domingo, 13 de abril de 2014

Pinacoteca Pessoal 75


O quadro, em imagem, conhecido, na Grã-Bretanha, por The Ruskin Madonna (por ter pertencido ao crítico de arte John Ruskin), é atribuído a Andrea del Verrocchio (1435-1488), muito embora alguns especialistas se inclinem para ter sido um trabalho de juventude de Leonardo da Vinci (1452-1519), e terá sido pintado por volta de 1470. Integra, hoje, o acervo da Scottish National Gallery, de Edimburgo (Escócia).
O cenário envolvente antecipa e ilustra o gosto de centrar os temas pictóricos em vestígios de ruínas da Antiguidade, que teve o seu epicentro no século XVIII, princípios do XIX, e cujo exemplo mais conhecido é o retrato de Goethe (de Johann H. W. Tischbein), reclinado, tendo ao fundo os campos de Roma, bem como muitas das paisagens de John Constable (1776-1837).
Dois pormenores simbólicos terão alguma importância na obra The Ruskin Madonna. O templo destruído, que a lenda popularizou e datou do nascimento de Cristo; e o Menino sugando e mordendo o dedo, com ligeiríssimo vestígio de sangue, numa premonição da Crucificação.

Beethoven / Schnabel


A par e passo 87


Não terá sido suficiente à nossa geração aprender pela sua própria experiência como as mais belas coisas e as mais antigas, e as mais formidáveis e mais bem organizadas são perecíveis por acidente; ela viu, na ordem do pensamento, do senso comum, e do sentimento, produzirem-se fenómenos extraordinários, realizações bruscas de paradoxos, decepções brutais da evidência.
Não citarei senão um exemplo: as grandes virtudes dos povos alemães engendraram mais males de que a ociosidade conseguiu criar em vícios. Vimos, com os nossos próprios olhos, o trabalho conscencioso, a instrução mais sólida, a disciplina e a aplicação mais sérias, adaptadas a medonhos desenhos.
Tantos horrores não teriam sido possíveis sem tantas virtudes. Foi preciso, sem dúvida, muito de ciência para matar tantos homens, dissipar tantos bens, aniquilar tantas cidades em tão pouco tempo; mas foram precisas não menos qualidades morais. Saber e Dever, sois então suspeitos?

Paul Valéry, in Variété I (pgs. 12/3).

Fernando Echevarría (1929)


É o que vemos que nos reza dentro.
Tanto se abstrai quem vê do que foi visto
que passou a reinar no pensamento
apenas o esplendor do paraíso.
Aí os nomes haurem o concreto
sopro da novidade. O corpo, vivo,
respira. Cumpre o rítmico respeito
pelo seu cunho de real específico.
Não só respira. Ao tomar assento,
dá conta indefinível do retiro
que ausentando-se, deixou o luto tenso
e a eficácia feliz do seu vestígio.
Daí que reze, interior, não vermos,
mas o volume esplêndido do visto.

Fernando Echevarría, in Categorias e outras paisagens (Afrontamento, 2013).


sábado, 12 de abril de 2014

Regionalismos transmontanos (33)


1. Enfuscada - sarilho, trapalhada.
2. Engajatado - torcido, voltado.
3. Engarbonar-se - vestir-se com a melhor roupa.
4. Enroscar - namorar (com sentido meio depreciativo).
5. Entrabelado - sem luz, escurecido.
6. Entrecuco - pai ilegítimo.

Afinal, havia outro...


E eu a pensar que já tinha completado a colecção de pacotinhos de açúcar, da Sidul, quando vejo este, dos Açores, na mesa, ao lado do café que me serviram...
No verso, vem a história sucinta do cultivo do chá, na ilha de S. Miguel (Gorreana, de nome e marca), nas variedades de preto e verde, e que, aqui, já foi objecto de um poste: Produtos Nacionais 7 (a 1/5/2012).
O facto abalou-me a confiança e a certeza: será que ainda há mais, além dos 13 que postei?

Dinastias



Pequenas diferenças distinguem os figurantes: o local e data de nascimento, o peso, a cor das gravatas e os sapatos.

Manhã parda em Abril


O céu leitoso está cheio de andorinhas. Dispersas, em voos caprichosos e nervosos, aparentemente, sem fim à vista, que os pequenos insectos aéreos, com o frio, devem andar recolhidos, algures. As andorinhas ocupam, de forma vaga, o espaço que, em Outubro, pertence aos estorninhos, sempre mais gregários, nas suas constelações negras e evolutivas de nuvens espessas. São bem ralos, os bandos de andorinhas.
O Tejo são duas linhas pardas mal definidas, mas imóveis, ao longe. O vento parece arrepiar as cortinas, ao de leve agitadas e, do mármore em frente, escorrem traços negros, verticais, de humidade poluída. Uma pomba solitária aninha-se, como para nidificar, muito quieta, no lambril de pedra. Chegam mais duas, que se namoram, com alguma violência, contra a parede branca da casa alta.
Nem os melros cantam ou aparecem. Só o silvo entrecortado do zilrear das andorinhas assobia pelo ar.

