quarta-feira, 17 de agosto de 2016

The Piano Guys, com algumas reservas...

Se nos abstrairmos da base religiosa (natalícia) da música e dos efeitos sensacionalistas do cenário; bem como das expressões forçadas do violoncelista, que mais parece um actor cabotino de terceira ordem, tirando isso, parece-me que a música e o vídeo ainda valem a pena.

Impromptu (27)


De súbito, reparo que o azul do rio é muito mais intenso do que o do céu. Estranhamente pálido, para esta altura do ano. Como se fora de Outono, por onde as cores começam a desmaiar.
Ou será que os incêndios extintos pincelaram o ar de um estranho cinzento? Que, de alguma forma, diluiu a vivacidade e força do azul de Verão.

Curiosidades 57


É sabido que Fernando Pessoa gostava de escrever de pé, preferencialmente, sobre uma escrivaninha alta. O que eu não sabia é que Balzac preferia escrever deitado, na sua cama; aliás, como Proust.
Entretanto, Edmond Rostand optava por reclinar-se na sua banheira, para dedicar-se à escrita. E Colette não dispensava o papel azul para melhor efabular. Mas, pela fotografia, devia escrever sentada, prosaicamente...

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Adagiário CCLVIII


Quando o pardal tem fome, vem a farinha.

Do cancioneiro tradicional castelhano (2)


Negra tenho a cara,
preto o coração,
como o amor é fogo
tornou-se carvão.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Memória (110) : Sinatra e Armstrong


Em tom neutro, para desdramatizar


Ao que parece, presentemente em Portugal, publicam-se 14.000 livros, em média, por ano.
No mesmo comprimento de onda, em entrevista recente ao DN, a editora Bárbara Bulhosa, da Tinta da China, referia: "Está instalada uma máquina de fazer livros que tem muito pouco a ver com literatura."
Agora atente-se seriamente nestes títulos prodigiosos, editados nos últimos meses:
- A livraria dos finais felizes.
- A vida é fácil, não te preocupes.
- Só no escuro podes ver estrelas.
- As memórias do nosso amor.
- A gravitação do amor
- Viver depois de ti.
- O teu rosto será o último.
- Deixei-te ir. (Este pede meças a algumas obras da sra. Rebelo Pinto.)
Em sintonia com a prodigiosa imaginação destes títulos, eu não deixaria de premiar e louvar a originalidade de alguns nomes de Blogues. Destaco três, ao acaso:
- Moro em um Kinder Ovo.
- Amo-te mil milhões.
- A vida em azul cueca.
Abençoada silly season, que nos faz esquecer o essencial e não nos deixa sofrer!

domingo, 14 de agosto de 2016

Gratidão


Pela crueza ardorosa dos incêndios, nem a silly season apetece.
Espreita-se a manhã a medo e é sempre o céu limpo ameaçador, o silêncio de não haver vento que traga nuvens, os acima de 30º, inclementes, um cheiro a fumo que vem no ar, sem origem visível.
E, depois, os exaustos bombeiros incansáveis, que só irão para o Algarve, se lá forem necessários...
Uma palavra de gratidão para os países que responderam, solidariamente, ao pedido de ajuda do poder político português. Há que nomeá-los, para que conste: Itália, Marrocos, França, Itália e Rússia.
(E a Europa aqui tão perto!?...)

A par e passo 172


Na verdade, um poema é uma espécie de máquina capaz de produzir o estado poético através de palavras. O efeito desta máquina é incerto, porque nada garante a sua acção sobre os espíritos. Mas, qualquer que seja o resultado e a sua incerteza, a construção da máquina exige a solução de uma quantidade de problemas. Se a palavra máquina vos choca; se a minha composição mecânica vos parece grosseira, queiram notar que a duração do elaborar de um poema, mesmo que seja curto, pode absorver o trabalho de anos, enquanto o efeito de um poema sobre o leitor durará apenas alguns minutos.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 159).

sábado, 13 de agosto de 2016

Revivalismo Ligeiro CCXXXVI

Animosidades poéticas


Para além de grande poeta e Nobel da Literatura (1956), Juan Ramón Jiménez (1881-1958) era um homem austero e rigoroso. Que, na sua plenitude humana, não escapava a ter algumas antipatias viscerais. Esses ódios de estimação compreendiam Gongora, falecido há muito, mas também Pablo Neruda, ainda vivo quando o poeta do Moguer compôs este dístico acerbo, matando assim dois coelhos de uma só cajadada:

La antigua juventud gongorica
que tornado se ha nerudataria.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Do rifoneiro castelhano (3)


Quien no sabe el arte, cierre la tienda.

