segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Steiner, a propósito


Esta neblina vaporosa que se abateu pela ante-manhã de Lisboa, mantendo-a numa obscuridade leitosa, parece apagar as casas, o rio, dissolver o raciocínio, dificultar a razão, pelo menos, temporariamente. Até o dia se clarificar. E a geometria restaurar as referências que nos são próprias e conhecidas. Um pouco por acaso, mas também por coincidência apropriada, leio (e traduzo), o quase início de The Death of Tragedy (1961), de George Steiner:
"...Todos os homens sabem o que é a tragédia na vida. Mas a tragédia, enquanto forma dramática, não é uma noção universal. A arte oriental conhece a violência, a dor, a catástrofe natural ou premeditada; o teatro japonês está cheio de acções ferozes e de mortes com grande aparato; mas este cenário de sofrimento e de heroísmo pessoais a que nós chamamos teatro trágico é muito específico na tradição do Ocidente. ..."

domingo, 15 de novembro de 2015

Edward German (1862-1936)


Mercearias Finas 108 (e não só...)


Por aqui (imagem), sossegadamente, nos iniciámos na estação da caça, neste ano da graça de 2015, com uma perdiz silvestre, estufada, a saber a campo. Acompanhada de batata frita, fina, e uma salada de feijão verde. Veio também, para a mesa, um jarro de colheita particular, de uma quinta próxima do Cartaxo, vinho branco fresco - sem pergaminhos especiais, mas capaz - porque estava calor. Rumámos, então, a Sintra. Por Colares, 4 Vampiros em falta esperavam-me numa Feira de Velharias espalhada por um  pequeno Largo, e, por volta de Almoçageme, de regresso, na estrada, com permissão e benevolência da A.S.A.E., ou porque era Domingo, uns feirantes expunham, ao ar livre, garbosamente, produtos de Fumeiro nortenhos, fruta da várzea de Sintra, queijos saloios, mel e outros produtos da terra. Trouxe um salpicão de Mirandela, que promete, e uma garrafa de Espadeiro minhoto, com linda cor rubi clarinho. Havemos de ver e provar, em altura própria que os mereça.

Pinacoteca Pessoal 103


Ora acontece que o Palácio do Correio Velho leva a efeito, proximamente, um leilão diversificado, nos lotes que acolhe, incluindo, também, pintura portuguesa e estrangeira de vários artistas. Uma boa parte da pintura portuguesa, será de obras menores, embora de nomes consagrados (Pomar, Cargaleiro, Menez...). Da almoeda, constam também várias telas de Jean-Baptiste Pillement (1728-1808), pintor de origem francesa, que daria um case study muito interessante porque, não tendo cotação europeia, é muito apreciado e bem vendido, sobretudo no Norte de Portugal, talvez porque trabalhou muito por cá...
Da observação que fiz, do núcleo de pinturas nacionais, se me fosse possível escolher, optaria por duas que despertaram a minha atenção. São de dois artistas portugueses separados por quase um século, quanto ao seu nascimento. Assim, do setubalense João Vaz (1859-1931) eu destacaria a "Igreja da Oliveira - Guimarães", mais pelo aspecto sentimental, para mim, que a pintura até tem um gosto naïf e pouco elaborado... De João Alfaro (Moçambique, 1954), eu escolheria a obra "Da outra margem", pintada em 1999, e que apreciei bastante, do ponto de vista estético. E por aí me ficava, quanto a licitações...


Para reflexão


É um exemplo simples, objectivo e indesmentível. Que ajuda a desmontar ou desmistificar a sacralidade dogmática instrumental da Economia, na sociedade dos nossos dias. E é referido pelo economista e sociólogo francês Bernard Friot (1946), desta forma linear: uma baby-sitter vem tomar conta do bebé de uma família, recebendo, em troca, um pagamento por esse serviço - uma transação, para todos os efeitos, que é acrescentada ao PIB; se for o avô ou a avó a encarregarem-se dessa tarefa, gratuitamente, não há valor acrescentado, nem registado pela contabilidade nacional. Ora, o valor social do acto é exactamente o mesmo.

sábado, 14 de novembro de 2015

Léo Ferré


Citações CCLXVII


O ódio é a cólera dos fracos.

