segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Imaginário


Eu sempre vi este quebra-nozes, como um leão metálico e quase cubista... Desde infância que o imaginava assim, já com mais de 60 anos na minha memória, na sua pragmática de adereços úteis, na sala de jantar vimaranense. Creio que a minha Mãe o terá comprado numa das suas idas ao Porto.
Ora, a HMJ atribuiu-lhe, e bem, a personificação de um cão, e eu tive de retocar  a ideia que tinha, enraizadíssima nos anos que passaram. Em prol da verdade.
Pois, ontem, comemos as primeiras nozes. Como já me estreei, duas ou três vezes nos diospiros*, que estão óptimos. Faltam as castanhas e as romãs para completar o périplo dos frutos de Outono, cá por casa. Mas ainda vamos a tempo...

* não é gralha, continuo a grafar diospiro, por teimosia e como aprendi.

Poesia e comércio, segundo Auden


É um facto triste da nossa cultura que um poeta possa ganhar muito mais dinheiro ao escrever ou falar acerca da sua arte do que a praticá-la. Todos os poemas que eu escrevi, foram escritos por amor; naturalmente, quando acabava de escrever um, procurava publicá-lo e comercializá-lo, mas a perspectiva desse comércio não desempenhava qualquer papel no acto da escrita.

W. H. Auden (1907-1973), no prefácio a The Dyer's Hand (2012).

domingo, 5 de novembro de 2017

Lou Harrison (1917-2003)

Citações CCCXXIX


Não se pode fazer a revolução de luvas brancas.

Lenine (1870-1924).

sábado, 4 de novembro de 2017

Adenda ao poste sobre a exposição de Matisse, em Londres


Por associação, muito subjectiva e intricada, lembrei-me há pouco deste quadro de Henri Matisse (1869-1954), The Open Door, Britain, que o artista pintou em 1896.
A tela não constava da mostra que eu vi em Londres. Mas, hoje de manhã, no Escritório, perante um céu azul, com poucas nuvens, hesitei se havia de abrir a janela de par em par, ou deixá-la fechada.
Optei pelo meio termo, receando a chuva repentina...

Retro (96)


Exemplares clássicos da traça e design publicitário que se praticava em Portugal, nos anos 60, estes dois anúncios só se desactualizaram (?) por uma certa ingenuidade do texto que os acompanhava, no reforço das imagens de marca.


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

G. F. Händel (1685-1759), da Oratória "Salomão"

Para a chegada da chuva.
Intitulada "Chegada da rainha do Sabá", esta entrada vem de encontro ao regresso da chuva.
Até porque, ontem, e em Lisboa, apanhei uma molha de todo o tamanho... Que seja por bem!


E, cumulativamente, dedico esta alegre peça musical à Margarida Elias, que faz anos hoje!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Onde me apetecia estar... e estive, realmente


Com os anos, vamos sendo mais frugais. Vamos sendo mais discretos e comedidos, deixando de ter mais olhos do que barriga - como diz o provérbio, aconselhadamente. Inscrevem-se neste aspecto os livros a ler, as coisas por fazer, os países a visitar, os filmes a não perder, os quadros que queremos ainda ver... Mas um dos aspectos secundários, que me levou a Londres, era ver, realmente, na Royal Academy of Arts, a exposição Matisse in the Studio, aberta até 12/11/2017. E vi-a.



Por alturas do início da II Grande Guerra e posterior ocupação nazi de parte da França, houve, pelo menos, dois pintores que se deslocaram para fora de Paris, vindo a usar outra residência. Henri Matisse (1869-1954), que já habitava Nice desde 1917, episodicamente, por uma questão de tranquilidade criativa, provavelmente, e Chaim Soutine (1893-1943), de origem judaica, por questões de segurança física. Ambos tiveram, também, problemas de saúde, graves, por essa altura, no início dos anos 40.



Curiosamente, na sequência da mostra de Matisse, na Royal Academy (Londres), seguia-se uma exposição de Soutine, que eu já não tive oportunidade de visitar, infelizmente. Sendo, como é, um dos meus pintores europeus preferidos.
Soutine, em 1943, na sequência do rebentamento de uma úlcera de estômago, foi transportado, em condições urgentes e adversas, para Paris, onde veio a falecer, pouco depois. Matisse teve mais sorte. Levado  de Nice para Lyon, foi operado, de urgência, a um tumor no duodeno, e apesar de muito fragilizado, sobreviveu. Esteve algum tempo acamado e foi durante esse tempo, na impossibilidade de pintar, que começou a recortar  pedaços de papel colorido, e intensificou o seu período inovador e pioneiro de colagens, que tinha iniciado de forma incipiente, nos anos 30.



