sábado, 17 de dezembro de 2011

Um pouco de nós vai com ela


Deixou-nos hoje, com 70 anos, Cesária Évora (1941-2011). A sua debilidade física já a tinha obrigado, há pouco tempo, a cancelar todos os compromissos que tinha para actuar, no futuro. Do passado, ficará o sentimento fundo da sua voz nostálgica e a saudade da sua humana presença.

Mercearias Finas 45 : opções enológicas de 2011



Dezembro sempre foi um mês de balanços, em relação ao ano que está prestes a terminar. Conhecimentos, acontecimentos, escolhas e decisões que foram tomadas podem já passar por uma avaliação que o tempo ajudou a realçar, como positivas ou negativas. Ora, tendo em conta a relação qualidade/preço, não tenho dúvidas em afirmar que os melhores vinhos que provei neste ano de 2011, foram:
- em vinhos brancos, o Alvarinho Deu-la-Deu 2007, nos seus 13º graus citrinos e exemplares.
- nos vinhos tintos, o Douro Flor das Tecedeiras 2008, com os seus 14º graus pujantes, mas macios.
E qualquer deles poderá acompanhar, condignamente, a ceia de Natal  nas suas duas opções mais portuguesas, ou seja, o Alvarinho o aconchegado Cozido de Bacalhau com todos, desde que o vinho não esteja gelado, mas ligeiramente fresco; e poder-se-á abrir, uma hora antes,  o Douro para se defrontar com um bom Peru assado, recheado, como manda a lei.
Boas Festas!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Vianna da Motta (1868-1948)

Civilidade (17) : os bons hábitos à mesa


Ainda, do Codex Romannoff, manuscrito de Leonardo da Vinci, mais alguns preceitos de urbanidade e bom convívio, exigidos para estar à mesa dos Sforza:
- Convidado algum se deve sentar em cima da mesa, nem de costas voltadas para ela, nem ao colo de outro comensal.
- Não deve tirar comida do prato do vizinho, sem primeiro lhe pedir autorização.
- E se tiver vontade de vomitar, que abandone a mesa.
- Tal como se tiver de urinar.
- Não deve limpar a sua faca às vestes do vizinho.

Intermitências de Natal


Pela rua dos Condes vem uma enxurrada de crianças, em pelotões de 20 ou 30, guiadas por trintonas quase todas de cabeça armada com cornos de rena ou antenas da abelha Maia. Duas ou três com barretes de Pai Natal. Quem diria, com tantos infantes (bem à vontade duas centenas...) que baixou a taxa de natalidade, tantos são os meninos- jesus a vir dos  Templos: o Coliseu, com o seu Circo de Natal, e o Politeama com o Pinóquio do La Féria, sempre oportuno comerciante. Vindas das Portas de Santo Antão, as crianças derramam-se pela Avenida da Liberdade fora, numa soada crescente e colorida.
No Rossio, uma intervenção artística de caixas de fruta (?), brancas, da Plastidom (?), circunda a praça. Não fossem os jacarandás que, na sua memória brasileira genética, florescem a espaços com raros azúis, violetas e lilás, e a praça teria um ar pobrete, esbranquiçado demais...
Mas depois, a meio, no 44, há uma gruta mágica. Por entre as lembranças e postais turísticos, dezenas de bonecos de barro de Barcelos, Estremoz, aperaltam-se de brilho sobre o barro, para os presépios que os esperam  no aconchego das casas para onde os levem. Há 50, 60 anos custavam Esc. $50 ou 1$00, conforme o tamanho, entre ovelha, pastor ou rei mago encavalitado ou em cima de camelo. Agora o casal ancião e pequenino, simpático, que os vende, leva 2,00 euros pelos mais pequenos. Mas são irresistíveis, na memória.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

W. A. Mozart (1756-1791)

Sete resíduos surreais do dia, com natureza viva


- O sol inesperado sobre o rio.
- Pacheco, Filinto e Cesariny, metidos no mesmo saco, em alecrim, sem molhos.
- Trás-os-Montes (Feijoada) e Alentejo (Herdade das Servas) juntam-se (sonho de Torga), à mesa .
- Três esquadrilhas densas de estorninhos levantam da Ficus, ficus, no coração da cidade, ao fim da tarde.
- Um "Flos Sanctorum" quinhentista entra-nos em casa, truncado e precioso.
- Mozart também poderia / ser a melhor companhia...
- Noite, as luzes sobre o rio / piscam e tremem de frio.