Alphonse Daudet

...

Basta que um homem odeie outro, para que o ódio ganhe, de próximo em próximo, a humanidade inteira.

Jean-Paul Sartre

A par e passo 152


Mas, de facto, não é um culto privado: a poesia é literatura. E a literatura comporta, quer queiramos ou não, uma espécie de política, de competições, de idolatria, uma combinação infernal de sacerdócio e de negócio, de íntimo, mas também de publicitário; ou seja, tudo aquilo que é necessário para desanimar as primeiras intenções donde desperta, e que estão, em geral, bem distantes de tudo aquilo que era nobre, delicado e profundo. A atmosfera literária é pouco favorável à cultura desse encantamento de que falei: ela é vã, contenciosa, cheia de ambições, de movimentos que disputam a superfície do espírito público. Esta sede que pressiona e estas paixões que em nada convêm à formação laboriosa das obras, e menos ainda à sua meditação por parte das pessoas que as merecem, e cuja atenção é a única que pode recompensar um autor que não dá qualquer valor à admiração em estado bruto e impertinente.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 108/9).

Divagações 102


Como é que se arruma, num sonho, a Guerra Civil de Espanha e os últimos cinco dias, antes da reforma, na última empresa em que trabalhei? As atrocidades  e as gavetas da secretária arrumadíssimas, com apenas muitos bloquinhos, em branco, que levarei para casa? E, ainda, o inventário e o itinerário dos locais predilectos, que quero revisitar, numa romagem final, antes de partir... A ribeira ou levada, as pequenas e sinuosas ruas mais castiças, as vivendas antigas, a figueira retorcida, junto à ponte artesanal, os subúrbios mais amados? 28 anos que se arrumaram em 5 dias concentrados e, depois, num sonho de pouquíssimos minutos?
E, no entanto, tudo se compagina em verdades próximas: o novo massacre, ontem, em Paris (trocado pela Guerra Civil espanhola), e a próxima-futura visita, talvez na próxima semana, aos locais sonhados...

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

William Sheller


Adagiário CCXXXV


Quem porcos busca, a cada moita lhe grunhem.

As palavras do dia (14)


Na sua habitual crónica (Estação Meteorológica) das sextas-feiras, na ípsilon (jornal Público), António Guerreiro tece, hoje, algumas considerações curiosas sobre "os suspeitos do costume" que, na sua vacuidade barroca e incontinente, vão formatando a mentalidade pequenina da mainstream maioritária. Que se vai, assim, ocupando com as raspadinhas, as revistas róseas e uma ideologia da treta, inofensiva e estandardizada, numa babel ordenada de todos os dias. O chamado pensamento único.
Desta crónica, destaquei 3 excertos, porque me pareceram mais significativos:
"...Fixando-nos em latitudes muito portuguesas, podemos hoje perceber que há uma preocupante hegemonia de uma subcultura e de tudo o que opera no sentido do abaixamento e da degradação. (...) Ou seja, são os escritores subalternos, os animadores da televisão e os profissionais da idiotice impressa ou teledifundida, munidos de um vasto arsenal de instrumentos, que se tornaram os grandes mediadores. (...) Os media gostam é de sociólogos espontâneos, de atrevidos repórteres sociais ou de quem faz sociologia para uso jornalístico. E assim se escancaram as portas aos «grandes redutores». Mas, mais do que uma retracção forçada, existe mesmo por parte destas elites uma tendência para entrar na tagarelice e fazer o seu jogo. Há de facto demasiada mistura e indistinção entre a alta cultura e esta subcultura produzida ou induzida pelos media, de tal modo que deixámos de saber quem legitima quem e a que campo pertencem certos protagonistas. ..."

