quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Citações CCCLXXI


Os limites da minha linguagem definem as fronteiras do meu mundo.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951), in Tratactus Logico-Philosophicus (1922).

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Últimas aquisições (7)


Tenho paciência bastante para, tranquilamente, esperar que, de autores recentes e modernos, as suas obras venham a aparecer nos alfarrabistas, embora usadas. Do processo, excluo por impaciência pessoal, apenas Steiner, Sebald, Magris e Manguel - e é tudo, creio. Que gosto de ler, mal sejam editados, em Portugal.
O resto, é uma questão de tempo e o preço, normalmente, compensa bem a espera. Tirando Los Sueños (Espasa-Calpe, 1952), de Quevedo, que aposentado na "salgadeira" (H. N. dixit), me custou apenas 1 euro, dei pelos outros 4 livros, que comprei ontem, aquilo que daria, pouco mais ou menos, por um deles, novo.


Vou assim também averiguar das excelências da escrita de Philip Roth (1933-2018), que muita gente incensa, e de quem nunca li nada.
Um único problema subsiste: em que lugar irei eu arrumar estes 4 livros, depois de lidos, quando a casa já está superpovoada e pejada deles?

Uma dedicatória


Com Francisco de Aldana, J. Ramón Jiménez, Antonio Machado e Gamoneda, Francisco de Quevedo y Villegas (1580-1645) é um dos meus 5 poetas espanhóis preferidos. Amigo e confrade do nosso Francisco Manuel de Melo, é ainda mais atrevido na sátira, polifacetado e, talvez, melhor poeta. E um conceptista de fino recorte literário.



Um prefácio pode ser fastidioso, uma dedicatória, simplesmente, banal, na sua louvaminha bajuladora e servil. Esta dedicatória(-prefácio) de Los Sueños, de Quevedo, é, pelo menos, singular e original. Procurei traduzi-la, embora de forma livre, respeitando a intenção do Autor.
Assim, segue:

Dedicatória
A nenhuma pessoa de todas quantas Deus criou no mundo

Tendo considerado que todos dedicam os seus livros com dois fins, que raras vezes se repartem: o primeiro, para que tal pessoa ajude às despesas da impressão com a sua bendita esmola; o outro, para que apoie a obra contra os detractores; e considerando, por eu ter sido detractor ou murmurador durante muitos anos, que isso de pouco serve senão para despertar a compaixão por quem é visado: do néscio, que se persuade que os mal-dizentes têm autoridade, e do presumido, que paga com o seu dinheiro esta lisonja, decidi-me a escrevê-la a trouxe-mouxe e a dedicá-la às pessoas tontas e loucas, suceda o que vier a suceder. Quem o (livro) comprar e resmungar, antes de mais diz mal de si, porque gastou mal o seu dinheiro, e não do autor que o fez gastar mal. E digam e façam o que quiserem os Mecenas, porque como nunca os vi a andar à pancada com os murmuradores, sobre si digo ou não digo que os vejo muito apagados no apoio e desmentidos de todas as calúnias que fazem aos seus protegidos, sem terem em conta o dolo do livro, e prefiro atrever-me a enganar-me. Façam todos  o que quiserem do meu livro, pois eu já disse o que queria dizer de todos. Adeus, Mecenas, que aqui me despeço da dedicatória.
                                                                                                                                Eu.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Ideias fixas 18


Será que os blogues que não permitem comentários pertencem a administradores autocráticos? Ou apenas a gestores surdos?
O que, neste último caso, se concilia muito bem com alguns dos nossos visitantes que, insistemente, nos frequentam, sem deixar a mínima palavra de comentário. São os mudos da net...

Matinal


Sol e sombra, como nas arenas...
O ainda nocturno repousante das casas e a vivacidade inicial da luz, que se anuncia.
Prosaicamente, poderia dizer-se, com humor amanhecido, que um ovo estrelado se prepara, para um pequeno almoço muito british..:-)

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Osmose (97)


Parece-me que nunca, como hoje, foi tão difícil optar, inteiramente, por um único lado. Olhamos para o que aconteceu em Las Vegas, ou pelo que está acontecendo em Brasília; pelo que ocorreu em Tancos, infantil e inexplicavelmente. Tomar posição, deixa-nos divididos e a tentação é de nos ficarmos pelo conforto de um cinzento neutral que não nos obrigue, claramente, a uma decisão absoluta sobre os factos concretos. Há que ser realista, no entanto: o cinzento tem, ainda, várias tonalidades.
O se e o mas encontram abrigo neste enovelado desarrumo de espírito a que o próprio tempo parece associar-se, em conformidade. Porque se anuncia, para esta semana, chuva e cinzento, com a entrada triunfante do Outono. O estado do mundo dá vontade de hibernarmos, para só virmos a acordar na Primavera. Como se isso fosse possível... E tudo voltasse a ser claro e róseo, lógico e racional, humanamente acertado com as nossas mais íntimas convicções. De justiça e bom senso.