O maior e o único


Perguntaram, um dia, a Rossini (1792-1868) qual era para ele, o maior dos compositores. Ao que ele, sem hesitar, respondeu: "- Beethoven!"
Voltaram à carga, e retorquiram-lhe: "Então, e Mozart?" E Rossini exclamou: "Ah, esse é único!"

Cidade Capital de Cultura 2012 / Fastos vimaranenses XII : anunciação


Pronta a requalificação urbana do Toural, praça emblemática da cidade, com a reposição do chafariz quinhentista que lá estivera, originalmente, foram ontem anunciadas as grandes linhas de programação da Cidade Europeia da Cultura 2012, que se iniciará a 21 de Janeiro do próximo ano, com um espectáculo de La Fura dels Baus. O antigo Mercado Municipal, desactivado e readaptado, dará lugar a um museu de arte contemporânea, emparceirando num lógico complemento, com o Museu Martins Sarmento (arqueológico) e com o Museu Alberto Sampaio. Aquele novo museu terá, na colecção doada por José de Guimarães, o seu núcleo duro e mais importante. A criação temporária da Orquestra Estúdio, que se estreou também ontem, dará substância musical durante o próximo ano. A Orquestra foi apadrinhada por Elisabete Matos, cantora lírica ligada a Guimarães - nasceu nas Taipas. Também uma ópera foi encomendada a Carlos Azevedo e Carlos Tê. Haverá curtas metragens, no que diz respeito ao Cinema, de Manoel de Oliveira, Jean-Luc Godard, Pedro Costa... Bem como retrospectivas de Sacha Guitry, Ermano Olmi, Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Tendo eu acesso a um programa detalhado e datado, darei nota, oportunamente.
Único senão nesta dinâmica cultural que se aproxima: a redução inopinada de 5% na comparticipação do acontecimento, por parte do Governo. Mas as gentes de Guimarães saberão, com certeza, responder a esta quebra de compromisso estatal, com a sua força bairrista de amor à Terra - como boa gente que é...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Comic Relief (39) : operática, exuberante e circense


Quem diria que esta jovem soprano era finlandesa...assim desinibida e irreverente.

com os melhores agradecimentos a AVP.

Pequena história (6) : Junqueiro, sobre Rubens



O poeta Guerra Junqueiro (1850-1923) era grande apreciador de Arte. Como, aliás, se pode ver pelo acervo de peças que constituem a Casa-Museu Guerra Junqueiro, doadas pela filha mais velha, Maria Isabel, à Câmara do Porto. Mas também tinha um acentuado sentido de humor. Uma vez, o Poeta referindo-se à obra de Rubens (1577-1640), terá dito:
"Quando vejo um quadro de Rubens, dá-me vontade de gritar: - Rubens, traz-me meia tonelada de coxas de deusas. Rubens é um marchante de carne olímpica!"

Adagiário LXXVII : os alhos e o Natal


1. Pelo Natal, tenha o alho ponta de pardal.
2. Pelo Natal semeia o teu alhal e se o quiseres cabeçudo, semeia-o pelo Entrudo.

Douro - Património da Humanidade


A 14 de Dezembro de 2001, a Unesco aprovou a região vinhateira do Douro como Património Mundial da Humanidade. Completam-se, hoje, 10 anos sobre esta distinção, merecida e honrosa.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Beethoven (Op. 130) / Kodály Quartet

Uma escolha


Todos os anos, mais ou menos por esta altura, o TLS (The Times Literary Supplement) pede a vários escritores que escolham 1 ou mais obras que tivessem apreciado, publicadas no ano em curso. Desta vez endereçaram a pergunta a 72 autores, entre eles o poeta Seamus Heaney e o filósofo George Steiner. A dispersão das escolhas foi enorme. Muito embora o segundo volume de Letters of Samuel Becket, saído em 2011, tenha colhido muitas preferências.
E houve também um português escolhido - José Saramago. O ensaista, contista e crítico Gabriel Josipovici (1940) incluiu nas suas opções "The Elephant's Journey" (Harvill Secker, 2008), do Nobel português. E a sua apreciação é bem lisongeira: "...A typical example of a late work, both naive and highly sophisticated, like The Tempest or Beethoven's Op 130 quartet, it is one of Saramago's most profound and delightful novels."