Microclimas


Antes da criação do Mundo, era o silêncio e não o verbo. Deus deve, verdadeiramente, saber o que é isso. E a culpa do ruído é dele, talvez por necessidade de um contraditório. Ou porque se aborrecia imenso...
A Natureza fala por si, discretamente e sem estridências, mas nós, redundantes seres humanos, temos, quase sempre, a veleidade de lhe acrescentar qualquer coisa, de inútil - não resistimos a discretear sobre ela. Pouco acrescentando - diga-se de passagem.
Este ano, haverá por certo bom queijo de Azeitão, que os pastos verdes vão pródigos e grandes, em volta da Vila Fresca e Vila Nogueira, por onde andou, na simpreza dos seus últimos anos, o Zeca Afonso. Lembrei-me dele, quando por lá passei, e imaginei o quanto ele gostaria de ter vivido estes dias de agora, tão ricos e interessantes.
Estendem-se as ervas verdes tenras, por baixo dos olivais, vinhedos e pinhais, até muito perto de começarmos a subir para a Arrábida. Até aí, as ovelhas retouçam, felizes. Depois, é só vegetação rasteira, arbustiva e densa, pelas escarpas roqueiras. O mar limpo faz a sua aparição, no horizonte, e começa o seu duelo com o azul do céu. Assistimos, em silêncio, ao que parece um milagre.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Jean-Philippe Rameau (1683-1764)


Bibliofilia 127


Trago aqui à colação, na rubrica Bibliofilia, este folheto de 1929, com 36 páginas, de autoria do arqueólogo vimaranense coronel Mário Cardozo (1889-1983), pelo facto de ser o último exemplar, que a Sociedade Martins Sarmento (Guimarães) tinha à venda, deste opúsculo de pequena tiragem. Adquiri-o por 5 euros, na minha última deslocação a Guimarães.
Esta monografia sobre a Pedra Formosa, talvez a peça arqueológica mais emblemática do Museu da Cultura Castreja (Briteiros), muito documentada, está, porém, desactualizada. O monolito hexagonal irregular ( 2,90m. de largo, por 2,28m. de altura, com o peso de cerca de 5 toneladas), de que se conhecem referências desde o século XVIII, constituiu um mistério durante muitos anos, quanto à sua utilização primitiva. As hipóteses avançadas dividiam-se por: estela funerária, ara de sacrifícios ou frontão de habitação primitiva. Estudos recentes datam a Pedra Formosa de há cerca de 3.000 anos e apontam para que fosse integrante do interior de balneários da civilização castreja, e cuja abertura, inicialmente circular, daria acesso ao compartimento dos banhos a vapor.
A peça arqueológica, com desenhos decorativos toscos, mas muito interessantes, foi oferecida por Francisco Martins Sarmento (1833-1899), em 1897, ao Museu homónimo, de Guimarães, tendo transitado, em anos recentes, para a proximidade do local onde fora encontrada originalmente (soterrada), integrando, agora, o acervo do Museu da Cultura Castreja, em Santo Estevão de Briteiros.



Nota pessoal: não queria deixar de referir que a Sociedade Martins Sarmento, com o seu importante Museu Arqueológico, anexo, e um largo currículo, já centenário, em prol da Cultura portuguesa, se debate, a exemplo de algumas congéneres nacionais, presentemente, com grandes dificuldades financeiras, que comprometem o seu futuro.

arte menor (23)


Jardim das Águas Livres


A relva do parque vai colhendo
água da noite agreste,
palavras muito livres
e dizê-las
sem que as entenda eu demais,

sem que se façam poema.



Lx., 1980/ Sb., 2015.

A Matemática e o Direito


Creio que nunca, em Portugal, e no último mês, se fizeram tantas contas de aritmética com parcelas tão diversas, das 5 possíveis, para obter um total pretendido e desejado, com objectivo político.
Um pouco, como em tribunal se assiste, às vezes, à esgrima de argumentos de diferentes perspectivas, para caracterizar e justificar um mesmo facto concreto.
Donde, talvez fosse legítimo concluir que o Direito e a Matemática não são ciências exactas.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

S. Martinho


O dia de S. Martinho era, sobretudo, de noite, andar pelas ruas com as lanternas feitas na escola. E a canção que mais me ficou no ouvido é esta.

Post de HMJ

Citações CCLXVI


Tenho de dizer que a televisão é muito pedagógica.
De cada vez que alguém liga o aparelho, eu vou para a sala ao lado, onde está a biblioteca, e acabo por ler um bom livro.

Groucho Marx (1895-1977), in King Lear (1947).

