segunda-feira, 9 de maio de 2016

A propósito do "Falstaff" de Verdi


A ópera "Falstaff" (1893) sendo, como é, a última composta por Giuseppe Verdi (1813-1901), incorpora toda a experiência musical do grande compositor italiano. Baseada nas "Alegres comadres de Windsor", de William Shakespeare, o libreto foi escrito por Arrigo Boito.
Talvez pela perfeição da obra musical, o maestro Carlo Maria Giulini (1914-2005) disse, uma vez, que esta ópera poderia dispensar os cantores, bastando-lhe a partitura sem o canto, nem os coros. Deixo, no entanto, uma pequena ária de "Falstaff", interpretada por Mirella Freni (1935), que é das minhas sopranos favoritas.

A par e passo 166


E aqui vai a contraprova da nossa pequena experiência: se, numa sala de concertos, enquanto se ouve e domina uma sinfonia, acontecer uma cadeira cair, uma pessoa tossir, ou uma porta fechar-se com ruído, nós temos de imediato a sensação de uma ruptura. Que perturba, concretamente, pelo seu quê de indefinível, a natureza do encanto de um cristal de Veneza que de súbito se quebrou...
O universo poético não é tão poderoso ou tão facilmente assim criado. Ele existe, mas o poeta está privado das imensas vantagens que possui o musical. Embora ele tenha à mão os meios necessários para sua arte. No entanto, ele terá que pedir de empréstimo a linguagem - a voz pública, essa colecção de termos e regras tradicionais e irracionais, bizarramente classificados e transformados, e muito diversamente entendidos e pronunciados. (...) Nada de puro: mas uma mescla de excitações auditivas, psíquicas, perfeitamente incoerentes. Cada palavra é uma mistura instantânea de um som e de um sentido, cuja relação, à partida, não existe entre eles.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 146/7).

domingo, 8 de maio de 2016

O truão, a verdade histórica e o contraditório autorizado


Em 16/3/2010, a propósito do infausto aniversário da Cimeira das Lajes, falei aqui dos 4 cavaleiros do Apocalipse (Aznar, Barroso, Blair e Bush jr.). 
Há dias, um dos citados cavaleiros, em entrevista à SIC, declarou que a Cimeira tivera o acordo prévio do PR da altura.
Hoje, Jorge Sampaio, no jornal Público e, ao que parece, em declarações ao DN, vem repor o rigor dos factos.
Como diz a sabedoria do povo: Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo.

Do velho Liceu Martins Sarmento...


Do velho Liceu Martins Sarmento, que ainda inaugurei em 1962, aqui fica a fachada sóbria. Porque, na verdade, eu tinha-me iniciado, no ensino secundário, pelas vetustas paredes do Convento de Santa Clara, onde hoje funciona, em nobreza laica e democrática, a Câmara Municipal de Guimarães. Foi por aí que também passaram as aventuras mais importantes da minha adolescência. E me começaram os amores e suas desventuras. Como também me nasceram amizades imorredouras, muito cúmplices e felizes.

Ora, no dealbar do 6º ano, quando os adolescentes começam a ser engraçadinhos e malandrecos, apesar de me ter iniciado nas aulas de Filosofia, calhou-me na rifa uma professora de nome Manuela que, para além de vir cheia de filosofias, vinha também muito grávida. A antipatia química foi recíproca e imediata, e no primeiro período tive logo o primeiro e único 7 da minha vida liceal. Que foi para aprender...
Felizmente, no segundo período, a professora Manuela teve baixa de parto e foi substituída por um sujeito bisonho, de má catadura, a quem demos a alcunha de Espiúca, já não sei bem porquê. O que é certo é que, no final, consegui passar na disciplina, rasando a trave dos 29 ou 31 valores (?).
A expectativa temerosa, no entanto, não acabou por aí, e na prova oral do 7º ano, para minha desagradável surpresa e sina, calhou-me o professor Conceição, marido da professora Manuela A. C.. Previ o pior. Enervado, quando ele me mandou falar do amor filosófico (em Platão?, em Aristóteles?, em Berkeley?) eu comecei a dissertar sobre o amor humano e real. Confundi "Germano, com o género humano"... (Mas como é que um adolescente de 18 anos, naquela altura, consegue falar da filosofia do amor!? Seria um castigo, para quem o começa a viver, em toda a sua plenitude de complexidade física e espiritual.)
Mas o professor Conceição era boa pessoa. E apesar de, mais tarde, ter vindo a ser deputado da U.N., na A. N., era, no fundo, um liberal. E, enquanto eu falava do amor humano, ele, quase cúmplice, ia sorrindo para mim. Corrigiu-me depois, e deu-me 13 no exame final. E eu fiz as pazes interiores com o casal Conceição.

