O gosto exclusivo pela novidade denuncia uma degenerescência do espírito crítico, porque nada é mais difícil de avaliar do que a novidade de uma obra.
Paul Valéry (1871-1945).
O gosto exclusivo pela novidade denuncia uma degenerescência do espírito crítico, porque nada é mais difícil de avaliar do que a novidade de uma obra.
Paul Valéry (1871-1945).
Brinquedos, bonecas russas ou peças simplesmente decorativas, as matrioskas são quase sempre de madeira e contém, em si, na maioria das vezes, 5, 6 ou 7 réplicas mais pequenas. Pintadas e envernizadas, têm, no entanto, um ar rígido e formal, por serem feitas do mesmo pedaço de madeira e terem pernas e braços unidos ao corpo.
Dependendo da perspectiva de quem vê, a Europa, segundo continente mais pequeno do Mundo, pode bem parecer uma emanação ou península da Ásia. A divisão destes 2 continentes é uma mera questão geográfica ou formal. Mas também a Europa segrega, entre outras, a Península Ibérica. E Portugal contém, em si, a península de Setúbal. Para não falarmos de Tróia...
Apenas o sono consegue vencer a dor. Pelo próprio cansaço do corpo.
Interpretar é empobrecer, diminuir a imagem do mundo - substituí-lo por um mundo fictício de «significações».
Susan Sontag (1933-2004).
Não sem grande surpresa, verifiquei recentemente que os escritores franceses eram os mais premiados do Nobel da literatura. Nada menos de 15 autores, de 1901 até hoje, ultrapassando os norte-americanos (12) e os de língua inglesa (11). Há dias, li em Le Monde, também, este título significativo: Albert Camus, toujours aussi contemporain en ces temps de pandemie. A propósito da recente procura intensificada do seu romance La Peste, de 1947. Contemplando a convergência inesperada, acabei de ler ontem, de François Mauriac (1885-1970), no seu Bloc-notes II (pg. 366), uma referência à morte imprevista de Camus (4/1/1960), que vou passar a transcrever, traduzindo:
Uma chamada telefónica: Albert Camus (1913-1960) morreu. Algumas polémicas por altura da Libertação, aliás cortezes, e não tivemos outros contactos. A emoção que sinto dá-me melhor a medida do que ele representava para mim: o homem que terá ajudado toda uma geração a tomar consciência do seu destino. O absurdo deste mundo de crematórios alemães e de purgas estalinistas, que ele terá denunciado em nome de uma justiça cuja paixão estava nele próprio - sem que nunca tenha consentido dar-lhe um Nome, um Rosto a esta paixão, a esse amor.
A ocupação progressiva do espaço doméstico pelos livros é uma das preocupações maiores dos bibliófilos. E até, muitas vezes, dos simples amantes de livros. Ainda assim me tenho surpreendido pela rapidez frequente com que se desfazem muitas bibliotecas, através de leilões ou nos alfarrabistas, logo após a morte dos seus donos. Falta de espaço ou partilhas explicam, normalmente, a celeridade da venda dos livros, muitas vezes sem que se atenda a dedicatórias íntimas ou afectuosas, que morrem também no papel e por si.
Este livro em imagens, editado (Sextante Editora) em 2009, por Mário Soares (1924-2017), e oferecido, com dedicatória manuscrita, ao também político Manuel José Homem de Melo (1930-2019), que foi director do jornal A Capital, de algum modo corrobora o que eu disse atrás. Mal se passaram 2 anos para que ele mudasse de mãos, através de um conhecido alfarrabista de Lisboa. À guisa de conclusão, posso dizer que HMJ gostou muito de ler a obra. O que me faz pensar que eu também o vou ler com prazer.
cordiais agradecimentos a H. N.
De há uns dias a esta parte, dei pela vinda de um(a) visitante (de Lisboa ou arredores) sistemático que tem percorrido (ou devassado), no Arpose, o label Poesia, de forma fervorosa e continuada. São mais de 700 os postes desta temática. Só faço votos para que lhe faça bom proveito, esta pesca de arrasto, mas que não use, as traduções que fiz (e são muitas), de forma fraudulenta ou ilegal.
O lado insólito ou a originalidade do enquadramento, são apenas dois dos elementos que nos fazem demorar o olhar e admirar melhor uma fotografia. O fotógrafo alemão Kurt Hutton (1893-1960), em 1934, trocou a Alemanha pela Inglaterra, onde viria a ter um papel importante como pioneiro do fotojornalismo, tendo colaborado, inicialmente, na revista Weekly Illustrated.
