quinta-feira, 16 de abril de 2020

Manoel de Barros (1916-2014)


                                             5

A  água passa por uma frase e por mim.
Macerações de sílabas, inflexões, elipses, refegos.
A boca desarruma os vocábulos na hora de falar
E os deixa em lanhos na beira da voz.

Superlativos


Às vezes, embora habituado aos abusos da linguagem, à leviandade e excessos sentimentais expressos em palavras que, hoje, já quase nada significam (o verbo amar, nomeadamente, anda todo esfarrapado), à força de serem mal usadas, ainda me surpreendo com o desatino e ligeireza de alguns sujeitos. Ontem, por exemplo, um plumitivo, que escreve por aí e tem algum nome na praça, ao referir a morte de Rubem Fonseca (1925-2020) caracterizava-o como o "maior escritor brasileiro do século XX". Por muito que eu preze o falecido, então qual será o valor de Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa, de Drummond ou Cecília Meireles, para não falar de outros?
Tento na língua, não faz mal a ninguém!

quarta-feira, 15 de abril de 2020

António Leal Moreira (1758-1819)

Lembrete 74


Hoje, às 16h00, no Canal Hollywood, o filme Grand Budapest Hotel. A não perder.

Expectativas


A minha experiência com os citrinos (3), saudosa do primeiro (que morreu) e expectante do terceiro (talvez até negativa, ou parca em produção) recomenda-me prudência. O segundo limoeiro produz pouco mas encontra-se bem. O terceiro subsiste, na varanda a Sul, com mais de 50 brotos juvenis, que auguram muito. Mas se sobreviverem 5 limões, que atinjam a maioridade, ficarei satisfeito. Baseio-me em safras  e números passados...
Darei contas, oportunamente.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Leilões


Pela presente situação de pandemia, até uma das mais dinâmicas casas leiloeiras lisboetas, o Palácio do Correio Velho, suspendeu temporariamente as actividades. Em boa hora, tive notícia recente que retomará os trabalhos com um leilão de livros e revistas Online, já no próximo dia 17 de Abril de 2020, sendo esta a sua almoeda número 1.424. Do acervo interessante, destaco dois lotes que têm uma base de licitação equilibrada: um de BD e o outro sobre Cinema. Qualquer deles invulgar. Ei-los:

Lote 16 - 6 volumes, 4 de Obras Primas de BD e 2 de o Cavaleiro Andante (1954/5).............  15 euros.
Lote 23 - Conjunto completo dos Cahiers du Cinema, respeitante aos anos de 1958 a 1963... 30 euros.

Revivalismo Ligeiro CCXLVII

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Bibliofilia 145


O pequeno opúsculo (Hum Quarto de Palavra/ sobre/ O Padre,/ ou/ O Vergalho de Mariolas) tem 16 páginas e não é raro. Existe na BNP, outro está inserido numa Miscelânea (cota 12557) da BGUC, há um exemplar na Biblioteca Municipal de Elvas, nos Açores também, e na Harvard Library (talvez oriundo da Biblioteca de Fernando Palha). Num leilão de 2015, da Livraria Olisipo, vendeu-se um conjunto de quatro sob o mesmo assunto, em que aquele está incluído . Outros haverá, mas dei por estes, pelo menos e por agora.
O folheto foi impresso, em Setembro ou Outubro de 1822, na Tipografia de António Rodrigues Galhardo, e será porventura o segundo de uma série de 4, sendo dois (ou 3?) de um tal C. S. D. F. que não é nada mais nada menos senão o Padre José Agostinho Macedo (1761-1831), temido polemista, defrontando o poeta Nuno Álvares Pereira Pato Moniz (1781-1826) que, no opúsculo, é tratado por Censor Lusitano Senior; o tema da disputa é de mera lana caprina e pouca importância (definir a supremacia da capacidade de decisão, se ao poder régio ou ao eclesiástico, em determinada pendência ou querela), embora muito agressivo pelo tom de escrita usado por Agostinho Macedo.
O folheto custou-me, não há muitos anos, a módica quantia de 4,50 euros. A sua leitura é divertida.

domingo, 12 de abril de 2020

Mercearias Finas 156


Uma grande parte do chibinho assado no forno já se foi. Bem acompanhado de um Dão Quinta dos Carvalhais 2002, tinto, que estava no ponto dos seus dezoito anitos. Casou com as damas de honor: ervilhas tortas e batatas novas assadas. Havia mousse de manga, no final, ou morangos, para quem não quisesse Queijo do Fratel ( ou do Lourenço) que veio à colação pascal.
Um grato reconhecimento a HMJ, que o escansão limitou-se a ir à adega, buscar o néctar.