domingo, 7 de outubro de 2018

Moinhos, jogos e brinquedos infantis


Cada vez gosto mais das coisas simples da terra. A começar por monografias, pela arte rústica (evito o povera, académico...), na sua autenticidade, o sabor auditivo das expressões regionalistas, os usos e costumes ancestrais que vão desaparecendo pelo alastrar das manchas suburbanas e pelo ermamento do interior português.
Há quem se aperceba deste meu gosto, com atenção amável e cúmplice. Como foi o caso do meu amigo AVP, que resolveu oferecer-me Os Moinhos e os Moleiros do Rio Guadiana (Edições Colibri, 2018), de Luís Silva, e Arca de Cangalhadas (Museu de Silgueiros, 2018), de António Lopes Pires. Ambos de âmbito etnográfico, regional.
O primeiro dos livros aborda, de forma especializada, as características dos 119 moinhos que bordejam o Guadiana (110, em Portugal, e 9 em Espanha). O segundo, de contos despretenciosos, usa-os no sentido de dar a conhecer jogos infantis, já pouco praticados, e brinquedos de rústica manufactura, que fizeram a alegria de crianças de antanho...
Leituras agradabilíssimas, que aqui venho agradecer a AVP.

Alexander Borodin (1833-1887)

sábado, 6 de outubro de 2018

Desabafo (39)


É no mínimo insólita e caricata, a ignorância e pobreza da globalização internáutica. Que, no fundo, vem ilustrar e dar razão, pelo menos, ao dito popular: Em casa de ferreiro, espeto de pau.
Eu explico: nos últimos dois dias, houve cerca de 10 visitantes franceses que vieram, tipo moscas tontas, aterrar no Arpose, num poste sobre o fotógrafo gaulês Robert Doisneau (de 17/1/2014).
Vieram de Marselha, eles vieram de Villeurbanne, de Paris... Em busca de imagens, os pobrezinhos?
Irra!

A abelha e o arquitecto *


Houve um tempo, em que os chefes políticos eram homens cultos, que sabiam escrever bem e reflectir ponderadamente. Muito embora alguns deles, muito poucos, não dispensassem, num ou noutro discurso, o seu ghost-writer. Não era o caso de François Miterrand (1916-1996).
Tenho vindo a ler, com manifesto agrado, uma versão portuguesa dos seus textos (Janelas da Memória, 1983), de cariz diarístico e que abarca escritos seus de 1971 a 1978, seleccionados. Para lá da preclara percepção do futuro (ambiente, renováveis...), o livro contém  muitas reflexões sobre Portugal, dos anos do PREC, e está escrito numa linguagem límpida e sedutora. Anotações de paisagem, contactos ao mais alto nível, impressões sobre a história de alguns países, comentários e retratos de estadistas, de tudo lá aparece, numa inclusão que sublinha o grande amor à vida que Mitterrand possuía, ao mais alto grau.
Nem por isso menor, não resisto a transcrever (pg. 174) um pequeno apontamento rural, muito interessante e pitoresco. Aqui vai:

" De regresso à herdade, o dono da casa falou da sua vizinhança: a raposa, o gavião, a abelha. Caçador de abelhas, ele espia as passagens de enxames e pousa os seus cortiços sobre o ramo de uma árvore, carvalho ou pinheiro, entre duas pedras erguidas, ou nos barrancos que estriam a beira do planalto, segundo a lei das migrações, que é o único a conhecer dez léguas ao redor. Ele volta lá numa noite sem lua e leva o enxame para o colmeal doméstico. «Desconfie das italianas», observa ele, enquanto à nossa roda zumbe um voo compacto. Explica-nos que os conselheiros agrícolas organizaram na cidade uma campanha a favor das híbridas e intervieram junto dos criadores para que a abelha italiana, cingida de um fiozinho amarelo, fecundasse a abelha provençal, mais discreta na sua veste negra. Resultado: a segunda geração desvaria e já não suporta a presença do homem. Ainda cavaqueávamos quando a tarde arrefeceu."