(Quem não sabe da arte, que feche a loja.)

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Apontamento 84: Quando o insólito acontece ...



Por feitio e, também, convicção profunda, sempre advoguei, enquanto prestadora de serviço público de educação, que a discrição e boa educação evitam muitos problemas desnecessários com os nossos concidadãos.

Assim, recordo-me bem da canseira diária de batalhar nas formas de tratamento em Português, combatendo a tendência nefasta de chamar “Você” a pessoas que não conhecemos de lado nenhum, e sublinhando a obrigação do cumprimento desta regra básica para qualquer serviço público.

Ora, já posta em sossego, fui objecto de uma tratamento indevido, por parte de uma criatura de uma instituição bancária que, embora abrindo a conversa, “puxando” para o título académico do cliente, resolveu infringir, de seguida, a norma superior de tratamento em Português, num discurso pobre em que tentava explicar a “Você” o que se resumia numa mais que evidente falha do respectivo Banco.

E como não há dias sem assunto, nomeadamente numa cidade como Lisboa que, pelo espaço reduzido já se encontra “exausto” de tanto forasteiro, meterem-me em mais um episódio insólito sem pedirem o meu consentimento.

Num espaço anódino de “Let’s copy”, para os lados das Amoreiras, estava à espera de vez e  a assistir, na televisão, ao infortúnio das reportagens, sem fim, dos incêndios. Dirigiu-se uma senhora, sem eu ter feito nada para que ele entrasse no meu espaço de sossego e discrição, estrangeira pelo sotaque – porventura francesa – a berrar contra os incendiários, e também os terroristas – muçulmanos em França – afirmando que não se podia ser simpática com semelhante gente, a saber, incendiários de motivações diferentes. Disto passou a invocar que o país – certamente este donde estava a falar – não aguentava esta gente, porque tinha pedido muito dinheiro emprestado à Europa e que não estava em condições de pagar.

Quando, sobre a parte final, tentei dar a minha opinião de que a “narrativa” da dívida portuguesa estava a ser mal contada, tanto aos nacionais como aos estrangeiros por certas forças internas e externas, a senhora surpreendeu-me com uma pergunta que nem os meus mais próximos algumas vezes me colocaram. “A Senhora votou nas últimas eleições ?”.

Ora, antes que saísse da minha discrição, por ora paciente, para esclarecer devidamente o assunto, dirigi-me ao balcão ao lado, porque chegara a vez do meu atendimento.

Com mais este episódio, confesso que já me cansa tanto forasteiro balofo, incivilizado e convencido que, ao fim do dia, só encontrei, nesta zona de invasão abusiva de turistas, um espaço de sossego. Descobri o largo da igreja das Chagas, na imagem acima, por enquanto fora dos "carreiros" dos enxames turísticos.

 Post de HMJ

De Philip Glass, o Estudo nº 9 para piano

Siegfried Sassoon (1886-1967)


They


"Quando os rapazes regressarem" - disse o Bispo
- "não serão os mesmos; porque vão lutar
por uma causa justa: hão-de levar até ao fim
a guerra contra o Anti-Cristo; e o sangue dos caídos
dará origem e lugar a uma nova geração e raça,
porque desafiaram a morte, olhando-a face a face."

"Não somos já os mesmos" - responderam os moços.
"Porque George perdeu ambas as pernas; Bill cegou;
o pobre do Jim está afectado dos pulmões e quer morrer;
e o Bert ficou sifilítico; não se há-de encontrar
nem um só dos moços que não tenha mudado."
E o Bispo disse: "São insondáveis os caminhos do Senhor!"


Nota pessoal: apesar de ter combatido na I Grande Guerra,  o poeta inglês Siegfried Sassoon foi um pacifista militante; muitos dos seus poemas são sátiras pungentes contra a Guerra.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Pessoal e intransmissível