Ora, acontece que o meu amigo António, que também os teve como mestres, num restaurante vimaranense, há dias, surpreendeu este casal de professores já reformados e, discretamente, fotografou-os e mandou-me o instantâneo para eu os recordar. Marido e mulher estão à esquina da mesa, sendo que, cada qual, fala para a senhora do lado. Folguei de ver que, passantes dos 80 anos, ainda bebem o seu vinhito branco. Verde, provavelmente.

abraço fraterno, saudoso e grato a A. de A. M..

Revivalismo Ligeiro CXXIX


Tudo nos conformes


Nunca fui muito afecto aos produtos vínicos oriundos da já centenária casa Borges & Irmão, fundada por dois irmãos, no já longínquo ano de 1884. Aquando do 25 de Abril de 1974, a empresa estava integrada no grupo do Banco Borges, inserida, após o 11 de Março, no Banco de Fomento e mais tarde no BPI. Que, em data posterior, a veio a vender à empresa JMV. Dos vinhos comercializados, em meados do século XX, o Gatão (vinho verde) era talvez o mais conhecido. Mas o Lello (Douro) e o Meia Encosta (Dão) tinham também alguma expressão na produção nacional. Tirando o Gatão, nunca fui grande cliente destas marcas, e até desapreciava muito o Lello duriense, que sempre achei medíocre. Em tempo de juventude acrítica, cheguei a provar algumas vezes o Brandy Borges que tinha alguma fama, comparável à do L34, que era o meu favorito, nos chamados digestivos. Há muito que deixei de beber brandies, optando sobretudo pelas aguardentes velhas, em que tem predominado a Fim de Século que me parece ter uma excelente relação qualidade/preço. Mas também uma aguardente branca, artesanal e barata, que costumo comprar em Almoçageme, colhe as minhas preferências gustativas. E macia que ela é!...
Ora, aqui há uns dias atrás, e depois de uma acolhedora favada, apeteceu-me beberricar um espirituoso para melhor jiboiar. Deparei-me, surpreso, com garrafas praticamente vazias, pelo que não me restava outra hipótese senão fazer uma surtida pelas reservas, já poucas, das prateleiras da despensa. Guardado há muito (não exagero se disser há mais de 35 anos), estava este Brandy Velho de Frasqueira, da Borges, com os seus 40º circunspectos e empoeirados, por fora. Imaginei que fosse ruim de beber, mas lá me resignei a abri-lo, porque, como diz o povo: "Quem não tem cão, caça com gato." E foi uma encantadora surpresa, na cor, no sabor e no aveludado trago de macieza na boca. Melhor que muitas aguardentes velhas que andam por aí. Para não falar da pobreza dos whiskeys que tantos portugueses bebem, por status parolo de internacionalismo. Assim, e por uma questão de justiça, tenho que louvar a velha casa Borges & Irmão, por este produto de excelente qualidade, muito provavelmente, esgotadíssimo no mercado.

sábado, 7 de maio de 2016

Import/Export, S. A.


com agradecimentos a C. S..

Retro (84)


A façanha, de intuitos publicitários, teve lugar em 1917. O pequeno filme mudo, de 8m37, realizado por Raul de Caldevilla, pertence ao acervo da Cinemateca Portuguesa. Os improváveis alpinistas eram de origem galega e chamavam-se José e Miguel Puertullano. O apelido comum indicia que eram parentes. A Torre dos Clérigos tem 76 metros de altura. A sua escalada destinava-se a fazer propaganda de uma marca de bolachas portuense.
No filme começamos por ver o industrial, fabricante das ditas bolachas, a ajustar o contrato com os dois galegos. O acontecimento foi devidamente publicitado e, por isso, presenciado por centenas (?) de portuenses curiosos. Ao que parece, os dois alpinistas, depois de chegarem ao topo da Torre dos Clérigos e de fazerem algumas cabriolas para excitarem a turbamulta, atiraram cá para baixo vários papelinhos de publicidade sobre as ditas bolachas. Como se pode ver no final do filme...

agradecimentos a A. de A. M..

sexta-feira, 6 de maio de 2016

As tosas


A ípsilon do jornal Público de hoje manifesta-se, principalmente, por duas catilinárias demolidoras de António Guerreiro, que têm como objectivo dois autores da nossa praça: J. Rentes de Carvalho e Vasco Pulido Valente. O último por omissão e o primeiro, através duma recensão ao seu livro recente O Meças.
Não sei se a tosa aplicada a Rentes de Carvalho é merecida, porque não li o livro. Quanto a Pulido Valente, o argumentário de António Guerreiro é poderoso e convenceu-me.
Seja como for, aconselho os interessados a lerem a ípsilon, para tirarem as suas conclusões pessoais.