Iconografia moderna e laica (16) : a multiplicação dos pães



Nós não temos senão 5 pães e 2 peixes...
Lucas, 9: 18.

Ao que parece, a multiplicação é, por alguns exemplos, uma operação perigosa. Jesus Cristo, que a praticou por três vezes (nas bodas de Canã, e mais duas com discípulos e seguidores), foi preso e crucificado. A Dona Branca e Bernard Madoff acabaram ambos na cadeia. Pode ser que o Oliveira Costa escape, graças à camaleónica Justiça à portuguesa. Nesse caso, será a excepção que confirma a regra...

Os Trabalhos e os Dias

Para Gaspar, Ministro das Finanças (MF)

Quando alguém não assume a sua responsabilidade, ou seja, não faz o seu trabalho, empurrando-o para outros, lembro-me sempre, e peço desculpa a Hesíodo, do título de um livro seu, em epígrafe.
Ora, embora o nosso MF tivesse andado lá fora, regressou com a velha receita de responsabilizar o cliente pela preguiça - mental ou física - do fisco, obrigando-nos a pedir factura (!) em cada acto de compra e guardá-la(s). Todas, durante o ano inteiro ?
Habituei-me, desde pequena, que as lojas passavam recibo para confirmar o pagamento, havendo, e sobretudo em compras maiores, razão para a emissão de factura, num momento anterior, para confirmar a encomenda.
Ora, sucede que nos entregaram, hoje, um recibo muito esclarecedor:

Então, a DGCI tem um programa para controlar as vendas, pelo menos de um pequeno lugar de frutas, e não consegue fazer o seu trabalho, i.e., fiscalizar a execução do seu próprio instrumento ? Por que razão ?
Afinal, Gaspar, o nosso MF, não aprendeu nada lá fora para inverter a perversão da epígrafe. Insiste na velha receita, criando uma medida ilógica para que o fisco continue a não fazer "os seus trabalhos nos dias" da semana.
Post de HMJ

Farroncas, sonhos e incompetência técnica e científica


Às vezes, nos meus sonhos de grandeza, imagino que o motor de busca do Google considera o Arpose como uma espécie de Enciclopédia Britânica, tais e tantos são os encaminhamentos estapafúrdios que (coitado e americano!) faz das search words dos cibernautas, curiosos, aflitos e apoucados de horizontes de consulta, para este blogue.
Hoje, o Arpose foi o SOS do Google para o cibernauta que, angustiadíssimo, escreveu e clicou, em busca de uma resposta: "reni miranda suicídio". O motor de busca googlesco e boçal, remeteu o pesquisador para o poste "O suicídio das corporações" de 17 de Novembro de 2011, no Arpose. Deus meu!?...
O que é que o Arpose sabe de reni miranda? Nada. Nem eu, também: será homem, mulher, brasileiro? E ter-se-á suicidado? Com arma de fogo? Comprimidos? Por um desgosto de amor, ou falência técnica?
Ó Google, tem piedade!
Mas também sonho que o Google, coitado e americano, fica taralhouco com estas perguntas metafísicas de cibernautas avariados, e acaba por mandar tudo para o Arpose, num paroxismo epiléptico e desordenado, para ficar em paz mecânica com a sua consciência rural e mentecapta.
 Estás perdoado, ó Google!