A exposição de Matisse, que ocupa algumas salas da Royal Academy, é muito coesa e, sobretudo, intimista na sua sobriedade. E a existência de objectos domésticos cria uma envolvência muito peculiar, de outro tempo, e de interior, que quase nos faz esquecer que estamos numa galeria pública. Reconstitui parte do ambiente do seu estúdio: as obras preferidas do Pintor e de que ele nunca se quis separar, um bela cadeira veneziana que comprou, fascinado, duas cafeteiras antigas, uma das quais oferecida como presente de casamento, colagens, têxteis norte-africanos, alguns objectos de uso pessoal, e um pequeno acervo de esculturas africanas do Mali. Além dos quadros.


Gostei muito de ver a mostra. E, para concluir, devo dizer que valeu a pena, apesar das 13 libras que esportulei pelo ingresso. Que os ingleses são austeros, e só descontam 1 libra para quem é sénior...


Uma fotografia, de vez em quando (100)


A fotógrafa norte-americana, de ascendência francesa, Vivian Maier (1926-2009), levou uma existência apagada, com empregos diversos e indiferenciados, nunca chegando a expor, em vida, obras suas. Discreta ou tímida, provavelmente pouco confiante na qualidade das suas fotos, até uma boa parte dos seus auto-retratos foram tirados indirectamente, muitos deles por reflexão do seu corpo em espelhos.



Captava cenas de rua, banais, fixando gente anónima e sem história, mas também, dissimuladamente, se juntava a paparazzi, na esperança de fixar um instantâneo de celebridades que iriam aparecer. Como foi o caso de um retrato de Salvador Dali, que veio a ser descoberto no seu espólio, composto por milhares de fotografias e filmes, muitos dos quais não tinham sequer sido revelados, e que apareceram, depois da sua morte, armazenados em caixas de cartão.



Pressionada por dificuldades financeiras, Vivian Maier, em 2007, vendeu uma parte do seu acervo fotográfico, que foi adquirido pelo coleccionador John Maloof. Foi este que primeiro reconheceu a qualidade artística do seu trabalho e o divulgou. Mas só após o seu falecimento, e com a descoberta do enorme acervo da fotógrafa, lhe foram consagradas algumas exposições e a fama estética lhe foi atribuída, mais do que merecidamente.


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

De Rafael Alberti (1902-1999), traduzido


18

Aquele aroma inesperado a morte,
esse cheiro a soldado sem nome nem família,
legando aos formigueiros da terra
talvez o melhor traje da sua vida,
de à beira de um olmo me levou
para muito longe do sabor da minha amiga.



Rafael Alberti, in Entre el clavel y la espada (pg. 97).



Nota pessoal: a capa, em imagem e muito danificada, pertence ao meu exemplar da primeira edição (1941). O livro, de bom apuro gráfico, contém vários desenhos (surrealistas) do Poeta.

Um fado de Carlos Ramos (1907-1969), para este tempo de nem cá nem lá...

Adagiário CCLXXI : Novembro (8)


1. Novembro à porta, gado na horta.
2. Se em Novembro ouvires o trovão, o ano será bom.
3. Em Novembro põe tudo a secar, que pode o Sol não voltar.
4. Do S. Martinho (11) ao Natal, o médico e o boticário enchem o bornal.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Ritmos


Paulatinamente, creio que desde meados de Julho deste ano, tenho vindo a ler este diário (em imagem de capa) do escritor alemão Ernst Jünger (1895-1998). Faltam-me agora cerca de dez páginas para concluir a sua leitura. O livro, cuja maior parte é constituído por anotações feitas durante a sua estadia em França, na sua terça parte final completa-se com apontamentos feitos no Cáucaso, para onde, como oficial alemão foi deslocado, a partir de 24 de Outubro de 1942. Há 75 anos, portanto.
Da leveza e elegância dos dias parisienses, com frequência dos meios intelectuais, as palavras de Jünger, escritas no Cáucaso, vão adquirindo, gradualmente, um peso e um pessismo ontológico decorrente dos mais raros contactos humanos, quase só consignados aos colegas militares e ao povo rural da região. Agravando-se as reflexões do escritor alemão pela morte do pai, o começo da retirada germânica desta zona ocupada e pelo pressentimento objectivo da derrota alemã, na II Grande Guerra.
E o curioso é que também o meu ritmo de leitura do livro se foi alterando. Nas páginas do diário de Paris, terei feito uma leitura normal, como é costume. Ao início do texto escrito na Rússia, por Ernst Jünger, a leitura foi mais lenta e morosa; sendo que estas últimas páginas, de maior tensão e dramatismo, naturalmente, me fizeram acelerar o ritmo de leitura... Mas não para acabar o livro mais depressa.
É apenas a constatação dos factos, objectiva. Embora vá reflectir sobre isso.