Novo leilão


Mais um leilão promovido por Pedro de Azevedo, a realizar no Hotel Fénix (Lisboa), no próximo dia 16 de Maio. A temática principal desta almoeda é a Guerra Peninsular, mas os 312 lotes não se esgotam aí, pois incluem também a primeira edição (1934) de Mensagem (lote 238, com estimativa de venda entre 1.600 e 2.400 euros), de Fernando Pessoa,  bem como um livro impresso em Paris (1819-1820?), com as pautas musicais da Missa de Requiem, de Domingos Bomtempo, edição muito rara, cujo lote (26) tem uma previsão de venda entre os 2.000 e 3.000 euros. E muitas outras obras de preço mais modesto...

Amadeo


É um hábito enraizadamente humano, este de, para melhor localizar ou identificar alguém, o apresentador dizer: "Conhece? É filho de Fulano..." ou "Sabe, é a esposa de Beltrano!" Nestes casos, a pessoa apresentada é, normalmente, menos célebre que o parente referido. O jornal Le Monde não foge à regra e, como se pode ver, pelo título em imagem, socorreu-se de Modiglini, para configurar o nosso outro Amadeo... Quanto ao adjectivo maudit, eu creio que se poderia aplicar a ambos. Porque morreram os dois na flor da vida e com pouco mais de trinta anos, no mesmo ano de 1920. Amadeo de Souza-Cardoso, em Espinho, da gripe espanhola, e Amedeo Modigliani, de meningite tuberculosa, em Paris.
Embora conviventes e amigos, em França, a obra de cada um, no entanto, difere muito. A força da pincelada do português (embora com desenhos de traço muito fino, que parecem pressagiar o traço agressivo de Bernard Buffet) afasta-se da elegância florentina da pintura do italiano. Ambos singularíssimos, naquilo que fizeram e precursores, inimitáveis, do que estava para vir, na pintura europeia do século XX. O jornal Le Monde (28/4/2016) dá nota da magnífica exposição, no Grand Palais (Paris), de parte da obra de Amadeo Souza-Cardoso, composta por três centenas de quadros e documentos, e que estará aberta ao público até 18 de Julho do presente ano.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

António Fragoso (1897-1918)


Divagações 111


Para o bem ou para o mal, a Europa constituiu-se cânone cultural do mundo durante vários séculos. Alguns poemas épicos indianos conseguiram penetrar o muro, alguma da poesia chinesa e japonesa foram aceites, embora tardiamente. A arte azteca ou a escultura africana foram, apesar de tudo, olhadas quase sempre como manifestações exóticas, a que valia a pena conceder alguma atenção, para evitar um etnocentrismo excessivo. Mas se considerarmos a música, teremos de concluir que a ortodoxia foi quase total. Que ainda hoje predomina no cânone clássico europeu. Até a aceitação da ópera chinesa foi uma concessão, vista por muitos como uma espécie de caridade de favor a uma cultura milenar...
Se o cânone cultural, hoje, graças à globalização, é menos estreito, o fenómeno de fecho das fronteiras, a xenofobia e o racismo, voltam a encerrar, por outro lado, a Europa em volta de si mesmo. Claro que o Trump não viria acrescentar nada a estas divagações despretensiosas...

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Citações CCLXXXV


Vem hoje, no jornal Público, uma crónica pertinente, de Alfredo Barroso, a propósito da Constituição portuguesa e de um discurso do actual PR. Vale a pena lê-la.
Achei curioso referir algumas citações sobre o tema. Aqui vão elas:

1. O que é a Constituição entre amigos?
Timothy Campbell

2. Nós estamos sob a Constituição, mas a Constituição é aquilo que os juízes dizem que é.
Charles Evans Hughes

3. Uma boa constituição é infinitamente melhor que o melhor dos tiranos.
Thomas Macauly


P. S.: nos últimos dias, uma visita brasileira de Curitiba, estado do Paraná, tem vindo consultar, obsessivamente, o label Citações, do Arpose. Começou por 20, passou a 40 e, agora já pede 100...
Será o Pensador , que é uma coisa que as pessoas que lêem pouco, consultam muito? Seja como for, resolvi ajudá-lo, colocando, de uma só vez, mais 3 citações, que ele pode copiar com proveito, pelo menos, para avaliar a Constituição brasileira e a sua observância, nos tempos que correm...