Comic Relief (154)



Recomendável a:

quem sobra tempo;
impacientes;
obsessivos;
deprimidos;
a quem tenha sentido de humor;
pessimistas;
a quem goste de Charlot
ou aos que mantenham alguma racionalidade saudável, pragmática e sem melodramatismos telenovelescos e pueris, nesta altura do mundo.
Bom proveito!
( Não é meu hábito, desculpem-me por isso, a lonjura do vídeo. Mas podem desligar, que eu perdoo...)

De Rachmaninov, para um Domingo de Páscoa

sábado, 11 de abril de 2020

A Idade de Ouro do Mobiliário Francês: Maquete de oficina



Como o saber não ocupa lugar, este brevíssimo vídeo que me mandaram, e aqui partilho, com gosto.

agradecimentos a N. C..

Do que fui lendo por aí... 36


Foi na música que o século dezanove cumpriu o seu sonho de criar formas trágicas comparáveis em nobreza e coerência às do drama clássico e renascentista: nos rituais e dores dos quartetos de Beethoven, no Quinteto em Dó Maior de Schubert, no Otello de Verdi e, perfeitamente, no Tristan und Isolde. (pg. 137)

George Steiner (1929-2020), in Tolstoi ou Dostoievski (Relógio D'Água, 2015).

Vivaldi / Brioli / Scimone

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Páscoa


As coisas fizeram-se mais comezinhas e circunscritas este ano, mas o meio anho já cá canta, no frigorífico. E já avançamos com umas finíssimas e laminadas, tenríssimas iscas de fígado do dito chibinho, ao almoço, que estavam bem saborosas. Não guardámos os miúdos para o arroz vir a acompanhar o cabrito pascal, no próximo Domingo. Que para o forno há-de ir.
E dentro das limitações, até tivemos uma novidade para a sobremesa, que foi um Folar de Alcobaça, muito próprio e agradável, com a sua cor mais acastanhada e o balsâmico sabor a erva doce, aqui usado, pelos vistos, na zona. Vou pensar, entretanto, num vinho que não desmereça estes preparos...
Boa Páscoa, a quem vier por bem, virtualmente!

As palavras do dia (38)


Nota: o pequeno excerto não dispensa a leitura cabal da crónica de António Guerreiro no jornal de hoje.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Um CD por mês (12)


O facto de cerca de 15% da população luxemburguesa ser luso-descendente explica a facilidade com que conseguimos encontrar, nos supermercados luxemburgueses, sardinhas de conserva portuguesas, cerveja Sagres, pastéis de nata ou até mesmo bacalhau curado. Mas também os alemães da Land Rheinland-Pfalz se deslocam ao pequeno país vizinho, pela proximidade, para fazerem compras, dado que os preços são mais em conta, por exemplo os dos cigarros. Pelo caminho, compram-se outras coisas...


De uma das vezes que, de Koblenz (Alemanha), nos deslocámos à cidade de Luxemburgo, em inícios dos anos 90 do século passado, fomos a um gigantesco Centro-Comercial, que incluía uma bem apetrechada discoteca com milhares de CD's. A dificuldade foi a escolha, mas como eu tinha começado a descobrir e a gostar das interpretações muito profissionais de Alfred Brendel (1931), optei por um conjunto de 9 CD's compreendendo diversas das primeiras gravações do pianista.


O acervo das composições é muito interessante, sendo de destacar todos os 5 concertos para piano de Beethoven, assim como os 2 de Liszt. Brendel é dirigido por diversos maestros, nomeadamente, por Zubin Mehta.
O conjunto das gravações da Tuxedo Music vai de 1956 a 1964 - uma espécie de juvenília do pianista. Foram reunidas na Suiça, em 1991. E dei pelos 9 CD's, na altura 1.845 francos luxemburgueses. Não me arrependi: valeu a pena.


terça-feira, 7 de abril de 2020

Curiosidades 80


Este poste não teria sido possível a não ter existido uma cumplicidade de simpatia e grande estima entre Óscar Lopes (1917-2013) e António de Almeida Mattos (1944-2020). Mas também se não houvesse uma fraterna amizade singular entre este último e eu próprio. O meu Amigo doou-me, ainda em vida, restos do arquivo pessoal dele, do extinto jornal Letras & Letras (do Porto), em que, entre muito material diverso e interessante, distribuído por envelopes de tamanho médio, se encontravam  originais e fotocópias relacionadas com a vida pessoal do crítico e professor universitário Óscar Lopes, que não tinham sido utilizados num anterior dossiê  do mensário literário portuense.
Destacavam-se, também, alguns documentos mais ou menos íntimos do Catedrático, nomeadamente, a cópia da caricatura do Livro de Curso (Lisboa, 1938?) e o recibo de alojamento (16/5/1955), nos calabouços da P. V. D. E. - testemunho  de um escandaloso acto da ironia fascista...