Viria, mais tarde, a lançar a Picture Post (1938-1957), publicação que teve grande sucesso e ombreou, em rivalidade, com a Life norte-americana. A naturalidade dos seus retratos (Churchill, Hitchcock, Ingrid Bergman...) e cenas quotidianas fixando, com realismo, a vida inglesa, justificam plenamente que Hutton esteja representado na Tate
Que ninguém atire a primeira pedra, porque quase todos nós temos as nossas fraquezas. O meu atento e bom amigo H. N. sabe das minhas. E trouxe-me, para emprestar, dois livros sobre Miterrand, para eu ler num futuro já próximo. Só posso, muito reconhecido, agradecer-lhe.
As pessoas não reconhecem a sua, mas a felicidade dos outros nunca lhes escapa.
Pierre Daninos (1913-2005), in Un certain monsieur Blot (1960).
Há que medir os dramas com precaução. Avaliar as limitações, com alguma bonomia positiva e bom senso. A libertação das normas rígidas - e não era previsível supô-lo - desencadeia, afinal, o frenesi da multidão anárquica, que inunda esplanadas, lojas e tugúrios - as bichas são imensas. Denunciam, no fundo, a estreiteza de horizontes das criaturas. Felizmente que vai havendo, sempre, um psicólogo de serviço pronto para ajudar, nestas tragédias comesinhas...
Seria canónico falar-se do anho pascal que ontem cumpriu, de facto. Mas não. Começo pelo tempo.
Devo-o ao meu pai, porque, como escrevi em Depois de Babel, ele soube adivinhar que uma língua que se aprende é uma nova liberdade, uma língua nova, um cosmos e um mundo por si só, enfim, uma probabilidade de sobrevivência inestimável. (pg. 26)
Se não soubermos quem era Hipnos, se não tivermos a decência de pegar num bom dicionário de mitologia para o descobrirmos, nada nos será acessível de René Char, do seu papel, da sua luta pela vida e pela liberdade. (pg. 119)
A arte abstracta, a de Paul Klee, de Kandinsky, ilustra a queda da matéria no silêncio com o qual tem laços indissolúveis. Em terceiro lugar, diria que a temática do ruído, na cultura e na educação modernas me apaixona. A intrusão do ruído, a impossibilidade de encontrarmos espaços consagrados ao silêncio, tanto na nossa existência privada, como na vida pública ou na educação reservada às crianças, parece-me ser a poluição mais grave com que a cultura moderna se confronta. (pg. 138/9)
O universalismo não é portador de qualquer valor de tolerância ou de acolhimento. Traz consigo o seu próprio dogma. O supermercado não quer produtos locais, enlata uma cultura capitalista de exportação que o mundo inteiro terá de sofrer. (pg. 177)
George Steiner (1929-2020), in Quatro Entrevistas... (VS Editor, 2020).
Alguém entrou pela memória branca no coração imóvel.
Vejo uma luz sob a névoa e a doçura do erro obriga-me a fechar os olhos.
É a embriaguês da melancolia; como aproximar do rosto uma rosa doente, indecisa entre o perfume e a morte.
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Pus água e cinábrio no meu coração e veias
e vi a morte mais distante da púrpura.
Agora os meus olhos vêem no passado: grandes flores imóveis, mães
atormentadas por seus filhos, líquenes fertilizados de tristeza.
Já não bastava o alentejano Moedas, vindo expressamente da Fundação, para lhe disputar a presidência, agora é a tonitroante saloia da Malveira, accionista e clowness da TVI, Cristina, que, patrocinada pelo Chega, entrou também na corrida à Câmara de Lisboa. Fernando Medina já não dorme sossegado...
O estudo de marcas postais e cartofilia, do ponto de vista filatélico, é uma das temáticas mais fascinantes do coleccionismo. Permitindo, através de uma investigação apurada, concluir alguns factos muito diversos. Esta carta, em imagens, circulada há pouco mais de 150 anos (21 de Março de 1871), entre o Porto e Guimarães, atesta-nos a eficiência e rapidez dos serviços de Correio portugueses, na altura. Expedida da cidade Invicta, a 21/3/1871, por Jozé Martins Fernandes, foi recebida, no mesmo dia, na Cidade Berço, pelo irmão, Francisco Martins Fernandes, comerciante de solas e cabedais, na Rua Nova do Muro (hoje, Rua Egas Moniz ou Rua Nova apenas, creio).