René Aubry

Citações CLXX


Nas revoluções há dois tipos de pessoas: os que as fazem e os que delas se aproveitam.

Napoleão (1769-1821).

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Quem tem medo dos velhos capitães de Abril?


Estou em crer que as comemorações excessivamente protocolares e oficiais, pastosamente longas, nos discursos, não ajudam a celebrar uma data e uma acção libertadora que foi juvenil na alegria, e natural na adesão geral à liberdade e à democracia.
Não sendo, à partida, uma prerrogativa inalienável dos capitães de Abril, o seu direito à voz, nas comemorações parlamentares dos 40 anos do 25 de Abril, parece-me absolutamente natural e lógico. Não terá sido igual o entendimento da actual presidente da Assembleia da República que rechaçou a vontade de intervenção oral deles, com a sua voz boçal, glauca e ultramontana, contrapondo um deselegante: "O problema é deles!..."
Nem o banho lustral de Bruxelas, uns anitos, nem a sua alegre e compensadora reforma, ainda quadragenária, terão modificado um pensamento rural cavernícola onde, geneticamente, a democracia nunca terá entrado, nem sequer a luz da diferença...

As faces dialectais Portuguesas


Apesar da relativa exiguidade territorial, Portugal conta, pelo menos e ao que julgo, com quatro dialectos reconhecidos: o mirandês (Miranda do Douro) e o barranquenho (Barrancos), ambos com influências castelhanas; e, ainda, o nazareno, hoje provavelmente quase extinto, mas que foi usado por Alfredo Cortês (1880-1946), nalgumas suas peças teatrais (Tá-mar...).
Finalmente, na zona de Minde (Alcanena), terra natal de Roque Gameiro (1864-1935), temos o minderico, talvez o menos conhecido dos dialectos portugueses. E foi, com alegre surpresa, que descobri e comprei a curiosa monografia (com a capa em imagem) "Piação dos Charales do Ninhou" - cujo título significa, mais ou menos: Linguagem dos habitantes de Minde.
Maqueda!

J. Vianna da Motta (1868-1948)

Recomendado : quarenta e oito - Roque Gameiro


Pouco, ou mal, divulgada, esta exposição (magnífica) de aguarelas de Roque Gameiro (1864-1935), na Galeria da Câmara de Lisboa, merece bem a pena ser vista. Mas, o tempo urge: só estará aberta ao público até 25 de Abril de 2014.
E o catálogo que a acompanha (embora não seja barato: 15 euros) é exemplar e muito bem concebido. Imperdível, esta mostra, para quem aprecie Pintura. Ainda para mais, de boa cepa nacional.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Para uma iconografia dos eleitos


O pai Desiré, a mãe Henriette, o irmão, mais novo, Christian, entre os joelhos do pai; ao centro, em pose obstinada e de braços cruzados, Georges Simenon, criança ainda.

Citações CLXIX


Há uma idade em que o barulho agrada mais do que a música, e a acidez dos frutos verdes é mais apreciada do que o sabor dos frutos maduros.

Louis Veuillot (1813-1883).

Lembrete 15


Saiu hoje, com o jornal Público, o primeiro livro (edição fac-similada) de muitos que foram proibidos pela Censura e retirados de venda, no tempo do Estado Novo.
Para lá de ser uma das obras pioneiras do Neo-realismo, "Gaibéus" (1939), de Alves Redol (1911-1969), traça um retrato realista do campo, em tudo contrastante com a visão idílica rural dos romances de Júlio Dinis (1839-1871), escritos cerca de cem anos antes.
Não menos importante, o livro vem acompanhado do texto do relatório do Censor, que conduziu à apreensão e proibição da obra. Tudo isto ao preço imbatível de 1,95 euros, na compra do jornal diário.

Philip Glass

Café e Turismo


Não sei se esta nomenclatura será extensiva a toda a Andaluzia, ou mesmo a toda a Espanha, mas em Málaga poderá ser usada, com resultados satisfatórios, para pedir um café (bica ou cimbalino), de feição com o gosto de cada um. Cá fica, como orientação, para quem lá vá.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

2 notas dispersas sobre critérios, cânones e ninharias


Num dos últimos TLS, Leah Price, numa recensão ao livro "On Paper", de Nicholas Basbane, e a propósito da II Grande Guerra, referia a talhe de foice que o Alto-Comando do exército inglês tinha decidido fornecer, a cada soldado britânico, 3 folhas de papel higiénico, por dia; em contrapartida, os GI americanos tinham direito a 22 folhas, diárias. Dois leitores, em carta (publicada) ao director do TLS, posteriormente, vieram à carga, tendo corrigido que não seriam três, mas quatro as folhas diárias dos soldados ingleses. Nenhuma das cartas põe em causa as 22, americanas.
Nalguns países (Alemanha, Espanha, França...), a entrada de um escritor na Academia significa um consenso sobre o seu direito à glória, pela sua obra, ou uma espécie de consagração de imortalidade, ainda que efémera. Cumulativamente, em França (La Pléiade) ou na Inglaterra (The Cambridge Companion), a inclusão da obra, ou edição de parte da obra de um autor numa destas prestigiadas colecções, equivale a uma distinção de qualidade e corresponde, de algum modo, a ser considerado um clássico. As escolhas, embora muito criteriosas, nem sempre são isentas de polémica. A última inclusão que a suscitou, em La Pléiade, foi a de Georges Simenon, em 2003.