Matinalmente, hoje, ao fazer a minha ronda pelos blogues que frequento (três deles em que não me inscrevi como seguidor), num deles deparou-se-me a imagem de 16 lombadas em que nitidamente se poderiam ler os títulos e os autores. Quase ao centro, uma coisa que tinha por título Lava Jato, de Vladimir Netto. E perguntei-me como é que uma pessoa culta, ilustrada e com mundo, comentador em vários canais televisivos, se dispunha a perder tempo com um livro destes... Eu sei que eram leituras de férias, silly season para todos os efeitos, mas que diabo!... Depois, humildemente, reconheci que cada um tem direito às suas fraquezas e a gastar o seu tempo de forma perdulária ou inútil, como quiser, enfim. E meti a viola ao saco...
Muitos me poderão verberar a escolha de O Labirinto de Castang (nº 644, da Vampiro), de Nicolas Freeling, autor que é a minha última coqueluche em matéria de policiais. Porque escreve bem, pensa, divulga factos interessantes sobre países (Holanda, França, Alemanha e Inglaterra, sobretudo) e, embora a intriga policiária não use o cânone clássico (ver S. S. van Dine), o interesse, para o leitor, mantém-se constante ao longo da narrativa. Juntaria, se me fosse de férias, o Je déballe ma Bibliothèque, de Walter Benjamin, que já tem outra consistência, e obra a que já vou a meio, na leitura. Bem como Tristão, de Thomas Mann, numa tradução partilhada de Fernando Lopes Graça, editado pela Inquérito. Seriam estas as minhas leituras de férias.
E quanto a local onde me apeteceria estar, como não tenho, e não há paraísos artificiais, só desejava que não fosse este nosso país devastado pelos fogos.


para MR, com uma piscadela de olho, e renovado agradecimento.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Em tempo, ou da infelicidade de ter um incêndio particular


Não lhe sofremos directamente os malefícios, mas já nos bastavam os fogos na TV...
Atrás da terceira grande chaminé, à direita, a nuvem cinzenta diluída até parece o fumo dum vulcão.
Não é, é mais um incêndio, algures entre o Barreiro e Palmela - que não merece palavras ou comentários piedosos, nesta fornalha de Sol que foi o dia.

Citações CCXCIII


Para conseguir manter os seus erros reduzidos ao mínimo, o Censor íntimo a quem o poeta submete o seu processo criativo, deveria ser uma espécie de comité de Censura. Que conviria incluir, por exemplo, uma criança sensível, uma dona de casa pragmática, um monge, um bobo irreverente e até talvez mesmo, o mais detestado por todos os outros - que lhe hão-de consagrar um enorme desprezo -, um brutal sargento fala-barato e bronco que considera toda a poesia um perfeito e inútil desperdício.

W. H. Auden (1907-1973), in Writing (1962).

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

domingo, 7 de agosto de 2016

Beethoven : "Andante com variações..."


Uma fotografia, de vez em quando (85)


Nascida em Berlim, a fotógrafa alemã Marianne Breslauer (1909-2001) teve uma carreira profissional relativamente curta de cerca de uma dúzia de anos, muito embora tenha deixado uma obra de consistente qualidade, ainda hoje reconhecida.
Fez a sua aprendizagem em Paris, com Man Ray, tendo depois colaborado intensamente em diversas revistas germânicas, em finais dos anos 20. Com a ascensão do nazismo, transferiu-se para a Holanda onde veio a conhecer e casar com o marchand Walter Feilchenfeldt. Por alturas da II Grande Guerra passou a residir na Suíça, abandonou a profissão de fotógrafa, tendo-se dedicado, por inteiro, à sua galeria de arte. Morreu em Zurique, a 7 de Fevereiro de 2001.


sábado, 6 de agosto de 2016

Apontamento 83: Desilusão



Embora correndo o risco de me repetir, sublinho que não acredito na inocência da criação literária, mas também não encontrei isenção nos campos da ciência ou até do desporto, tão em voga nos nossos dias.

Felizmente, pertenço ainda à geração dos praticantes de desporto, de diversas modalidades, nos vários graus de ensino, muito antes de entrarmos nesta “nova religião da actividade física”, com imposições de moda, formas de estar e pensar.

Assim, livrei-me deste novo “ente” todo-poderoso desportivo, e também não me obrigaram a jogar futebol, como não impuseram aos meus colegas masculinos a prática de “ballet”.

Dito isto, entendo que atrás de uma ideia salutar do desporto se instalou todo uma indústria, formas de vida unívocas, espiritual e material, que não aprovo nem pretendo alimentar.

E, no meio deste pântano, também se perverteu o ideal dos Jogos Olímpicos, tão em voga actualmente. No entanto, quem ler, com atenção alguns artigos, publicados no DIE ZEIT, sobre a matéria, concluirá que a pureza dos Jogos Olímpicos se desvaneceu há muito.


Bastou-nos, aqueles que como eu tiveram a tarefa de transcrever os escritos de Carl Diem – em epígrafe – o contacto com um dos obreiros do Comité Olímpico para perdermos a ilusão quanto à pureza do ideal dos Jogos Olímpicos, no passado, e, com maior razão, no presente.