Revivalismo Ligeiro CXXIX


Acontece que, por escassez televisiva de qualidade fílmica, tenho vindo a ver, no Youtube, a interessante série Smiley's People (1982), da BBC, baseada na obra homónima de John Le Carré. A temática e o ambiente, por associação, além da magnífica interpretação de Alec Guinness, levaram-me a folhear a tradução portuguesa de O Terceiro Homem (nº 6 da celebrada colecção Miniatura, da Livros do Brasil), de Graham Greene. Daí foi um passo até me lembrar do sucesso que o tema musical (criado e interpretado pelo austríaco Anton Karas) da película teve, em anos já  recuados do século XX. A utilização da cítara, pelo seu tom exótico, terá também contribuído decerto para a sua divulgação muito popular. Aqui deixo essa música original, em evocação saudosa.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Um gráfico alemão com nome inglês


É por vezes classificado como pintor, que também foi, mas John Heartfield (1891-1968) é sobretudo conhecido pela sua obra gráfica de conteúdo político e satírico, em que sobressai uma arreigada coerência de combate ao nazismo e de defesa e apologia do comunismo.
Em 1916, em protesto contra os sentimentos anti-britânicos dos alemães, em plena I Grande Guerra, transforma o seu apelido germânico Hertzfeld para Heartfield. Nos anos 30, funda a revista Die Pleite onde combate a ascensão do nazismo através de foto-montagens muito sugestivas.


Inconformado com a situação política alemã, emigra para a Inglaterra, em 1938, onde permanece até 1954, regressando a Berlim Leste (RDA), onde virá a colaborar com o Berliner Ensemble, de Bertolt Brecht. É desse período inglês o cartaz de propaganda ao voto das Mulheres.




Elizabeth Jennings (1926-2001)


No interior da noite


Bocejo, e já tarde pela noite, para lá da minha janela
vejo as estrelas mas não as observo, de facto,
e ouço os comboios embora os não escute claramente;
Dentro de mim cirando de forma a que me possa
manter acordada, mas não estou de todo ali.
Uma parte de mim está com o escuro da paisagem.

Quanto há de mim naquilo que penso ou sinto?
Que parte do olhar se mantém pelas estrelas?
Será que controlo aquilo que contemplo
e será o meu olhar responsável por isso?
Afasto a ideia do meu espírito, que é um quarto
interior cuja parede vejo, mas de forma incompleta.

Tudo aquilo que eu amo é como a noite, lá fora,
tão bom de ver que me parece possível
com um simples gesto trazê-lo até mim
para dentro da cabeça ou coração, apesar do pensar
me separar, a mim, do objecto. E agora na cama, quando
me viro, o mundo parece virar-se para o outro lado.


Elizabeth Jennings



Nota pessoal: inexplicavelmente, parece-me haver um eco pessoano nos versos desta poetisa inglesa...

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Osmose 83


Numa recente entrevista, Eduardo Lourenço (1923) referia-se, e por palavras suas, a que: só existimos em função dos outros. Eu acrescentaria que, em casos extremos, nós somos e temos razão de ser nos outros. Finalmente (referi-o há dias), só vivemos a morte nos outros e dos outros, que a nossa é sempre imaginavelmente abstracta e presumível, mas nunca será vivida, em consciência total. Como também, conviria acrescentar, que a palavra sobrevivente (de um acidente, da guerra, do holocausto...) é das mais falsas do vocabulário universal, quando aplicada ao ser humano, porque a morte nunca interrompe o seu curso. Apenas o pode adiar.
Voltando aos outros. Que são o nosso espelho real, e reflectem, mais ou menos conscientemente, as nossas diversas facetas. Há amigos com quem (melhor) pensamos e amigos com quem (melhor) sentimos. Amigos com quem partilhamos leituras e aqueles com quem vamos construindo um breviário estético de eleição perene. Amigos que escolhemos para viver  alegrias e outros que melhor sabem acolher a nossa tristeza. Ou a sabem compreender. Por uma ruga na face, um nublado olhar, um embargo de voz.
Como as almas gémeas são raras e as afeições electivas, difíceis, também por aí nos temos de dividir, para ser, completadamente.