6 anos


Calhou, por mero acaso e sem qualquer premeditação, que o Arpose se tivesse iniciado sob a invocação ou patrocínio de S. Martinho, e no seu dia festivo (11 de Novembro), portanto. Santo que é, também, patrono dos pobres e das crianças e, folcloricamente, associado às castanhas e ao vinho: Pelo S. Martinho, lume, castanhas e vinho.
Seja como for, o nosso Blogue completa, hoje, 6 anos de existência. E, este casal de Infantes, que deixo em imagem a encimar o poste, aqui fica para saudar e agradecer aos Amigos, Comentadores e Seguidores que nos têm acompanhado, ao longo deste tempo.
Bem hajam!

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Helmut Schmidt (1918-2015)


Nota breve para registar e lamentar o falecimento de Helmut Schmidt, grande estadista alemão e notável pensador das grandes questões europeias.

Erik Satie (1866-1925)


Um quadro


Quando vi a reprodução deste quadro, no penúltimo TLS (nº 5874), assim, de repente, pensei que fosse de Thomas Gainsborough (1727-1788). Depois, reparando melhor na indumentária das personagens (neste caso, a família Sitwell), achei que era impossível. As roupas eram, nitidamente, mais recentes. De facto, a tela foi pintada em 1900, por John Singer Sargent (1856-1925), e, não tendo uma técnica inovadora, não deixa de ser um belo retrato de Família.

Em louvor da província lusitana


A verdadeira e autêntica província portuguesa tem, muitas vezes, esse sábio e modesto timbre da discrição. Não grita nem proclama, ostensivamente. Vive apenas com honradez, comedimento frugal e tímido orgulho, consciente da sua qualidade intrínseca. Há um lado granítico, na sua natureza e vontade, que pode resistir e afrontar qualquer tempestade, por mais forte que seja a destruição do tempo. A firmeza é uma das suas características mais antigas e perenes.
Respeitando aquilo que considera os seus valores matriciais de identidade, a província lusitana defende com tenacidade e constância, muitas vezes com bravura, tudo aquilo que considera de essencial e nobre, como seu. Raramente abdica. Copernicamente, poderá calar, mas resiste sempre, com fidelidade aos seus princípios, sabendo esperar o tempo que for preciso, para que os outros lhe reconheçam a fibra e o valor.

Pequena história (37)


Memórias, sabe-se que são, muitas vezes, uma forma de cristalizar, em primeira mão, uma biografia. Dissimulando ou expurgando-a dos episódios mais contraditórios ou menos recomendáveis, que o próprio não quer que passem à posteridade ou à História oficial.
Diz-se que o Marechal Pétain (1856-1951), ao ser-lhe perguntado porque não se decidia a escrever as suas Memórias, terá respondido: "Memórias, eu escrevê-las?! Jamais! Eu não tenho nada a esconder!"...

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ludovico Einaudi : "Monday"


Exposição de armamento bélico antigo


É uma exposição invulgar e rara, esta que decorre em Guimarães, até 2/10/2016, em locais emblemáticos da Cidade. E, para quem se venha a deslocar ao Minho, é uma oportunidade única para ficar a conhecer alguns dos apetrechos bélicos mais antigos.


Historinha, quase uma fábula


Andam, por aí, muitos profetas da desgraça invocando os demónios mas, no antigamente, na vida, havia 3 classes no Mundo: os reis, que habitavam o Paraíso, a classe intermédia que morava no Purgatório, e os pobres que se arrastavam pelo Inferno. Então, houve alguém que, num passe de mágica e, filosoficamente, resolveu transferir estas paragens deterministas para o Além, ou para o reino do éter ou dos céus, numa outra vida, improvável. Durante séculos, este precário equilíbrio foi-se mantendo inalterável.
Até que um papa, de nome Bento, resolveu acabar com o Purgatório ou com a ideia dele. E foi assim que começou o  declínio, ou a desaparição gradual da classe média.

domingo, 8 de novembro de 2015

Lembrete 31


Artista plurifacetado, gráfico inspirado e competente que deixou a sua marca estética em grande parte das edições da Inova, Armando Alves (1935) completou recentemente 80 anos de vida. Com Angelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, integrou o grupo denominado Os Quatro Vintes, da Escola de Belas Artes do Porto. Aqui o lembro.


Yann Tiersen (1970)