Os diúnviros e o triunvirato


Assisto, com crescente perplexidade, ao servilismo acarneirado dos políticos europeus perante a ditadura consumada com que o diunvirato Merkozy tiraniza a Comunidade. Sem a mínima reacção, senão muito tímidas e vagas declarações de intenções, os outros políticos da Europa vergam a cerviz e dizem sempre que sim àquilo que a dupla Merkel-Sarkozy lhes impõe.
Mais. Todos aceitam o triunvirato da ditadura das agências de ratos (standard & poor's, moody's, fitch) que, ainda ontem, proclamaram a insatisfação pelo resultado da última cimeira europeia, e ameaçaram cortar mais o rating dos países. 
Mas o que é isto? Que escravatura consentida é esta? E não se faz nada? Ao menos que os países europeus cortassem as avenças exorbitantes que pagam a esses boys, para viverem à grande e se enfrascarem de buzz, injectando-se de drogas - como refere Paul Krugman. Bem fez uma instituição bancária portuguesa que rescindiu o contrato com uma destas agências parasitas. Mas estes políticos europeus não têm coragem, nem hombridade e, como na "Metamorfose" de Kafka, também se vão transformando em musaranhos.
Ou, como diz o povo: "Quem não se sente, não é filho de boa gente." 

Bibliofilia 55 : o "Agricultor Instruido..."



São sempre interessantes estes livros sobre Agricultura; mais ainda, os desta época das Luzes, em que coexistem sabedorias ancestrais, mezinhas populares e conhecimentos pré-científicos, para ajudar quem deles se servia. Este "Agricultor Instruido com as prevenc,oens(sic)...", de Fr. Theobaldo de Jesu Maria, editado em 1790, parece ser raro, e comprei-o este ano, em Lisboa, por 22,00 euros. E já o utilizei, aqui, em dois ou três postes anteriores.
Por outro lado, este título do capítulo XXII (Dos Rabos), dá que pensar... E até para concluir que a língua portuguesa foi ganhando pudicícia, e vergonha, com o tempo, substituíndo algumas palavras e nomes maliciosos, por outros mais anódinos sem resquícios de licenciosidade. Lembremos a Porcalhota que passou a chamar-se Amadora para maior dignidade dos seus habitantes. Ou Punhete, que ganhou o poético nome de Constância. Mais estes Rabos que se transformaram em Rábanos...Assim seja, portanto!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Gioachino Rossini / Cecillia Bartoli

Mercearias Finas 44 : Vinhos de guarda


Pode dizer-se que, de uma forma geral, os vinhos brancos têm uma vida mais curta do que os tintos e, por isso, não devem ser guardados muito tempo. E, em Portugal, pode afirmar-se que os bons vinhos tintos das regiões demarcadas do Dão, Bairrada e Douro, à partida, têm mais potencial de envelhecimento que os do Alentejo.
Para quem, como eu, goste de vinhos velhos, e os guarde na garrafeira, torna-se no entanto um problema saber se um vinho com 10, 15 anos se encontra ainda em boas condições de ser bebido e apreciado. A menos que, tendo várias garrafas da mesma marca, ano e região, vá provando, gradualmente, o vinho para poder avaliar a passagem do tempo, e a qualidade.
Ora, a casa leiloeira Christie's tem um processo simples e prático, embora não totalmente rigoroso, de estimar as condições do vinho, em garrafa. Como o vinho, com o tempo e porosidade da rolha, vai evaporando e perdendo volume, a leiloeira estabeleceu uma escala de altura do líquido, em relação ao gargalo da garrafa, como se pode ver pela imagem, que permite prever o seu estado.
Assim, segundo o esquema, a posição 1 (high fill) é um óptimo sinal para um vinho tinto velho de 10 anos. Pelo contrário, a posição 8, abaixo da curvatura da garrafa, é um indício de que o vinho já não estará em condições de ser bebido. Muito embora esta tabela seja para aplicar aos "Bordeaux", creio que também poderá ser usada em relação aos vinhos tintos portugueses, de guarda.

Nortenhas e populares (quadras) 9


Hoje, as quadras são da freguesia de Caldelas, das termas afamadas e da tenra vitela dos pastos verdejantes. Retirados os versos, como habitualmente, da Monografia da região de Amares, intitulada "Entre-Homem e Cávado" (1981). Aí vão três quadras:

Amor, não me escrevas cartas,
Bem sabes que não sei ler;
Se tu sentires saudades,
Perde um dia, vem-me ver.

Esta noite choveu papas,
Ó moços, tragam colheres;
Quem quiser ouvir mentiras
Chegue-se ao pé das mulheres.

Entre a salsa e o coentro
Hei-de plantar a cebola;
Mais vale feia engraçada
Que uma bonita mas tonta.