Ferdinand Hiller (1801-1885)


domingo, 1 de maio de 2016

Pequena história (42)


Não posso garantir que a história seja absolutamente rigorosa e verdadeira, mas parece-me exemplar no sentido habitual de alijar culpas para outra origem e proveniência, que não a nossa.
Conta-se que, durante uma entrevista a Albert Einstein (1879-1955), que nascera na Alemanha, um jornalista lhe teria perguntado que repercussões teria tido, na sua vida, o facto de ele se ter sucessivamente naturalizado suíço e norte-americano.
Ao que Einstein teria respondido: "Se as minhas teorias se tivessem revelado falsas, os americanos diriam que eu era um físico suíço, os suíços desculpar-se-iam afirmando que eu era um cientista alemão, e os alemães haveriam de dizer que eu era um astrónomo judeu..."

Passado, presente e futuro



Ao princípio, era o Charneco, vinho que já na primeira dinastia se exportava para longes terras. Com a fruta e o sal que eram as nossas únicas, grandes riquezas. Ao contrário do que se possa pensar, esse vinho era produzido na região de Lisboa. Desconhecidas são porém as castas de que era produzido. Até há poucos anos, no entanto, e na zona da capital, pontuavam apenas os vinhos de Colares, com a casta Ramisco, e os de Bucelas, brancos, feitos de Arinto. Mas, segundo notícias recentes, a Casa Santos Lima, produtora conceituada, irá reactivar uma velha quinta, ali para as bandas do Aeroporto. Que, até ao início do séc. XX produzia vinhos de alguma qualidade. Desconheço também que castas virá a utilizar, mas é possível que venha a usar as que constam no quadro da imagem acima.
Ladislau Batalha (1856-1939) que, com Azedo Gneco, fundou o primitivo Partido Socialista português, na sua interessante obra "Curiosidades da História Portuguesa" dá-nos algumas informações importantes, embora já desactualizadas sobre vinhos, e adágios portugueses, que passo a transcrever:

"...Os nossos vinhos eram  abundantes, chegando a ser considerados dos melhores e mais afamados os de Alvôr, Vila Nova de Portimão, Lagos e Évora, especialmente os de Peramanca.
Como povo impulsivo, levámos os excessos de cultura da vinha ao estado de febre intensa:
- «Em cada prado uma vinha e em cada bairro uma tia» - diz-nos o precioso adágio do século XVI.
Na conta dos vinhos finos entravam os brancos de Beja e os palhetos de Alvito, Viana, Vila dos Frades e Alcáçovas.
Os de Alcochete e Caparica destinavam-se á exportação para Flandres e outras partes da Europa, além dos que saíam para abastecimento das armadas e fornecimento para as Indias Orientais, Angola, Mina e Brasil.
Com disvelo dizia o povo envaidecido: - «Queijo do Alentejo e vinho de Lamego.»
Vendia-se então em Lisboa o vinho mau pelo preço do bom. Sobre o assunto havia opinião bem definida: - «Vinho é sangue de Cristo». ..."

E, entretanto, foram-se as coisas modificando. Que o mundo não pára e o homem é irrequieto.

Adagiário CCLI : Maio (7)


1. Quem em Maio não toa, não é ano de broa.
2. Maio hortelão, muita parra e pouco pão.
3. Touro, galgo e barbo, todos têm sezão em Maio.
4. Fiandeira não ficaste, porque em Maio não fiaste.

sábado, 30 de abril de 2016

Uma fotografia, de vez em quando (81)


As fotografias antigas, mesmo que de uma antiguidade recente, têm uma espécie de autoridade sobre nós. Ou fascínio, porque as cores são outras, o ritmo das figuras é quase sempre mais tranquilo, e acabam por nos dar uma imagem fixa e precisa de um tempo que não vivemos. Para além disso, poderá haver a qualidade estética do instantâneo e a capacidade técnica do fotógrafo, mas sobre isso eu não gostaria de falar, agora...
Ainda da Lituânia, o meu amigo António teve a gentileza de me mandar, a mim que raramente lhe escrevo, um postal com uma foto de Algimantas Kuncius (1939). Sobre a praia de Palanga (em 1966) que, diz-me também o meu Amigo, é muito bonita. Pouco consegui apurar sobre o fotógrafo lituano. Mas posso imaginar que Palanga é para Kuncius aquilo que a Póvoa de Varzim é, ainda hoje, para mim. Uma espécie de oásis da infância e adolescência, que é o tempo essencial donde os sonhos e mitos costumam nascer para o resto da vida. Mesmo nos homens mais empedernidos.
Ainda sobre a foto abaixo, o António chamou-me a atenção sobre as parecenças do fumador da esquerda com o nosso anterior PR, de má memória. Era um bónus dispensável, mas aqui fica exarado, para que conste Boliqueime na etiqueta do poste...


abraço muito grato a A. de A. M..