Bizantinices


Marqueses (Marquês de Marialva...), condes (Conde de Borba...) e duques (Duque de Viseu...), sempre apadrinharam, de nome e aristocraticamente, vinhos portugueses. O benefício era das excelsas criaturas, se o vinho fosse bom. Porque ganhavam uma real excelência e notoriedade, acompanhando o néctar.
Não o julgou assim o desconhecido e obscuro conde de Oeiras. Valha a verdade que, Vinho de Carcavelos, conheço eu há dezenas de anos. Quanto ao aristocrata, que na imagem aparece engalanado, só agora soube que existia...

P. S. : o jornal Público apelidou, mal, o Vinho de Carcavelos. Em bom rigor não é licoroso, mas, sim, generoso. O que faz alguma diferença. Ai! estes jornalistas de pacotilha...

Rodrigo Leão

América e Europa, por palavras de Mary McCarthy


1. A Europa é o negativo inacabado de que a América é a prova.
2. É a ausência duma classe superior estável que é responsável por uma grande parte da vulgaridade do panorama americano.
3. Para os Europeus, a vida é uma carreira; para os Americanos, é um acidente.

Mary McCarthy (1912-1989).

Poema berbere (2)


Oásis

Ao fim da tarde chegam forasteiros
até aos tamarindos, como sopra
feliz, das dunas, um vento ligeiro.

À noite, e de longe, sonho
com a gazela alta,
que tanto pode ser a rapariga
ágil da memória,
como, na minha sede, um trago
de água fresca.


Ibn-Rasid

terça-feira, 8 de abril de 2014

Quem diria...


... que a elegante Sílfide dançante (ao centro, na fotografia) era a futura e bem sucedida escritora de romances policiais, Agatha Christie (1890-1976), com cerca de 20 anos...

Sardana catalã

Embora um pouco tremeliques, este vídeo transmite o ritmo contagiante que se pode observar, e em dança, todos os domingos, pelo meio-dia, no adro da Catedral de Barcelona. Praticado com fulgor, devoção e alegria, em várias rodas humanas, por dezenas de catalães. Para quem vá a Barcelona, é um espectáculo a não perder, absolutamente.

Mercearias Finas 86


Retro ou até Bibliofilia seriam rubricas onde teria cabimento este "Manual Pratico do Copeiro, Confeiteiro e Pasteleiro", que será, com certeza, das décadas iniciais do século XX. O livrinho, que eu nunca tinha visto, não será raro, nem peça de colecção -como soe dizer-se -, mas foi bem encadernado e estimado, pelo estado em que se encontra e anos que tem. É minucioso nas receitas, tem algumas ilustrações curiosas e dá até indicações sobre as ferramentas culinárias a utilizar.
Trata-se de uma edição da Livraria Popular de Francisco Franco (Travessa de S. Domingos, 30 a 34, em Lisboa), fundada em 1890. Foi integrado na Bibliotheca de Livros Uteis e Scientificos, com o número 9. O curioso manual traz receitas de compotas, massas, bolos, gelados e sorvetes. E, ainda hoje, terá utilidade para quem goste de cozinhar a preceito.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Comic Relief (87)


Duas opções de tradução para a frase de Manuel Valls:
1. Finalmente, tomei conta dele!
ou
2. Finalmente, tenho-o na mão!

com duplo agradecimento a H. N. .

Palavras do dia


" Não podemos ser um país dividido entre os que não têm imaginação para mais do que isto, e os que se recusam a ver a realidade. "

Rui Tavares, in jornal Público, de 7/4/2014.

Uma louvável iniciativa (27)


Termina-se hoje, ao que julgo, esta bem inspirada colecção de trajes regionais portugueses, que foi promovida pela Sidul. Os 4 pacotinhos de açúcar abarcam as Beiras (Alta, Baixa e Litoral) e ainda a Estremadura, em cujo verso é descrito o traje tradicional da mulher nazarena, com as suas características 7 saias. No verso da Beira Litoral consta a receita dos Pastéis de Santa Clara, e, no da Beira Baixa, do Bolo dos Santos. No verso do pacotinho de açúcar, referente à Beira Alta, explica-se sucintamente a fabricação do Burel, tecido que, desde a Idade Média portuguesa, era fabricado naquela província.