Em geminação e complemento



Este livro de Edmundo de Amicis (1846-1908), "Coração", já foi objecto de um poste, aqui no Blogue ("Leituras Antigas III", em 9 de Junho de 2010). Justifica-se o seu regresso, ou 2ª via, por geminação e complemento, de um poste do Prosimetron, hoje, colocado por MR. E ainda porque esta edição não consta das mostradas no Prosimetron, e ser mais antiga. Li o livro por volta dos meus 10 anos, e ainda está comigo, embora em sofrível estado de conservação, porque o papel é de fraca qualidade. Terá sido editado nos anos 30 ou, quando muito, logo no início dos anos 40. E terá tido uma edição ainda mais antiga, pois o frontispício refere: "Nova Edição Revista". Foi impresso pela Emprêsa Literária Universal (15, Rua da Hera, 17 - Lisboa), pertencendo a tradução do italiano a V. de Magalhães.
A obra era um livro de referência, muito conhecido e agradabilíssimo de ler. Era recomendado para a juventude pelo aspecto formativo e de exemplo de princípios e carácter. Sei que o li com a comoção desses anos tenros, e que me fez bem. É louvável que tenha sido reeditado - como MR refere. Oxalá muitos jovens o leiam, porque a ausência de exemplos reais a seguir, poderá ser substituída, em parte, pela ficção, nestes tempos de  poucos  princípios e, menos ainda, de figuras de carácter nobre que Edmundo de Amicis tão abundantemente destaca nas páginas de "Coração".

para MR.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Revivalismo Ligeiro LXII : Brenda Lee


Brenda Lee nasceu a 11 de Dezembro de 1944 - bom ano de colheita. Feliz aniversário!

Anátemas feudais


É uma obra de grande solidez argumentativa, pese embora a ortodoxia marxista da análise. Por vezes, também, um pouco árida para quem, como eu, não é versado em economia. Mas abre clareiras de entendimento para o que foram os fundamentos da economia feudal. O livro (em 9 tomos), de Armando Castro (1918-1999), intitula-se "A Evolução Económica de Portugal - dos séculos XII a XV", e tenho vindo a lê-lo, espaçadamente. Coisas há, nele, que se prolongam para outros horizontes onde estou mais à vontade e que, através de associações lógicas, ajudam a perceber melhor as reacções, decisões estratégicas e comportamentos humanos. Por exemplo, a força do espiritual que se sobrepõe às mais justas reivindicações materiais. Mesmo em seres humanos incultos, ou pouco esclarecidos, o peso tirânico de índole espiritual  da Igreja destruía qualquer veleidade de insubmissão às regras duras estabelecidas - através da ameaça de excomunhão. Mesmo em questões menores e terrenas, a Igreja fazia uso de isso, de uma forma perfeitamente injustificada e condenável. Passo a transcrever um exemplo, retirado do tomo VIII (pg. 50/51), da obra de Armando Castro, referida acima. Segue:
"...No ano de 1423, com efeito, reuniram-se no celeiro do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, na presença do prior e tabelião geral do rei de Entre Douro e Minho os moradores dum dos seus domínios; as razões da assembleia são proclamadas no documento que refere o acontecimento: esses colonos do Mosteiro tinham deixado de cultivar em certas leiras dominiais a vinha contra o que lhes havia sido exigido, em consequência do que «o prior ganhara contra eles sentença de excomunhão». Os caseiros suplicaram que lhes fosse levantada tão terrível condenação (que aliás acumulava penalidades, as multas, com as religiosas). Ficamos a saber que o poderoso abade do mosteiro cruciano anuiu ao pedido desde que os colonos se comprometessem a cultivar as vinhas. Tendo sido levantada a excomunhão, os colonos assumiram compromisso solene de fazer as ditas vinhas, estabelecendo-se logo ali as glebas concretas que seriam atribuídas a cada um dos nove caseiros aí presentes. ..."