Exposição de Fotografia


Será inaugurada no próximo dia 2 de Novembro, uma mostra do norte-americano Paul Kohl, integrada no Mês da Fotografia da Câmara Municipal de Almada. O fotógrafo é professor visitante da universidade de Nanyang (Japão), mas já fez várias exposições em Portugal. A mostra, na Galeria Municipal de Almada, estará patente ao público até 20 de Janeiro de 2018.

Arcangelo Corelli (1653-1713)

domingo, 29 de outubro de 2017

Pinacoteca Pessoal 130


Contemporâneo e amigo de Rembrandt,  o pintor holandês Hercules Segers (1589-1638), filho de pais flamengos emigrados, teve algum sucesso profissional, em vida, mas, depois, a sua obra foi esquecida. Principalmente, porque não pintou muitos quadros, embora a sua obra gráfica seja extensa. Ele próprio comercializava os seus trabalhos, directamente. Mas muito do papel das suas gravuras, na sua fase de apagamento, acabou por servir para embrulhar sabão, pimenta, peixe, manteiga e outros produtos de alimentação... Sobreviveram, no entanto, cerca de duas centenas de obras.



As suas poucas telas espelham horizontes rasos e limpos, a perder de vista, nimbados, quase sempre, por uma luz crepuscular.
No final do século XX, a sua obra foi redescoberta e o talento, que lhe era próprio, reconhecido. É hoje considerado, por grande parte dos críticos de arte europeus, como um inovador, sobretudo pelas suas gravuras muito singulares, que antecipam a modernidade.



Mas também pela sua perspectiva visual das paisagens e por uma atenção muito própria às coisas da Natureza. Representado no Rijksmuseum (Amsterdão), Hercules Segers foi objecto de uma exposição recente no Metropolitan Museum, de Nova Iorque.


Alguns regionalismos albicastrenses (2)



1. Alagosto - glutão.
2. Alancado - caído.
3. Alavão - gado (ovelhas) de criação.
4. Alcatruz - brinquedo de crianças feito de pau de sabugueiro.
5. Amacachos - nome que, em Segura, dão aos sapos.
6. Amojo - úbere do animal que dá leite.

sábado, 28 de outubro de 2017

Lembrete 59


Pois é, amanhã já a noite cairá mais cedo e a luz se há-de ir, pouco depois das 18h00...
Que, esta noite, pela madrugada, os relógios serão atrasados das 2h00 para a 1h00.
Boas notícias para os dorminhocos: sempre podem descansar mais uma hora.

Marcadores 28


Embora a edição de livros, na Grã-Bretanha, continue florescente, confesso que tive dificuldade, no que diz respeito a livros novos, em encontrar alguns clássicos ingleses. Por exemplo, a obra ensaística de W. H. Auden. E muito menos os encontraria na loja-livraria da British Library. Que, sendo agradável, privilegiava sobretudo a literatura infanto-juvenil e a temática policial na sua exposição e acervo. De lá trouxe estes 2 marcadores e posso informar que a colecção policial promovida e editada pela BL conta já com várias centenas de títulos...



para MR.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Comic Relief (137)

Citações CCCXXVIII


A imensa popularidade dos filmes norte-americanos no estrangeiro demonstra que a Europa é o negativo inacabado de que a América é a prova.

Mary McCarthy (1912-1989), in America the Beautiful : The Humanist in the Bathtub (1947).

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A relação selvagem

Ouvido num check-in da TAP, no aeroporto Humberto Delgado, aqui há alguns dias atrás:

- Tenho a dar-lhe uma má notícia... Está em lista de espera e não sei se será possível embarcar neste voo...
- Não me diga que a TAP também faz overbooking!? Era o que me faltava!
- Acontece e lamento, mas eu sou apenas o mensageiro.
- Pois é, mas o mensageiro é que costuma levar, normalmente, nas trombas.
- Olhe que você está a ofender-me...