Catrin Finch / Seckou Keita : "Les Bras de Mer"


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Comic Relief (123)

Por imposição de géneros...


agradecimentos a AVP.

As favas de Constância


Lá voltámos às favas, que vem aí o tempo delas. Dadivosas primícias de um casal amigo que as trabalham lá para os lados de Constância, terra que se arroga ao privilégio de ter acolhido Camões, em tempos de juventude e de desventura amorosa. Frescas, macias e temporãs, deram uma favada deliciosa, à mistura com uns enchidos pecaminosos de gula, mais uns bocados generosos de entrecosto, de reco luso.
Estava eu a guardar um vinho, que trouxera do Fundão, para um momento auspicioso. E isto porque era lotado com as duas castas tintas minhas preferidas: a Tinta Roriz (Aragonez) e a Jaen. Mas eu podia lá esperar, tanto tempo!?... E abri-o, para ver no que dava a companhia. Perfeita.
É um vinho capitoso, nos seus 8 anos e 14º. E não digo mais nada, porque o silêncio é de ouro e o almoço foi soberbo...

Primavera desejada


A aragem, que vem da janela aberta, ao que parece, traz saudades da estação antiga - ainda é fresca. E o azul alto ainda não é firme e decisivo, embora também não seja aquele anil anémico que os dias de Novembro, quando límpidos, sabem trazer consigo num último esforço de beleza ténue.
Nem os morangos, apesar de grandes e bonitos, pelo sabor me não lembrem os que a minha Tia Ermelinda me mandava, numa cesta, em finais de Maio, pelos anos. Tão pequeninos eles eram!... E que saborosos, entre terra e céu, divinos. Será que ainda se criam, nesse grande quintal vimarenense, da antiga rua dos Palheiros?
O desejo humano ultrapassa, por impaciência, aquilo que a Natureza pode e quer dar, muitas vezes. Mas ela nunca transige, nem abdica do seu tempo próprio, no florir.

Ólafur Arnalds : "Near Light"

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Citações CCLXXXIV


Eu devo todo o meu sucesso, na vida, a ter chegado um quarto de hora antes do tempo.

Horatio Nelson (1758-1805).

Uso Pessoal 13


Ponto de honra e para memória futura, deixo exarado que, nestas errâncias portuguesas de Norte a Sul de Portugal, tive a sorte e o acaso de ver uma lindíssima imagem (séc. XVIII?) de Sta. Iria, na sacristia da igreja da Misericódia de Faro. Em talha dourada de fino recorte e panejamentos ondulantes, apesar de um pouco arrebicados, não desdenharia eu de tê-la, para melhor a admirar...
Não excluo imagens votivas ou os Santos, da minha convivência. Neste particular, não sou um laico puritano e ortodoxo, antes, um liberal. Vem-me de infância o gosto de tê-los por perto, ainda quando gostava de coleccionar santinhos, alguns em pergaminho, muito bonitos. Mas também pela hipótese de alguma hesitação tardia, ou dúvida final que ocorra, na hora da morte. Haverá por aqui - dirão alguns - oportunismo. É possível...
Dos domésticos, em estatuária bisonha e tosca de santeiro de província, o meu preferido é o Menino Jesus de Praga, de cabelo de poupa levantada e com o orbe em sua mão pequena. Oferecido e comprado em Esposende, por pessoa já falecida, e de minha grande estima e memória. Depois, uma Senhora das Angústias (é assim que eu lhe chamo), na sua porcelana já um pouco erodida. Estupidamente caro, comprei, há talvez quase três décadas, a um santeiro de Belmonte, grande negociante (cigano? cristão-novo?), um interessante e bem trabalhado S. Tiago em faia, a que não falta a icónica vieira e o cajado de viandante.
Finalmente, dois Cristos mutilados e crucificados, a que já faltam as cruzes. Que instalam na casa uma ponderação sofrida, mas também, com as suas chagas ensanguentadas, uma estridência anti-junqueiriana, que me lembra sempre José Régio...