Incursões Culinárias 8: O Trabalho dos Anjinhos

Como já dissemos em posts anteriores, o céu vermelho pré-natalício sinalizava o trabalho dos anjinhos, na cozinha celeste, anunciando a feitura dos bolos e das bolachas de Natal que receberíamos no dia 24.12. Com o "saber de experiência feito", podemos testemunhar que é uma grande canseira !
Com efeito, o tal Bolo de Natal alemão [= Stollen] ocupa uma tarde inteira. Entre os 45 min. de levedura para o "isco", passando por mais uma hora da massa inicial e mais uma a seguir à introdução das passas, dos corintos e das amêndoas, espera o "anjinho" mais uma hora para cozer o dito bolo. Contas feitas, e sem os preparativos dos ingredientes, vamos em ca. de 3 horas e 45 min.
Como optámos por uma massa com base num quilo de farinha, e com tão pujante tempo de levedura, pareceu que a receita daria para "dar e vender", e deu: 5 Bolos de Natal ! Os primeiros dois a sair do forno apresentam-se:

Os mais pequenos, para oferecer, ficaram, já hoje de manhã, com um aspecto profissional:

Contudo, e embora sendo Domingo, a cozinha celeste não descansou. Meteu-se a fazer Estrelas de Canela [= Zimtsterne], especialidade natalícia que os Cafés de Colónia costumam vender ao preço de 6,50 euros, em pacotinhos de 125 gramas. O valor explica-se pelo trabalho intensivo e pouco produtivo ! Mas nada consegue pagar o prazer de contemplar a primeira fornada

nem a apresentação final, digna de um manjar delicado e especial, nomeadamente em terras lusas:
Duas semanas antes, e como manda a lei para o Bolo e as bolachas tomarem o gosto dos ingredientes, está tudo preparado para o chamado "Prato de Natal" [= Weihnachtsteller], recheado de todas as canseiras dos anjinhos celestes, até umas bolachas em forma de cogumelo [= Glückspilz] que derão sorte aos nossos leitores no próximo ano.

Post de HMJ

Os 103 anos de Manoel de Oliveira


Foi com 32 anos que Manoel de Oliveira (1908) fez este filme publicitário, acompanhado de texto lido por Vasco Santana. Mas até hoje, dia em que completa 103 anos, nunca mais parou. De corredor de automóveis a actor de cinema, de gerente de Fábrica a realizador, tem sido uma vida plena e activa, sempre com compromissos de Futuro. É o decano dos realizadores de cinema, em actividade, no mundo. No dia do seu aniversário, esta singela homenagem do Arpose, a este português que nos honra a todos.

com os melhores agradecimentos a ms.

Cidade Capital de Cultura 2012 / Fastos vimaranenses XI : Paços dos Duques de Bragança



Muito próximos do Castelo, no chamado Monte Latito (ou "Colina Sagrada" como gostam de lhe chamar os vimaranenses), os Paços dos Duques de Bragança são, no meu modesto entender, o edíficio mais singular de Guimarães. Foram mandados construir pelo primeiro conde de Guimarães, D. Afonso, filho bastardo de D. João I. Viúvo da filha única de Nuno Álvares Pereira, o conde voltou a casar com D. Constança de Noronha, e os Paços começaram a ser edificados, por volta de 1420. D. Afonso era um homem viajado e conhecedor da arquitectura europeia, daí, talvez, a traça do edíficio ter sido de um tal "Mestre Antom", provavelmente francês, e "sob a vedoria de Johane Steuez". Foi habitado pelos duques sequentes, mas a partir do séc. XVII, começou a entrar em decadência.
Em finais do séc. XIX, o edifício apresentava-se já muito desfigurado (como se pode ver pela 1ª imagem que data de 1886), porque fora adaptado a quartel - situação que se manteve até ao início do séc. XX. Foi lá oficial, Raul Brandão, que em Guimarães veio a conhecer a sua futura esposa. Em meados do séc. XX, começaram as obras de restauro, que tentaram reconstituir a traça de Mestre Antom. Renovada a capela, os restantes espaços foram preenchidos por boas peças de Arte Sacra, cópias das Tapeçarias de Pastrana, bem como outras, flamengas, de Jan Raes. Os Paços dos Duques incluem também um significativo acervo de armas do 2º visconde de Pindela. Um interessante retrato da rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança, e a emblemática obra de Josefa de Óbidos, o "Cordeiro Místico", para citar apenas uma pequena parte.
Indo a Guimarães, é imprescindível visitar os Paços dos Duques de Bragança.

sábado, 10 de dezembro de 2011