Viemos a saber, mais tarde, que, presentemente, quase todas as companhias aéreas estão a fazer overbooking com cerca de 10% dos passageiros inscritos, excepto no que diz respeito àqueles que pagaram pela classe executive.
Acabou-se o tempo em que as grandes instituições (bancos, multinacionais, companhias aéreas...) tinham, com os utentes, uma ligação de honesta seriedade, confiança e lisura. A desregulação selvagem, feita de um capitalismo sem regras, começou pela Banca e seus colapsos fraudulentos, para contagiar rapidamente as grandes empresas na sua relação com os clientes. Veja-se a Ryanair, a Air Berlin, por exemplo, no que ao transporte aéreo diz respeito. E os governos ou a UE nada fazem, a não ser declarações inócuas e patéticas de intenção.
Não posso deixar de referir que a organização de serviço no aeroporto de Heathrow (Londres) era absolutamente caótica. Se não tivemos a ameaça do overbooking, no entanto, fomos metidos, à última da hora, num voo anterior àquele em que tinhamos reserva, no regresso para Portugal. Com 2 horas de antecedência - ambos voos da TAP. As nossas correrias tiveram que ser mais que muitas, para além do stress decorrente...

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A feira dos horrores


Não se deve subestimar o lado Kitsch da cultura inglesa, paralelo a um elevado índice cultural da sua elite intelectual que, talvez, só encontre correspondência europeia na Alemanha e na França. Para além de um apurado sentido crítico, pouco desenvolvido nos países do Sul da Europa.
Perto da London Bridge e à saída da Victoria Station, dois jovens e uma rapariga distribuíam, aos passantes, folhetos apelativos para que visitassem The UK's Scariest Experience, instalada num rés-do-chão engalanado, por fora, na melhor tradição da parafernália barroca do Harry Potter.



Alguns pais iam entrando, com as suas criancinhas, para essa versão popularuncha, e talvez mais barata, do Museu de Cera de Madame Tussaud. Ou para essa sessão do que eu consideraria a versão malsã das Disneilândias que pululam por toda a nossa Europa de fantasias... Ou ainda para esses Halloween de importação clonada que, dentro de dias, todas as Escolas portuguesas irão celebrar, através das suas criancinhas ingénuas e mascaradas.
E viva a festa!, que o show must go on...


terça-feira, 24 de outubro de 2017

Nocturno

Estão a curtir!...


A seca e as condições climáticas adversas deste ano de 2017 tiveram, como todos sabemos, consequências trágicas sociais em Portugal.
Bem como na agricultura, mas de diversa índole. Na região do Dão, por causa dos fogos monstruosos, perdeu-se grande parte da produção vinícola. Mas, por outro lado, no Alentejo e, sobretudo, no Douro, embora a colheita, nas vindimas, tenha sido antecipada e inferior à média, anunciam-se vinhos de grande qualidade, e prevêem-se algumas declarações de vintage no Vinho do Porto.
No plano doméstico, cá por casa, não podemos queixar-nos. O limoeiro da varanda a Sul, que perdeu, sem produzir frutos, todas as flores do Inverno, resolveu florescer pela segunda vez do ano, no início deste mês de Outubro, talvez pelas condições climáticas, e parece poder vir a dar 4 ou 5 limões, se tudo correr bem.
Mas o caso mais extravagante é que a pequena oliveira, da mesma varanda a Sul, mais do que duplicou a sua produção recorde, que estava em 49 azeitonas, no ano passado. No presente ano de 2017, a safra foi de 115 azeitonas rechonchudas e bonitas. Que (como se pode ver na foto) já estão a curtir!...

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Preocupações pessoais de um bibliófilo


Tomei a decisão de não mais apagar as observações dos alfarrabistas sobre o estado de conservação, gravuras, o valor das edições e outras coisas semelhantes, que se encontram muitas vezes na folha de guarda dos livros - elas acrescentam uma mais valia àquilo que Feltesse chama autenticidade da obra. Sobre o ex-libris, eu inscrevo a data, o local da compra, ou então o nome do doador e, por vezes, anoto ainda circunstâncias particulares.

Ernst Jünger (1895-1898), in Journal Parisien 1941-1943 (pg. 206).