Post de HMJ

sexta-feira, 5 de agosto de 2016




quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Philip Glass : da banda sonora de "The Fog of War" (2003) de Errol Morris

Ideias fixas 6


É, no mínimo, esquisita esta decisão ou aceitação da tutela da CGD que, para efeitos de gestão do banco público, permitam aumentar o número de administradores, mas se obrigue à diminuição do número de trabalhadores...
Nesta altura da idade do mundo é uma perfeita utopia ou uma ideia ingénua, de almas simples bem-aventuradas ou de políticos perversos, considerar que, no futuro, haverá mais empregos ou postos de trabalho.
Posto que, para mim, há ainda alguns ofícios que não têm grande razão de existir. Ou que seriam dispensáveis. Limito-me apenas a referir três: os curadores de arte e exposições, os gestores de conta bancários e os psicólogos. Todos eles são muletas redundantes de pessoas que não sabem governar-se por si. Ou que não souberam crescer nem ganhar e gerir a sua própria autonomia. Estética, financeira e humana, respectivamente.
Mas também é bem possível que estas malas-artes referidas, por várias razões, algumas delas obscuras, continuem a proliferar e a dar emprego, nessas funções decorativas...

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

De Eugenio Montale (1896-1981)


Depois da chuva

Sobre a areia molhada aparecem ideogramas
como sinais de pássaros. Olho para trás
mas não distingo ninhos, nem abrigos de aves.
Por certo que terá passado um pato, já cansado, talvez coxo.
Mas eu não saberia decifrar essa linguagem
nem que fosse chinês. E bastará um sopro 
de vento para apagá-la. Não é de todo seguro
que a Natureza seja muda. Fala sim, sem tom nem som
e a única esperança é que não se ocupe
por demais de nós.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Sobre a Língua (portuguesa) e seus cultores


Eu respeito os frades, e não receio plagiar Eça de Queiroz afirmando que faz falta em cada geração um Castilho, imitador de frades; mas a Língua não faz profissão e não pode viver eternamente encapuchada no recolhimento de uma cela monástica. Herculano, mestre da prosa narrativa, mas propenso ao estilo tonítruo e oratório, tinha a mão um tanto pesada para esta tarefa. Coube a Garrett essa operosa e espinhosa missão, que nunca será suficientemente agradecida. Nem todos os autores se dispunham a descer num café do Cartaxo para o descrever, e levantar daí a mão para nos iniciar nos encantos da charneca ribatejana.

Álvaro J. da Costa Pimpão (1902-1984), in Gente Grada (pg. 24).

Nota pessoal: Álvaro Júlio da Costa Pimpão, tendo sido reitor de Liceu, foi depois leitor de português em Bordéus, vindo mais tarde a tornar-se professor catedrático da Universidade de Coimbra. Tive-o como mestre de Teoria da Literatura, creio que em 1963. Como episódio curioso posso informar que usava cerca de duas aulas para analisar a forma como Eça descrevia os modos diversos do bater das horas de relógio nos seus romances...

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Revivalismo Ligeiro CCXXXV


Uso pessoal 14


De facto, nunca virei a saber a razão exacta que torna tão popular e visitado o antigo poste, do Arpose, "Heidegger, sobre um quadro de Van Gogh" (23/1/2013). Se a reprodução da célebre tela das cansadas e camponesas botas do pintor holandês, se as sábias e humanas palavras do filósofo alemão. Inclino-me, no entanto, para a imagem, por várias razões. Que os nómadas ligeiros e aéreos, que pululam na net, não gostam de perder tempo com palavras e leituras. Creio que, muitos deles, são até analfabetos funcionais.
Estes meus velhíssimos e desgastados sapatos de pala, em imagem fotográfica, confesso à puridade que me acompanham há duas ou três décadas - nunca juntei coragem para os deitar fora. Acusam longa vida, mas ainda os uso por casa ou em brevíssimas surtidas exteriores que, por curtas, não chegam para envergonhar-me perante os meus semelhantes mais atentos e observadores...
Sinto-me bem com eles: são cómodos, dão-me bom andar, são seguros, flexíveis q. b., e nem preciso de apertar ou desatar os atacadores quando os calço ou descalço. Em suma, que poderia eu querer mais?


Nota: para os devidos efeitos, tenho a declarar que este poste não é uma geminação da sofisticada temática "Elegâncias", que a MR costuma publicar no seu Prosimetron.

Adagiário CCLVII : Agosto (7)


1. Caroço de Agosto, dá gosto.
2. Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno.
3. Pelo S. Bartolomeu (10), vai à vinha e enche o lenço.
4. Uma rega no mês de Agosto, leva o milho ao caniço.