Franqueada, a carta, com a taxa de 25 réis, selo da série de D. Luís, fita direita (1870-76), carmim rosa (nº 40, de catálogo), com o denteado de 12 e 1/2, foi batida com o carimbo numerado 46 (Porto) de barras interrompidas. O teor da carta, entre os dois irmãos, é de natureza comercial. E relata o ajuste de negócios na compra de sola, com um representante da família Cálem (hoje, mais dedicada ao Vinho do Porto), produto esse que oscilava de preço, em 1871, por entre 210 e 230 réis, com prazo de pagamento de 4 meses.
Retratos de personalidades institucionais implicam sempre alguma contenção, mas denunciam também a vontade avançada ou retrógrada de quem os encomendou ou realizou. Se, na galeria presidencial de Belém, os Columbanos assinalam um presença coeva de qualidade e se o retrato de Mário Soares, pintado por Júlio Pomar, inaugura uma modernidade alacre, os quadros que se seguiram, de presidentes posteriores, sublinham algum retrocesso estético ou menor ousadia criativa, na minha opinião.
Em 1958, François Mauriac, então com 72 anos, posou para o pintor Édouard Mac'Avoy (1905-1991), conceituado retratista francês. No seu Bloc-notes II, Mauriac, a propósito, tece (pg. 129) algumas considerações interessantes sobre arte figurativa e arte abstracta, que passo a traduzir: Por estes dias, sessões de pose. Mac'Avoy faz o meu retrato. Este pintor tão atento às mãos do seu modelo e a este rosto, por que, acabada a juventude, nós somos responsáveis e que conta toda uma vida - este pintor retoma uma viva tradição. Ele escapa ao nada em que os «não figurativos», um após o outro, se absorvem. Será bom para a pintura, bem como para o romance, retomar o fio à meada, na altura em que ele se rompeu...
A memória da juventude não se apaga. Desde que se deixem sinais ou pistas identificadas: José Cardoso Pires (1925-1998), fotografado pelo escultor João Cutileiro (1937-2021), no ano de 1959. Em Londres.
Esta noite há uma hora que se vai sumir no tempo. Que seja por impaciência da Primavera, o termos a menos 60 minutos de sono.
O título do poste é sedutor, e aqui o uso eu de forma muito restrita, que não como Monteverdi, René Char, Eugénio de Andrade ou João César Monteiro o usaram em obras suas. E tudo depende da perspectiva, muito embora estas cartas de François Miterrand (1916-1996), para Anne Pingeot, não confirmem inteiramente a conhecida afirmação irónica de Fernando Pessoa, até por evitarem o derrame excessivamente romântico, apesar da relação que, de algum modo, foi clandestina. Bem escritas as cartas, sem dúvida, pela extensão, talvez um pouco fastidiosas (são mais de 1.200 páginas). Mas o que seria de esperar deste oaristo de um grande político para uma competente estudiosa de Arte, embora 27 anos mais nova? Também não se esperem revelações bombásticas ou segredos de estado, pois Mitterrand, neste particular, foi cuidadoso na escrita.
Confesso que tenho feito alguma batota na leitura... tenho andado um pouco impaciente de humores, mas não dei ainda por terminado o folhear das páginas do livro, nem o devassar inteiro desta história de amor.
Eva não tinha umbigo. Observa. Ventre sem mancha, pleno para toda a gravidez.
James Joyce (1882-1941), in A Portrait of the Artist as a Young Man (1916).
O nosso limoeiro da varanda a Sul sempre foi muito próprio, farroncas quanto baste em flores... e nulo em frutos - anda nisto há 4 anos. Mas, este ano, excedeu-se. Entrou em pura megalomania. Em brotos produziu, no mínimo, 80 (não estou a exagerar!). Vamos a ver em limões, se produz, ao menos, um para amostra...
Não me tem sido fácil, nem excessivamente simpática esta leitura muito intermitente, que vou levando desde 2017 (ver: Arpose, 15/1/2017), da biografia de Bismarck (1815-1898), escrita por Emil Ludwig (1881-1948) e traduzida para a Payot (Paris) por A. Lecourt, em 1929. Vou a pouco menos de metade das suas cerca de 590 páginas, mas não consigo explicar nem o ritmo arrastado nem a morosidade no avanço do livro. Sou capaz é de entender por que não desisto de o ler. É que, de vez em quando, aparecem umas pérolas, umas ironias ou reflexões soberbas que me encantam pela concisão e, ao mesmo tempo, pela ampla sugestão que permitem. Como esta que me surgiu no início do capítulo VIII (pg. 251) e que passo a traduzir:
Por volta da idade de sessenta e cinco anos, Bismarck o Prussiano começou a tornar-se um Alemão.