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Apontamento 132: Máxima antiga - Não há duas sem três



Na Alemanha, no meu tempo de meninice existia uma máxima: “Wer A sagt muss auch B sagen” – a saber, quem “pronuncia A tem que dizer B”.

Ou seja, a questão fundamental é apenas de coerência.

Assim, não vale a pena a Chanceler – como nos idos da crise de 2008 – falar da solidariedade europeia e virar as costas quando se aproxima o passo seguinte – de A para B – a fase subsequente e determinante de abrir os cordões à bolsa.

Nisso, e é bem lembrá-lo, que estão os dois de acordo, Merkel e Schäuble. Como diria Vitorino: são “Farinha do mesmo Saco”.

Tenho muito pena, mas por cá ainda existem algumas boas almas encantadas com os discursos da Senhora Merkel, avaliação, aliás, que nunca partilhei. Sempre a achei profundamente provinciana, tal como o seu outro ideólogo, vivendo num mundo reduzido aos “cifrões”, universo particular do endinheirado germânico, promovendo a cultura de pacotilha. Bayreuth a quanto obrigas !

De facto, nesse mundo maravilhoso dos cifrões da Alemanha há dinheiro para muita coisa, até fortunas transformadas em fundações de apoio a bicharadas diversas, asnos e toda a parafernália de animais domésticos.

No entanto, o universo dos idosos, no limiar da pobreza, situa-se numa faixa de 25% da população. Haverá maior vergonha do que esta para um país considerado rico ? Quando se fala, contudo, de aprovar, com o apoio da CDU da Senhora Merkel, um pacote de Reforma Base Universal para os pensionistas, vamos a passos.

Convém, no meio disto, ler artigo de 6.4.2020, publicado pelo Público, do Ministro das Finanças alemão, Olaf Scholz (SPD) e Heiko Maas (SPD), numa iniciativa conjunta saída em vários jornais da Comunidade Europeia. Tardiamente, depois do discurso indispensável, oportuno e urgente de António Costa.

Com particular necessidade da renovação do sentido último do “Imperativo Categórico” de KANT, nesta circunstância em que o mundo financeiro e global se afundou, espero que a Alemanha não se esqueça, mais uma vez, do profundo sentimento de humanidade de uma parte considerável da sua população que continua a estimar os valores essenciais. São eles que merecem o nosso apoio como povo do centro da Europa, abertos ao Mundo, humanos e solidários.

Infelizmente, são os menos esclarecidos que a imprensa coteja, designadamente toda a cáfila de forças de direita que se aproveitam da profunda ignorância que se instalou. Sinais do tempo.

Por último, e por razões substanciais, tenho muitas dúvidas sobre a excelência do sistema de saúde alemão quando comparado com o SNS, até por experiências desagradáveis recentes.

Por fim, continuo a batalhar pelo universo em que cresci, da União Europeia, de encontros culturais, humanos e apoiados, por políticas e finanças ao serviço da comunidade.

HMJ

Pinacoteca Pessoal 163


Sempre tive a tentação de considerar da mesma família artística os pintores Graham Sutherland (1903-1980), Lucian Freud (1922-2011) e Paula Rego (1935), muito embora entre o nascimento do primeiro e o da última medeiem mais de 30 anos. Ter-se-iam mutuamente influenciado? Não sei responder, com rigor.
Pelo menos, as suas obras têm alguma afinidade estilística, sobretudo a nível de retratos e representação de figuras humanas. Com uma forte e impressiva pincelada que sugere alguma agressividade subjacente.


Dos três, é Sutherland quem se dispersa por mais aspectos artísticos: gravura, vidro, tecido e pintura naturalmente, e em que o retrato tem um papel preponderante. São conhecidos os magníficos retratos do escritor Somerset Maugham (aqui representado por um desenho preparatório) e do crítico de arte Kenneth Clark. De grande qualidade era também o seu trabalho sobre W. Churchill, encomenda de um grupo de personalidades, e que o político - de gosto artístico excessivamente conservador - por não ter gostado, terá consentido que viesse a ser destruído pela Esposa (este facto foi registado em poste do Arpose, a 28/1/2018: Curiosidades 68).