* o título deste poste plagia a obra "L'Abeille et L'Architecte" (1978), de François Mitterrand.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Divagações 135


Com o tempo, qualquer moeda se deprecia para os nacionais que a usam. E, normalmente, um imóvel terá tendência para se valorizar, ao menos, consoante os índices de inflação. No presente, e em Portugal, as subidas de preço no imobiliário, especulativas de algum modo, só se explicam, não pelo valor real das casas, mas pela intensa procura personificada por estrangeiros e pelos artíficios criados pelos mercados que se dedicam à habitação.
Ando a ler, com atenção mas intermitantemente, Problemática da História Literária (Ática, 1961), de Jacinto do Prado Coelho (1920-1984). Foi com enorme surpresa que me deparei com o nome de Benedetto Croce, crítico e teorizador literário, que é muitas vezes citado. Na altura, era um ensaísta muito frequentado, tal como Harold Bloom, aqui há 20 ou 30 anos. Quem saberá hoje de, ou lerá, Croce, nesta fugacidade e efemeridade dos tempos?
Celebra-se hoje a implantação da República, com sentimentos amortecidos em relação à data, embora com o valor simbólico de um acontecimento patriótico que marcou a História de Portugal. Daqui a 108 anos, como se irá celebrar o 25 de Abril?
Porque uma coisa são as efemérides, e outra são as efemeridades...

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Encore, duplamente...

Impromptu (36)


Desta vez, o Chiado silenciou cedo. Iniciou-se, então, a corrente intermitente, consoante o vento, de música pimba oriunda do Campo das Cebolas. Solicitados, os cívicos puseram-lhe cobro, felizmente.
Já de madrugada, inesperado, chegou o grilo, serrazinando, sonoro. E que cricrilou até de manhã...
Tivemos, assim, uma noite festiva.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

As novas pitonisas


Houve tempo em que algumas editoras, tal como grande parte dos bancos, mereciam a nossa total credibilidade e confiança em matéria de honesta qualidade. A Gallimard, a Portugália, a Surkamp, a Penguin , entre tantas outras, eram à prova de bala, quanto à excelência do que publicavam, também porque tinham uma exigência ética de prestígio a honrar e perpetuar. E, nobremente, faziam gala disso.
Os tempos, no entanto, mudaram. E a Penguin, agora apenas gulosa de mercado, foi engolindo outras pequenas e ronceiras editoras, para melhor impor as suas publicações, de forma mercenária e acrítica.
Eu até sou fã e entusiasta dos romances de John Le Carré. Não de todos, evidentemente, porque, contra ventos e marés, não prescindo do meu sentido crítico nem de leituras isentas de apriorismos.
A novel Penguin, excessiva e exibicionista, comprou a publicidade das páginas 2 e 3 do último TLS (nº 6026), para propagandear bombasticamente, por palavras de Robert Harris (?) que Le Carré será "um daqueles escritores que será lido (até) daqui a um século". A editora inglesa, pelos vistos, entrou agora no rol dos adivinhadores, subscrevendo presságios, na boa companhia de Nostradamus, do Sapateiro de Trancoso, do professor Fofana e de outros bruxos. Francamente, não lhe gabo o gosto nem a vocação...

Representar, segundo Brando


Representar é, em geral, uma coisa que a maioria das pessoas pensa que são incapazes de fazer, mas que praticam da manhã à noite. As formas mais subtis de representação vi-as, muitas vezes, em gente normal quando tenta mostrar que sentem alguma coisa ou quando procuram esconder os seus sentimentos. É uma coisa que aprendem desde tenra idade.

Marlon Brando (1924-2004), in Newsweek (13/3/1972).

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Cadências, critérios e tendências


