. U. A., da Austrália Ocidental e da Índia Inglesa.

Florindo


Entraram a abrir, logo no início do mês. Dos dezasseis brotos, três já se deram à luz de Agosto, arredando o verde que os cobria. E desnudando-se, numa pequena imensidade de branco límpido raiado de finos laivos de amarelo, mais um ou outro breve ponto rubro.
Prosaicamente, e se não fossem os rutilados pontos, faziam-me lembrar farófias com molho leve de gema de ovo. Para chegar à poesia da sua extrema beleza, teria de convocar William Turner, obrigatoriamente...

domingo, 2 de agosto de 2015

Para uma antologia da "silly season"


I wish I were two dogs then I could play with me.

(de uma canção infantil inglesa)


ou:

Quem me dera ser dois cães, que assim eu podia brincar comigo.

Leonard Cohen : "Woke up this morning"


arte menor (20)

Poema-colagem



sábado, 1 de agosto de 2015

Fragilidade


A fragilidade sempre despertou uma especial atenção humana. Que, por vezes, se aproxima da compaixão, quando não vai de par com sentimentos vários, onde a ternura chega a espreitar, pelo menos, quando não se instala, de todo.
Para lá do encanto natural, beleza e fascínio que Veneza provoca, o seu rendilhado delicado ameaçado pelas águas e pelo turismo desenfreado dos anos mais recentes, tem acrescentado sentimentos sobre o seu nome emblemático, e de culto.
Se os daguerreotipos italianos, que o crítico de arte John Ruskin (1819-1900) fixou, se vão desvanecendo com o tempo, essas frágeis imagens, na época, foram-lhe extremamente úteis para contextualizar os estudos que escreveu sobre as aguarelas de Turner (1775-1851).
Aguarelas que, hoje, apenas sob uma luz precária e coada, podem ser vistas e admiradas. Caso contrário, a sua exposição sob uma luz forte e agressiva, fará desaparecer as suas cores frágeis, para sempre.

Os rapazes do Futuro, ou os secundários promissores


Um amigo meu, esclarecido e sério, embora irónico e perverso, costumava dizer que, para chegar a este governo, era fundamental ter um Blogue ou "ser croniqueiro", e eu pensava que ele se estava a meter comigo e a provocar-me. Mas, depois, serenamente, lembrando-me de alguns exemplos comprovativos, concluía que o meu amigo até tinha razão.
Sei pouco sobre este rapaz, da foto. De concreto e essencial, sei que foi o antecessor (apesar de tudo, mais apresentável e mais digno) daquela criatura bochechuda, que cronica, à segunda e quarta-feira, no Público, e que, pela foto, não faz a barba todos os dias. O gorducho parece-me mais um autodidacta de província, pouco culto, um pouco indigente nas reflexões, mas convencido. O seu antecessor tinha um bocadinho mais de substância - não admira, porque é de Direito. Como o Professor da Tvi. E chegou a Adjunto de Adjunto do Desenvolvimento Regional. Foi obra! (Apesar de eu não saber muito bem o que é que ele fez, ou faz. Talvez por ser excessivamente discreto...)
Um único senão: deve usar os fatos do Avô - normalmente sobram mangas. Mas, agora, que tive notícia que ele consta da lista para os futuros deputados (cabeça de lista?), acho que bem pode investir em indumentária mais ajustada e por medida.

Revivalismo Ligeiro CXXIV


A par e passo 143


VIRTUDE, meus Senhores, esta palavra Virtude morreu, ou, pelo menos, está a morrer. Virtude raramente a pronunciamos. Aos espíritos de hoje, ela já quase não ocorre, como expressão espontânea de pensamento de uma realidade actual. Ela já não existe como um daqueles elementos imediatos do vocabulário que habita em nós, e cuja facilidade e frequência manifestam verdadeiras exigências quer da nossa sensibilidade quer do nosso intelecto. Na verdade, há muito poucas oportunidades para a utilização desta palavra na nossa actividade interior, e é absolutamente normal que possamos viver e reflectir, agir e meditar ao longo de todo um ano, sem que sintamos necessidade de a articular ou de pensar nela, uma vez que seja.

Paul Valéry, in Variété IV (pgs. 163/4).

Adagiário CCXXVI : Agosto (6)


1. O mês de Agosto arremeda o ano todo.
2. Quem dormir ao sol de Agosto, passa por desgosto.
3. Os nabos querem ver o luar de Agosto.
4. Uma rega do mês de Agosto, leva o milho ao caniço.