Divagações 158


O confinamento existencial, recente, no mundo dos bloggers, prova à exaustão, pela prática dos postes, a limitação e indigência de quem os faz, maioritariamente. E o que há de doméstico, nesses universos pequeninos ligados ao que há de mais rasteiro pela net. De uma forma geral, os comentários acompanham... Quanto mais simplório e pobrezinho o poste é, mais bitates desmiolados e chapa zero vem a ter.  Em tudo isto há, ao mesmo tempo, uma globalizada monocultura de pensamento que a direita criticava, ainda não há muito tempo e noutros parâmetros, a Cuba por só cultivar açúcar ou a Angola, por só extrair petróleo. E apenas viverem disso. Agora, é o dito vírus de todas as glosas, que aí está omnipotente e avassalador, quase único, e de que até parece que ninguém se apercebe...
Deus o abençoe a ir-se.

Marianne Faithfull (1946) -- The Ballad Of Lucy Jordan HD



Votos de umas rápidas melhoras!

domingo, 5 de abril de 2020

Um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Crônica de Gerações


Silêncio. Morreu o Comendador.
Merecia ser eterno
com seu poder, seu gado, suas minas,
seu dinheiro na burra.
Então morre - silêncio - o Comendador
e não desabam as montanhas
e o mundo, já vazio, não acaba?
Injusto ele morrer - o filho exclama.
Por que, em seu lugar,
o Senhor não chamou seu netinho enfezado,
esse menino aí, fracote, feio?
O menino ouve e come estas palavras,
assimila-as no sangue, e cresce e é forte
e poderoso mais que o Comendador.
Nasce-lhe por sua vez um filhinho enfezado
mas este
cresce sem maldição, fica por isso mesmo.

Nem sempre o Senhor chama. Ele às vezes esquece.


Carlos Drummond de Andrade, in Boitempo (1968).

para H. N., que me lembrou Drummond.

sábado, 4 de abril de 2020

Hoje, vai ser assim?...


... Mas, pelo telhado, até parece uma bateria anti-aérea, pelo que lhes pus o título de : Os Canhões de Navarone (1961), em homenagem ao realizador de cinema J. Lee Thompson...

Nota: só para constar, este poste do Arpose é uma capicua magnífica, tem o número: 11.111.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Uma fotografia, de vez em quando (138)


Nem sempre os genes levam consigo o sentido estético anterior, mas muitas vezes há transmutações nas artes legadas entre gerações da mesma família. A filha do grande pianista que foi Arthur Rubinstein (1887-1982), nascida em Buenos Aires, Eva Rubinstein (1933) ainda estudou e praticou ballet clássico, mas é conhecida sobretudo como uma talentosa fotógrafa. Manteve-se, ao menos, o sentido artístico, como herança.


Essa aprendizagem, musical e de dança, iniciou-se aos 5 anos. Em 1939, toda a família, de origem judaica polaca, se mudou para os Estados Unidos, mas só em 1967 Eva Rubinstein se começou a interessar e a estudar fotografia. Mais tarde, ainda, se estabeleceu como fotojornalista. Paralelamente, a sua obra vasta inclui bons retratos de Gabo (García Márquez) e de Arthur Rubinstein, entre muitos outros.


Desta temática própria, ela referia: "É uma espécie de monólogo tentando transformar-se num diálogo, uma dádiva, um alibi de salvação." 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Dizeres


No tempo da Guerra Fria, dizia-se à boca pequena que os soviéticos usavam, para os trabalhos sujos internacionais, de preferência, os búlgaros. De há um tempo a esta parte e na UE, quem se encarrega desses fretes parecem ser os contabilistas holandeses.

Eric Coates (1886-1957)

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Última hora


Depois de Ovar, o governo decidiu alargar a Boliqueime (Algarve) o estado de calamidade pública, isolando o local devido aos miasmas existentes e aos habitantes atingidos pelo momentoso vírus.
Naturalmente, o venerando e vetusto ex-PR protestou com visível veemência, junto do TC, contra esta tomada de decisão governamental, atribuindo a intuitos políticos este cordão sanitário.

Adagiário CCCIX


Três coisas enganam o homem: as mulheres, os copos pequenos e a chuva miudinha.