Qualquer blogue começa, normalmente, por um entusiasmo inicial. Que se vai atenuando, com o tempo. Por falta de temas, por cansaço, ou por uma quebra gradual desse mesmo entusiasmo ingénuo.
Depois, há os que acabam ou fecham o blogue, com palavras de amargura, outros, nem isso. Apagam-se subitamente, sem razões explícitas, de morte súbita. Talvez porque a vida pessoal do administrador assim o obrigou. Cheguei à conclusão, pela observação prática, que o quarto ou quinto ano de vida são os momentos cruciais de sobrevivência. A persistência abnegada não é uma qualidade lusa...
Dos sobreviventes, há os uni-pessoais e os colectivos. Destes últimos, é notório que apenas uma pequena parte dos colaboradores trabalha. A maioria goza da fama ou prestígio do blogue, deitando-se à sombra da bananeira... Mas nem por isso prescinde, como seria curial e honesto, de manter o seu nome na lista de associados.
Há quem publique mais à Segunda-feira, descansando o resto da semana. Há quem se habitue a sublinhar um dia da semana (O Grifo Planante, por exemplo, com o seu Anedotário, ao Domingo), e quem prefira abrir o mês com uma mesma temática ( o Arpose, com o Adagiário). Blogues especializados, há muitos: sobre Arte, o Memórias e Imagens, ou sobre Cinema, o Manuscritos da Galáxia. Mas grande parte, sendo escassos a publicar (estou a lembrar-me, quanto a qualidade, do Retrovisor), abordam temas diversos, em que a memória de vida, tem um papel primordial.
Finalmente, para acabar, um facto curioso que tenho constatado: a manhã é pródiga em postes. As publicações são maioritariamente matinais. À noite, é quase sempre um deserto de novidades - nos blogues.

Texto e contexto


Dentro de uma semana as amoras ficarão maduras.
A princípio, só uma, luzidia de bagas púrpuras,
Por entre outras, vermelhas, verdes apertadas como um nó.
Hás-de saborear essa primeira, de carne tenra e doce
Como um vinho denso: onde cabe todo o sangue do verão.


Seamus Heaney (1939-2013).

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Aznavour



Não, não é este Que c'est triste Venise, ou La Bohème, nem muito menos La Mamma, para mim a canção mais emblemática de Charles Aznavour (1924-2018), que faleceu, hoje, em França. Creio ser, entre tantas de que gosto do seu repertório, o Il faut savoir, por várias razões pessoais de juventude.
Foi por Agosto de 1964 que eu soube que o seu apelido de infância era, na verdade, Aznavourian  que, como quase todos os apelidos arménios, terminava em ian. Os progroms turcos sobre os arménios provocaram um êxodo maciço do povo, sobretudo para França. Foi o caso dos seus pais. Como, também, dos pais de quem me contou a história, nessa altura.
Depois, há nomes e figuras que, colados à nossa adolescência, quando desaparecem de cena vão corroendo, inevitavelmente, a nossa fantasiosa crença e utopia inconsciente sobre a imortalidade humana, própria. Charles Aznavour, para mim, era um desses nomes. Feito de boas memórias.

Adagiário CCLXXXVII


Abraçou-se o asno com a amendoeira e acharam-se parentes.

domingo, 30 de setembro de 2018

Considerações sobre o ritmo


Aqui há uns anos, um amigo ofereceu-me um pedómetro. Se é certo que eu já andei mais depressa, se quiser, posso medir pelo pequeno aparelho, ainda hoje, o ritmo dos meus passos e as distâncias percorridas nas minhas deambulações diárias, com alguma exactidão.
Quanto a leituras, a situação acaba por ser mais complicada de avaliar. Quando a leitura é aliciante, creio que lemos mais depressa; sendo fastidiosa o ritmo abranda, certamente. Alguém dizia que, ao longo de uma vida, talvez fosse possível ler entre 4.000 a 5.000 livros.
Não gabo a sorte do juiz Ivo Rosa (1966). Nos próximos tempos, e para bem documentar-se, vai ter de ler 21.954 páginas, distribuídas por 55 volumes, extensão total do Processo Marquês. Para ajuizar se o caso vai a julgamento. Ser-lhe-á possível? E quanto tempo levará?

Uma voz quase a morrer, mas para lembrar com afecto - Leonard Cohen (1934-2016)

Citações CCCLXX


Para entrar na melhor sociedade, hoje em dia, o pretendente terá que dar comer a algumas pessoas, diverti-las, ou então de as escandalizar.

Oscar Wilde (1854-1900), in A Woman of no importance.

sábado, 29 de setembro de 2018

Uma fotografia, de vez em quando... (111)


Não haverá muito a dizer sobre a fotógrafa alemã Sibylle Bergemann (1941-2010), nascida em Berlim, e que passou uma grande parte da sua vida na parte oriental da cidade. Começou por trabalhar para jornais e publicações da RDA, mas acabou por alargar a sua colaboração às publicações da RFA, tais como a Stern e a Geo.


Foi uma das fundadoras, depois da reunificação alemã, da Ostkreuz, agência que englobava, num tipo especial de cooperativa, vários profissionais de fotografia. A sua obra incidiu, predominantemente, sobre cenas do quotidiano de Berlim Leste e arredores.