Osmose 90


Há sempre alguma incomodidade nas partidas. Mas também na chegada. Chamam-lhe jet lag, quanto à sensação física de desconforto (muitas vezes, com mudanças horárias e de sono), talvez por conveniência prática de classificação. Mais difícil, porém, é definir e nomear o estado de alma do pré e post-viagem: o não estar cá nem lá. Enquanto não arrumamos, de todo, o chip interno que nos acompanhou. Que as roupas, os livros e as fotos quase se arrumam por si, automaticamente, numa submissão parada de natureza morta.

domingo, 22 de outubro de 2017

Apontamento 107: A acentuada caminhada para a degradação


  

Aqueles que se encontram já – e felizmente – fora do chamado “mundo do trabalho”, que mais apropriadamente se devia designar actualmente por nova escravatura, afastaram-se de um ambiente de extrema hostilidade e ignorância sobre o mais elementar senso comum e respeito pelas normas mínimas de civilidade e dignidade humanas.

Pontualmente, ou por opção de manter a comunicação com o mundo real, ou por invasão abusiva dos tentáculos do MUNDO ECONÓMICO E FINANCEIRO que nos entra pela casa adentro – por via de telecomunicações e empresas quejandas – termos de nos confrontar com esse “mundo às avessas” que nos pretende tornar, nos seus ritos publicitários, preventivos e securativos, em “gado a caminho do matadouro” sem pensamento autónomo.

Por acaso, não consegui melhor imagem quando me vi, naqueles “SSS” tolos e repetitivos dos aeroportos, todos iguais e desumanos, a aproximar-me do “matador”, ou seja, do “sigurança” de poucas falas e ainda menor civilidade para atender seres humanos, já que foi escolhido e ensinado, pela eficácia do mundo financeiro, apenas para prestar um serviço inócuo, repetitivo e completamente degradante.

No meio deste deserto de humanidade em que se tornaram os aeroportos e toda a economia turística, espanta-me, pela revolta íntima que senti, que ainda haja tanta gente a querer viajar e sujeitar-se a esses tratamentos caninos, sem levantar voz ou reclamar.

No passado, andei pela Europa em muitos transportes – pedestres, automóveis, fluviais, aéreos e ferroviários – com muitas deficiências próprias da época e dos países em questão.

Confesso, no entanto, que nunca senti tanto desprezo pela pessoa humana como na última viagem, fruto de um novo domínio do ECONÓMICO, sem regras, sem limites e sem consideração pela essência e dignidade humanas, completamente desorganizado e caótico nos pretensos serviços prestados ao CLIENTE.

Assim, as “boas vindas” das hospedeiras da TAP, com o seu refrão “chapa-zero” e completamente vazias de conteúdo, não conseguem anular, de todo, uma actividade económica de turismo, montada com objectivos opostos, revelando-se, efectivamente, como uma ofensa insuportável e contínua à dignidade humana, física, mental e assistencial.

A imagem acima não tem nada a ver com as contrariedades e a gravidade do texto. Serve, exactamente, de contraste para saber se, nas condições expostas, valerá a pena sair do nosso lugar de sossego e humanidade possível.

Fica o testemunho do cumprimento de um “dever metodológico” de investigação que, embora associado a outros afazeres de natureza diversa, representa, até ao momento, a pior experiência de deslocação para o lugar de “meninos a dormitar em acervos distantes”. Gostei, no entanto, do “berço” em que os “meninos” estavam dormitando.


Salvo seja !

Post de HMJ

Revivalismo Ligeiro CCLXXIII

Mercearias Finas 126


Fiquei na dúvida mas, na mesa à minha esquerda, de perfil, pareceu-me ver John Le Carré percutindo afanosamente um Apple diminuto e elegante, enquanto debicava uma salada vegan bem colorida e bebendo água de Évian. Acoplado ao Hilton de Bayswater, o Aubaine serve clientes do hotel e alguns passantes que se tentem pela sua cozinha de feição gaulesa e pela carta de vinhos não muito extensa, mas bem seleccionada, ao que me pareceu. Os preços são acessíveis.
No conduto, optámos pelo Steak and Frittes, e para libação Le Montalus, branco de 2016, com 12,5º, meio seco e saboroso. Das Côtes de Thau, com duas castas que eu desconhecia: Colombard e Terret. Fizeram muito boa companhia à carne tenra dos bifes bem passados, que vinham com uns raminhos muito frescos e verdes de agriões...


E enquanto HMJ tinha por horizonte, em frente, o Kensington Park, com que ia alegrando a vista, eu ia observando a azafama interior do serviço, ao fundo. Em que pontificava um jovem chefe de mesas, ágil e dinâmico que, embora pudesse ser mourisco pelo sotaque e pela tez acobreada, também me fazia lembrar o Andy Garcia do "Padrinho III", do Coppola.
Ressalvo, em tempo, que o Aubaine, como restaurante, não tinha nada de mafioso...