Em relação aos seus trabalhos, S. B. disse: "Interesso-me pelas periferias do mundo, não pelo centro."

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Música e Poesia LXXI



Quase me apetece dizer, simplesmente, e como na infância: Que lindo!
Como só Fellini conseguiria conceber, neste seu E la Nave va.
Aqui fica, para o lembrar.

Blasfémias


À falta de melhor, vamo-nos entretendo com as telenovelas marcanas que inundam os blogues e as redes sociais desmioladas e nacionais. Repisam, remoem, simulam escandalizar-se, e os comentários vão no mesmo sentido indigente aprovador e ofendido, hipócrita.
Mark Felt (1913-2008), o garganta funda do Watergate, não resistiu, 4 anos antes de morrer, a revelar que tinha sido ele o informador. Remorso ou tentativa de passar por herói? Francamente, não sei, mas inclino-me mais para a segunda hipótese. Como aqueles velhinhos que se perdem a falar de conquistas passadas e de aventuras que já não podem repetir...
Um pouco da mesma forma com que as e os mitús vem contar, publicamente, 30 ou 40 anos passados, os abusos de que foram vítimas. Se não tiveram coragem, na altura, porquê este exibicionismo de agora? Serôdio, no mínimo, para não dizer: hipócrita.
Corajosa, quanto a mim, foi Catherine Deneuve (1943) que, ao contrário da corrente, foi capaz de denunciar, publicamente esta hipocrisia chunga dos politicamente correctos, que pagam ou se vendem por cinco minutos de fama, ressuscitando o passado ou apoiando causas mortas.

As palavras de hoje (34)


Apenas um pequeno extracto, mas conviria ler esta crónica de António Guerreiro, na integra, que faz parte da  ípsilon, no jornal Público de hoje. Segue a transcrição:

(...) Quem tomar atenção aos pequenos e grandes sinais, com olhar de analista, descobre facilmente que a escrita jornalística, mesmo nos jornais que gostam de se reclamar como "de referência" (algo hoje tão inexistente como o unicórnio), se inclina cada vez mais - num gesto que se vai naturalizando e tornando-se mimético - perante este ambiente, induzindo uma audiência e afastando progressivamente o público mais exigente. (...)

Pinacoteca Pessoal 139


Nascido na Alemanha, mas a viver presentemente em França, o gráfico e pintor Jan Peter Tripp (1945) tem uma obra pouco conhecida, para lá das fronteiras destes dois países. Foi através do escritor W. G. Sebald (1944-2011), de quem foi colega na Escola Primária, que tomei conhecimento dele, através das páginas que aquele lhe dedica em Campo Santo.

As referências giram em torno de um retrato de Kafka, que Tripp projectou do escritor checo, em idade mais avançada, a que não chegou. Pertencendo à escola realista, a obra do pintor centra-se sobretudo em naturezas mortas e retratos muito bem executados. Que mereceriam uma maior divulgação e conhecimento, pela qualidade da sua arte. O segundo retrato é de Sebald a jogar bilhar.

Creio que não seria necessário dizer que a última imagem retrata Pablo Picasso. Que Tripp adornou com indumentária que o aproxima de Lutero... Porque o considerava o grande revolucionário, também, mas da pintura europeia do século XX.
Curiosidade, ou não, é interessante saber-se que ambos pertenciam ao signo astrológico do Escorpião.

Desabafo (38)


As gentilezas da democracia e a complacência em relação às artes não dão, seguramente, muito bons resultados.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Revivalismo Ligeiro CCXXXV



Em sequência, naturalmente...

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Outro lado


Felizmente que as camisas havaianas berrantes, os chanatos chineses de plástico rasca e os calções desengonçados, que deixam à mostra as pernas branquelas e anémicas dos turistas aos molhos, não chegaram ainda a Canide, a Lavadores, nem sequer à Afurada. Os turistas pack-chapa-zero ficam-se pela Lello e pela torre dos Clérigos, e por aí se babam de pasmo incontinente e fotos sucessivas.
Deixaram-nos os areais limpos e o azul cobalto das águas, o silêncio maravilhoso da paisagem natural e o conforto de os olharmos, tranquilamente.
E, depois, com quatro sardinhas a cada um, uns nacos de broa e um branco da casa, fresquinho, na esplanada da tasca modesta, só ouvíamos falar português. Com moderação e sem selfies...
Ainda há outros mundos, felizmente, não poluidos de todo.

para A. de A. M., com grato reconhecimento, e em memória.